terça-feira, 27 de outubro de 2026

Raio de concordância - sobre as lombas nas estradas...

Fastidiosa introdução

Os seres humanos demonstram uma enorme apetência pelas viagens. Falo de viagens num sentido físico, mas lato, incluindo quaisquer deslocações por um território ou à volta do globo, quaisquer que sejam as suas intenções. Não é só uma questão de curiosidade. Há também a necessidade de deslocação física e regular das pessoas na nossa economia. E há também o hábito, as relações que se criam, as formas de vida.

Antigamente era mais comum uma pessoa nascer e morrer sem nunca ter saído da sua terra natal. Hoje moramos num sítio, trabalhamos noutro, visitamos amigos aqui e acolá, o hospital e as escolas estão longe, tal como o supermercado, e todas estas distâncias se medem facilmente em dezenas de quilómetros e em alguns casos em centenas. Felizmente não é muito comum, mas há quem apanhe o avião diariamente para ir trabalhar.

Baseámos o nosso sistema de transporte no automóvel, no petróleo e nas estradas. As estradas, tal como os automóveis, foram sendo construídos de forma a permitir velocidades de circulação cada vez mais elevadas. Quando eu era criança, ia-se do Porto à Guarda, uma distância de cerca de 200km, em mais de cinco horas, por estradas sinuosas com piso em paralelepípedos de granito, e em automóveis nos quais atingir uma velocidade de 100km/h era considerado uma loucura (lembro-me dos carros a tremerem todos quando atingiam semelhantes velocidades... que loucos éramos!). Hoje exigimos estradas que nos permitam circular a pelo menos 100km/h na maior parte do trajecto, e essas mesmas viagens fazem-se em menos de metade do tempo. Nós fizemos as estradas e as estradas fizeram-nos.

O tempo de viagem entre os locais foi, durante muitas décadas, quase como um indicador do progresso daquela economia e daquela sociedade. Esse imaginário da velocidade nas deslocações está muito presente na maioria das pessoas, mesmo que viole princípios básicos da física, para já não falar de outros princípios que também deviam ser básicos, como os ecológicos. Vemos filmes de ficção científica com viagens intergalácticas, apesar da física não nos permitir sequer viagens à estrela mais próxima, que fica a bem menos de um milésimo da distância entre nós e o centro da nossa própria galáxia, nem mesmo com a tecnologia mais mirabolante que consigamos imaginar. Deliciamo-nos a ver imagens de comboios a circular a 500km/h, sem sequer nos lembrarmos que o arrasto aerodinâmico a essa velocidade faz com que o comboio gaste 25 vezes mais energia, por cada km percorrido, do que se circulasse a 100km/h. E queremos poder deslocar-nos de automóvel em duas horas do Porto ao Algarve, a uma velocidade média superior a 250km/h, num Bugatti Chiron, esquecendo que o seu depósito de 100 litros de combustível ficaria vazio a intervalos de pouco mais de 10 minutos.

A velocidade na deslocação traz uma série de inconvenientes, que são graves e deviam ser integralmente considerados, mas dos quais vou reter por agora apenas a segurança das pessoas. Quando uma estrada é muito má e o veículo é muito mau - podemos pensar num triciclo num caminho de pé posto - podem acontecer muitas coisas más, mas raramente elas porão em risco a vida das pessoas. Pelo contrário, a existência de estradas e veículos que permitem velocidades elevadíssimas exigem a utilização de mecanismos de defesa da vida das pessoas. Entre eles podemos incluir os passeios, com ou sem pilaretes, semáforos, passadeiras, airbags e lombas. As lombas, como todos sabemos, são elevações do piso das estradas com o objectivo de limitar a velocidade dos veículos.

É interessante que o progresso nos tenha colocado nesta espécie de dissonância cognitiva generalizada: ao mesmo tempo continuamos a ver a velocidade de deslocação como um desejável indicador de progresso e temos equipas de pessoas a pensar como hão-de limitar a velocidade máxima de circulação dos automóveis. Aos meus olhos isto é apenas mais uma faceta da nossa infantilidade: se o progresso nos permite comer todo o chocolate que quisermos, nós pagaremos a outros para controlar o nosso consumo, porque nós não seremos capazes de controlar por nós mesmos.

Lombas e respectivos raios de concordância

O objectivo das lombas é permitir que os veículos (vamos chamar-lhes simplesmente "carros") circulem mas os seus condutores sejam incentivados a reduzir a respectiva velocidade. Segundo o documento "medidas de acalmia de tráfego" do Instituto de Infra-estruturas Rodoviárias, "a sua eficácia resulta da incomodidade imposta ao condutor durante a transposição de elevações introduzidas ao traçado longitudinal (pela imposição
de variações acentuadas na aceleração vertical) a velocidades superiores à velocidade de projecto".

Presume-se que o condutor deverá então poder circular sem incómodo desde que o faça à velocidade de projecto ou a velocidades inferiores. No entanto, não é isso que acontece na esmagadora maioria dos casos. A causa é a inexistência no perfil da lomba de um raio de concordância.

O raio de concordância é o raio do arco de circunferência que une dois segmentos de recta.

Uma lomba apresenta-se como uma elevação anormal no piso de uma estrada. Consideremos que o piso normal da estrada é a superfície A, e que a superfície B é a superfície da lomba inclinada que fica voltada para quem dela se aproxima. Entre estas duas superfícies é possível construir uma transição suave, com um raio de curvatura. Ou não, e nesse caso as duas superfícies A e B intersectam-se numa aresta transversal à estrada. Neste caso, qualquer roda de qualquer veículo que circule sobre a lomba irá sofrer um choque, qualquer que seja a velocidade de circulação. Os sinais dizem que se pode circular a 30km/h, no entanto quem passar pela lomba a essa velocidade, ou a qualquer velocidade inferior, irá sofrer um choque, como uma pancada, que será tanto mais intensa quanto maior for a velocidade.

A explicação para o choque é simples (podemos usar a imagem no início deste artigo como guia): na ausência de raio de concordância, a roda que rola na superfície A irá embater contra a superfície B. Num instante ela estará a rolar sobre A e no instante seguinte ela estará a rolar sobre B, com outra orientação e outra velocidade. Ora isso só é possível à custa de acelerações longitudinais e verticais do veículo muito elevadas (choque) e de deformações dos seus elementos (pneus e sobretudo sistemas mola e amortecedor).

Poderão alegar os promotores da instalação da lomba que o que se pretende é precisamente esse choque, uma vez que ele é que faz com que o condutor tenha um incentivo a abrandar a marcha. Mas isso não é verdadeiro. Uma lomba bem construída não sujeita o veículo a qualquer choque, sujeitando-o mesmo assim a acelerações tão intensas, acima da velocidade de projecto, que o condutor terá um forte incentivo a abrandar a sua marcha. E como é que isso se consegue? Construindo uma lomba com um raio de concordância superior ao raio da roda de qualquer veículo. Ou seja, fazendo uma transição suave entre o pavimento normal da estrada e a superfície da lomba.

O problema do choque, e a razão pela qual ele nunca devia ocorrer, é que ele não contribui para o efeito da lomba, mas contribuiu para a degradação muito mais rápida dos equipamentos. Estou a referir-me, obviamente, ao automóvel, e sobretudo ao sistema de amortecimento, mas também me estou a referir à própria lomba, uma vez que ela também recebe o mesmo choque, só que no sentido oposto.

Isto é um problema de somenos. No entanto, torna-se relevante se pensarmos nos muitos milhares ou milhões de veículos que se sujeitam a estes choques quase todos os dias, no que isso significa em termos de idas acrescidas ao mecânico e à utilização de peças de substituição ao nível de todo um país, quando a solução é tão trivial e acessível: basta fazer uma transição suave para a lomba!

A publicação que já referi em cima prevê diferentes perfis de lomba. O único que pode apresentar raios de concordância é o perfil sinusoidal. Infelizmente, menciona-se que o perfil das plataformas elevadas para a passagem de peões deve ser trapezoidal, isto é, com transições abruptas. Quem é que escreveu esse documento???

Alternativas e por aí fora

Conforme referi na fastidiosa introdução, a velocidade é como um vício: desejamo-la, e quando nos habituamos a ela não conseguimos viver sem ela, e queremos ainda mais. Infelizmente, como outros vícios, ela tem efeitos secundários muito negativos. A segurança das pessoas é só um desses efeitos nefastos. Outros efeitos negativos podem incluir o ruído, o consumo de combustível, a degradação do piso das estradas, o desgaste dos pneus e das viaturas em geral ou a nunca contabilizada mortandade animal (e não me estou só a referir a cães e gatos, mas também a outros mamíferos, répteis, anfíbios, aves, enfim, tudo o que mexa).

Bom seria que as pessoas pudessem abandonar o seu comportamento viciado, infantil, necessitado (estou a pensar em quem tem de percorrer diariamente quase uma centena de quilómetros para ir trabalhar, só porque não consegue encontrar casa barata perto do sítio onde trabalha) ou simplesmente habituado, e compreendessem que é possível e desejável levar uma vida mais lenta, onde até o próprio conceito de viagem fosse reenquadrado, não como esta coisa de agora estar aqui, a seguir estar ali, fotografar e comprar e partir, mas como esta coisa de ir indo, calmamente apreciando as mutações.

Há muitas maneiras de conseguir tráfegos rodoviários a velocidades inferiores. E que tal, por exemplo, uma estrada sinuosa? Ou uma estrada que simula as curvas apenas com pinturas no pavimento? Ou uma estrada que só tem largura para as viaturas em sentidos opostos se cruzarem de x em x metros?

