quinta-feira, 30 de abril de 2026

Sobre lamber botas, também no primeiro de Maio...

Motivados pela modorra que geralmente não distingue o primeiro dia de Maio de qualquer outro dia sem tourada na ilha Terceira, pela vontade de assinalar a efeméride, pela vontade de chocar quem nos visse com uma demonstração da parvoíce por redução ao absurdo, e sempre pela ridícula motivação romântica da crença de que esse choque pode levantar algumas questões na cabeça de cada um, o Jossy e eu lembrámo-nos, de criar uma instalação com pernas, braços e gargantas, em forma de manifestação popular a favor dos ricos, dos poderosos, da guerra e da miséria. A Marília ajudou-nos aumentando a contagem de pernas, braços e gargantas, dando literalmente o seu corpo ao manifesto. E foi assim que numa tarde límpida, sem nesga de nevoeiro, de 2018, saímos à rua bem vestidos e envergando os mais lindos cartazes que já tive oportunidade de ver em manifestações populares. De resto, nós éramos também os mais lindos manifestantes!

Vem-me isto agora à memória, não apenas por causa do primeiro de Maio que está mesmo aí à porta, mas por causa deste cartaz em específico, criado pelo Jossy, que dizia, e ainda diz, "sim à guerra, é bom p'ra base".

A beleza desse cartaz é que contém em meia dúzia de palavras uma contradição, que apesar de evidente, ninguém parece querer assumir e muito menos trazer às luzes da ribalta. Na ilha Terceira, a base dos americanos é vista como um toucinho do céu, uma coisa que nos aconteceu por motivos muito para lá do nosso controlo, e que nos trouxe um conjunto de benefícios difíceis de mensurar. Este "nos" é um bocado forçado. Eu nasci e vivi a maior parte da minha vida no Porto e vivo na Terceira há pouco mais de dez anos. Para mim a base trouxe-me interrogações muito mais do que chocolates. Mas naturalmente não sou indiferente aos relatos de quem cá vivia há muitas décadas, num tempo em que as comunicações e os transportes não eram tão acessíveis como hoje, em que não só a economia da ilha mas toda a sua sociedade seria mais auto-suficiente, mas também mais fechada. Imagino a grande janela para uma outra realidade que a presença dos americanos na base seria.

Semáforos, ténis, golfe, ténis de mesa, futebol, táxis, transacções de terrenos, alugueres de casas, rádio, gamas, mapas, panas, frizas, culas e alvarozes, música, jazz, emancipação das mulheres, jeans, roupas, luz eléctrica, escolas, máquinas para hospitais, brinquedos, acolhimento de pobres e desalojados dos sismos, coca-cola, ketchup, televisão, língua inglesa, american dream... Os americanos são nossos amigos. Isso tudo, sem ironia, claro que sim!

Todavia, nestes relatos que me foram chegando e que continuam recorrentes nunca se menciona a razão para os americanos alguma vez terem poisado os pés nesta ilha, apesar dessa razão ser evidente e conhecida de todos: a manutenção da paz e da ordem global. Vá... fui propositadamente provocador. "Manutenção de paz" é o que chamamos à guerra feita por nós, os bons. Do mesmo modo que os ministros se chamam "da defesa", porque os bons só defendem, e se atacam é só porque o ataque é a melhor defesa, nunca atiram a primeira pedra e só largam bombas quando são provocados, bombas de democracia.

É a guerra que trouxe e mantém os americanos na ilha Terceira. Chame-se-lhe o que se quiser. Sem guerra, os norte-americanos não teriam sarapintado todo o planeta e também esta ilha com bases militares suas.

As bases militares norte-americanas funcionam quase como embaixadas dos Estados Unidos da América, como extensões do seu território em países terceiros. Embora no papel o território continue a ser português e nele continuem a vigorar as leis portuguesas, de facto os americanos fazem nele o que bem lhes apetece. E há portugueses que gostam disso assim, pois "se eu pago a renda da minha casa, tenho direito a meter e a fazer lá dentro o que me apetece". Mas a passagem a rolo compressor sobre a jurisdição não se extingue aí. Os países que têm no seu território bases militares norte-americanas, não são países soberanos. Não sou eu que o afirmo, sãopessoas com mais competência e conhecimento desses assuntos do que qualquer umde nós. De minha autoria, acrescento que nenhum país é verdadeiramente soberano no mundo actual, com excepção das raras potências que todos estamos fartos de conhecer, as quais manipulam os restantes a seu bel-prazer. De resto, se ainda houver dúvidas, esqueçam-se por um instante os EUA, a Rússia, a China, e lembremo-nos do que nós fizemos à nossa própria soberania dentro da União Europeia, sem sabermos o que estávamos a fazer, porque quem o fez foram os nossos representantes, sem nos consultarem directamente sobre o assunto. Ou será que ainda não repararam que para o Estado português taxar as empresas que fazem lucros tremendos agora com a guerra no Irão tem de pedir licença à União Europeia?

