segunda-feira, 16 de março de 2026

Cuba, o mundo e a escuridão...

 

Cuba está às escuras.

O bloqueio económico dos EUA a Cuba acaba de deixar os seus 11 milhões de habitantes sem energia eléctrica.

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Sinto demasiadas vezes que a capacidade argumentativa de uma generosa fatia da população nunca deixou as cadeiras da escola primária. Isso acontece de diversas maneiras e uma delas é através da resposta que critica não a ideia mas a pessoa que a teve ou que a defende. Outra é através da comparação com o incomparável. E há tantas outras maneiras de argumentar falaciosamente, com ou sem consciência disso. Tudo isto já foi mais do que estudado em filosofia e noutros campos do saber, e para todas estas formas de fugir com o rabo à seringa há nomes pomposos, alguns em latim. Eu prescindo da pomposidade, porque não me parece que forrar as coisas a latim as torne mais verdadeiras e não pretendo convencer usando aquilo que estou a criticar.

Quando dizemos que a Alemanha matou judeus, não precisamos de clarificar que "a Alemanha" não passa de um conceito abstracto e que não tem consciência, porque percebemos que estamos a mencionar as instituições que governavam aquele país num determinado momento, as pessoas que ditavam as orientações dessas instituições e as pessoas que estavam às ordens dessas instituições.

Pelos mesmos motivos, quando dizemos que os EUA são responsáveis pela falta de energia eléctrica em Cuba, não estamos a querer denegrir aquele pedaço de terra do continente americano, nem os seres que lá vivem, em geral. Subentende-se da nossa frase que a crítica visa as instituições e as pessoas que implementam as orientações de política externa dos EUA e, acima de tudo, as pessoas que determinam essas orientações.

Talvez seja bom salientar que quando mencionamos as pessoas que determinam as políticas dos EUA, vem-nos talvez à ideia um senhor com ar de grande miúdo mauzão, parco cabelo louro e cara alaranjada. Todavia, não devemos ser ingénuos ao ponto de acreditar que as políticas dos EUA são determinadas por esse senhor isoladamente. Devemos, isso sim, considerar quais são os poderes que esse senhor representa, poderes esses que permitem, mesmo que não legitimem, que ele faça o que faz.

Isto pode parecer simples verborreia, mas não é. Quando há uns dias me reuni com outros manifestantes à entrada da base das Lajes para deixar claro aos órgãos da comunicação social e a quem nos quisesse ouvir que não estamos de acordo com o uso dessa base para agressões militares, praticamente não se ouviu nem se leu nos cartazes a palavra EUA, em sigla ou por extenso.

Muitos terceirenses têm desde há décadas uma relação estreita com os EUA, e os benefícios económicos da presença da base na ilha ou dos melhores salários dos emigrantes nesse país são naturalmente relevantes. Uma manifestação na conservadora ilha Terceira é por si só uma aberração. Gritar alguma coisa como "abaixo os EUA" seria um convite ao linchamento público. Por isso a nossa manifestação focou em vez disso o protesto no cara alaranjada.

Mas enfim, esse é um caso extremo. No continente português a ligação com esse país não é tão forte. Ainda assim, e mesmo aí, parece tabu criticar os EUA quanto às suas orientações políticas internas ou externas.

Já muitos estudos foram feitos acerca do modo como primeiro nós optamos e depois é que racionalmente construímos as justificações para as nossas opções. Todos nós passamos muito tempo neste jogo. Temos dissonâncias cognitivas, vêmo-nos de um modo e agimos doutro, e quando nos apercebemos disso tentamos reconstruir a nossa integridade encontrando justificações para o que fizemos.

Um destes estudos, relativamente recente, mostra-nos como este efeito existe mesmo em manifestações extremas. O estudo confrontava uma população com algumas proposições consensuais na comunidade científica (tanto quanto é possível falar de consensos nessa comunidade), como por exemplo a concentração crescente de dióxido de carbono na atmosfera estar a contribuir para um aquecimento global do planeta. A população dividia-se em pessoas que concordavam e discordavam com a proposição apresentada. Mas o mais interessante é que as opiniões das pessoas acerca desse assunto tornavam-se mais extremadas quanto mais conhecimento e aptidões gerais as pessoas tivessem. Mais: se as pessoas recebessem formação acerca do assunto, de acordo com os padrões científicos geralmente aceites, em vez das opiniões se aproximarem mais desses padrões, tornavam-se ainda mais extremadas.

Estudos deste tipo são muito importantes a revelar que, ao contrário do que muitos acreditam, não é qualquer educação, ou simplesmente um maior conhecimento, que isoladamente permite às pessoas ter maior esclarecimento. Pelo contrário, muitas pessoas utilizam essa educação e esse conhecimento para blindarem ainda mais a sua argumentação, para se arreigarem ainda mais nas suas posições, posições essas escolhidas aprioristicamente com base em critérios muito diferentes e que muitas vezes nada têm de racional.

Muitos outros estudos revelam que para os indivíduos é mais importante sentirem-se integrados na sua comunidade do que terem razão, seja lá o que isso for. As possíveis justificações para esse comportamento incluem coisas que parecem evidentes: em muitas circunstâncias a sobrevivência e a qualidade de vida dependem mais dessa integração do que propriamente da validade das crenças.

Isso era assim há milhares de anos, e talvez seja tão ou mais evidente num contexto de emigrantes portugueses nos EUA.

Infelizmente, o corolário do que acabamos de expor é que as tentativas de chamar as pessoas à razão estão quase sempre condenadas à partida. As pessoas já escolheram, por motivos que nada têm a ver com a razão, a sua versão da verdade. Depois, inclusivamente porque não gostam de se sentirem estúpidos, passam anos à procura de todo o tipo de evidências e a construir todo o tipo de conjecturas que permitam sustentar, inclusivamente de forma racional, a versão da verdade que escolheram. Sentem-se integrados e valorizados pela sua comunidade até na medida em que consigam defender esse ponto de vista que não é apenas seu. E finalmente, como acontece com todos nós, reagem fortemente a qualquer pessoa que venha pôr em causa o seu castelo de crenças, sobretudo se essa pessoa acrescentar ao seu discurso que essas posições revelam insensatez, irracionalidade, estupidez ou mesmo malvadez.

O que fazer então?

Os EUA, ou se quiserem de forma explícita, as administrações e as políticas desse país, têm desde há décadas cometido todo as mais horrendas atrocidades.

Os EUA e o genocídio dos indígenas. Os EUA e o racismo. Os EUA e os milhões de mortos na guerra no Vietnam. Os EUA e as bombas nucleares lançadas mesmo no centro de grandes cidades japonesas, obviamente pejadas de civis. Os EUA e as centenas de intervenções mais ou menos dissimuladas para retirar (um eufemismo) dirigentes noutros países e colocar lá outros do seu agrado. Os EUA e a caça às bruxas. Os EUA e a degradação ambiental do planeta. Os EUA e a propaganda, a criação de mitos, a construção de heróis e anti-heróis. Os EUA e os campos de tortura. Os EUA e o desrespeito das leis internacionais. E, enfim, uma extensíssima lista de eteceteras, que incluiría alguns volumes só para nos dedicarmos ao que se tem passado no grande e aparentemente esquecido continente africano, acima e abaixo do deserto do Saara.