A forma mais simples, contudo, sempre me pareceu ser a limitação da velocidade máxima no próprio projecto e construção dos veículos. Se todos os veículos só puderem circular no máximo a 30km/h, não haverá necessidade de construção de lombas (e de uma data de outras coisas!). Eu sei que este limite máximo que acabei de propor parece ridículo (e se calhar é), mas se por um momento o considerarmos seriamente, talvez isso nos abra a porta do pensamento para questões muitíssimo relevantes às quais não prestamos a devida atenção: em que circunstâncias se torna legítimo circular a velocidades elevadas? como se pode e deve regulamentar isso? não seriam os veículos privados com velocidades limitadas um grande incentivo ao uso de transportes públicos colectivos com velocidades superiores? não deveríamos segregar e diferenciar os tráfegos locais dos de média e longa distância, utilizando sistemas de transportes diferenciados em cada caso?

Enfim, isto é como tudo na vida: há imensas alternativas, mas a preguiça mental e outros vícios transportam-nos e cristalizam-nos em soluções que ficam muito aquém do nosso potencial.

Crise no mercado da habitação?...

 
Uma nota sobre a actual tentativa de endoutrinação acerca do mercado da habitação.
 
Hoje, muitos doutos senhores nos explicam que há uma crise na oferta no mercado da habitação, e que essa crise não é de agora. Muitos desses doutos senhores aprenderam economia na mesma escola que eu, ou noutras similiares, mas não tiveram a capacidade de abrir a pestana para além do calhamaço de microeconomia (acreditando na sua boa-fé...). Nele aprenderam sobre a oferta e a procura, quantificadas e apresentadas como leis. Aprenderam também que os mercados desregulados (eles chamam-lhes "livres" e por isso se dizem "liberais") são imbatíveis no bem-estar que proporcionam à sociedade como um todo. Repararam no "como um todo"?... O importante é estarmos do lado certo, como o lado do pessoal do governo que é dono de sei lá quantas casas.
 
Muitos aprenderam economia. Mas muitos outros, igualmente doutos, nem isso. Nem por isso deixam de nos explicar sobre a crise na oferta da habitação.
 
Quando se passa toda a vida a martelar mercados, todas as cabeças parecem pregos, e todas as variações de preços passam a ser explicadas como um desajuste entre a oferta e a procura.
 
O que, para a liberalidade desses senhores doutos, não deixa de ser espantoso, uma vez que eles também aprenderam, e passaram a ensinar, que os mercados fazem tudo sozinhos e que tudo é melhor do que tentarmos intervir no seu funcionamento. É espantoso, portanto, ouvir alguns deles a falar nos dias que correm em falhas do mercado. Será que estarão dispostos a admitir, finalmente, que nem sempre é bom deixar as coisas funcionarem de forma desregulada, a ver o que dá? Bom, veremos no que dá. Mas não me parece que vá dar em nada. Deve ter sido só um "glitch in the matrix".
 
A endoutrinação é esta de insistir que o problema dos preços altos das habitações é a falta de construção de habitações novas durante os últimos anos. É claro que os pequeninos senhores doutos e económicos, os microeconómicos, não poderiam explicar a subida dos preços de outra forma: para os preços subirem a procura tem de aumentar mais do que a oferta, ou a oferta tem de diminuir mais que a procura. E já está!
 
Ora toda a gente sabe que a procura aumentou imenso, porque toda a gente sabe que há imigrantes a viver em regime de cinco por cada quarto. Toda a gente sabe que o que devia ter sido feito era construir mais casas nas cidades, sobretudo nas zonas dos cinco por quarto. Como isso não aconteceu, os preços subiram!
 
Eu não sei se toda a gente sabe disso, mas se sabe, sabe mal. Sabe mesmo muito mal.
 
Nos últimos anos o parque habitacional português aumentou. Pouco, mas aumentou. Durante o mesmo período, a população portuguesa aumentou. Pouco, mas aumentou. No global, a proporção do número de pessoas por habitação manteve-se quase inalterado. Se não acreditam, informem-se, que estas estatísticas são bem fáceis de encontrar, em vez de emprenharem pelos ouvidos.
 
Portanto, se a procura aumentou, não foi necessariamente ou significativamente por haver mais pessoas à procura de casa para habitar. É certo que o número de pessoas por agregado familiar tem vindo a descer - temos vindo a viver cada vez mais sozinhos - mas a variação nos últimos anos é novamente insignificante. De resto, o número de habitações novas construídas (o que não falta são guindastes nas paisagens) seria plenamente suficiente para suprir essa evolução, se isso alguma vez fosse necessário. Mas nem isso seria necessário, e já que estamos numa de desmontar tretas, desmontemos mais essa treta. Andando pelas ruas das cidades nos últimos anos não seria difícil de encontrar casas devolutas, algumas com pinturas afirmando "tanta casa sem gente e tanta gente sem casa". Ao que eu acrescento: tanta gente com muitas casas. Portanto, em boa verdade, nunca faltaram, nem faltam, casas suficientes para albergar todas as famílias portuguesas. Novamente, se não acreditam, informem-se.
 
Mas vamos lá desmontar a parvalheira com mais fundamento.
 
Em primeiro lugar: o espaço não é infindo. Os preços, como todos sabemos, subiram e sobem mais nos centros das cidades. Qual é a sugestão então que os homens microeconómicos dão? Transformar Alfama em arranha-céus? Construir na Avenida dos Aliados?... Os fenómenos de gentrificação dos centros das cidades já estão estudados desde há muito, e a sua solução não passa, ao contrário do que defendem os microeconómicos, por encher os centros das cidades de guindastes. A realidade demonstra isso mesmo.
 
Em segundo lugar: o mercado dos imóveis é muitíssimo apetecível para os capitalistas.
 
Tenho de explicar isto com um pouco mais de vagar, porque estou cansado de ver pessoas a usar o termo capitalismo de uma forma vaga para nomear qualquer coisa nas economias de mercado que não funciona bem, a começar pelo coração dos magnatas.
 
Um sistema económico capitalista caracteriza-se por várias coisas, como por exemplo pela preservação da propriedade privada ilimitada, mas também pela existência de rendimentos de capital. A ideia é simples: se eu pretender ganhar dinheiro, ou vou trabalhar, e recebo em troca um salário, ou ponho o dinheiro a render, e recebo um rendimento do dinheiro, ou rendimento de capital. Para além das mais-valias que podem ser feitas comprando e vendendo coisas, podemos investir em empresas, esperando obter lucros, podemos arrendar coisas, recebendo rendas, e podemos emprestar o dinheiro e receber juros.
 
Num sistema capitalista, não existe igualdade de oportunidades. As pessoas partem logo à partida com diferenças nos meios que possuem para conseguir fazer dinheiro. Algumas nasceram em berços de ouro e podem aplicar o dinheiro herdado em vida ou na morte dos pais. Outros não herdaram dinheiro algum e terão de vender o corpo, trabalhando, para conseguirem algum rendimento. Outros não nasceram sequer com um bom físico ou um bom intelecto, e esses serão ostracizados a vida toda.
 
Apesar de isto ter a obrigação de ser evidente para todos nós, as pessoas parece que se recusam a aceitar a realidade como ela é, e preferem acreditar no sonho do homem (ou da mulher... mas mais geralmente do homem) que veio de baixo, e sem nada construiu uma fortuna, com muito trabalho. Esse sonho é uma total estupidez, que também se desmonta em duas penadas (ora façam lá as contas de quanto é que alguém tem de receber de salário para conseguir ficar rico), mas é de tal forma veiculado na propaganda do sistema e com tal pompa que a malta prefere viver nessa ilusão, tal como gosta de ver passar o carro da rainha mesmo quando vive na miséria.
 
O mercado dos imóveis permite comprar e vender imóveis. E, para quem os tem, permite arrendá-los. Assim, este mercado dá origem a dois rendimentos de capital distintos: mais-valias, quando se vende um imóvel por um preço superior ao de compra; e rendas, quando se arrenda.
 
Mas o que é que isso tem de especial? Também o mercado do ouro permite fazer isso. Eu posso comprar e vender colares de ouro, e posso arrendá-los, e no processo vou "pondo o meu dinheiro a trabalhar por mim", que é uma expressão de péssimo gosto, que demonstra como as pessoas aceitam de bom grado a ideia do capitalismo e dos rendimentos de capital fáceis, enquanto outros têm de se matar a trabalhar para conseguir sobreviver.
 
Quem diz o mercado do ouro, onde efectivamente os capitalistas também investem, diz outro mercado qualquer. Só que ao contrário do mercado do ouro ou de outro mercado qualquer, o mercado dos imóveis tem algumas particularidades que o tornam especialmente apetecível. Essencialmente, ele é pouco volátil e é garantido. A procura da habitações nunca irá variar muito rapidamente, nem a oferta de habitações. Isso significa que todas as tendências são facilmente antecipadas e o risco torna-se muito pequeno. Mas, para além disso, os imóveis, não apenas os edifícios, mas também os terrenos, são provavelmente as melhores reservas de valor que existem: serão sempre um recurso escasso, serão sempre cobiçados, terão sempre utilidade. Os únicos problemas que os investidores neste mercado têm são os custos de manutenção e um tempo potencialmente longo entre a decisão de venda e a sua concretização. De resto, é só benefícios!
 
Não admira, portanto, que todos os membros do governo possuam muitos imóveis. Não admira, na verdade, que qualquer pessoa com algum dinheiro neste país possua uma data de imóveis. É seguro, e dá dinheiro a rodos!
 
Porque é que isto é importante para compreender o aumento dos preços no mercado da habitação?
 
Nós levamos com a ladainha da oferta e da procura sistematicamente para explicar variações nos preços. Devíamos ter mais juízo do que acreditar nessa ladainha. Veja-se o que aconteceu recentemente com o preço do petróleo ou do gás: ele continua a ser extraído da terra, nós continuamos a consumi-lo, mas o seu preço anda por aí a vaguear. E isso, só por si, já nos devia ter feito pensar que não é só uma questão de oferta e procura, pelo menos não na forma com que aparece na ladainha.
 
