
Fastidiosa introdução
Os seres humanos demonstram uma enorme apetência pelas viagens. Falo de viagens num sentido físico, mas lato, incluindo quaisquer deslocações por um território ou à volta do globo, quaisquer que sejam as suas intenções. Não é só uma questão de curiosidade. Há também a necessidade de deslocação física e regular das pessoas na nossa economia. E há também o hábito, as relações que se criam, as formas de vida.
Antigamente era mais comum uma pessoa nascer e morrer sem nunca ter saído da sua terra natal. Hoje moramos num sítio, trabalhamos noutro, visitamos amigos aqui e acolá, o hospital e as escolas estão longe, tal como o supermercado, e todas estas distâncias se medem facilmente em dezenas de quilómetros e em alguns casos em centenas. Felizmente não é muito comum, mas há quem apanhe o avião diariamente para ir trabalhar.
Baseámos o nosso sistema de transporte no automóvel, no petróleo e nas estradas. As estradas, tal como os automóveis, foram sendo construídos de forma a permitir velocidades de circulação cada vez mais elevadas. Quando eu era criança, ia-se do Porto à Guarda, uma distância de cerca de 200km, em mais de cinco horas, por estradas sinuosas com piso em paralelepípedos de granito, e em automóveis nos quais atingir uma velocidade de 100km/h era considerado uma loucura (lembro-me dos carros a tremerem todos quando atingiam semelhantes velocidades... que loucos éramos!). Hoje exigimos estradas que nos permitam circular a pelo menos 100km/h na maior parte do trajecto, e essas mesmas viagens fazem-se em menos de metade do tempo. Nós fizemos as estradas e as estradas fizeram-nos.
O tempo de viagem entre os locais foi, durante muitas décadas, quase como um indicador do progresso daquela economia e daquela sociedade. Esse imaginário da velocidade nas deslocações está muito presente na maioria das pessoas, mesmo que viole princípios básicos da física, para já não falar de outros princípios que também deviam ser básicos, como os ecológicos. Vemos filmes de ficção científica com viagens intergalácticas, apesar da física não nos permitir sequer viagens à estrela mais próxima, que fica a bem menos de um milésimo da distância entre nós e o centro da nossa própria galáxia, nem mesmo com a tecnologia mais mirabolante que consigamos imaginar. Deliciamo-nos a ver imagens de comboios a circular a 500km/h, sem sequer nos lembrarmos que o arrasto aerodinâmico a essa velocidade faz com que o comboio gaste 25 vezes mais energia, por cada km percorrido, do que se circulasse a 100km/h. E queremos poder deslocar-nos de automóvel em duas horas do Porto ao Algarve, a uma velocidade média superior a 250km/h, num Bugatti Chiron, esquecendo que o seu depósito de 100 litros de combustível ficaria vazio a intervalos de pouco mais de 10 minutos.
A velocidade na deslocação traz uma série de inconvenientes, que são graves e deviam ser integralmente considerados, mas dos quais vou reter por agora apenas a segurança das pessoas. Quando uma estrada é muito má e o veículo é muito mau - podemos pensar num triciclo num caminho de pé posto - podem acontecer muitas coisas más, mas raramente elas porão em risco a vida das pessoas. Pelo contrário, a existência de estradas e veículos que permitem velocidades elevadíssimas exigem a utilização de mecanismos de defesa da vida das pessoas. Entre eles podemos incluir os passeios, com ou sem pilaretes, semáforos, passadeiras, airbags e lombas. As lombas, como todos sabemos, são elevações do piso das estradas com o objectivo de limitar a velocidade dos veículos.
É interessante que o progresso nos tenha colocado nesta espécie de dissonância cognitiva generalizada: ao mesmo tempo continuamos a ver a velocidade de deslocação como um desejável indicador de progresso e temos equipas de pessoas a pensar como hão-de limitar a velocidade máxima de circulação dos automóveis. Aos meus olhos isto é apenas mais uma faceta da nossa infantilidade: se o progresso nos permite comer todo o chocolate que quisermos, nós pagaremos a outros para controlar o nosso consumo, porque nós não seremos capazes de controlar por nós mesmos.
Lombas e respectivos raios de concordância
O objectivo das lombas é permitir que os veículos (vamos chamar-lhes simplesmente "carros") circulem mas os seus condutores sejam incentivados a reduzir a respectiva velocidade. Segundo o documento "medidas de acalmia de tráfego" do Instituto de Infra-estruturas Rodoviárias, "a sua eficácia resulta da incomodidade imposta ao condutor durante a transposição de elevações introduzidas ao traçado longitudinal (pela imposição
de variações acentuadas na aceleração vertical) a velocidades superiores à velocidade de projecto".
Presume-se que o condutor deverá então poder circular sem incómodo desde que o faça à velocidade de projecto ou a velocidades inferiores. No entanto, não é isso que acontece na esmagadora maioria dos casos. A causa é a inexistência no perfil da lomba de um raio de concordância.
O raio de concordância é o raio do arco de circunferência que une dois segmentos de recta.
