(capa de um livro do Quino com excerto de cartoon que está exibido na íntegra no final deste artigo)
Os preguiçosos que vivem da mama
Existem pessoas na sociedade que são preguiçosas, que não
querem trabalhar, que preferem viver às custas dos outros que trabalham, e que
"mamam" do Estado através dos seus apoios "sociais". Estas
pessoas são um fardo para os outros, que trabalham, não contribuem para o
progresso do país e, portanto, devem ser fiscalizadas, esses apoios devem ser
bem justificados e devem ter como contrapartida o trabalho útil à sociedade.
Esta ideia não é peregrina – é uma ideia bem implementada no
senso comum, faz parte da ideologia dominante, e tem sido acarinhada por
diversos partidos políticos desde há muitas décadas, incluindo recentemente
aqueles que fazem grandes cartazes a dizer que é preciso acabar com a
"mama" do Estado (e que podiam, talvez, só por coerência, começar por extinguir a sua própria "mama").
Em tempos idos, a ideia de que os trabalhadores não podiam
ou não deviam sustentar os preguiçosos fazia todo o sentido. A colheita de
batatas podia não chegar para todos, e dar a quem não trabalha, podendo
trabalhar, podia significar reduzir a ração dos que trabalham abaixo do limite
necessário para a reprodução da força de trabalho, além de ser uma profunda
injustiça.
Apesar desta argumentação poder fazer todo o sentido nessa
época, mesmo que infelizmente utilizada para instigar o conflito entre os
trabalhadores, e não para os fazer ver que os principais
preguiçosos a quem era dada a fatia de leão eram os senhores feudais, os das
ordens militares e religiosas e o rei, os tempos mudaram.
Esta ideia não faz actualmente qualquer sentido do ponto de
vista económico. Passo a explicar porquê.
Quanto custam os preguiçosos?
Vou avançar alguns números que têm apenas o rigor suficiente
para nos fazer perceber a ordem de grandeza daquilo que estamos a falar. Quem
quiser números exactos, fica convidado a investigar os orçamentos e as contas do
Estado português, coisa que não posso deixar de recomendar, como sempre, porque
antes de adoptarmos como nossas as ideias dos outros, devíamos sempre
investigar a sua veracidade.
Existem muitas prestações sociais em Portugal, sendo que
muitas delas são entregues a pessoas que contribuem para o sistema da Segurança
Social (SS). Se todos os meses um trabalhador desconta do seu salário para a SS,
e se num mês ele fica doente e recebe um subsídio de doença, ele não fará parte
do grupo dos "preguiçosos". Portanto, não são estas prestações que
nos preocupam.
Anualmente, o Estado português e a SS gastam cerca de 4,3
mil milhões de euros em prestações do regime não contributivo. Isto parece
muito dinheiro, simplesmente porque não estamos habituados a lidar com as
quantidades de dinheiro ao nível de um país inteiro. De facto, estes muitos milhões, representam
apenas 1,5% do PIB português. Mas vamos esmiuçar um pouco mais. Este valor
divide-se aproximadamente pelas seguintes parcelas:
- IPSS (Instituições Particulares de Solidariedade Social,
incluindo lares de idosos, centros de dia e creches): 1800 milhões
- prestação social para a inclusão (invalidez e
deficiência): 850 milhões
- pensões de velhice: 600 milhões
- complemento solidário para idosos: 400 milhões
- rendimento social de inserção: 350 milhões
- abono de família: 300 milhões
Quando pensamos nos "preguiçosos", não creio que
estaremos a pensar nos que não podem trabalhar, ou porque são demasiado novos,
ou demasiado velhos, ou inválidos, ou deficientes. Assim, o montante de que
estamos verdadeiramente a falar é sobretudo o do rendimento social de inserção
(RSI), que é de cerca de 350 milhões de euros anuais.
O RSI representa menos de 0,15% do PIB.
As escolhas políticas nas receitas e despesas do Estado
Podemos pensar que 0,15% do PIB é pouco, mas se pensarmos
nos 350 milhões de euros ainda parece um valor elevado. O que não se faria com
esse dinheiro?...