Imaginemos que, por algum estranho acaso, nenhum dono de habitação quer vender. Quem quer comprar, não encontra a quem. Neste cenário, os mais dotados de capital, que podem e querem insistir na compra, oferecerão fortunas. Até que há um dono de uma habitação que cede, e vende a casa por uma fortuna. O que acontece é que o preço das casas no mercado, por causa dessa compra, passa a ser uma fortuna. A procura aumentou? A oferta diminuiu? O que é que se quer dizer quando se fala de procura e oferta?
 
Se o mercado dos imóveis é muito apetecível para quem tem dinheiro, é aí que irão investir. E irão querer beneficiar do seu investimento: aumentando posteriormente o preço de venda, ou arrendando ao máximo que conseguirem. O dinheiro que fizerem num lado, irão investi-lo no outro. Cedo o mercado estará pejado de gente que tem muitos imóveis a vender ou arrendar.
 
Se você possuir uma casa, irá perder a oportunidade de fazer dinheiro com ela se essa oportunidade existir?
 
E é neste contexto que surge o que os homens microeconómicos chamariam de "agente": a gente. Nós. Pessoas como nós, que precisam de uma casa para viver, e não a têm. Que precisam de comprar, se houver uma boa oportunidade, ou então precisam de arrendar, se o ordenado permitir.
 
Qual vos parece ser o balanço de poderes entre estes agentes que precisam de casa para viver e a malta endinheirada que investe para conseguir fazer ainda mais? A sério. Digam lá. Acham que o capitalista vai baixar o preço porque percebe que o comprador ou arrendatário precisa mesmo de casa e não pode pagar mais?
 
O que é que vos parece?...
 
Os preços da habitação subiram por causa de uma "crise na oferta"! Sim, sim! Não foi porque os donos das casas quiseram comprar mais casas. Não foi porque os donos das casas quiserem ganhar dinheiro vendendo-as mais caras. Não foi porque quiserem ganhar dinheiro arrendando-as mais caras. Não foi porque os donos das casas podem esperar para vender mais tarde por um preço mais alto. Não foi por eles se estarem a marimbar para as necessidades de quem precisa de casa. É claro que não foi por nada disso! Isso é apenas o mercado! É assim que os mercados funcionam, e este é apenas mais um deles! A culpa é da falta dos guindastes!
 
Os homens microeconómicos só vão ter dificuldade em explicar porque é que o mercado não funcionou, nomeadamente porque é que os magnatas não começaram todos a construir habitação social nos centros das cidades quando o preço das casas subiu. Mas enfim, talvez isso seja fácil de explicar: foi o "socialismo".

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Você decide!...

ou:

O preço da habitação, a democracia e as vacinas da gripe...

(isto é uma imagem de "curvas de indiferença", uma peça do arsenal matemático que os microeconomistas utilizam para nos convencerem de que os seres humanos são egoístas e os mercados são o melhor que há)


O Outono chegou. Aqui, na ilha Terceira, aquilo que já é uma época difícil para o meu nariz torna-se igualmente complicada para os pulmões. Não são apenas os pólens, mas também os esporos dos fungos, que proliferam muito contra a minha vontade nas folhas dos tomateiros, nas madeiras dos móveis, enfim, por todo o lado. Nada contra o Outono em si, estação recheada de coisas maravilhosas, embora muitas das que me lembro ocorram noutras paragens que não no meio do oceano: as romãs, as cores das folhas antes, durante e depois da sua queda, os cogumelos, embora aqui também haja alguns, e também há algumas castanhas.

O meu sistema imunitário não é dos melhores. Costumo dizer que apanho tudo o que anda no ar. Será aquela coisa de ver em cada ameaça uma oportunidade? Não será isso pura estupidez? Enfim, acho que engripar é algo que, para lá das medidas preventivas usuais, não consigo evitar com mais ou com menos estupidez. E, portanto, recorro às vacinas.

Não me enquadro em qualquer grupo de risco. Suspeito que os grupos de risco são definidos em gabinetes por técnicos economistas e contabilistas (pelo menos enquanto não forem substituídos pela coisa artificial que também anda no ar) que contam os mortos, correlacionam as características dos indivíduos, verificam o cabimento do orçamento da saúde e da doença para as vacinas da gripe, o preço das farmacêuticas, computam tudo muito bem, e no final fazem o balanço custo-benefício, onde pessoas como eu são custos e não conseguem grandes benefícios. Ainda posso apanhar gripe sem grave risco de perecer, portanto eu que me amanhe.

Em tempos cheguei a acreditar que o dito sistema de saúde zelava mesmo pela saúde das pessoas. Levei tempo a perceber quão profunda e larga vai esta análise de custos e benefícios e como cada ameaça no sistema público é uma oportunidade no outro sistema, que podia ser chamado de parasitário, necrofágico ou simplesmente oportunista, mas em vez disso é chamado de complementar. É um sistema muito particular. Aquilo que um não faz, faz o outro, assim possa a bolsa do cliente, paciente, doente ou como lhe queiram chamar, que isto de estar ao corrente do politicamente correcto nem sempre me assiste. Não temos um sistema de saúde, temos um sistema de doença onde se tentam evitar os casos piores. Se for algo que consigamos gerir com anti-inflamatórios, nem que seja a vida toda a tomar dia-sim-dia-não, então óptimo, conforme me disse há pouco tempo um médico alojado e aconchegado no sistema (ou nos dois), independentemente de isso em qualquer altura lhe ter chegado ou não a produzir anticorpos.

Se eu apanhar gripe, conforme espero, não serei um caso sério, portanto que me amanhe. Mas cá deste lado, como o meu objectivo não é viver a qualquer custo, mas sim levar uma vida tão saudável quanto possível, eu prefiro vacinar-me. Descubro então que preciso de uma receita. Arranjo a receita. Descubro que a receita não me é de grande utilidade quando as farmácias, uma atrás da outra, me dizem que têm poucas, que não têm, que têm lista de espera.

Ou seja: com ou sem receita, não há vacinas!

Talvez venha a haver. Talvez não. Ninguém sabe.

Eu quero protestar. Mas não há ninguém a quem protestar. As farmácias gostariam de ter mais para vender, mas não receberam. Os médicos não têm nada a ver com isso. Não é culpa do ministério da doença, porque as farmacêuticas é que decidem as quantidades que produzem. Não é culpa de ninguém. Não há responsáveis, só irresponsáveis.

Pois... é apenas o mercado a funcionar. As empresas são privadas, e fazem eles mesmos as suas análises custo-benefício. Nós limitamo-nos a levar com as quantidades e os preços que são determinados algures por aí, nessa nuvem que escapa totalmente ao nosso controlo democrático.

Há poucos anos vivemos essa experiência singular de uma pandemia que pôs muita gente de cabelos em pé, que nos cobriu a cara, e estendeu muitos ao comprido debaixo da terra. De onde vieram as milagrosas vacinas? Do mercado! Das sacrossantas farmacêuticas!

Todos nós precisamos de medicamentos produzidos por estas empresas. Estas empresas são gigantescas e fazem rios de dinheiro. Mas tudo isto é gerido pela mão-invisível e a vontade dos accionistas, independentemente da nossa.

Nessa altura de COVID-19, poucos foram os que questionaram o porquê de o sector público não possuir empresas capazes de abastecer as populações dos medicamentos necessários. A pandemia passou, e passou a oportunidade. Regressámos ao normal. Todos precisamos de medicamentos e todos dependemos da vontade de uns iluminados abastados fazerem mais dinheiro às nossas custas (e à custa dos estagiários que trabalham nos seus laboratórios e atrás dos seus balcões). Aparentemente não passa pela cabeça de ninguém que, sendo os medicamentos uma necessidade básica, universal, regular, o Estado deveria assumir essa responsabilidade.

De resto, vivemos tempos em que o Estado se vai descartando, ora paulatinamente, ora abruptamente, de cada umas das suas responsabilidades, e os cidadãos vão anuindo e aderindo com mais ou menos ou nenhum resmungo ao seguro de saúde, ao empréstimo para o ensino, ao plano de poupança-reforma, às portagens, às taxas moderadoras.

 

 

Os centros das cidades têm sido tomados lentamente, ao longo das últimas décadas, pela mão-invisível. O mercado chegou e decretou que havia ali resmas de oportunidades para forasteiros e de ameaças para quem já lá estava: ora vamos lá a ver quem é que está disposto a pagar mais: é o inquilino actual ou o novo migrante de Trás-os-Montes? ou será o banco? ou o fundo de investimento? alto! parece que estou a ver ali atrás um turista interessado! mas o empresário aqui da frente cobre a oferta com um projecto de desenvolvimento turístico que promete criar dezenas de empregos mal pagos!

A população portuguesa não aumentou significativamente nestas últimas décadas. Nem sequer com os fluxos migratórios. No ano 2000 havia em Portugal, em termos médios, pouco mais de 2 pessoas para cada habitação. Agora há pouco menos de 2 pessoas para cada habitação. O número de habitações entre estas duas datas aumentou em cerca de um milhão, mais do que o aumento populacional, e consequentemente hoje há relativamente mais casas do que havia no ano 2000. Também nos centros das cidades os aumentos populacionais foram mais do que compensados pelos aumentos do número de habitações.

Entretanto, desde 2000 até agora, o preço médio de um T2 de 80 m2 passou em Lisboa de 90 mil euros para 380 mil euros, e no todo nacional de 64 mil euros para 190 mil euros. Ou seja, numa aproximação grosseira, triplicou. Quanto às rendas, para um mesmo apartamento, passaram em Lisboa de 360 euros mensais para 1900, e na média nacional de 200 para 800. Ou seja, quadruplicaram.