Será que os apoiantes indefectíveis dos EUA não conseguem distinguir as políticas do território ou das gentes desse país? Ou será que não têm uma ponta de conhecimento de história?

Os EUA e a Venezuela. Os EUA e Cuba. Os EUA e a Palestina. Os EUA e o Irão. Os EUA e as manipulações que conduziram os governantes europeus a uma histórica sucessão de tiros no pé, que continua neste preciso instante.

Um dos argumentos para justificar o apoio aos EUA é o do mal menor. É, no fundo, um voto (in)útil: porque se não fossem os EUA, os outros ainda seriam piores. Consequentemente, alegam, não se pode ou deve criticar os EUA. Interessantes falácias argumentativas usadas sem o mínimo de pudor... e para prejuízo próprio, consciente ou inconsciente, apesar dos aumentos dos preços de combustíveis na sequência da guerra na Ucrânia e agora da guerra no Irão o tornarem evidente.

Conforme defendeu uma vez o Slavoj Zizek, a existência da URSS tem uma importância vital para o capitalismo e para os EUA. E os apoiantes dos EUA sabem disso e utilizam-no na sua retórica: se alguém critica os EUA é porque defende o contrário, o contrário dos EUA é a URSS e o "comunismo" (entendido como aquilo que se passou nesse país no tempo de Stalin), e isso é nada menos que o inferno na Terra, portanto o diálogo fica:
- Os EUA estão a cometer um genocídio em Cuba.
- Tu deves ser é um comunista cubano com saudades de gulags, ó filho da p#$a!

A estratégia argumentativa não se cinge a esses casos. Basicamente faz-se por ver o mundo a preto e branco, pinta-se um dos lados de preto, e conclui-se que não é possível defender o preto, portanto temos de optar pelo branco. Maniqueísmo?

O caso actual da guerra do Irão é paradigmático. Na reacção à manifestação na base das lajes contra o seu uso na guerra do Irão, algumas pessoas comentaram: entre os EUA e o Irão eu prefiro apoiar os EUA.

Sim, estamos de volta aos bancos da escola primária. Aliás, tal como George Bush Junior nos ensinou: ou estás comigo ou estás contra mim.

Livrem-se as pessoas de terem pensamento próprio! Ou algum laivo de emancipação que lhes permita perceber que não só não existem apenas duas vias, como qualquer via nova pode ser criada a qualquer instante conforme a vontade das pessoas. Afinal, como afirmou David Graeber, que infelizmente morreu recentemente e cedo demais, a derradeira verdade escondida do mundo é que ele é algo que nós fazemos, e que poderíamos com a mesma facilidade fazer de outro modo.

Seria bom ter pessoas mais maduras, mais racionais e mais bondosas neste planeta. E esta afirmação é tanto mais radical quanto os tempos são de obscurantismo, esoterismo, crítica da razão (mas não à moda de Kant), ignorância, infantilidade, individualismo e profundo egoísmo.

Na verdade, podemos e devemos criticar tudo o que quisermos nas políticas de todos os países, incluindo URSS e Rússia (sendo que talvez os mais distraídos não tenham reparado nas diferenças de monta nas políticas destes dois países/conceitos), EUA, China, Brasil, Índia, a autarquia de Cernancelhe de Arroios, seja lá o que for. Não existem intocáveis. Existem, isso sim, argumentações de qualidades variáveis, realidades e capacidades também variáveis de investigar essas realidades.

Mas se vamos criticar as políticas de outros países, talvez devêssemos começar por aqueles que nos são mais próximos, que influenciam mais directamente as nossas políticas, que pertencem às mesmas instituições internacionais a que nós pertencemos, que têm mais poder sobre os outros povos e, já agora, que fazem maiores asneiras.

O objectivo não deve nunca ser o de ridicularizar, menosprezar, achincalhar, agredir. Deve sempre ser o de construir um mundo melhor para todos. Isso vale para as argumentações e para as políticas.

O que temos visto ultimamente por parte dos dirigentes dos EUA é inenarrável em toda a sua extensão.

O que temos visto ultimamente de inação cúmplice por parte dos nosso conterrâneos e conterráqueos é do mais triste que há. Como muito se tem ouvido ultimamente, também eu afirmo que me sinto envergonhado de pertencer a esta (des)humanidade. Mas com maior ou menor vergonha, e enquanto conseguir, hei-de seguir fazendo o que considero mais correcto.

Como muitos antes de mim já expressaram, de Jean-Paul Sartre a Chris Hedges, eu não combato os nazis porque vou ganhar, eu combato-os porque eles são nazis. É isso que é necessário fazer.

terça-feira, 3 de março de 2026

Portugal flambé...

 

 Caiu um pedaço de viaduto da auto-estrada A1. Foi reconstruído em 16 dias. As covas das estradas à volta de minha casa têm anos.

O médico da minha família unipessoal marcou-me exames e uma consulta a seguir aos exames. A consulta foi adiada. Depois voltou a ser adiada, mas desta vez sem data. Não sei bem porque gostaria que essa consulta se realizasse. Quando me queixo da visão, não há oftalmologista. Se me queixo dos dentes, não há dentista. Se me queixo da artrose, não há ortopedista. Se preciso de um exame, não há máquina de ressonância magnética, a máquina de raios x do centro de saúde está avariada, portanto seja lá o que for, sangue e urina, far-se-á no privado, a expensas do público.

Não é estranho que análises ao sangue sejam requisitadas a laboratórios privados quando esse tipo de exame é extremamente comum em todo o tipo de pacientes? As despesas com o sistema público de saúde têm aumentado ao longo dos anos. Não é apenas a inflação. Não é apenas a população a envelhecer. É também a forma como se gasta o dinheiro: não se faz dentro, subcontrata-se; não se contrata pessoal, paga-se a tarefeiros. É o cheque saúde, com ou sem existência formal. Gasta-se mais, o serviço fica igual ou pior, e conclui-se: tudo o que é público é impossível de gerir de forma eficiente. Servirá depois esta conclusão para se entregar ainda mais dinheiro ao negócio privado da saúde.

O sistema nacional de saúde, em boa verdade, é um sistema nacional de doença. Promover a saúde implica uma série de medidas preventivas de análise não apenas do corpo das pessoas, mas dos seus modos de vida, dos seus comportamentos, da qualidade dos ambientes que frequentam. O nosso sistema não existe para que tenhamos vistorias regulares à saúde dentária. Existe para quando temos apendicite. E bem bom, que ainda tem margem para ser pior!