As possibilidades de aplicação do dinheiro do Estado são
imensas. Entre elas estarão despesas que certamente todos aprovarão, como a
manutenção de vias de comunicação, a melhoria do sistema de educação ou do sistema de saúde.
Mas comparemos os 350 milhões de euros gastos no RSI com
algumas outras despesas:
- todos os anos o Estado português concede às empresas
benefícios fiscais em sede de IRC de cerca de 1,8 mil milhões de euros;
- ao que se somam 1,5 mil milhões de euros em apoios às
pequenas e médias empresas, vulgarmente designadas de PME. Note-se que estas não
são microempresas, não são a mercearia ou o café da esquina. As PME, apesar do
nome, são empresas que podem facturar até várias dezenas de milhões de euros
por ano e ter até 250 empregados;
- ao que se somam ainda cerca de mil milhões noutro tipo de
apoios directos às empresas;
- todos os anos o Estado português perde mais de mil milhões
de euros (o que pode ser encarado como uma forma de despesa) de IRC de empresas
que colocam as suas sedes fiscais noutros países, incluindo paraísos fiscais;
- e perde mais de 2,5 mil milhões de euros em evasões
fiscais de pessoas individuais;
- nos últimos anos, o Estado português tem gasto cerca de 4
mil milhões de euros anualmente em apoios do "plano de recuperação e
resiliência" (PRR) que são destinados sobretudo às empresas e a entidades
públicas;
- a despesa em fins militares tem aumentado substancialmente
e é agora de cerca de 4 mil milhões de euros por ano;
- todos os anos o Estado gasta 7 mil milhões de euros em
juros da dívida pública.
Os 350 milhões de euros do RSI, quando comparados com estas
despesas do Estado, são uma fatia insignificante. No entanto, o que está em
causa não é apenas uma questão de montante. O que está em causa é também a
justificação da despesa e o impacto que ela tem na economia por via directa e
indirecta.
Os gastos em armamento, por exemplo, são verbas que saem
imediatamente do país. Podemos argumentar que são gastos que contribuem para
construir um mundo mais seguro ou mais inseguro, conforme acreditemos que a paz
se faz com bombas ou não. Mas não podemos argumentar que esses gastos são bons
para a economia nacional.
Os verdadeiramente preguiçosos
Os 7 mil milhões de euros que o Estado português paga
anualmente de juros da dívida pública portuguesa são para remunerar exactamente
o quê?
O Estado optou, há algumas décadas, e sem sequer consultar a
opinião do seu povo, por desistir do uso de diversas ferramentas económicas,
entre as quais a política monetária. Ou seja, deixou de ter a capacidade de
emitir moeda. A justificação para isso foi, e continua a ser, a sacrossanta
luta contra a inflação. Essa justificação é mais uma ideia que a propaganda
inculcou no senso comum e nos currículos das escolas de economia, apesar de ser mais controversa do que aparenta. A sua desconstrução sai fora do âmbito deste texto.
Assim, o Estado passou a financiar os excessos de despesa
sobre a receita, isto é, os défices, com a assumpção de dívidas. Até aí estaria
tudo muito bem, não fosse a forma como o montante global da dívida foi gerido
pelos diversos governos, não apenas portugueses, naquilo que foi, é, e
provavelmente continuará a ser durante muitos anos, o maior roubo
"legal" da história da humanidade. Novamente, esse assunto extravasa
a intenção deste texto. Mas ficam, apenas como incentivo à curiosidade, as
seguintes questões: quem são os principais credores?, como é determinada a
respectiva taxa de juro?, porque é que quase todos os países
"ocidentais" partilham um peso da dívida pública no PIB de quase
100%?
As dívidas assumidas pelo Estado devem ser pagas de volta.
Até aí, novamente tudo mais ou menos bem, desde que consideremos que essa
dívida é legítima, o que talvez possa não ser o caso para alguns tipos de
dívida. O problema é que o Estado tem de pagar não apenas o montante que pediu
emprestado, mas também um juro calculado sobre esse montante.
O juro não remunera trabalho. O juro é apenas um prémio que
se dá a quem mais tem, simplesmente porque tem. Na nossa economia, qualquer
pessoa, com ou sem trabalho, com ou sem instrução, com ou sem sorte ou iniciativa
ou seja o que for, consegue viver apenas de juros, desde que tenha um
património considerável, que tanto pode ser adquirido através do euromilhões,
de uma herança ou de aplicações de capital – dificilmente um património
considerável se consegue à custa do trabalho.