Porquê? Os apologistas dos mercados explicam: há uma crise de oferta! A mão invisível não falha! O que falta é mais habitações! Se a oferta aumentar muito, eventualmente os preços acabam por baixar.

Mas nós, que temos obrigação de ter mais juízo, percebemos que há hoje mais habitações per capita do que havia no ano 2000, e portanto alguma coisa não bate certo nessa narrativa.

O que aconteceu e continua a acontecer é, de facto, a mão-invisível a trabalhar. São os mercados, de facto, a fazerem a sua coisa. Só que a versão que nos propagandeiam nas escolas e nos noticiários sobre o funcionamento dos mercados omite o essencial: as diferenças de poder entre os agentes que nele se encontram para comprar e vender o respectivo bem ou serviço. Na versão dos compêndios, quando o número de habitações aumenta, o preço desce, e quando há mais pessoas a precisar de habitações, o preço sobe. Na versão real, as quantidades podem ser exactamente as mesmas, de pessoas e de habitações, mas os donos dos bens decidem em conjunto triplicar todos os preços, e já está, os preços triplicam, porque as pessoas continuam a comprar, porque continuam a precisar dos bens. Na versão real, os donos dos bens decidem aumentar o seu número no mercado ou diminuí-lo, conforme as suas conveniências. Na versão real, os compradores não são todos iguais, nem têm todos as mesmas necessidades ou o mesmo poder, e alguns, mesmo não precisando, podem açambarcar metade de tudo o que está disponível de uma assentada.

Essa versão limpinha dos compêndios torna-se cómica quando o que está a ser transaccionado são coisas como o nosso próprio trabalho. E se é dele que nós dependemos para termos comida na mesa e um tecto para nos abrigar, então além de cómico o caso fica trágico. Falamos do "mercado do trabalho". Os "agentes" encontram-se nesse lugar fictício para comprar a vender trabalho. Eu quero comprar 100 horas, tu queres vender 300 horas, no final a coisa compõe-se toda, curva da oferta, curva da procura, e já está, temos negócio e um preço para o trabalho. O facto destes agentes terem poderes geralmente muitíssimo diferentes, passa completamente ao lado dos compêndios. Entretanto, nós ficamos a imaginar como seria colocar um anúncio para empregadores e depois entrevistar os representantes das empresas, um a um, muito nervosos e com medo de não serem seleccionados, sujeitando-os a todo o tipo de exames individuais e conjuntos, e escrutinando todo o seu currículo desde o momento do nascimento, pedindo com um ar inquisitório mais explicações para cada pausa na produção. Nesse mercado de trabalho eu não me preocuparia de ser um vendedor!

De volta aos centros das cidades, eles têm sido tomados por quem no mercado desses espaços tem mais poder. Chamam-lhe gentrificação. Os espaços, sejam eles alojamentos ou edifícios inteiros, terrenos ou tudo o que o dinheiro possa comprar, são adquiridos por quem pode pagar mais. Os habitantes locais que não podem acompanhar a subida dos preços são removidos para zonas acessíveis às suas bolsas, ou passam a partilhar camas em sofisticados sistemas de bed-sharing, em que uns usufruem da cama no início da noite, outros de manhã e outros à tarde. Os espaços são então entregues a forasteiros, Madonnas, nómadas digitais, passageiros de transatlânticos em rota para outro destino, grupos financeiros sediados em Hong Kong, Manhattan ou Berlim. No final as cidades transformam-se em enormes centros comerciais ao ar livre: casas muito arranjadas, ruas limpinhas, gente fina, metade nem falam português, nem se conhecem uns aos outros, querem lá saber do que significa um tripeiro ou um alfacinha de gema, mas frequentam a Zara e o Hard Rock café. Em vez do raminho de salsa do vaso da vizinha, preferem Nestlé. E há quem prefira assim. As ruas estão mais arranjadas. Menos roupa estendida a corar ao cheiro da sardinha assada. A opinião de quem morava lá antes é o que menos interessa.

Um amigo meu nasceu, cresceu e viveu a vida toda em Lisboa. Depois de uma temporada a cuidar do pai, este faleceu. O senhorio aumentou a renda cinco vezes. Ele disse adeus a Lisboa.

São os mercados a funcionar. É só isso.

 

 

Ali pela costa do Alentejo, há cada vez mais sítios onde conseguir chegar ao mar parece um jogo de computador daqueles com tiros e cinco vidas que vais perdendo a tentar passar de nível. Até mais ver, a areia das praias continua a ser pública. Não sei quanto tempo mais levará até à mão-invisível agarrar também isso. Mas para já é assim. Só que os terrenos que permitem o acesso a essas areias são privados. Cada vez mais privados, selectos, exclusivos, vedados, farpados, rodeados de câmaras e vigilantes. As servidões de passagem fazem parte do conjunto de coisas que a lei ainda estipula mas o mercado menospreza. O crime às vezes pode compensar. O mercado analisa e decide.

 

 

É isto o mercado. O mercado livre, pá! Quando ouvires falar de "liberal" no contexto político ou económico, pensa melhor. Mercados livres, totalmente livres, nunca existiram ao longo da história da humanidade, e por bons motivos. Duvidas, pá? Vai à biblioteca, requisita os livros de história, aprende. Ninguém no seu juízo deixa que as coisas sejam decididas por fantasmas invisíveis, e nenhuma comunidade democrática aceita que o poder de uns poucos se imponha a todos os demais.

Falar de liberdade é o mesmo que falar de paz: se falamos no abstracto, nada dizemos, só palavras vazias que nada significam. Podemos estar em paz e eu sentado no teu lombo, pacificamente exterminando pessoas em campos de concentração, pacificamente lavando o cérebro das crianças nas escolas oficiais. Podemos ser livres de comprar armas, de comprar pessoas e de as pôr a render. Quando falamos de liberdade, temos de ter sempre o cuidado de definir clara e especificamente quais as liberdades que queremos defender. Liberdade nos mercados onde se encontram magnatas e pessoas como eu e tu é uma péssima ideia. Se duvidas, olha o que está a acontecer com preço da habitação e com o teu salário.

O petróleo sai da terra ao mesmo ritmo que saía há uns anos atrás. Os navios transportam-no à mesma velocidade. As refinarias funcionam de igual forma e nós consumimo-lo com a mesmíssima sofreguidão. Está tudo igual. Mas o preço é outro. É o mercado.

A dívida pública portuguesa era ontem de cerca de 90% do PIB. Hoje é cerca de 90% do PIB. Quem determina se tu pagas mais ou menos por ela? O mercado.

Tentaste ler o mercado e incentivaste os teus filhos a formarem-se no que estava a dar. Eles nutriram esse sonho. Formaram-se e quando lá chegaram todos os sonhos se esfumaram. O que aconteceu? Foi o mercado!

E se não tiveres sorte com esse mercado, o mercado onde te vendes todos os dias em troca de sustento, seja o salário mínimo ou dez vezes isso, então nenhum dos outros mercados te servirá, porque um corpo que não é trocado por dinheiro, um corpo que não é cobiçado e não tem dinheiro, vale zero e nada pode comprar.

 

 

Voltamos à gripe. Não é precisa uma inteligência artificial para conseguir gerir a produção de vacinas da gripe. A nossa inteligência natural, por poucochinha que seja, será suficiente. Quem nos levou a acreditar, então, que era melhor desistir de ter algum poder sobre isso, e que seria melhor o tal mercado tratar do assunto?

Fazem parte do currículo das escolas de economia conceitos como o "excedente do produtor" e o "excedente do consumidor". Os estudantes de economia não voltam a ouvir falar desse assunto durante o resto da sua vida. Nunca ninguém calculou, na vida real, semelhantes "excedentes". Muito raramente eles são estimados de forma grosseira para justificar uma opção económica. Mas eles são sempre ensinados porque cumprem um papel crucial na cartilha dos economistas liberais, os tais que defendem mercados sem regras e, já agora, sem árbitros: eles ajudam a demonstrar, no mundo virtual dos homo economicus, que qualquer tentativa de interferência directa nas quantidades ou preços transaccionados nos mercados irá resultar numa perda global nesses excedentes, e portanto será pior em termos globais para a sociedade.

Fazem parte dos currículos de cadeiras de economia, história e geografia do secundário, e de muitas outras do ensino superior, as economias de planificação central. Quando existe planificação central, as quantidades e preços não são determinados "livremente" nos mercados, mas antes são definidos por instituições que representam os interesses das pessoas. Quando isso é estudado, quase sempre é feita uma associação entre a planificação central e a União Soviética, ou países com sistemas políticos comparáveis. A seu tempo, no devido contexto e com a devida cartilha, esses países e esses sistemas políticos são devidamente achincalhados. O resultado não podia ser outro senão o de gerar a crença de que planificação, central ou não, é uma coisa de ditadores autocráticos e maléficos, que inevitavelmente vem acompanhada de filas de espera para comprar qualquer tipo de bem essencial, a começar pela manteiga. Pelo caminho secundariza-se totalmente, e não se estuda devidamente, o que acontece com os compradores e vendedores do mercado global de petróleo, o que acontece com os sistemas nacionais de saúde ou de defesa, planos de recuperação e resiliência, gestão de dívidas públicas, ou em tantos outros casos onde existe uma planificação, feita a nível central em cada país, que efectivamente determina, com ou sem a presença de interesses privados, a quantidade, a qualidade e o preço dos bens e serviços que irão ser produzidos.

Um dos objectivos fundamentais da constituição da União Europeia, que já vem do tempo do Benelux e que é também uma consequência do contexto posterior à Segunda Guerra Mundial, é o da auto-suficiência alimentar. Esse objectivo acabou por dar origem à Política Agrícola Comum, que durante muito tempo foi a política europeia que absorvia a maior fatia do orçamento. Através dessa política, os representantes das pessoas direccionaram os esforços dos agentes privados de forma a garantirem a auto-suficiência alimentar dos povos europeus. Os mecanismos postos em prática conduziram os preços, as quantidades e os tipos de bens e serviços para aquilo que se pretendia. Mas como os agentes não eram todos estatais e os mercados eram "livres", os estudiosos dirão que isto nada tem a ver com planificação central, e a mística prossegue intocada. Chega a ser patético!