Neste sistema, não temos campanhas para promoção da saúde, mas temos campanhas de educação dos utentes para que não se dirijam ao hospital, para que em vez disso telefonem para um número específico. E as pessoas compreendem, porque afinal o hospital é um sítio onde se apanham doenças. Não é falta de recursos, de instalações, de pessoal, de equipamento. Não. É porque é mesmo assim, já se sabe, é como funciona o sistema nacional de doença.

Preciso de um advogado. É como na saúde. Uma consulta são pelo menos 60 euros. A garantia que tenho de conseguir justiça é proporcional ao tamanho da minha carteira.

Ligo a rádio. O canal público ensina-me de como não faz mal violarmos o direito internacional se formos poderosos. Se não formos poderosos, enfrentaremos algum tipo de tribunal e teremos algum tipo de julgamento. Antes era o tribunal penal internacional. Há pouco tempo, bastava dizer que íamos levar o prisioneiro para o julgarmos num tribunal, qualquer um, no nosso país. Agora basta assassinarmos logo o alvo e assim evitamos a chatice do prisioneiro. O canal público ensina como isso é legítimo, compreensível, desculpável, de como devemos aceitar isso. O canal público escolhe as notícias e os comentadores para nos dar a versão limpa e regrada da realidade que devemos entender. Se quisermos outras versões, talvez consigamos pesquisando outros canais. Mas aquele que é pago com os meus impostos, esse ajuda-me a aceitar a minha realidade como a única possível. Isto é assim há décadas. Os canais cumprem o serviço público de manter tudo como está.

As universidades e os centros de investigação financiados com dinheiros públicos promovem a criação de novo conhecimento e a produção de nova tecnologia em áreas úteis às empresas. O dinheiro do investimento é nosso. O lucro que retorna é das empresas.

As expropriações necessárias à construção da nova auto-estrada são pagas pelo Estado, ou seja, por todos nós. Também nós pagamos a construção da auto-estrada. Dizem-nos que o dinheiro vem da Europa, que devemos ficar felizes por estarmos a executar os planos e a gastar o dinheiro que nos tinha sido atribuído. Depois de estar pronta, a auto-estrada é concessionada a privados, e estes exploram-na e ficam com o lucro.

A Europa para nós é sinónimo de paz, de bandeirinhas azuis com estrelinhas amarelas, de pombas brancas, de hinos da alegria, de entendimento entre os povos, de ausência de fronteiras, de moeda única, de objectivos comuns de progresso. É assim porque o nosso próprio dinheiro financiou em tempos extensas campanhas de promoção dessas ideias recorrendo, entre outros, aos canais públicos de televisão e de rádio. Essa propaganda manteve-se mais ou menos intensa até aos dias de hoje. Se a Europa promove mortes em guerras de dinheiro ou directamente com balas, isso para nós não interessa.

Ao mesmo tempo, temos uma ideia muito vaga de como funcionam as instituições dessa Europa, não fazemos ideia de quem sejam os deputados que estão no seu parlamento, nem de onde surge o dinheiro para as suas campanhas, nem de como funciona o Banco Central.

As escolas e universidades, pagas com o nosso dinheiro, não nos ajudam a esclarecer esses assuntos. Não é na escola que discutimos como se paga a escola. Na escola fazemos duas coisas: recursos humanos e estatísticas. Fazemos recursos humanos para as empresas poderem minimizar as suas despesas em formação profissional. Fazemos estatísticas de aproveitamento para ficarmos bem nas fotografias e para nos integrarmos numa Europa de progresso. Só não fazemos é adultos maduros, responsáveis, emancipados, críticos, imaginativos, que sabem amar, que compreendem a sociedade em que vivem, que querem viver melhor em sociedade, que têm o poder de a transformar. Os recursos humanos querem-se eficientes, conhecedores do seu métier, obedientes e confiáveis. E se neles existir uma nesga de criatividade, que seja prontamente encaminhada para inovação, isto é, produção de bens e serviços geradores de lucros.

Só alguns alunos estudam com algum detalhe o que está escrito na constituição da república portuguesa. Esses ficarão a saber que os portugueses têm direito a habitação, a saúde, a educação. Também ficarão a saber que a constituição é uma carta que se respeita mais ou menos conforme as circunstâncias. O sistema policial, o sistema legislativo, o sistema executivo, o sistema judicial, o sistema monetário, todos esses sistemas são públicos. Mas todos sabemos, porque nos foi dito repetidamente em campanhas financiadas com o nosso próprio dinheiro, que não há dinheiro, e portanto não pode haver habitação para todos. De resto, também sabemos, porque também nos é dito recorrentemente, que receber do Estado é ser dependente de subsídios e isso é muito mau. Portanto, se a constituição estabelece o direito à saúde, já sabemos que isso quer dizer que temos de ter dinheiro para podermos usufruir desse direito. Não está escrito na constituição, mas nós já o sabemos, porque aprendemos na escola e na vida a interpretar estas coisas da maneira correcta.

Igualmente sabemos que vivemos em democracia, não porque tenhamos poder para mudar alguma coisa, mas porque podemos votar de tantos em tantos anos. Mesmo que não o façamos.

Os partidos com representação parlamentar têm direito a aparecer regularmente nos canais públicos. É assim que se dá igualdade de oportunidade a todos: os que têm mais, recebem mais, os que têm menos, recebem menos. Também acontece assim com os votos e os deputados no próprio parlamento: se para um partido pequeno é necessário ter bem mais do que 1% dos votos totais para conseguir eleger um deputado, que vale menos de 0,5% dos deputados totais, um partido grande consegue uma maioria absoluta, mais de 50% dos deputados, com apenas 40% dos votos. São as maravilhas do nosso sistema político, baseado em círculos eleitorais, sem compensação. Há inúmeras formas alternativas de representar os eleitores num parlamento, mas nós, o público, que pagamos isto tudo, não fazemos ideia disso, nem nos passa pela cabeça que haja qualquer problema com o actual sistema. Aliás, os políticos que elegemos têm-nos informado, sempre motivados pelo bem da nação e pelo nosso bem, que a estabilidade é fundamental à democracia. Ou seja, nada de partidos pequenos, bastam dois partidos grandes, muito parecidos um com o outro, para fundamentar a lengalenga da alternância democrática, e lá vamos andando.

Dantes ia-se de comboio até Bragança. E até muitos outros sítios. Mas muitas linhas, ramais, estações e apeadeiros foram fechados até aos dias de hoje. Talvez não seja coincidência que o campeão dos fechos de linhas tenha sido também o campeão da construção de auto-estradas. Esse mesmo, que quando deixou de ser primeiro-ministro já ninguém o queria, mas que uns anos mais tarde voltou para ser presidente da república. É o que dá a memória curta e a psicologia do familiar...