Regressemos ao paradoxo. Há alguns terceirenses que acreditam na narrativa da manutenção da paz e da ordem. Há outros que admitindo a inevitabilidade das guerras, preferem estar do lado dos norte-americanos, sejam eles considerados os bons ou os menos maus. Mas de uma forma ou de outra, se lhes perguntarmos se preferem guerra ou paz, acredito que quase todos responderão que preferem paz e que gostariam que não houvesse guerras no mundo. São contra a guerra, são pela paz, mas não conseguem esquecer os benefícios da base das Lajes, mesmo sabendo que uma coisa está ligada à outra. E, sobre esta contradição: silêncio!

As décadas passaram. Entre o medo infantil do "osrussos vêm aí!" e a euforia infantil do "que bom que os americanos já cá estão!", a guerra deixou de ser tão fria para passar a ser mais electrónica, inteligente e artificial, ainda que nada virtual. A propaganda e o endoutrinamento evoluíram de tal modo que o trabalho de mascarar os propósitos de uma guerra se tornou obsoleto. Chegamos a este ponto em que o presidente do país mais poderoso do mundo em termos bélicos diz abertamente que faz o que lhe apetece em toda a parte, e faz mesmo, e disso não resulta praticamente nada. Todos têm as suas razões para não fazerem nada, começando pela constatação, para eles evidente, de que nada há a ser feito.

A base das Lajes passa assim, com a conivência da hierarquia portuguesa toda de alto a baixo, desde os trabalhadores que lá vão ganhar o seu até ao primeiro-ministro que apoia e ao presidente da república que se cala, a ser ponto de passagem e de reabastecimento de pessoal e equipamento que serve noutras paragens para exterminar populações em genocídios transmitidos em directo e aniquilar civilizações porque algum empreendedor teve uma nova e genial ideia de negócio para aqueles territórios e recursos. Tudo às claras, escancaradamente, sem filtros, sem papas na língua, sem subterfúgios.

No início de Março deste ano alguns manifestantes juntaram-se na entrada da base dos americanos, que afinal é portuguesa, para fazerem uma composição subordinada ao tema "guerra de Trump fora dos Açores", ou vice-versa. Os tempos são tais que eram tantos os jornalistas como os manifestantes. Razões para serem poucos os manifestantes não faltam, começando pelo facto de as manifestações não estarem na moda na ilha Terceira (alguma vez estiveram?), pela descrença nos efeitos práticos que delas possam resultar e pelo facto de ter sido um dia cinzento e molhado. Mas as razões não se ficam por aí.

Continuo a acreditar que a maioria dos terceirenses é contra as guerras, no abstracto. No concreto, porém, alguns são levados na cantiga das guerras cirúrgicas, preventivas, defensivas, dos bons contra os maus, e acabam por ser coniventes com elas, mesmo que não as apoiem explicitamente. Outros há, embora eu queira acreditar que menos, que serão apoiantes do Trump e de tudo o que caprichosa e estapafurdicamente lhe possa ocorrer.


No entanto, uma razão muito importante, não só para o pequeno número de manifestantes contra a guerra de Trump na entrada da base das Lajes, mas da contramanifestação que surgiu como reacção (são assim os reaccionários) nas redes sociais e nos cafés da esquina, incluindo a esquina mesmo ao lado da manifestação, terá sido o sentir aquela manifestação como sendo contra a existência da própria base militar. Ora, atentar contra a base é, na cabeça de muitos terceirenses, atentar contra a tal janela para o mundo, contra uma cultura superior, contra a protecção dos mais poderosos, contra o rendimento que daí vem para os nossos bolsos, contra o nosso imaginário recheado de hambúrgueres, cinema, liberdade, gelados, jazz, penduricalhos, chocolates e Top Gun. Na cabeça de muitos terceirenses, atentar contra os poderosos e bons norte-americanos é equivalente a ser conivente com os maus e perfilar ideologias de autoritarismos, falta de liberdade e campos de concentração.