Portanto, todos os anos o Estado português paga 7 mil
milhões de euros, 20 vezes mais do que o RSI, para pagar... nada! E esse
dinheiro vai directamente para o bolso daqueles que mais têm, que assim o
poderão aplicar novamente e multiplicar ("alavancar") o efeito.
É curioso que também é do senso comum que na nossa economia,
com as regras que ela tem, "dinheiro faz dinheiro". Todos sabem
disso, mas não se revoltam, nem se lembram da "preguiça". Antes
ambicionam ser um dos felizardos.
O destino do dinheiro do RSI
Ao contrário do dinheiro gasto em armamento, que em grande
medida sai imediatamente do país, ou do dinheiro gasto em juros da dívida
pública, que saindo ou não saindo do país não está associado à produção de
qualquer bem ou serviço, o dinheiro atribuído os beneficiários do RSI é
integralmente gasto em compras de bens e serviços na nossa economia, e é-o num
prazo muitíssimo curto.
Assim, a despesa em RSI transforma-se, numa questão de dias,
em receita de supermercados, empresas de telecomunicações, gasolina, cafés,
etc. Todo esse dinheiro contribui para a economia nacional.
Contrariamente ao senso comum, as prestações sociais não foram
criadas apenas para ajudar os mais necessitados – elas foram criadas para
apoiar a economia. O dinheiro do RSI paga a mercearia, mas por sua vez o
merceeiro paga o restaurante e por aí fora. O efeito global de um gasto deste
tipo na economia tem um efeito multiplicador que Keynes estudou no início do
século XX, e que está na base da criação de apoios directos do Estado após a
grande recessão de 1929, que se mantiveram até aos dias de hoje.
Porque é que as pessoas não querem trabalhar?
É uma simplificação excessiva de pensamento considerar que
os beneficiários de prestações sociais do Estado não querem trabalhar. Logo à partida
devemos averiguar se essas pessoas podem ou não trabalhar.
Actualmente, quase metade dos jovens seguem os estudos até
ao nível superior. Também faz parte do senso comum que antigamente uma
licenciatura era uma garantia de um emprego com boas condições, e que hoje uma
licenciatura é quase o mínimo exigido para se conseguir um emprego, não sendo
garantia de nada.
Ora, se as pessoas compreendem que não é fácil para um jovem
recém-licenciado conseguir um emprego, porque é que lhes custa compreender que
uma pessoa que não tem essa formação, que às tantas nem a escolaridade
obrigatória tem, que às tantas não tem carro, nem computador, ou então não sabe
trabalhar em ferramentas informáticas produtivas, que já não é jovem, e que
certamente não tem um currículo recheado de experiências prestigiantes, tenha
dificuldade em conseguir um emprego?
Curiosamente, ou talvez não, os dados disponíveis não
permitem caracterizar com rigor o perfil dos beneficiários do RSI. No entanto,
os poucos dados que existem permitem perceber que a grande maioria não tem sequer
a escolaridade obrigatória.
Consideremos, contudo, o caso raro do beneficiário de RSI
que tem condições para ser apreciado por potenciais empregadores. Alguns destes
casos raros serão pessoas que, efectivamente, não querem trabalhar. E a questão
não devia ser tanto "porque é que não querem trabalhar?", mas antes o
"porque é que existe gente que quer trabalhar?".
A maioria das que trabalham fazem-no sobretudo
porque precisam do dinheiro. Se lhes fosse dada a possibilidade de receber o
mesmo dinheiro sem trabalhar, não hesitariam.
Todavia, não devíamos menosprezar outras funções que o
trabalho pode e deve ter no bem-estar das pessoas, para além do dinheiro. As
pessoas podem sentir-se realizadas no trabalho, podem sentir-se úteis, podem
aumentar os seus conhecimentos, podem conhecer outras pessoas, sentir-se
integradas, construir um sentimento de pertença e de identidade ("eu sou
mecânico"), ajudar outros, contribuir para o progresso material da
sociedade. Isso, e talvez muito mais, desde que as condições no trabalho sejam
adequadas.