O fecho de linhas, nessa altura tal como hoje, justifica-se com a racionalidade. Não é racional manter uma linha que transporta apenas a senhora Ludemilda e o seu gato, portanto fecha-se. É claro que quando se toma a decisão de construir uma auto-estrada, nem sequer a senhora Ludemilda por ela circula. Mas isso não impede os decisores de imaginarem um futuro cheio de automóveis e racionalidade quanto baste para justificar essa construção. Solta-se a rédea da iniciativa privada para nos incutir a necessidade do automóvel, dá-se liberdade às instituições financeiras para difundirem crédito ao consumo com juros generosos, libertam-se dinheiros públicos para construir estradas, pontes, túneis, parques de estacionamento, para equipar isso tudo com sinalização, semáforos, polícias, portagens, iluminação e tudo o mais, leva-se o sistema à porta de cada pessoa. Ao mesmo tempo aniquilam-se os meios de transporte alternativos. Resultado? As pessoas compram automóveis e a racionalidade do fecho das linhas de comboios e da construção das auto-estradas comprova-se. Basta sair à rua! Tudo corre conforme o plano.

Essa racionalidade que deixou ao abandono centenas de quilómetros de vias férreas e de estações é a mesma que mais recentemente se explica a todos nós para que possamos aceitar como inevitável o encerramento de hospitais, para supostamente sermos melhor atendidos no hospital central da metrópole, o encerramento de escolas, para os alunos serem melhor formados em turmas maiores na cidade mais próxima, o encerramento de tudo o que é público e não gera lucros.

A Caixa Geral de Depósitos é um banco público. A racionalidade também justificou o encerramento de balcões por todo o país. As contas são simples: empregar pessoas para servir outras pessoas só faz sentido se der lucro. Não está na constituição, mas é mesmo assim.

Felizmente para este banco público que há muitos portugueses que precisam de casa e não a têm, ao contrário do que estabelece a constituição, e acabam a pedir crédito bancário. O banco público não está lá para facilitar a vida a quem precisa de casa, mas sim para pôr em prática a mais calculista racionalidade económica. Os juros serão ditados pelo mercado interbancário e pelo spread do próprio banco, que por sua vez é ditado pela racionalidade da sua estratégia comercial. No final, o banco público, que supostamente nos pertence, faz-nos pagar pelo crédito, pelo atendimento, pelos cartões ou simplesmente por termos lá uma conta bancária, e arrecada num só ano mais de mil milhões de euros de lucro.

Veio de lá um furacão, seguido de uma ou várias cheias. Os estragos são incalculáveis, como nos dizem os canais de notícias públicos, apesar de logo a seguir nos apresentarem o cálculo do seu valor. O governo e as instituições na sua directa dependência assistiram de braços cruzados e assobiando para o lado à criação de mercados para os bancos e para as seguradoras. Agora, depois dos estragos, vêm gastar o nosso dinheiro público em campanhas nas quais nos explicam que temos ao nosso dispor linhas de crédito, com juros bonificados, para repor uma parte das perdas, e que no futuro devemos considerar fortemente a compra de seguros, porque as empresas seguradoras são nossas amigas, e estão lá precisamente para nos ajudar neste tipo de situação. Explicam-nos isso ao mesmo tempo que, aqui e acolá, nos explicam que o Estado não pode fazer mais, porque já pôs em funcionamento todos os meios, que todos sabemos que são poucos, porque todos sabemos que não há dinheiro nem alternativa.

O estado da nação é um estado de merda!

Há décadas que nós pagamos para nos limparem a cabeça e nos fazerem aceitar que isto é mesmo assim. Há décadas que alternamos os mesmos dois centrões no poder, e há décadas que ambos seguem a mesma estratégia de desmantelar tudo o que é público, justificando com o facto de toda a gente saber que o que é público é mal gerido, que os funcionários públicos são preguiçosos, que é preciso racionalidade económica, que não há dinheiro, que o Estado é um monstro sorvedouro de dinheiros e que restringe a sacrossanta iniciativa privada, que não há alternativa.

Viemos neste caminho há décadas. Não devia ser surpresa alguma que aqui chegámos, porque foi sempre nesta direcção que viajámos. À medida que desmantelamos o que é público e damos oportunidade aos privados, verificamos que o que é público funciona mal, pudera!, e usamos isso para apoiar ainda mais os privados, mesmo com dinheiros públicos.

Mas não vale a pena pensar em mudar de caminho. É que ainda há caminho a percorrer. Ainda os bombeiros podem ser substituídos por grupos privados de securitas, os militares podem ser substituídos por mercenários privados, os comboios podem ser substituídos por altas velocidades que unem apenas as grandes cidades e são privados, mesmo que construídos com dinheiros públicos, o parlamento pode reduzir o número de deputados para cem, depois pode usar círculos uninominais, e depois pode usar apenas um círculo nacional, e de repente temos o poder todo centrado numa só pessoa. Ah! Que grande alívio isso seria para acabar com a mama dos políticos! A electricidade já é privada, os correios também, o petróleo também, a cultura pública está em vias de extinção, mas ainda falta fechar as escolas, privatizar as águas, entregar os aeroportos, os aviões, os comboios, fechar o banco público, os canais de rádio e televisão e vender todos os imóveis que antigamente eram usados pelo Estado para as funções mais irracionais, como por exemplo gerir as florestas.

Quando percebermos que a coisa está a ir pelo mau caminho, ou seja, quando finalmente percebermos que o caminho de sempre afinal é mau, adoptaremos a legião do salvador e culparemos os outros pelo estado disto tudo: os imigrantes, os preguiçosos, os pobres, os ciganos, os africanos, os seja quem for que não nós, portuguesinhos de gema.

Depois é só polvilhar com pinheiro e eucalipto e deixar arder bem.

Serve-se regado com lágrimas de crocodilo.

 

AWF, Angra do Heroísmo, 3 de Março de 2026

 

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Ressabiadas...

 

Talvez lá no fundo
acredite
que os seres humanos são todos
sensivelmente os mesmos
em toda a parte

Mas então necessariamente
as mulheres são mais

Costumes que frequentamos:
o arame da loiça
os panos dos pratos
os ganchos e a linha do estendal
a vinha de alhos
o fogão
o alguidar
guardamos os restos
torcemos os trapos
os nossos recados
os nossos sacos
os nossos ovos

Certamente que eles
em grande maioria
escanhoam os queixos
e gostam de arejar
Mas são médicos
polícias, engraxadores,
economistas
e os vários naipes
da banda filarmónica

Nós somos todas domésticas
Mesmo assim não nos entendemos
E nem serve escrever isto
que o maniqueísmo em traços largos
resvala na aldrabice
E a poesia vem dos anjos
já se sabe
carecidos de sexo
E aliás, que me rala a mim?
Levo a minha vida
e tenho o amor de que não

desconfio
E se consolo o cio e a fome,
decerto falo de cor
Nem é por isso que me doem os

calos
mas por causa dos bicos
dos vossos saltos
no desnível dos soalhos
refinadas galdérias
que se tomam a sério
Pestanas certeiras
e beiços que brilham
línguas que estalam
e mamas que chispam
corada invoco
a imagem mal tirada
da fêmea recortada
ao macho que a conforma

Sei que desminto
qualquer laço comunal
e seja como for
ninguém pediu o meu palpite
Pelo que não me habilito
e me desquito
Assim te mudo
Era eu quem estava mal.