Mas não é só nos bancos das escolas que se aprende que os mercados sem regras são o melhor para todos nós. De cada vez que a democracia é posta na gaveta, a mensagem que passa é a de que as pessoas não são capazes de se encontrarem, discutirem, decidirem e fazerem sobre aquilo que é público e diz respeito a todos. É o contrário da emancipação. Nós emancipamo-nos quando assumimos directamente a responsabilidade pelas coisas que nos dizem respeito, libertando-nos das amarras que nos prendem a vontades alheias. Pelo contrário, nós subjugamo-nos quando prescindimos, quantas vezes voluntariamente, do poder de decisão, para o deixar nas mãos de outros que entendemos serem mais capazes do que nós.

Ora nós nascemos e acordamos todos os dias para um mundo onde pouco ou nada depende da nossa vontade. Nós, sozinhos ou acompanhados com os nossos familiares, ou amigos, ou colegas de trabalho, ou vizinhos, geralmente nunca temos poder para decidir o que quer que seja das nossas vidas. Nós não decidimos se devemos produzir gravatas ou alfinetes, nem com que meios, onde ou a que horas. Nós não decidimos sobre a rede de estradas, o tipo de veículos que nelas circulam ou o respectivo combustível. Não decidimos as leis. Não decidimos praticamente nada. E quando uma situação se torna tão insustentável que as pessoas implicadas decidem juntar-se para tentar mudar alguma coisa, são tratados invariavelmente como os anormais de serviço, os arruaceiros da acampada do Rossio, os que agora querem proteger os seus pinhais contra as empresas da exploração do lítio, os grevistas que exigem melhores salários, enfim, os insurrectos desalinhados que parece que não tiveram a devida educação para serem serenos, como se diz que o povo é, mesmo quando aguenta coisas que não devia aguentar.

Nós não decidimos nada. Deixamos os mercados livres decidir por nós, sem nos preocuparmos em saber o que isso significa e quais os poderes que efectivamente acabam por controlá-los, e quando a coisa dá para o torto, achamos que o necessário é alguém com mão de ferro que faça uma limpeza geral.

A propaganda que nos faz deixar de acreditar na nossa capacidade de planear e decidir sobre o que fazer com as nossas vidas e as coisas que lhe são essenciais, como a saúde, a educação, a habitação, os transportes, a economia em geral... essa propaganda é ubíqua. Se quisermos, é ela própria um fruto de uma planificação central que nos ensinaram a desconhecer. Mais depressa temos a inteligência artificial a decidir das nossas vidas do que sermos nós mesmos a fazê-lo.

E os preços das habitações e do petróleo, tal como a disponibilidade de vacinas para a gripe, hão-de continuar a ser aparentemente livres, condicionados a sabe-se lá que forças ocultas, mas certamente nunca à nossa vontade. Há muitas e boas razões para se ser anticapitalista.

De resto, trabalhamos todos afincadamente para a redução da nossa pegada ecológica e das emissões globais de carbono, ao mesmo tempo que a liberdade dos mercados nos conduz para a catástrofe ambiental global.

Afinal quem é que decide?

PS – Algumas semanas depois de eu ter escrito isto chegaram finalmente vacinas suficientes para me apanhar na lista de espera. Afinal já sou capitalista! Não... era obviamente uma piada.

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

De Mirandela a Podence...


De Mirandela a Podence

jorra água das fontes secas
refresca o sol queimado
empurra o vento arrasado
e eu
fluo enconsta arriba,
esbagaçado...

continuo...


flui nas fontes extenuadas
água empurrando o sol seco
refrescado o vento esbagaça
e eu
jorro encosta a pique,
requeimado...

insisto...


arriba queima o sol irradiado
chupa a água seca dessas fon...
o vento que não buge atrapalhá...
subo a pino a encos...
despachá
o sopro
arfant'
o rabo
assado.


(de bicicleta
às duas da tarde
e 38ºC à sombra
no dia 10 de Agosto de 2026)



Angra, 28 de Setembro de 2026

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

O sicofanta, o resiliente e o pavão...

 

Sicofanta

Apareceu-me há pouco tempo num texto esta palavra rara: sicofanta. Não sabia o que era.

O dicionário diz "pessoa que acusa ou denuncia, o mesmo que acusador, delator, denunciante. pessoa que dá ou inventa informações falsas, o mesmo que caluniador, difamador, mentiroso". A palavra vem do grego antigo e significa literalmente aquele que mostra os figos. Como a palavra acabou por adquirir o significado de denunciante é controverso. Menos controverso, contudo, parece ser o processo pelo qual a palavra ganhou outro significado, o de bajulador. Aparentemente os poderosos antigos recorriam a sicofantas, denunciantes, como uma espécie de investigadores, detectives ou polícias, acusando os prevaricadores. Os poderosos perceberam então que podiam utilizar os sicofantas para denegrir o nome de quem desejassem. Simultaneamente, os sicofantas perceberam que podiam continuar a vender os seus serviços desde que agradassem ao senhor poderoso, independentemente das suas acusações serem verdadeiras ou não.

Conclusão: sicofanta, um denunciante, um caluniador ou um bajulador. Ora, como a língua portuguesa possui diversos sinónimos para esses termos, não admira que a palavra seja pouco utilizada.

Por que é que a palavra me apareceu à frente então?

Aparentemente a palavra sicofanta reapareceu nos últimos anos no contexto do desenvolvimento e utilização de computadores, tendo o advento da utilização massiva da Inteligência Artificial (IA) sido o maior motivador. Dado o contexto e a actualidade, não admira que esse ressurgimento tenha ocorrido sobretudo na língua inglesa. Ora, nesta língua, e ao contrário do que acontece tradicionalmente no português, o seu significado comum é o de bajulador. Os modelos utilizados pela IA são conhecidos por alterarem as suas respostas de forma a satisfazer os utilizadores, no que pode ser considerado uma bajulação, e portanto "sychophancy".

Sendo assim, e dada esta necessidade que as pessoas sentem em demonstrar que estão sempre a surfar a crista da onda vanguardista, suspeito que iremos observar ao declínio do significado de delator, para essa palavra, e à utilização preferencial para o significado de bajulador. Isto até que um dia a onda passe, todos se esqueçam do que aconteceu, mas o significado da palavra fique indelevelmente modificado.

Resiliente

Ao contrário da origem mais obscura do significado da palavra sicofanta, a palavra resiliente tem uma origem bem mais clara: vem do latim e significa literalmente voltar a sair. A palavra é originalmente empregue para caracterizar materiais que depois de se deformarem em resultado de uma pancada, regressam elasticamente à sua posição inicial.

Contactei pela primeira vez com esta palavra no contexto da ciência dos materiais. Ela era e é usada para descrever precisamente essa característica dos materiais que conseguem absorver elasticamente um impacto, regressando depois à sua forma original.

Nos anos seguintes e mais recentes, contudo, fomos invadidos com o uso da palavra resiliente em tudo o que tem a ver com psicologia, com o mundo empresarial e com a política. Na psicologia, por exemplo, o termo é utilizado para caracterizar a capacidade de um indivíduo recuperar o seu equilíbrio emocional (ou outro) depois de ter sofrido uma experiência negativa. Este significado não é exactamente o mesmo que na ciência dos materiais, uma vez que as pessoas não regressam exactamente à sua situação inicial depois da tal experiência negativa. Noutros contextos, a palavra resiliente acaba por ser um pouco um eufemismo, uma vez que significa a capacidade das pessoas, ou das empresas, ou da economia, levarem pancadaria, e mesmo assim seguirem em frente com as suas vidas.

Não sei se existem sinónimos alternativos e melhores da palavra resiliente em cada um destes contextos. Sei é que está bem documentada a tendência das ciências sociais (e afins, incluindo as pseudociências) de recrutarem termos técnicos da área das ciências exactas (seja lá o que isso for), de forma a imprimir um carácter aparentemente mais rigoroso e confiável ao seu discurso (ver, por exemplo, "Imposturas intelectuais" de Alan Sokal).

O elemento em comum

O que estes neologismos, renascimentos, ressignificações, apropriações e também invenções têm muitas vezes em comum é uma tentativa de tornar o discurso mais credível através da sua forma e não do seu conteúdo. Deste ponto de vista, são uma farsa.

Não sou especialista em semiótica, mas sei que as palavras são símbolos e como tal cumprem diversas funções. Uma delas é precisamente a de tornar possível a linguagem e a comunicação: se de cada vez que eu quiser transmitir a outra pessoa que o pão está duro, não puder utilizar a palavra pão, porque ela simplesmente não existe, a comunicação será mais difícil. Isso funciona para simples objectos, mas também funciona para entidades mais complexas, como por exemplo para movimentos sociais. As palavras têm aí também a função de dar existência às coisas: a partir do momento em que inventamos o termo "feminismo", esse conjunto de preocupações e atitudes, esse posicionamento político, esse movimento social, passou a ser uma coisa com real existência. Sei, para além disso, que as palavras possuem também conotações e contextos onde são maioritariamente empregues, pelo que o uso de termos sinónimos, mas diferentes, pode conduzir o interlocutor num ou noutro caminho.

Tomemos por exemplo estes dois parágrafos:

Pá, o gajo é um mega bajulador e passa a vida a dar graxa ao chefe só para ver se consegue subir na empresa e lixar os outros. Mas o pior é que a malta agora percebeu que a IA da firma faz igualzinho: o bicho finge que concorda com tudo o que a gente diz só para nos lamber as botas e nos deixar contentes, em vez de mandar a verdade nua e crua.