Infelizmente, muitos trabalhos actuais não têm as condições
adequadas: não fornecem formação, antes exigem; têm horários difíceis de
conciliar com a vida familiar; são em ambientes competitivos sujeitos a todo o
tipo de agressões psicológicas; etc. E, além do mais, são mal pagos. Nesses
contextos, não querer trabalhar só pode ser apontado como um sinal de sanidade
mental!
O crescimento e o progresso dependem do trabalho de todos?
Ao contrário dos tempos feudais, em que a produção agrícola
dependia directamente do número de pessoas a trabalhar nos campos, os tempos
actuais são de abundância. Mais do que abundância, são de superabundância!
A crise de 1929, a tal que esteve na origem das políticas
macroeconómicas de incentivos directos do Estado como as prestações sociais,
não foi uma crise de escassez, foi uma crise de superabundância gerada por um
excesso de produção que não encontrou compradores suficientes e resultou na
descida dos preços.
E, como é consabido, a produtividade aumentou tremendamente
desde 1929. Hoje em dia, a produtividade é de tal ordem que a grande
dificuldade é a de conseguir manter e justificar o discurso que transforma a
inovação na solução de todos os postos de emprego que são substituídos por
máquinas. De tal modo assim é, que a economia tem criado uma série de postos de
trabalho cuja real contribuição para a produção útil não é de todo evidente. David
Graeber escreveu um livro inteiro sobre o assunto, que recomendo, chamado
"bullshit jobs" (ou em português "trabalhos de merda").
Conforme já tantos disseram no passado, e até Chaplin pôs na
tela no seu famoso discurso de "o grande ditador", de 1940, há quanto
chegue para todos. Apesar do impressionante aumento de produtividade desde
então, ainda está por chegar o dia em que a humanidade pode colher o principal
fruto disso, nomeadamente a possibilidade de trabalhar menos, sem sentir culpa
ou ser atacado pelos outros. Os tempos actuais deviam ser tempos de direito à
preguiça para todos, e não da sua condenação.
É verdade que o dinheiro não estica?
Um dos argumentos que está na base da ideia feita sobre a
necessidade dos beneficiários de prestações sociais trabalharem é a de que
"o dinheiro não estica". A ideia é simples, para não dizer mesmo
básica: o dinheiro é como um bolo, se damos parte desse bolo a pessoas que não
contribuem para produzir um novo bolo, arriscamo-nos a não ter bolo suficiente
para todos.
Essa ideia, apesar de parecer evidente, é falsa. O bolo é
uma coisa, o dinheiro é outra coisa completamente diferente, e não existe uma
relação directa entre uma e outra coisa.
Para entendermos isso precisamos de perceber melhor o que é
o dinheiro, para que serve, como é criado, quais os seus efeitos na economia.
É perfeitamente possível conceber uma economia que funciona
sem dinheiro. Imaginemos um Robinson Crusoé que vive isolado numa ilha: ele tem
necessidades que satisfaz por sua conta independentemente da presença ou não de
dinheiro. No seu caso, notas e moedas serviriam para quase nada. Imaginemos
agora uma comunidade de pessoas que se especializaram em diferentes trabalhos e
que trocam os respectivos excessos directamente umas com as outras – também elas
não precisam de dinheiro.
Não pretendo dizer que o dinheiro é inútil, longe disso.
Demonstro apenas que uma coisa são os bens e serviços que são produzidos,
distribuídos e consumidos, e outra coisa diferente é o dinheiro com o qual
podemos comprar essas coisas (e também, na economia que temos, comprar o trabalho das pessoas).
Até há poucas décadas, o Estado português tinha o poder de
emitir moeda, por exemplo através da impressão de notas. Ora, a quantidade de
notas existentes dependia directamente da vontade dos políticos ou técnicos
responsáveis. Quando o Estado queria fazer uma qualquer obra, por exemplo
construir uma barragem, podia ir buscar o dinheiro para financiar essa obra a
diversas fontes. Podia, por exemplo, financiar a obra através de impostos.
Mas também podia, e talvez provocando menos insatisfação nos contribuintes,
emitir mais notas e pagar o investimento com as notas acabadas de imprimir.