 

Margarida Vale de Gato, in Mulher ao mar

A ilha em nós...

 

Não,

não ecoa a ilha em nós.

Ilha É cada um de nós.

Porquê então a ilha a dar-nos nós,

se atamos nós os nossos próprios nós?


AWF, Angra do Heroísmo, 2026

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Greve geral...

Sempre me surpreendeu esta ideia que por vezes encontro nos outros de uma greve ser algo de errado. Segundo o seu juízo, a greve é má. Não deviam. Não deviam poder. Não tem jeito nenhum. Depois quem sofre... somos nós! Nós, os consumidores. Nós enquanto consumidores. Não podem fazer greve nos transportes, senão ficamos sem transportes, nem nos hospitais, senão ficamos sem hospitais, nem na padaria, senão ficamos sem pão. Só deviam poder fazer greve nas empresas e serviços públicos que não fazem falta a ninguém, tipo... tipo... sei lá... nesses! Que me interessa a mim que queiram salários mais elevados! Eu também quero ganhar mais e não ando para aí a fazer greves! Como se recusar-me a ir trabalhar alguma vez me pudesse fazer ganhar mais! Eles querem é não fazer nenhum, tal como os sindicatos. Depois faltam ao trabalho às sextas-feiras para poderem fazer um fim-de-semana prolongado! Preguiçosos, é que eles são! Se querem ganhar mais, então que trabalhem mais! Assim é que tem de ser!... Eu bem quero ir trabalhar, mas não tenho camioneta, porque os motoristas estão em greve! Depois quem se lixa sou eu!

Pois, pois é. Quem se lixa és tu. Mas não és só tu. É todo o mexilhão. E tu lixas-te também, porque também és um mexilhão. Ou julgas que não?

Lixas-te porque tens de ir trabalhar, todos os dias, levantar cedo, ir e voltar de camioneta, regressar tarde e cansado, e repetir tudo no dia seguinte, e no seguinte, e no seguinte, até estares pronto para mais nada, por não prestares mais, e olhares para trás e ficares orgulhoso que conseguiste pagar os estudos aos teus filhos, porque assim como assim, mesmo que não consigam emprego, já são doutores!

Talvez seja o mesmo com o tipo que, ao contrário de ti, resolveu fazer greve. Também ele seja um mexilhão. Talvez ele também se lixe, tanto ou mais do que tu. Já reparaste que quando ele decide fazer greve, ele perde o seu salário?

Tu achas que a preguiça é má, porque para ti o que está certo é todos matarem-se a trabalhar como tu, e chamas preguiça a tudo o que os outros fazem e tu também gostarias de fazer, mas não podes, porque tens de estar sempre a trabalhar para conseguir sobreviver. Os preguiçosos dormem até mais tarde, vêem filmes, vão passear. Tu também querias... mas não pode ser! Imaginem só se toda a gente agora fosse passear? Quem é que ia fazer os pães frescos que eu gosto tanto de comer?

O facto de nos últimos cem anos os trabalhadores, pessoas como tu, trabalharem praticamente sempre o mesmo número de horas ao longo do ano, apesar de agora termos computadores e automatização por todo o lado, a ti não te diz nada. Tu vês o luxo passar-te à frente dos olhos, viagens ao espaço e o sei lá que mais, e não és capaz de ligar os pontos. Pelo contrário, quando vais à estação dos correios, que também era tua, mas agora é só de alguns, para quem vai o resultado líquido da sua actividade, compras o último livro que te fala das mentes brilhantes dos bilionários que ditam as regras das economias do nosso planeta. Tu não os criticas, porque gostavas era de poder ser como eles.

Tu não criticas o teu patrão, ou chama-lhe empregador, ou empreendedor, ou o que queiras, porque gostavas era de poder ser como ele, e ainda ficas à espera das migalhas que possam sobrar para ti à conta da obediência, admiração e bajulação sistemática que praticas.

Tu criticas as greves nos outros, mas sabes que beneficias com elas. Se alguma coisa delas resultar a favor dos trabalhadores, será a favor de todos os trabalhadores, ou colaboradores, ou como lhes queiras chamar, tu incluído, mesmo que para isso não tenhas tido de mexer uma palha. Mas se das greves nada resultar, tu terás pelo menos tido mais uma oportunidade de mostrar ao teu chefe quem é que está do seu lado, ao contrário dos outros que estão contra ele, que acima de quererem condições de vida mais dignas para si, querem é tramar os patrões e acima de tudo os pobres dos clientes... Malditos grevistas, que a camioneta nunca mais chega!

Ai se fosses tu a mandar!... Não era?...

Para ti o exercício de liberdade é simples e só um: queres este trabalho com estas condições ou não queres? Se queres, queres. Se não queres, desanda, que há outros que queiram! És livre de escolher! E se fosse contigo, quem fazia greve ia logo para a rua e já estava! Uma limpeza! Que é disso que o país precisa, não é?

Uns têm pouco. Outros têm muito. E outros têm muito mais do que os que já têm muito. Depois é só construir um sistema legal e um aparelho repressivo que assegure que ninguém pode tocar na propriedade alheia. O que tu sabes que está certíssimo, apesar seres um mexilhão que faz parte do grupo dos que não têm pevide, e de racionalmente ser muitíssimo mais saudável e inteligente da tua parte pensar que os que têm imenso deviam partilhar contigo um pouco do que têm. Mas isso não te ocorre. Ocorre-te o medo de perderes as migalhas que já conseguiste. Ocorre-te olhares para o mexilhão que está ao teu lado e assegurares-te que ele nunca consegue nada para si com menos esforço do que tu tiveste para conseguir algo igual.

Nasceste com pouco? Azar! Também eu! Agora faz-te à vida, ou seja: trabalha, trabalha e nunca deixes de trabalhar, e se receberes pouco, trabalha ainda mais e ainda mais.

Encontro por aí quem pense assim.

Talvez um dia organize uma festa para os teus filhos. Nessa festa, farei uma corrida. Quem quiser comer ou beber, terá de participar na corrida, e só os que chegarem nos primeiros lugares irão poder beber ou comer. Depois irei, conforme a minha vontade momentânea, colocar as crianças a distâncias diferentes da meta. Umas crianças serão mais crescidas, outras mais novas, umas serão mais e melhor desenvolvidas e aptas para a corrida do que outras. Eu poderia escolher o ponto de partida de cada uma, e assim a sua distância à meta, de forma a compensar essas diferenças. Mas não. Logo à partida as crianças que eu considerar mais bonitas irei colocá-las mais próximo da meta. Assim como as que sejam filhas dos meus amigos. Enfim, será um exercício bastante arbitrário, em que irei exercer o meu poder conforme me apetecer.