O indivíduo manifesta uma conduta marcadamente sicofântica, instrumentalizando a adulação sistemática perante a liderança autocrática como vetor de ascensão socioprofissional e sabotagem interpares. Concomitantemente, observou-se uma homologia comportamental no sistema conversacional automatizado corporativo, cujo fenómeno de sicofantismo algorítmico enviesa as respostas em direção à validação heurística do utilizador, preterindo a fidedignidade factual em prol da condescendência relacional.


Quando digo que a escolha das palavras ajuda a conduzir o interlocutor num ou noutro caminho, refiro-me também àquilo que todos fazemos consciente ou inconscientemente, que é avaliar a qualidade do discurso e de quem o profere e/ou é seu autor, atribuindo ao mesmo tempo maior ou menor credibilidade ao seu conteúdo.

O elemento comum no uso da palavra resiliente no contexto das ciências sociais ou do uso da palavra sicofanta, é que simultaneamente torna o discurso mais opaco, hermético, eventualmente até inalcançável, não acrescenta nada ao seu conteúdo, mas cria no receptor a percepção de que ele é mais válido, mais rigoroso, mais credível, estendendo-se esta percepção a quem o profere.

Temos então um público que consciente ou inconscientemente está pronto a avaliar o conteúdo de um discurso em função do palavreado que ele utiliza, e não só isso, mas que acredita que quanto mais complexo e ininteligível ele é, mais verdadeiro é; e temos ao mesmo tempo um conjunto de oradores que sabem que o seu público é assim, e portanto abusam de termos sofisticados com a intenção de parecerem ser mais conhecedores, sérios, rigorosos e credíveis que todos os outros.

A mim cansa-me isto tudo.

Lembro-me de Feynman que dizia que só conseguimos explicar aos outros uma coisa de forma que eles compreendam, quando nós próprios a compreendemos bem. A verdadeira compreensão, defendia, está na capacidade de tornar o complexo em simples. Isto é o que deviam fazer todos os oradores ou escritores que verdadeiramente estão interessados em passar uma mensagem a um público. Isto é o que deviam fazer todos os públicos que verdadeiramente estão interessados em compreender um qualquer assunto. Mas não é nada disto que acontece. Isto cansa-me, claro, porque estou a tentar ver coisas onde elas não existem. O que existe, na verdade, é um conjunto de pessoas que utilizam as palavras para se mostrarem aos outros, como os pavões utilizam as suas penas, e outro conjunto de pessoas que utilizam as palavras para escolher de quem se irão tornar seguidores e quem serão os seus companheiros de grupo. Nada disto tem a ver com tentativas de compreensão de seja o que for. 


quarta-feira, 10 de junho de 2026

Dia de Portugal, da agressividade normalizada, do conformismo realista, da auto e da heterobajulação

 


Excelentíssimas senhoras e excelentíssimos senhores,

representantes uns dos outros

e dos respectivos interesses,

meretíssimos e digníssimos jogadores do poder,

senhores uns dos outros,

e respectivos aspirantes:

Hoje, Portugal continua a ser um pedaço de terra

que, em conjunto com todos os outros pedaços de terra dos outros países

perfaz a terra toda do planeta Terra.

Mas Portugal não é apenas esse pedaço de terra!

É também as pessoas que lá vivem,

pessoas que como todas as outras pessoas da Terra

possuem cabeça, tronco e membros,

sonhos, necessidades e desejos,

medos e angústias

e vontade de se sentirem bem

consigo mesmas e com os outros.

Em Portugal os pais desejam o melhor para os seus filhos,

e choram de desgosto quando lhes morre um familiar ou um amigo,

tal como acontece em todos os outros países do Mundo.

Mas os portugueses distinguem-se dos outros povos pela sua cultura,

pelo modo como falam, como cozinham e ocupam os seus tempos livres,

tal como qualquer par de vizinhos também se distingue entre si,

apesar de serem profundamente semelhantes

naquilo que é verdadeiramente importante.

Herdamos as fronteiras que outros riscaram no nosso planeta,

tal como herdamos os discursos do "dia da raça"

que nos dizem sermos diferentes dos outros,

apesar de sabermos que somos muito mais iguais do que diferentes.

Os representantes uns dos outros,

e dos respectivos interesses,

sabem como é importante dividir os povos no planeta

porque é impossível "governar" todos em simultâneo

mas é possível governar um só,

desde que ele seja governável.

Para governar um povo

é necessário que ele acredite que é uno e distinto dos demais,

é necessário que ele veja nos outros uma ameaça,

e esteja disposto a manipular máquinas de incrível poder destrutivo

para garantir essa diferença.

Para governar um povo

é necessário que ele se submeta às leis

que para o reger elaborámos

e que saiba reconhecer em nós,

excelentíssimos representantes uns dos outros,

uma superioridade que não está ao seu alcance.

Governar um povo assim é indispensável

num mundo onde outros governantes

de outros povos iguais ao nosso

ameaçam ultrapassar o nosso poder.

O povo português é um povo capaz

que sabe obedecer ao chamamento da produtividade,

da criatividade e do desenrascanço.

Mas não podemos adormecer à sombra dessas qualidades.

A competição entre os representantes dos representantes,

que fragmenta o Mundo em países e povos diferenciados,

e lhes inculca um saudável espírito competitivo,

uns contra os outros,

e todos contra todos,

obriga-nos, para não perdermos a corrida, a batalha, a luta,

a superação, a ultrapassagem, o progresso, o crescimento,

a inovação, a transformação e a marcha inelutável dos tempos,

a dotarmos os portugueses de mais e melhores ferramentas

de obediência e desenvolvimento.

Precisamos de escolas que formem melhor capital humano.

Precisamos de hospitais que diminuam os tempos de baixa médica.

Precisamos de vias de comunicação para escoar as matérias primas

e os produtos de que é feita a felicidade dos portugueses,

e a nossa.

Precisamos ainda de canais, tecnologias e todos os meios necessários

à veiculação sistemática de mensagens motivacionais,

que façam o português comum perceber a importância do seu trabalho

no financiamento de todos estes investimentos

necessários ao seu trabalho,

e à felicidade de todos!

Mas a mensagem que todos, e eu também, temos de nos empenhar em transmitir,

é que os portugueses são capazes disso tudo,

mas isso só não é suficiente!

Os portugueses têm de manter o olho aberto

aos líderes dos outros países como o nosso,

que querem para si o que nós queremos para nós!

Essa ameaça permanente é também uma oportunidade permanente

de canalizarmos recursos para a renovação e melhoria

da máquina de paz e de defesa.

Cada caça supersónico, cada drone militar, cada bomba

conseguida com o esforço de um português

é um passo dado no caminho da sua emancipação

e da sua afirmação

no xadrez geopolítico contemporâneo

onde, como desde há milénios,

os povos se aniquilam mutuamente por vontade dos respectivos líderes,

dos representantes dos representantes,

e dos respectivos interesses.

Excelentíssimas senhoras e senhores,

Portugal tem dez milhões de habitantes,

mas são muitos mais aqueles que noutros países

sabem vergar-se, obedecer e respeitar o poder das autoridades portuguesas,

e o significado dos símbolos por nós adoptados

para os distinguirmos de todos os outros.

Às vezes, alguns portugueses podem sentir-se abandonados por nós.

Por isso mesmo considero importante celebrar o dia da ideia da coisa que Portugal é

junto das pessoas que habitam lugares mais remotos.

É importante que todos se sintam unidos

nas diferenças perante os demais,

que tanto nos temos empenhado em construir e preservar,

ao longo de tantos séculos.

E se o presidente não pode estar sempre fisicamente junto do seu povo,

por não deter o dom da ubiquidade,

a bandeira, o hino e os demais símbolos nacionais ajudarão

a que nunca o povo se esqueça de onde reside a sua liderança,

para onde deverá remar,

e quais os impostos que deverá pagar

a fim de se financiar a si mesmo

e a nós.

Saiba o povo ser empenhado, dedicado, honesto,

responsável, trabalhador, honrado,

confiável, leal, humilde e medroso,

mas também confiante, fiel, resiliente

e perseverante na ausência de ideais em que o soubemos educar,

saiba o povo escolher as palavras do meio,

que como todos sabem é onde está a virtude,

saiba o povo ser moderado e sereno,

nunca caindo nos radicalismos de quem quer ver mais

do que aquilo que lhe é dado para ver,

e os representantes dos representantes

poderão assegurar-se que os seus interesses continuarão a ser respeitados,

por muitos e muitos séculos,

muitos mais do que aqueles todos de onde viemos,

e de onde já alguém poderia e deveria ter aprendido alguma coisa,

mas não.

A todas e a todos um santo e laico dia das diferenças artificiais,

e das asas de ferro, boinas mandadas, símbolos e todo o manancial

de coisas que inventamos

para que o povo acredite que é de entre todos o mais especial.

segunda-feira, 8 de junho de 2026

We love americans - uma mensagem iraniana...

We love americans, but not their leaders.

Um vídeo iraniano, parte de uma campanha de vídeos feitos com bonecos Lego que tentam combater a imagem estereotipada que os "ocidentais" têm dos iranianos, como se eles não fossem gente. A letra desta música contém a essência de tantos enganos, não apenas nos EUA, mas em tantos outros países, incluindo Portugal. Para ver, ouvir, e sobretudo ler atentamente.

Em baixo a letra original em inglês, seguida de uma tradução quase-automática para português.