No entanto, cedo se percebeu que esta solução fácil de
financiar os gastos do Estado, através da criação de dinheiro novo por si emitido, tinha um efeito
indesejável: inflação. O mecanismo é simples de entender: o novo dinheiro
introduzido na economia dava às pessoas um maior poder de compra, e do ponto de
vista dos vendedores de bens e serviços, o maior poder de compra pode ser
respondido com um aumento da quantidade produzida ou com um aumento de preços,
ou ambos.
Embora este assunto tenha outros contornos não tão
evidentes, a verdade é que alguns interesses económicos levaram a que o Estado
português abandonasse essa ferramenta política.
No entanto, a criação de dinheiro a partir do nada continua,
e com mais força do que nunca. O dinheiro agora é criado nas instituições
bancárias através do crédito. De cada vez que um banco concede crédito, geram-se
nos seus livros dois registos contabilísticos: um "deve",
correspondente à dívida que esse beneficiário passa a ter
perante o banco, e um
"haver", correspondente ao dinheiro colocado na conta do beneficiário. O dinheiro é criado como uma dívida. E, em boa verdade, sempre
assim foi. Por isso algumas notas incluem ou incluíam inscrições do tipo "dívida do banco central". Veja-se o exemplo das mais recentes notas de 5 libras esterlinas que contêm a inscrição "I promise to pay de bearer on demand the sum of five pounds" ("eu prometo pagar ao portador, a pedido, a soma de cinco libras"):

Ao desistirem da capacidade de imprimir notas à sua vontade,
os Estados, como o português, desistiram da possibilidade de contraírem dívidas
perante si próprios. Em vez disso, passaram a contrair dívidas junto dos
"credores" e passaram a pagar juros. É uma opção cujos beneficiários
são fáceis de identificar.
Muito mais haveria por dizer acerca deste assunto. Mas
voltemos à questão do dinheiro não ser suficiente para as prestações sociais.
Isso é total e demonstravelmente falso. Basta que o Estado contraia um novo
empréstimo, coisa que está sempre a acontecer, e o problema fica resolvido. Isso, entre muitas outras soluções alternativas, que seriam praticamente ilimitadas não fosse o Estado português ter aderido, por sua iniciativa, às limitações impostas pela União Europeia.
Quanto ao bolo ser ou não suficiente, isso é uma questão não
directamente relacionada com a quantidade de dinheiro a circular na economia.
Isso é uma questão relacionada com a economia real, com a quantidade de bens e
serviços realmente produzidos. Ora, conforme vimos, vivemos tempos de
superabundância, não de escassez.
Mas então porque é que os governos insistem na retórica sobre os
"preguiçosos" e a necessidade de trabalharem?
A retórica de que existem uns preguiçosos que estão a sorver
o dinheiro público, na "mama", que são uns privilegiados
culpados por "isto não andar para a frente" é, conforme vimos, totalmente
falsa, de muitos pontos de vista. No entanto, ela é difundida e amplificada por
algumas vozes na sociedade, incluindo alguns partidos políticos e também os que
agora apoiam o governo.
Os que o fazem terão as suas razões para o fazer (o que nem
sempre quer dizer que quem faz uma coisa sabe inteiramente porque o faz). Mas eu
irei avançar com algumas possibilidades explicativas.
Logo à partida, a ideia da "mama" é uma ideia já
feita, já presente no senso comum. Fazer política indo ao encontro do senso
comum é uma forma (populista?) de satisfazer imediatamente o eleitorado. E isso
é tanto mais rentável quanto o eleitorado acreditar que isso é uma questão
importante e quanto mais baratas forem as medidas propostas. Neste caso, ambos
os critérios são preenchidos, portanto não admira que o governo vá por aí.
Mas as razões principais serão porventura de outra índole,
nomeadamente a da criação de uma mentalidade e de um estilo de vida conformes a
um determinado sistema económico que se quer implementar ou manter.
A revolta dos trabalhadores contra os
"preguiçosos" gera uma cisão imediata naquilo que de outro modo
poderia ser considerada uma classe trabalhadora homogénea, porque se apresenta
na economia de igual modo, isto é, sem rendimentos de capital suficientes para
deles poder viver bem sem ter de trabalhar. Em vez disso, são os próprios
trabalhadores que criam divisões dentro do seu grupo, entre os que trabalham
mais e os que trabalham menos, os que ganham mais e os que ganham menos, os que
são promovidos e os que nunca saem da cepa torta, e passam depois tempos imensos a fazer comentários sobre isso.