Suspeito que não irás concordar ou gostar nada desta minha festa, e terás muitas críticas a fazer. Suspeito até que te possa ouvir falar de algum conceito de justiça. Suspeito, contudo, que não irás fazer as ligações entre as coisas e irás continuar a julgar os preguiçosos que fazem greve e impedem que isto ande para a frente.

E eu suspeito que nunca irei deixar de me surpreender, mesmo já estando bem fartinho de saber!

domingo, 6 de julho de 2025

Receita...

ou para que serve uma manifestação

(dá para todos)


Numa cama de relva

barra-se uma generosa camada de gente.

Guarnece-se com flores de magnólia,

altas araucárias,

ginkgo biloba, nespereira e olaia.

Polvilha-se de morcegos,

estorninhos e pombos.

Insufla-se de dignidade

e indignação.

Leva-se à vida

à temperatura do coração,

durante muito tempo.

Não se serve.

Divide-se e multiplica-se.

Reserva-se para sempre.

 


quinta-feira, 3 de julho de 2025

NATO...

NATO, OTAN em português, Organização do Tratado do Atlântico Norte.

Estados Unidos da América. União Europeia. Ucrânia. Kosovo. Iraque. Palestina. Israel. Sudão.

Subordinação. Hegemonia.

Clareza. Diplomacia. Inteligência. Seriedade. Conhecimento rastreável e verificável.

Propaganda. Política mediática e de imagem. Jogos não cooperativos. Ausência de diálogo. Diabolização. Infantilidade.

Guerra. Paz. E sobretudo essa gritante ausência de esforço de construção de paz.

Está tudo nesta intervenção de Jeffrey Sachs, intitulada "Geopolítica da paz", feita no dia 19 de Fevereiro de 2025, no Parlamento Europeu.

O vídeo tem 1h40m. Merece ser visto (também pela linguagem corporal de Sachs) e ouvido com atenção do princípio ao fim.

Em tempos em que a vida não corre tão bem, todos precisamos de distracções. Ver um filme de aventuras. Façamos então de conta que estamos a ver um filme de aventuras. Façamos o esforço de empenhar 1h40m das nossas vidas para sairmos da inconsciência e da estupidez generalizada em que estamos imersos, para compreendermos melhor o mundo. Merece. Para não dizer mesmo que é a nossa responsabilidade sabermos estas coisas, para depois agirmos com base nesse conhecimento. De outro modo continuaremos a papaguear e apoiar a insanidade de querer promover a paz com armas.

Quanto aos EUA, Sachs afirma e reafirma o que nunca é demais repetir: ser inimigo dos EUA é perigoso, mas ser amigo é fatal.


domingo, 8 de junho de 2025

A luta fragmentada...

Ou a importância da união na luta.

(pintura de Manuel Cargaleiro)

Primeiro vieram buscar os palestinianos. Mas eu não me importei. Não sou palestiniano. Porque havia de me importar?

Repito a pergunta: porque me havia de importar com os problemas dos outros, se eu não sou os outros?

Há diversas formas de abordar esta questão. Uma forma pragmática, prática, desenvolta, airosa, pós-moderna e consonante com o nosso estilo de vida é responder simplesmente "quero lá saber". Desde que não me afecte, tudo bem.

Esta perspectiva baseia-se numa moral egoísta em que o bem e o mal são medidos em função do modo como as coisas nos afectam. Uma faca trespassando a minha barriga é mau, trespassando a barriga de um transeunte à minha frente é menos mau, trespassando a barriga de um desconhecido no outro lado do mundo é tão pouco mau, que eu nem quero saber.

Foi assim que durante muitos anos se considerou insignificantemente mau encher a atmosfera de gases de combustão de petróleo e carvão. Foi preciso começarmos a sentir os efeitos disso na pele, efeitos que já se anteviam há muitas décadas, para começarmos, paulatinamente, a considerar isso um bocadito mais mau. E isso foi, convenhamos, muito pouco inteligente, até porque a inércia deste processo em concreto é enorme e já poucos acreditam que seja sequer possível reparar o erro, que mais vale começar já a antecipar as piores consequências.

Se quisermos ser mais inteligentes, teremos de perder algum tempo e dedicar algum esforço a tentar entender melhor o alcance das nossas atitudes e comportamentos, não apenas no aqui e no agora, mas também um pouco mais além no espaço e no tempo.

Como infelizmente não somos iguais (ai que giro que é sermos tão diferentes!) na capacidade ou no empenho para identificar as consequências dos nossos actos em períodos e espaços maiores, os que mais se preocupam, que têm mais ferramentas para ver mais além, que se dedicam mais a isso, carregam a cruz de perceberem em primeira mão a asneira, de a tentarem demonstrar aos demais, de sofrerem represálias à conta disso. Quando alguém não se interessa, o fardo acaba sempre por recair noutros. E quantas vezes esse fardo inclui ansiedade e depressão?

Que a tentativa de perceber as consequências mais afastadas das nossas acções é um sinal de inteligência, talvez não seja muito polémico. Apesar disso, muitos defendem hoje a produção de energia eléctrica a partir da cisão dos átomos em centrais nucleares, inclusivamente como medida para tentar mitigar o problema do recurso aos combustíveis fósseis e consequente aquecimento global, sem quererem entender, ou entendendo, sem o quererem assumir, que isso é apenas uma maneira de trocar um problema gravíssimo por outro problema possivelmente ainda mais grave, mas cujas consequências só se farão sentir mais adiante.

Dentro desta lógica, os mais preocupados auto-incumbem-se de tentar mostrar aos demais porque é importante travarmos o genocídio em Gaza, ou impedirmos qualquer outra guerra, indo directos ao âmago egoísta de cada um: é bom que te preocupes quando vêm buscar os judeus, porque a seguir podes ser tu.

E é uma tristeza que a nossa moral airosa se fique por aqui.

Estudamos história. Quanto mais estudamos, mais aterrados ficamos (ou devemos ficar) com o que o ser humano foi capaz de fazer a outros da mesma espécie (para não falar das outras espécies). Basta estudar um pouquinho, uma coisinha de nada, para deixar de ter qualquer tipo de ilusão acerca da benevolência da nossa espécie, quer enquanto espécie, quer enquanto seres individuais. Bastará também estudar um poucochinho de história para perceber que esta ideia de a Europa ser guardiã de valores fundamentais da liberdade, de democracia e de progresso não passa de uma piada de profundo mau gosto com que tentam, e infelizmente conseguem, moldar o pensamento de tantos de nós.

Mas quê? A nossa preocupação não pode ser assim tão profunda. Que nos interessa a barbárie da história da colonização dos povos, se isso foi no passado? Foi no passado, já passou, já não há nada a fazer, nem vale a pena ficarmos tristes com isso! E bota mais um pouco de fast-food, fast-fashion, fast-furniture, fast-fuck e fast-ethics.

É uma tristeza, digo eu, que gostaria de conviver com uma humanidade convicta de outros valores, como por exemplo a salvaguarda da vida, ontem, hoje, amanhã, aqui, ali, acolá. Mas isso é outro tema, que por ora omito.