Em inglês:

We do not hate you, people of the West.
We see you through the smoke of what they call progress.
We have watched from across the ocean,
from behind their walls.
And what we see is a people who deserve better than what rules them.
This is not a war cry.
This is a wakeup call.
Open your eyes, brothers and sisters.
The hands that wave your flag
are not the hands that hold you.
Listen:
[Chorus]
We love Americans.
We love your soul.
The land of dreamers, the brave, the bold.
But something sits on top of you.
Dressed in your name.
Spending your children's blood like a game.
We love Americans. Oh yes we do.
But the ones who speak for you don't speak for you.
Wake up. Wake up before the morning's gone.
They built the cage so slow.
You thought it was your home.

Uh yeah. They hand you left and right, like two halves of a lie.
Different faces, different voices, same agenda inside.
One wears a blue suit, one wears a red tie.
But behind closed doors, they shake hands and divide
the taxes from your table, from the war you never chose.
They name it liberation, but it's oil – everyone knows.
They call us terrorists on the television screen.
While the real terrorism wears a suit and gets a pension and a dream.
They sell your children futures built on manufactured debt.
They send those very children off to wars they'll soon forget.
And when the coffins come home, draped in stars and stripes,
nobody on that podium is losing sleep at night.
The media machine spins before the body hits the ground.
A new enemy is needed every time the polls come down.
We watched it from Tehran, from Kabul, from Baghdad too.
The ones they demonized were people just like you.
They said "we hate your freedom", but your freedom is our dream.
We read your constitution. We know what those words mean.
It's the ones who wrote the speeches and then buried what they said.
Who turned that sacred document into a tool of dread.

[Chorus]

Uh uh. The billionaire who funds the law and writes the law himself.
The pharmaceutical machine that keeps you sick for profit and for wealth.
The school that teaches history with chapters torn away
so you never ask the question: who really made it this way?
They gave you social media so you'd argue with your neighbor
while they sign the deals in secret, taking everything you labor
Left versus right, black versus white.
They need you divided because the united people is the only thing they've ever dreaded.
They sanctioned us. They bombed us. They painted us as beasts.
But the ordinary American was never at that feast.
You were working double shifts while they were working diplomats.
You were counting grocery bills while they were counting combat stats.
We don't confuse the empire with the people that it rules.
History is full of kings who turn their own into their tools.
Your founding fathers warned you. Yes, they wrote it clear
that power concentrated is the thing that you should fear.
That foreign wars and secret deals and banks too big to name
were the very seeds of tyranny dressed up in freedom's frame.
And now we watch across the sea and wonder: do they know?
Do the people of that nation see the curtain and the show?
We've lost our brothers, lost our sisters, lost our skies to their machines.
But we separate the people from the politics and schemes
because hatred is their weapon. Love is ours to wield
and truth is the only armor that will never crack or yield.
So we sing this not in anger but in solidarity
that the people of the world want nothing more than to be free
from the ones who take our names and use them for their wars.
We are not your enemies. We're prisoners of the same cause.

[Chorus]

We do not celebrate your suffering.
We mourn it the same way we mourn our own.
Because your mother crying for a soldier is no different
from my mother crying in the rubble.
Pain does not have a passport. And the ones who cause it never feel it.
So to every American reading a headline and feeling confused,
to every citizen wondering why everything feels rigged:
You are not crazy. You are not alone.
And from the other side of the wall they built between us.
We see you. We hear you.
And we are standing here.
Not as your enemy, but as proof that the world...

[Repeat from the beginning]


Em português:

Não vos odiamos, povo do Ocidente.
Vemo-vos através do fumo do que eles chamam progresso.
Observamos do outro lado do oceano, por detrás dos seus muros.
E o que vemos é um povo que merece algo melhor do que aquilo que os governa.
Este não é um grito de guerra.
Este é um alerta.
Abram os olhos, irmãos e irmãs.
As mãos que agitam a vossa bandeira não são as mãos que vos acolhem.
Escutem:

[Refrão]
Nós amamos os americanos.
Amamos a sua alma.
A terra dos sonhadores, dos bravos, dos ousados.
Mas algo pesa sobre vós,
vestido com o vosso nome,
gastando o sangue dos vossos filhos como um jogo.
Nós amamos os americanos. Oh, sim.
Mas aqueles que falam por vós não falam por vós.
Acordem. Acordem antes que a manhã acabe.
Construíram a jaula tão lentamente.
Vocês pensaram que era o vosso lar.

Dão-te esquerda e direita, como duas metades de uma mentira.
Rostos diferentes, vozes diferentes, a mesma agenda por dentro.
Um veste fato azul, o outro gravata vermelha.
Mas, à porta fechada, cumprimentam-se e dividem
os impostos da vossa mesa, da guerra que vocês nunca escolheram.
Chamam-lhe libertação, mas é petróleo – toda a gente sabe.
Chamam-nos terroristas na televisão.
Enquanto o verdadeiro terrorismo veste um fato, recebe uma reforma e um sonho. Vendem aos seus filhos futuros construídos sobre dívidas fabricadas.
Enviam esses mesmos filhos para guerras que em breve esquecerão.
E quando os caixões chegam a casa, cobertos de estrelas e riscas,
ninguém naquele pódio perde o sono à noite.
A máquina dos media gira antes mesmo do corpo tocar no chão.
Um novo inimigo é necessário sempre que as sondagens baixam.
Vimos isso de Teerão, de Cabul, de Bagdade também.
Aqueles que eles demonizaram eram pessoas como vocês.
Diziam "nós odiamos a vossa liberdade", mas a vossa liberdade é o nosso sonho.
Lemos a vossa constituição. Sabemos o que estas palavras significam.
Foram aqueles que escreveram os discursos e depois enterraram o que diziam,
quem transformou este documento sagrado numa ferramenta de terror.

[Refrão]

O bilionário que financia a lei e redige-a ele próprio.
A indústria farmacêutica que te mantém doente para obter lucro e riqueza.
A escola que ensina história com capítulos arrancados para que nunca se pergunte: quem realmente fez isto acontecer?
Deram-vos as redes sociais para que discutissem com os vossos vizinhos
enquanto eles assinam os contratos em segredo, levando tudo o que vocês produzem. Esquerda contra direita, negros contra brancos.
Precisam que vocês estejam divididos porque o povo unido é a única coisa que sempre temeram.
Eles sancionaram-nos. Eles bombardearam-nos. Pintaram-nos como bestas.
Mas o americano comum nunca esteve presente neste banquete.
Vocês trabalhavam em turnos duplos enquanto eles trabalhavam como diplomatas.
Vocês fazem contas ao supermercado enquanto eles contam estatísticas de guerra.
Não confundimos o império com o povo que ele governa.
A história está repleta de reis que transformam os seus próprios cidadãos em ferramentas.
Os vossos "pais fundadores" alertaram-vos.
Sim, deixaram claro que o poder concentrado é o que devem temer.
Que guerras estrangeiras, acordos secretos e bancos demasiado grandes para serem nomeados eram as próprias sementes da tirania disfarçadas de liberdade.
E agora observamos do outro lado do oceano e perguntamo-nos: será que eles sabem? Será que o povo daquela nação vê a cortina e o espectáculo?
Perdemos os nossos irmãos, perdemos as nossas irmãs, perdemos os nossos céus para as máquinas deles.
Mas separámos o povo da política e das intrigas porque o ódio é a sua arma.
O amor é nosso para empunhar e a verdade é a única armadura que jamais se quebrará ou cederá.
Então cantamos isto não com raiva, mas em solidariedade
que os povos do mundo não desejam mais do que libertar-se daqueles que tomam os nossos nomes e os usam nas suas guerras.
Não somos vossos inimigos. Somos prisioneiros da mesma causa.

[Refrão]

Não celebramos o vosso sofrimento.
Lamentamo-lo da mesma forma que lamentamos o nosso.
Porque o choro da vossa mãe por um soldado não é diferente do choro da minha mãe nos escombros.
A dor não tem passaporte. E aqueles que a causam nunca a sentem.
Assim, a cada americano que lê uma manchete e se sente confuso, a cada cidadão que se interroga porque tudo parece manipulado:
Você não está louco. Não está sozinho.
E do outro lado do muro que construíram entre nós, nós vemo-vos. Nós ouvimo-vos. E nós estamos aqui. Não como vossos inimigos, mas como prova de que o mundo...

[Repete desde o início]

sexta-feira, 5 de junho de 2026

O amoque...

 

(no dicionário, amoque é um acesso de loucura furiosa e homicida, ou uma reacção súbita de mau humor ou irritabilidade)

A primavera na ilha Terceira, e por simples proximidade geográfica presumo que no resto do arquipélago dos Açores, tem este ano sido um pouco estranha, para dizer o mínimo. O sintoma mais notório talvez tenha sido uma temperatura do ar mais baixa que o habitual. Bom, vou corrigir o que acabei de dizer: mais baixa do que aquilo que eu, que só cá vivo há uma década, considero habitual, sabendo bem que em termos de meteorologia uma década não é um período amostral suficiente para extracção de conclusões robustas. De qualquer modo, e tentando novamente ser um pouco mais objectivo, a temperatura do ar foi este ano mais baixa do que em anos precedentes.

Talvez a maioria dos terceirenses não se banhe no mar em Abril e Maio, porque entre outras coisas a temperatura do mar é nesta altura próximo do mais frio que aqui se consegue, que costuma rondar os 16ºC. Para mim, que cresci a banhar-me no mar perto do Porto ao longo de todo o ano, essa temperatura é bastante suportável, pelo que aqui na Terceira posso usufruir desse privilégio que é ir ao mar o ano todo, sem ficar preocupado com uma potencial necessidade de amputação de alguma extremidade, mais cilíndrica ou mais esférica. E fazendo-o regularmente desde que para cá vim morar, apercebi-me de como a temperatura da água do mar e a temperatura do ar estão intimamente relacionados.