No fundo, continuamos a ser tão pequeninos como era o povo medieval relativamente aos senhores feudais, às ordens religiosas, às ordens militares e aos reis: escolhemos ser recursos (mais ou menos humanos) de uns e não de outros, preferindo a vassalagem a uns e esperando deles a sua protecção contra os outros. Mentira! Somos bem mais pequenos: porque o povo medieval não tinha as alternativas que nós agora temos! Contudo, não mordemos a mão que nos dá de comer, não cuspimos no prato em que comemos, aceitamos o castigo de quem nos dá o pão, não olhamos o dente ao cavalo que nos dão, nem que seja só na tela, a passo lento rumo ao pôr-do-sol, cowboy, chapéu e cigarro no canto da boca... Somos bem comportados. E esses manifestantes deviam era ir para casa deles tratar dos seus problemas, em vez de virem para a rua colocar em causa a ordem estabelecida, que tanto custou a criar!


Vivemos assim, muitos de nós. Tantos! Vergamos os nossos princípios todos, perdemo-los todos pelo caminho, construímos outros depois para justificar o caminho que acabámos por escolher ou que acabou por nos acontecer. Vendemo-nos. Tanto! E justificamo-nos tanto ou ainda mais. Somos coniventes com os nossos chefes na medida em que julgamos que os chefes alternativos são piores. E se recebermos no Natal uma garrafa de vinho, então até nos esticamos no chão para que limpem os sapatos no nosso lombo. E ensinamos aos nossos filhos que assim é que é, porque assim poderemos receber garrafas de vinho no Natal.

Depois, quando surgem sindicatos a defender os interesses dos trabalhadores, olhamos para esses sindicatos como arruaceiros, gente que morde a mão que lhe dá de comer, que não quer trabalhar... e olhamos para os respectivos trabalhadores como privilegiados, que deviam vir trabalhar nas mesmas condições degradantes em que nós trabalhamos, para verem o que é bom, e para deixarem de estar sempre a fazer queixa e a reivindicar mais benefícios.

Depois, quando surgem partidos políticos que denunciam os verdadeiramente privilegiados, aqueles que recebem milhões sem sequer colocarem os pés nas empresas, que têm o poder de influenciar as políticas económicas dos países, acusam-nos de serem a favor dos russos, como quem os acusa de serem a favor dos tais autoritarismos que minam as liberdades individuais, porque nas suas cabeças o mundo só contém dois lados, e o lado dos outros, dos maus, ficou congelado antes da queda do muro de Berlim, sem sequer terem reparado que afinal os outros agora são iguais a nós.

Depois, quando surgem negociações sobre leis laborais, que existem para limitar o evidente poderio dos empregadores sobre os empregados, negociações essas que ameaçam dar ainda mais poder a quem já o tem, dando ainda menos aos trabalhadores, os trabalhadores ficam calados, porque se sentem entalados entre a escolha do senhor feudal que os há-de proteger, o não morder a mão que lhes dá de comer, o não apoiar os maus que querem nacionalizar tudo, e o serem enrabados sem lubrificante.

Entretanto, é quase certo que durante toda a sua vida beneficiaram, directa ou indirectamente, de subsídios de doença, de invalidez, de reformas, de folgas semanais, de um máximo de oito horas de trabalho por dia, de férias, de subsídio de férias e de Natal, de licenças de maternidade e paternidade, de formação contínua. Coisas que alguns manifestantes, mordendo a mão que lhes dá de comer, e pagando às vezes com a própria vida, foram para a rua reivindicar há muito tempo atrás. Quem sabe em dias de chuva?

O feriado do primeiro de Maio devia, na cabeça desses que gostam de fazer divisões entre o nós e os outros, entre os trabalhadores que tal como eles são amigos do patrão e os restantes, ser o dia em que se presta homenagem àquelas e àqueles que lutaram para conseguir uma distribuição mais equitativa do produto da actividade económica entre quem o produz e quem tem a propriedade, mesmo que não produza. Excluídos da homenagem deviam ficar os que não fizeram por isso, os que se acagaçaram, os que eram a favor da ordem instituída.

Mas não. O dia do trabalhador é uma homenagem a todos os trabalhadores, sem excepção. Os que se chegaram à frente deram de si para todos os outros.

Também os que querem Trump e a sua guerra fora dos Açores e do planeta, querem a paz não apenas para si, mas para todos.


E isto devia fazer pensar e encher muitas pessoas de vergonha.

Deixo-vos mais alguns cartazes dessa manifestação/instalação artística ambulante do primeiro de Maio de 2018 em Angra do Heroísmo.






 

terça-feira, 7 de abril de 2026

Voltinhas que a história dá...