Essas divisões impedem uma tomada de consciência plena sobre
a situação comum que todos eles enfrentam, por exemplo em relação à condução
das políticas do Estado, como a adesão ou não à moeda única.
Mais do que isso, impedem que o foco, a atenção, o
pensamento, de todos os trabalhadores, empregados e desempregados, bem e mal
pagos, recaia sobre os outros, nomeadamente os que verdadeiramente têm o poder,
os que decidem por nós fazendo-se passar por nossos representantes, os que
vivem dos seus rendimentos de capital escolhendo de que forma nos irão pôr ou não a
trabalhar.
É assim mesmo que a sociedade portuguesa discute muitíssimo
mais o RSI do que a insanidade dos gastos em armamento ou o colossal roubo
"legal" que são os juros da dívida pública, entre muitos outros
assuntos, que são efectiva e demonstravelmente muito mais importantes para as
suas vidas do que o RSI.
Para além de criar divisões entre os trabalhadores e desviar
a sua atenção para faits divers, a promoção desta retórica tem também o efeito
de aprofundar e enraizar (de onde o radicalismo, quer dos actuais governantes e sua ideologia, quer dos necessários contrapontos) a crença numa moral do
trabalho que molda de forma indelével o nosso modo de vida. Enquanto
acreditarmos que o "andar para a frente" é necessário e só se
consegue com oito horas de esforço diário de todos e cada um, estaremos
ocupados o suficiente para, nas horas extra, nos transformarmos nos
consumidores ideais: aqueles que procuram prazeres imediatos e compensatórios
do justo esforço, aqueles que já não têm pachorra para ler textos como este, ou
para estudar assuntos a fundo, ou sequer enfrentar opiniões diferentes ou
factos que contrariem as opiniões já formadas, faladores baratos enérgicos e por vezes agressivos, mas consumidores mansos, cujo
objectivo de vida é simplesmente ser feliz através do consumo de automóveis,
viagens e penduricalhos.
E enquanto vamos trabalhando, a piar baixinho e com más
condições, vamos consumindo e desejando tanto quanto podemos, e vamos
descarregando as nossas frustrações no vizinho, só porque ele tem uma coisa que nós não temos. Neste caso, o vizinho tem um RSI, que é um rendimento
miserável, provavelmente como prémio por não ter conseguido vingar e ter
"sucesso" no mercado de trabalho como os outros. Vale a pena a nossa inveja?
A promoção destas narrativas, destas ideias, destas
políticas, tem também o efeito perverso de desumanizar os outros, de lhes minar
a auto-estima, de os enterrar ainda mais fundo na suposta "escada
social". Creio que não teremos problemas em considerar que é justo e
humano a atribuição de uma pensão a alguém que tenha uma incapacidade grave e
seja considerado economicamente inválido. Mas no caso do pobre, já justificamos
a nossa posição com base na sua culpa: os pobres são culpados da sua pobreza,
dizemos. Mas ao fazê-lo, não só demonstramos a nossa ignorância, como também a
nossa falta de humanidade. Oxalá não venhamos nós um dia a ser pobres e a descobrir, da forma mais dura, outras luzes sobre esta realidade.
Qual é a alternativa?
O problema das alternativas é serem sempre muitas, ao
contrário do que a mesma propaganda, aquela do "não temos
alternativa!", nos quer fazer acreditar. Menciono apenas uma:
o rendimento mínimo incondicional. Ou com outros nomes: garantido, básico,
universal. Um rendimento que é distribuído por todos independentemente de tudo,
simplesmente porque as pessoas existem, porque merecem o mínimo de dignidade, e
porque a produtividade da nossa economia o permite. Quem quiser trabalhar
mais, para ter um nível de vida acima do mínimo, pode fazê-lo. Mas se não quiser, terá pelo menos o mínimo garantido, sem ter de recorrer a esmolas e
sem ser forçado contra a sua vontade.
Se o podermos fazer, porque não o fazemos?