Uma lomba apresenta-se como uma elevação anormal no piso de uma estrada. Consideremos que o piso normal da estrada é a superfície A, e que a superfície B é a superfície da lomba inclinada que fica voltada para quem dela se aproxima. Entre estas duas superfícies é possível construir uma transição suave, com um raio de curvatura. Ou não, e nesse caso as duas superfícies A e B intersectam-se numa aresta transversal à estrada. Neste caso, qualquer roda de qualquer veículo que circule sobre a lomba irá sofrer um choque, qualquer que seja a velocidade de circulação. Os sinais dizem que se pode circular a 30km/h, no entanto quem passar pela lomba a essa velocidade, ou a qualquer velocidade inferior, irá sofrer um choque, como uma pancada, que será tanto mais intensa quanto maior for a velocidade.
A explicação para o choque é simples (podemos usar a imagem no início deste artigo como guia): na ausência de raio de concordância, a roda que rola na superfície A irá embater contra a superfície B. Num instante ela estará a rolar sobre A e no instante seguinte ela estará a rolar sobre B, com outra orientação e outra velocidade. Ora isso só é possível à custa de acelerações longitudinais e verticais do veículo muito elevadas (choque) e de deformações dos seus elementos (pneus e sobretudo sistemas mola e amortecedor).
Poderão alegar os promotores da instalação da lomba que o que se pretende é precisamente esse choque, uma vez que ele é que faz com que o condutor tenha um incentivo a abrandar a marcha. Mas isso não é verdadeiro. Uma lomba bem construída não sujeita o veículo a qualquer choque, sujeitando-o mesmo assim a acelerações tão intensas, acima da velocidade de projecto, que o condutor terá um forte incentivo a abrandar a sua marcha. E como é que isso se consegue? Construindo uma lomba com um raio de concordância superior ao raio da roda de qualquer veículo. Ou seja, fazendo uma transição suave entre o pavimento normal da estrada e a superfície da lomba.
O problema do choque, e a razão pela qual ele nunca devia ocorrer, é que ele não contribui para o efeito da lomba, mas contribuiu para a degradação muito mais rápida dos equipamentos. Estou a referir-me, obviamente, ao automóvel, e sobretudo ao sistema de amortecimento, mas também me estou a referir à própria lomba, uma vez que ela também recebe o mesmo choque, só que no sentido oposto.
Isto é um problema de somenos. No entanto, torna-se relevante se pensarmos nos muitos milhares ou milhões de veículos que se sujeitam a estes choques quase todos os dias, no que isso significa em termos de idas acrescidas ao mecânico e à utilização de peças de substituição ao nível de todo um país, quando a solução é tão trivial e acessível: basta fazer uma transição suave para a lomba!
A publicação que já referi em cima prevê diferentes perfis de lomba. O único que pode apresentar raios de concordância é o perfil sinusoidal. Infelizmente, menciona-se que o perfil das plataformas elevadas para a passagem de peões deve ser trapezoidal, isto é, com transições abruptas. Quem é que escreveu esse documento???
Alternativas e por aí fora
Conforme referi na fastidiosa introdução, a velocidade é como um vício: desejamo-la, e quando nos habituamos a ela não conseguimos viver sem ela, e queremos ainda mais. Infelizmente, como outros vícios, ela tem efeitos secundários muito negativos. A segurança das pessoas é só um desses efeitos nefastos. Outros efeitos negativos podem incluir o ruído, o consumo de combustível, a degradação do piso das estradas, o desgaste dos pneus e das viaturas em geral ou a nunca contabilizada mortandade animal (e não me estou só a referir a cães e gatos, mas também a outros mamíferos, répteis, anfíbios, aves, enfim, tudo o que mexa).
Bom seria que as pessoas pudessem abandonar o seu comportamento viciado, infantil, necessitado (estou a pensar em quem tem de percorrer diariamente quase uma centena de quilómetros para ir trabalhar, só porque não consegue encontrar casa barata perto do sítio onde trabalha) ou simplesmente habituado, e compreendessem que é possível e desejável levar uma vida mais lenta, onde até o próprio conceito de viagem fosse reenquadrado, não como esta coisa de agora estar aqui, a seguir estar ali, fotografar e comprar e partir, mas como esta coisa de ir indo, calmamente apreciando as mutações.
Há muitas maneiras de conseguir tráfegos rodoviários a velocidades inferiores. E que tal, por exemplo, uma estrada sinuosa? Ou uma estrada que simula as curvas apenas com pinturas no pavimento? Ou uma estrada que só tem largura para as viaturas em sentidos opostos se cruzarem de x em x metros?
A forma mais simples, contudo, sempre me pareceu ser a limitação da velocidade máxima no próprio projecto e construção dos veículos. Se todos os veículos só puderem circular no máximo a 30km/h, não haverá necessidade de construção de lombas (e de uma data de outras coisas!). Eu sei que este limite máximo que acabei de propor parece ridículo (e se calhar é), mas se por um momento o considerarmos seriamente, talvez isso nos abra a porta do pensamento para questões muitíssimo relevantes às quais não prestamos a devida atenção: em que circunstâncias se torna legítimo circular a velocidades elevadas? como se pode e deve regulamentar isso? não seriam os veículos privados com velocidades limitadas um grande incentivo ao uso de transportes públicos colectivos com velocidades superiores? não deveríamos segregar e diferenciar os tráfegos locais dos de média e longa distância, utilizando sistemas de transportes diferenciados em cada caso?
Enfim, isto é como tudo na vida: há imensas alternativas, mas a preguiça mental e outros vícios transportam-nos e cristalizam-nos em soluções que ficam muito aquém do nosso potencial.