Eu não sei se a história se repete ou não, e parece-me que quem conclui acerca disso está a ver o que quer ver. De qualquer modo, a mim parece-me é que as pessoas continuam a ser pessoas, muito parecidas hoje com aquilo que foram há séculos ou milénios. O dito progresso dá-se sempre mais nos penduricalhos do que dentro das cabeças.

 33,059 Arrow Made Of Arrows Royalty-Free Images, Stock Photos & Pictures |  Shutterstock

Ouvido no programa "o fim dos princípios", na Antena 1 Açores, no dia 6 de Abril de 2026.

https://www.rtp.pt/play/p9024/e920263/o-fim-dos-principios

 

Abrir aspas (mais coisa menos coisa).

1

Enfadados. Estamos todos enfadados. E o demagogo come connosco à mesa e repete a refeição que lhe foi oferecida.

Revoltados. Estamos todos revoltados. E os forros desfeitos das algibeiras assemelham-se a estômagos vazios.

Conformados. Estamos todos conformados. A democracia está a planar e nós a escorregar.

Que esforços estamos hoje a fazer para manter a liberdade conquistada? Que cansaço, que preguiça e que medo nos consome? O regime é o que o povo define.

Enfadado. Revoltado. Conformado. Que se inicie a desordem!

Com ela, a disputa pela liberdade com a mais bela das armas: a razão.

2

Os esforços que fizemos para conquistar a liberdade que hoje temos não bastaram para regenerar as nossas almas do aviltamento em que por muito tempo estiveram. Tinha-nos ficado, como um defeito nativo, a dobra servil. A nossa vocação especial fora por muitos anos sermos vítimas; faltaram-nos repentinamente os algozes, não aprendemos a ser mais nada, e ficámos numa desocupação desconsolada e abatida. A guerra de que nos proveio a Constituição deu-nos apenas uma vitalidade febril e passageira.

Logo que deixámos de discutir os princípios da liberdade que então nos propusemos, não tornámos a fazer mais nada senão servir os interesses pessoais e a ambição dos indivíduos. Do regime que não temos sabido manter consistente e válido, restam-nos apenas hoje os benefícios que ele, depois de corrompido, faculta às mediocridades ambiciosas, ao patronato, à intriga, à pusilanimidade, à baixeza. Temos do constitucionalismo – esgotado – tudo o que ele tinha de mau na lia: a nobilitação dos parvenus, a falsa grandeza, a falsa virtude, o falso talento, o funcionalismo exuberante, a arrogância burguesa, o reinado da usura, a ruína do trabalho, a sofismação dos princípios, a decadência da arte, a depravação do gosto, a queda dos caracteres e dos espíritos para o fútil, para o ordinário, para o reles, para o chinfrim... Vede a Câmara dos Deputados: não é só a precisão na ideia, a firmeza nos princípios e a nobreza na palavra o que a ela lhe falta. Falta-lhe também a dignidade do porte, faltam-lhe as maneiras, falta-lhe a toilette, e é quase tão ridícula pelos seus discursos como pelas suas gravatas. Sente-se a má companhia. Revela-se o mauvais lieu no simples aspecto chulo dos Cíceros pimpões.

Sem os partidos fortes, único motor capaz de imprimir um jogo tão regular às engrenagens do regime constitucional como o que existe na Bélgica e na Inglaterra, achamo-nos quase no estado atomístico de Hegel, na desagregação, em virtude da qual cada molécula social, entregue por sua desgraça à liberdade quase absoluta, volteia às cegas em busca de um novo centro de atracção. É a mesma situação em que há pouco tempo se achava a Espanha e em que está ainda hoje a Itália. Na Itália, porém, a grande obra da unificação deu à vida nacional um forte impulso saudável de energia patriótica.

Portugal não esteve talvez nunca tão perto como hoje da pilha que o há de estremecer e abalar.

3

Querem manter a ordem? Aqui têm um meio bem simples, bem pronto: deixem de manter os abusos. Querem governar bem? Lembrem-se do que dizia Washington: a honestidade é a melhor política. Sejam virtuosos os que não podem ser instruídos.

A inteligência só longamente se cultiva. A virtude penetra-nos de pronto, porque a justiça é um axioma, é uma evidência, não demanda estudos preliminares nem reflexões subsequentes. É o princípio e é o fim de si mesma.

4

Leitor amigo, se queres sinceramente contribuir nos teus meios para fortalecer a tua pátria, dá-lhe modestamente, na pequena órbita da tua influência, entre os teus parentes e os teus amigos, aquilo que ela mais precisa de ter para a sua defesa dentro da casa de cada cidadão; não se trata da força do teu braço, trata-se da rectidão do teu juízo: sê prudente e justo.