Há quase duzentos anos alguns indivíduos disseram e escreveram: proletários de todos os países, uni-vos!

Mas porque é que eu me hei-de preocupar com o despedimento de 222 trabalhadores da fábrica de calçado Gabor, se eu não trabalho lá, nem os conheço, e a fábrica fica em Barcelos quando eu vivo nos Açores?

E lá vêm os poucos ansiosos e deprimidos, porque mais preocupados, porque mais informados, tentar elucidar-me que o mesmo capital que está investido naquela fábrica estará de seguida investido na minha terra, onde irá "oferecer-me" trabalho, e as mesmas regras que esse capital dita lá fora, irá impor também aqui, e se eu não tomar partido já, é muito provável que no futuro venha a ser eu mesmo a sofrer as mesmas represálias. E ainda me explicam mais: que o despedimento doutros trabalhadores poderá ter efeitos na economia local, os quais por sua vez acabam por se repercutir nas economias com ela relacionadas; que os desempregados irão precisar de subsídios que irão ser pagos com os meus impostos; que alguns deles poderão necessitar de outro tipo de apoios do Estado, entre os quais assistência na saúde ou na habitação. Enfim, mostram-me, a custo, e apelando ao meu egoísmo, que quando outros trabalhadores sofrem, isso também coloca em risco a minha posição. Tentam fazer-me ver um pouco mais além, nas consequências das minhas acções e omissões. Em troca, eu digo que esses activistas são uns frustrados, que deviam era ir para as suas casas tratar dos seus assuntos, que a minha vida é só comigo e ninguém tem nada com isso, que eles são propagandistas, que são partidários, que só querem é tachos e mamar.

É preciso um esforço tremendo para chamar para uma luta global todas as pessoas que estão em situações de relativa fragilidade, sobretudo quando há tanto sofrimento, tanta sede de prazer, tantas distracções e fontes de prazer imediato, tanto cansaço e falta de pachorra para abordar assuntos sérios e deprimentes, tanta falta de conhecimento, tantas vezes intencional, ignorância essa que num mundo cada vez mais sofisticado e complexo vai crescendo em termos relativos, mesmo com todos os investimentos colectivos que fazemos na formação dos nossos jovens, a qual visa quase exclusivamente o "mercado de trabalho".

Nesse esforço de apelo à luta, num contexto de moralidade egoísta, é da maior importância a explicitação dos elos que nos unem, que unem isto tudo cá por dentro e à nossa volta.

Isto anda tudo ligado, ouvimos de vez em quando alguém dizer. Pode ser um chavão, mas não é de chave na mão, permitam-me a chalaça, porque não é nada fácil entender o modo como isto anda tudo ligado. Se eu até consigo perceber, enquanto trabalhador assalariado, que o despedimento de 222 trabalhadores assalariados na Gabor pode ter um impacto indirecto na minha vida, mais difícil será perceber o impacto que terá na minha vida as agressões racistas ocorridas em Lisboa, quando eu sou branco e vivo nos Açores, ou a violência doméstica contra mulheres, quando eu sou homem, ou o massacre dos palestinianos quando eu não tenho nada a ver com eles.

Uma forma de esclarecer, de trazer à tona, e à mostra, a estrutura dos problemas, é generalizá-los.

Todas as generalizações são perigosas, incluindo esta. Generalizar é aplicar a um universo mais estendido as conclusões retiradas da observação de apenas uma amostra. É passar dos casos isolados para o conjunto de casos, e daí para o todo. E o risco neste processo deve ser evidente: se eu vejo um homem a agredir uma mulher, talvez não deva precipitar-me para a conclusão de que todos os homens agridem as mulheres.

Apesar do grande risco associado às generalizações, elas são essenciais na aprendizagem, na apreensão da realidade, no avanço do nosso conhecimento. Quando eu escolho uvas, eu aprecio a sua textura, a sua cor, o seu cheiro, o seu tamanho... na tentativa de achar algum padrão que me permita saber de antemão se elas são doces ou não sem ter de as provar. Eu só aprendo a escolher uvas quando consigo identificar um tal padrão e quando repetidas experiências demonstram que esse padrão é efectivamente útil na selecção das uvas doces. Se eu não for capaz de generalizar, nunca poderei aprender a escolher uvas.

O que é que há em comum entre, por exemplo, o genocídio em Gaza e os despedimentos na Gabor? Ou entre isso e a violência doméstica ou o assédio no local de trabalho ou a exploração mineira na Argentina ou o trânsito automóvel ou o aquecimento global ou a venda de armas? Será que existe uma luta comum na base de todos estes problemas? Se sim, será importante colocar essa comunhão em evidência?

Será que em todos esses problemas, e tantos outros de que a humanidade é prolixa, podemos identificar agressores e agredidos, relações de poder, estruturas que incluem instituições, culturas, modos de agir e pensar, ideologias que permitem a perpetuação dessas relações?

No entender de muitos desses preocupados mentais, entre os quais me incluo, a institucionalização da opressão é global e recorre a estratégias e mecanismos globais. E só conhecendo esses mecanismos globais, só apreendendo o modo como isto anda tudo ligado, é que estaremos em condições de decidir o que é melhor em termos de acção local. Por isso é tão importante pôr em cima da mesa, a nu, essas linhas que unem todos estes problemas. Por isso vale a pena o tremendo esforço que é o de compreender o que é que umas coisas têm a ver com as outras, de forma clara, para que todos possamos estar igualmente empenhados numa luta que, bem vistas as coisas, é de todos.

E é neste contexto, com este enquadramento, imbuído deste espírito, que vejo com muita preocupação, e desde há tanto tempo, o empenho que tantos colocam em lutas mais pequenas, mais circunscritas, sem dedicarem o mesmo empenho à união de todos os que, noutros formatos, são vítimas da mesma violência global.

Tomemos o caso dos bancos alimentares contra a fome. É claro que a fome é um problema sério que merece medidas urgentes para a sua mitigação. Também devia ser claro que essas medidas não deviam basear-se na caridade, mas sim em sistemas mais justos decididos pela sociedade como um todo. O que infelizmente parece ser ainda menos claro é que tão ou mais importante do que combater a fome, é reformar ou mesmo destruir o sistema que produz a fome!

Se eu confrontar os voluntários dos bancos alimentares contra a fome com esta questão, tenho poucas dúvidas de que todos estarão de acordo comigo. No entanto, finalizada a campanha, nada é feito até à campanha seguinte. E assim lá vamos seguindo, de campanha em campanha, ao longo dos anos e das décadas. E, qual cereja no topo do bolo, no final de cada uma ainda nos vangloriamos na medida da quantidade de fome que conseguimos adiar.