Quem vive nos Açores sabe bem que quando o vento sopra de Norte o ar é mais frio e seco, mesmo que com alguns aguaceiros, e que quando o vento sopra de Sul o ar é mais quente e húmido. No entanto, em qualquer dos casos, o ar tem de viajar centenas ou milhares de quilómetros em contacto com a superfície do oceano antes de cá chegar, e durante essa viagem ocorrem naturais transferências de calor entre o ar e a água. Desta forma, o oceano comporta-se como uma enorme massa que imprime inércia às variações de temperatura do ar. Se no inverno o mar estiver a 16ºC, quando o vento sopra de Norte a temperatura do ar à sombra será talvez de 13ºC e quando sopra de Sul será talvez de 19ºC, variando pouco entre o dia e a noite. Se no verão o mar estiver a 25ºC, o vento Norte poderá estar a 22ºC e o vento Sul poderá estar a 28ºC. As coisas não se processam exactamente assim, mas de uma forma grosseira é isto que acontece.

A temperatura mínima da água do mar costuma ocorrer lá pelo final do mês de Março, começando a aquecer a partir daí. Este ano, porém, notei que a temperatura se manteve baixa, nos 16ºC, durante grande parte de Abril, só começando a aquecer em Maio. A diferença para um ano normal é mínima, talvez de apenas um grau, mas eu senti-a, mais pela evolução ao longo do tempo do que talvez pelo valor absoluto. E se a minha conjectura sobre a relação entre as temperaturas da água do mar e do ar está certa, então é natural que a temperatura do ar esteja a ser, nesta primavera, inferior àquilo a que estou habituado.

Ora, recentemente, temos tido várias ocorrências de um fenómeno que apesar de não ser raro não costuma ser assim tão frequente: nevoeiro a altitudes muito baixas, mesmo até à superfície do mar. O mais habitual é, quando o vento sopra de Sul, as nuvens formarem-se mais ou menos à altitude do Monte Brasil, isto é, cerca de 200m, um pouco acima da altitude da minha casa.

Eu não pude deixar de relacionar estas duas percepções: a água do mar mais fria que o habitual e a existência mais frequente que o normal de nevoeiros baixos. A relação parece-me muito plausível, uma vez que esse fenómeno existe: o ar que originalmente já está saturado de humidade arrefece por contacto com a superfície do oceano que está mais fria e a humidade condensa, formando o nevoeiro.

Tudo isto são conjecturas, especulações, percepções, hipóteses, que eu não tenho possibilidade, com os parcos conhecimentos e recursos disponíveis, de testar. No entanto, as minhas pesquisas na Internet sobre este assunto levaram-me a tropeçar inúmeras vezes nesta coisa a que deram o nome de "cold blob", que até já tem artigo na Wikipedia, mas que ainda não está traduzido para português. Podemos chamar-lhe mancha fria. Esta mancha fria não é uma conjectura: é um fenómeno que tem sido medido com rigor desde há mais de uma década.

O mapa ilustrado no início deste artigo mostra, para toda a superfície do planeta, a anomalia da temperatura do ar à superfície em 2015, isto é, a diferença entre a temperatura média registada nesse ano e a temperatura média dos anos entre 1951 e 1980. Pode ver-se que em quase todo o planeta a anomalia é positiva, ou seja, o ar aqueceu relativamente aos dados históricos, à excepção da região em torno da Antárctida e de uma mancha situada no Noroeste do oceano Atlântico.

Quem tiver o olho apurado, poderá ver que o arquipélago dos Açores fica de fora, nesse mapa de 2015, da dita mancha fria, mesmo por um triz. De facto, nos últimos anos, a temperatura nos Açores também tem estado mais alta do que o normal. E como eu só cá estou há dez anos, esse transformou-se no meu novo normal. Mas a mancha fria varia na sua localização e intensidade de ano para ano, e pode ser que este ano as temperaturas nos Açores tenham sido mais afectadas por ela, senão com uma anomalia negativa, então talvez apenas regressando aos seus valores normais, e mais frios do que tem acontecido recentemente.

A mancha fria salta à vista na imagem de cima, e naturalmente levantou todo o tipo de interrogações sobre as suas causas aos meteorologistas que estudavam o assunto. Aparentemente a justificação que parece estar a ganhar mais aceitação é a de que o aquecimento global está a contribuir para o abrandamento da circulação global de água no oceano Atlântico, conhecida como AMOC (Atlantic Meridional Overturning Circulation), na qual a corrente do Golfo se insere.

A AMOC funciona, de maneira simplificada, nestes termos: a água quente, menos densa, entra no oceano Atlântico, vinda do oceano Índico, contornando a ponta Sul de África. Essa corrente de superfície atravessa o Atlântico Sul até ao Brasil, seguindo até às Caraíbas e ao Golfo do México, de onde segue depois para Nordeste até à Europa, onde se divide e espalha. A água que atinge as maiores latitudes arrefece em contacto com o ar mais frio até um ponto em que, apesar da sua salinidade mais elevada, se torna mais densa que a água que está em baixo. É então que se dá o "capotamento" ("overturning") e a água afunda. Este afundamento funciona como um motor para sugar a água da superfície, mantendo a corrente do Golfo e toda a corrente superficial de água quente, e para empurrar a água fria para o fundo do oceano, e daí novamente para latitudes menores, passando novamente nas Caraíbas, descendo a costa da América do Sul e juntando-se finalmente à corrente de água fria que circunda a Antárctida.

O aquecimento global está a alterar o afundamento da água no norte do oceano Atlântico de duas formas. Primeiramente, como a temperatura do ar é superior ao habitual, a água não arrefece tão rapidamente depois de sair do Golfo do México, e consequentemente mantém a sua densidade mais baixa durante mais tempo. Em segundo lugar, o aquecimento global está a conduzir ao degelo da calote polar do Árctico, o que introduz mais água doce do que o habitual no Norte do oceano Atlântico. Isto reduz a salinidade média das águas, e também das águas quentes da superfície, tornando-as igualmente menos densas do que o habitual e dificultando o seu afundamento.

Aparentemente este fenómeno ainda não é bem compreendido e os especialistas ainda não sabem dizer exactamente o que está a acontecer ou o que virá a acontecer no futuro próximo ou distante. Uma das razões para isso é a falta de dados, pois só há poucos anos (à escala dos períodos amostrais na área da meteorologia) é que se recolhem dados sobre a água do oceano em profundidade.

Mas se a justificação apresentada em cima, e que é por ora a mais aceite, for verdadeira, então a humanidade vai ter bastante com que se divertir durante as próximas décadas. De facto, para além das consequências mais conhecidas do aquecimento global, os especialistas receiam que a circulação da água do oceano Atlântico seja pura e simplesmente interrompida, e que isso possa acontecer num período muito curto, talvez de apenas poucas décadas, em consequência de um fenómeno que se auto-alimenta.

Que consequências poderá trazer uma eventual interrupção da AMOC? Entre coisas que suspeito ainda não foram imaginadas, o clima de grande parte da Europa poderá ser drasticamente alterado. Estamos a falar de uma mudança de uma magnitude nunca antes observada: as temperaturas médias em algumas regiões podem descer entre 5º e 10º em apenas uma década. Além disso prevêem-se secas extremas em toda a região Sul. Toda a agricultura seria afectada e a vida de todos os europeus iria sofrer uma alteração profunda.

Para tornar as coisas ainda piores, uma alteração da AMOC para um outro equilíbrio meta-estável é, no estado actual da nossa tecnologia e do nosso conhecimento, algo que a humanidade não pode reverter.

Se isso acontecer em 2080, eu provavelmente já cá não estarei para ver. Mas os nossos filhos estarão. Ou seja, é já ao virar da esquina!

Enfim, é assustador o que o ser humano é capaz de fazer. É impressionante pensar como ainda há muito pouco tempo muitas pessoas não acreditavam sequer na capacidade de a humanidade alterar a dinâmica de coisas tão grandes como o clima ou os oceanos. Era uma ignorância conveniente. Mas depois colocámos o termómetro e vimos as temperaturas a subir. Registámos o aumento do nível médio dos oceanos, a sua acidificação, o aumento da concentração de gases com efeito de estufa na atmosfera... Agora não há lugar para dúvidas: o espectáculo está montado, só temos de nos deliciarmos com as consequências da nossa negligência.

Outro "enfim" ainda, para acrescentar que isto tudo para a humanidade é uma grande brincadeira. Vamos poder entreter-nos a inventar revoluções verdes e cor-de-laranja e de muitas outras cores, produtos e penduricalhos com alegados efeitos miraculosos, drones a combater incêndios, rios de investigação e desenvolvimento, artigos científicos sobre tudo e mais alguma coisa... vai-nos dar muito que pensar e que fazer. Mas para outras espécies de seres vivos já será tarde.

Quando pensamos em problemas ambientais causados pela humanidade, pensamos muitas vezes nas alterações climáticas. Mas a cada dia que passamos a pensar, dezenas de espécies são extintas para sempre. São milhares a cada ano. Serão milhões quando terminarmos. Não entender o valor de uma espécie e o desastre que é a sua extinção é não entender o valor da vida. E não é neste artigo que eu vou por esse caminho. Lembro apenas Carl Sagan, que tanto se esforçou para nos convencer a todos de quão incrivelmente raras são as condições que existem no nosso planeta para a vida, e um conjunto de outros autores como Charles Darwin, Richard Dawkins, Rachel Carson, Aldo Leopold, David Attenborough que nos transmitiram um fascínio pela beleza e a maravilha da existência de todas as formas de vida.

Às vezes, o melhor que a humanidade pode fazer é não fazer nada. Parar um pouco. Em vez disso, parecemos baratas tontas: não temos sentido para a vida, mas não conseguimos parar de inventar coisas para estarmos a mexer. É um natural estilo do "não sei por onde vou, mas sei que não vou por aí", onde deixamos a nossa infantilidade e vaidade governar o nosso comportamento. Se não sabes por onde vais, então pára um pouco e pensa!