Talvez lá no fundo
acredite
que os seres humanos são todos
sensivelmente os mesmos
em toda a parte
Mas então necessariamente
as mulheres são mais
Costumes que frequentamos:
o arame da loiça
os panos dos pratos
os ganchos e a linha do estendal
a vinha de alhos
o fogão
o alguidar
guardamos os restos
torcemos os trapos
os nossos recados
os nossos sacos
os nossos ovos
Certamente que eles
em grande maioria
escanhoam os queixos
e gostam de arejar
Mas são médicos
polícias, engraxadores,
economistas
e os vários naipes
da banda filarmónica
Nós somos todas domésticas
Mesmo assim não nos entendemos
E nem serve escrever isto
que o maniqueísmo em traços largos
resvala na aldrabice
E a poesia vem dos anjos
já se sabe
carecidos de sexo
E aliás, que me rala a mim?
Levo a minha vida
e tenho o amor de que não
desconfio
E se consolo o cio e a fome,
decerto falo de cor
Nem é por isso que me doem os
calos
mas por causa dos bicos
dos vossos saltos
no desnível dos soalhos
refinadas galdérias
que se tomam a sério
Pestanas certeiras
e beiços que brilham
línguas que estalam
e mamas que chispam
corada invoco
a imagem mal tirada
da fêmea recortada
ao macho que a conforma
Sei que desminto
qualquer laço comunal
e seja como for
ninguém pediu o meu palpite
Pelo que não me habilito
e me desquito
Assim te mudo
Era eu quem estava mal.
Margarida Vale de Gato, in Mulher ao mar