Cada pessoa que sofre directa ou indirectamente com uma agressão, e que abraça a luta contra esse tipo de agressão, sente-se identificada com isso, com a luta, com a própria agressão, como se isso fosse uma parte de si, como se isso fosse em certa medida sua pertença. Algumas pessoas são capazes de levar este sentimento tão longe, ou tão profundamente, que expulsam da sua luta as pessoas que consideram "não ter nada a ver com isso". Como se uma manifestação pela defesa dos direitos da Palestina fosse pertença apenas de palestinianos e só esses nela pudessem participar. Como se apenas as mulheres pudessem lutar contra a violência sobre as mulheres. Como se apenas os desalojados pudessem reivindicar políticas justas de habitação.

Mas esses serão casos extremos. Na maioria dos casos quem luta por uma causa sentir-se-á melhor se outras pessoas aderirem a essa luta, mesmo que essas pessoas não sofram directamente do respectivo problema.

No entanto, em qualquer caso, a referida sensação de identificação e propriedade sobre o problema pode gerar sentimentos negativos face a discursos que tentam comparar problemas, que relativizam, que generalizam. De algum modo, é como se aquele problema concreto deixasse de ser o centro das atenções, deixasse de ser a coisa mais importante no universo, o que tantas vezes é o caso para as suas vítimas directas.

Talvez requeira alguma generosidade, alguma abnegação, alguma capacidade de refrear a sensação de urgência, para permitir que o nosso problema deixe de ser o verdadeiro problema, para passar a ser uma peça, em conjunto com tantas outras, num problema maior que a todos abarca. Certo é que não só muitas vítimas não se empenham na extracção dos pontos em comum com outros tipos de agressão, como por vezes reagem mal perante quem o tenta fazer.

Haverá certamente muitas outras razões para a inexistência do que considero ser a indispensável união na luta contra as agressões a nível global.

Nos últimos anos tenho assistido à proliferação de tipos de luta muito específicos. Não tenho dúvidas de que é bom e importante que a luta de um homossexual pelo reconhecimento dos seus direitos, da sua plena e igual legitimidade, seja feita em conjunto com outras pessoas na mesma condição e em todas as circunstâncias. Ainda bem que assim é. No entanto, e insistindo na necessidade de expor o funcionamento da máquina global de opressão, não posso deixar de ficar preocupado perante a falta de união que me parece existir entre as lutas das mulheres, dos pobres, dos desalojados desta ou daquela cidade, dos emigrantes deste ou daquele país, dos deficientes de um ou outro tipo, dos doentes de uma ou outra maleita, dos idosos, dos jovens, dos estudantes, dos estagiários, dos bolseiros, dos desempregados desta ou daquela empresa, dos transexuais, dos que se opõem à construção da incineradora na sua aldeia, dos que se preocupam com o fecho das urgências dos hospitais, ou das escolas, dos que são contra as portagens, dos que reivindicam horários de trabalho menores, etc., etc., etc., etc., etc., etc., etc., etc.

Por vezes, ao contrário de ver as pessoas empenhadas nessa união, vejo pessoas empenhadas precisamente no oposto, isto é, na clara demarcação entre as lutas, na identificação das suas diferenças, de modo a que não haja confusões, e cada macaco no seu galho.

Para quem é vítima de uma dessas lutas, poderá haver o tal sentimento de pertença, de identificação ou até de posse. Para quem não é vítima, poderá haver uma sensação de conhecimento mais profundo, e talvez por aí uma melhor posição para a luta, ou uma maior capacidade empática para com as vítimas. Certamente existirão outras razões que eu não consigo identificar para este comportamento de atomização das lutas e, por vezes, de desconforto ou mesmo de ataque a quem tenta destruir essa atomização, salientando os aspectos comuns com outras lutas em vez de realçar as particularidades de cada uma.

Regresso à minha analogia com os bancos alimentares contra a fome. A fome existe. Cada caso é um caso. São necessárias medidas urgentes para atacar cada um dos casos individuais. Isso é um ponto assente. Mas também devia ser um ponto assente que é necessário compreender o mecanismo que produz gente com fome, por mais complexo que seja, para o poder atacar sistemicamente. Só assim podemos almejar a um futuro sem fome. Não há outro modo!

Reconheço, portanto, a existência de cada problema concreto e a importância da acção para a sua eliminação. Mas, se compreendo que "primeiro vieram buscar os palestinianos" é um grito de alerta urgente e de extrema importância para todos nós, palestinianos e não palestinianos, então não posso deixar de expressar a minha vontade de que o empenho nas lutas individuais seja acompanhado de um empenho de igual grandeza na luta global.

Que luta é essa? Pois vamos tratar de identificá-la.

 

 

No caminho com Maiakovski

de Eduardo Alves da Costa

 

Assim como a criança

humildemente afaga

a imagem do herói,

assim me aproximo de ti, Maiakovski.

Não importa o que me possa acontecer

por andar ombro a ombro

com um poeta soviético.

Lendo teus versos,

aprendi a ter coragem.

Tu sabes,

conheces melhor do que eu

a velha história.

 

Na primeira noite eles se aproximam

e roubam uma flor

do nosso jardim.

E não dizemos nada.

Na Segunda noite, já não se escondem:

pisam as flores,

matam nosso cão,

e não dizemos nada.

Até que um dia,

o mais frágil deles

entra sozinho em nossa casa,

rouba-nos a luz, e,

conhecendo nosso medo,

arranca-nos a voz da garganta.

E já não podemos dizer nada.

 

Nos dias que correm

a ninguém é dado

repousar a cabeça

alheia ao terror.

Os humildes baixam a cerviz;

e nós, que não temos pacto algum

com os senhores do mundo,

por temor nos calamos.

No silêncio de meu quarto

a ousadia me afogueia as faces

e eu fantasio um levante;

mas amanhã,

diante do juiz,

talvez meus lábios

calem a verdade

como um foco de germes

capaz de me destruir.

 

Olho ao redor

e o que vejo

e acabo por repetir

são mentiras.

Mal sabe a criança dizer mãe

e a propaganda lhe destrói a consciência.

A mim, quase me arrastam

pela gola do paletó

à porta do templo

e me pedem que aguarde

até que a Democracia

se digne a aparecer no balcão.

Mas eu sei,

porque não estou amedrontado

a ponto de cegar, que ela tem uma espada

a lhe espetar as costelas

e o riso que nos mostra

é uma tênue cortina

lançada sobre os arsenais.

 

Vamos ao campo

e não os vemos ao nosso lado,

no plantio.

Mas ao tempo da colheita

lá estão

e acabam por nos roubar

até o último grão de trigo.

Dizem-nos que de nós emana o poder

mas sempre o temos contra nós.

Dizem-nos que é preciso

defender nossos lares

mas se nos rebelamos contra a opressão

é sobre nós que marcham os soldados.

 

E por temor eu me calo,

por temor aceito a condição

de falso democrata

e rotulo meus gestos

com a palavra liberdade,

procurando, num sorriso,

esconder minha dor

diante de meus superiores.

Mas dentro de mim,

com a potência de um milhão de vozes,

o coração grita - MENTIRA!