No caminho em que nos puseram aqueles por quem nos temos deixado conduzir, nós não vamos livremente para a escolha da forma de um governo livre; vamos submissamente para a sujeição voluntária dos domínios despóticos. Para que esses poderes nos subjuguem, basta simplesmente que nos invada a anarquia que nos está batendo à porta. Na perturbação geral, no conflito, no perigo da fazenda e da vida, o egoísmo sacrificará sem nenhuma disputa a liberdade. Porque a liberdade, por mais bela que ela seja, é na existência uma circunstância. A ordem é a condição essencial intrínseca da vida, a garantia do trabalho e a segurança do pão. Quem poderá calcular o número de liberdades que nós sacrificaremos à ordem no momento em que a desordem começar a facultar-nos o direito ao governo, com a supressão do direito ao jantar?... É das profundidades demagógicas que saem sempre à periferia social os tiranos. Já Aristóteles dizia que o déspota começa no demagogo. Assim nasceram Pisístrato em Atenas, Dionísio em Siracusa, Teágenes em Mégara.

O nosso profundo mal está na nossa profunda indiferença. Aos que ignoram os perigos desta enfermidade social, lembraremos que quando Napoleão desembarcou no Golfo Juan, não foi a força dos que o defendiam que o reconduziu ao trono, foi a inércia dos que o não atacaram.

Ora, as apatias, querido leitor sensato, curam-se pelos regimes constituintes. Os meios revulsivos agravam a prostração e produzem o desfalecimento e a morte. Quando o princípio vital da autoridade se acha ameaçado sob a sua forma política –  no governo –, a primeira obrigação do povo é manter esse princípio sob a sua forma filosófica: na razão.

Fechar aspas.

Ramalho Ortigão - Wikipedia


Notas e comentários meus:

- As passagens são retiradas de "as farpas" de Ramalho Ortigão. Estas crónicas foram escritas ao longo de muitos anos, no final do século XIX e início do século XX. A segunda e quarta passagens são de 1873. As restantes não consegui identificar.

- Demagogo, segundo a IA do Google (que por sua vez se baseia algures...), é "um líder político que manipula as emoções, medos e preconceitos do povo com discursos inflamados e promessas irrealizáveis para conquistar o poder. Esta prática, frequentemente associada ao populismo, prioriza a popularidade imediata sobre soluções consistentes, ameaçando a estabilidade democrática." A Wikipedia define assim: " é um líder que ganha popularidade explorando emoções, preconceitos, e ignorância para despertar o povo comum contra algum inimigo, provocando as paixões da multidão e interrompendo as deliberações fundamentadas. Os demagogos derrubam normas estabelecidas de conduta política, prometem ou ameaçam fazê-lo."

- Parvenus, do francês, semelhante a novos ricos, com ênfase na falta de cultura e na desadequação que isso acarreta face à classe social ou económica onde se pretendem inserir

- Mauvais lieu, do francês, literalmente um lugar mau, usado para designar um lugar ou contexto moralmente corrompido

- Cíceros pimpões é uma forma de designar bons oradores, vaidosos, que tentam mostrar que valem mais que os outros através dos seus discursos, mas que no fundo são apenas presunçosos fanfarrões

- "Sem os partidos fortes...". Neste parágrafo, Ramalho Ortigão manifesta o horror à desordem, à anarquia, entendendo a anarquia como falta de um poder pessoal e/ou institucional claro e manifesto, e uma estrutura de poder emanando a partir daí, que conduza a população no melhor caminho. Este parágrafo revela a crença na necessidade de o povo ter um líder e, no limite, na sua incapacidade de auto-governo. Mais à frente, neste mesmo texto, há uma referência directa à "anarquia" que reforça o que aqui digo. Evidentemente os anarquistas teriam sérias críticas a fazer a este respeito. A título de exemplo, é típico ouvirem-se relatos históricos, à posteriori, sobre processos de descolonização, em que se fala da necessidade de fazer uma transferência de poder. Ou então, em contextos de revolução, quando se fala de uma necessidade de não deixar o poder cair nas ruas. O significado é sempre semelhante, nomeadamente a ideia de que é necessário existir um comando superior, que a população não pode ser dona de si mesma. Quando ao mesmo tempo insistimos em falar sobre democracia e dizer que usufruímos de uma democracia, isso parece talvez paradoxal e devia fazer-nos pensar.

- Estado atomístico de Hegel. Na verdade, Hegel critica precisamente a ideia de que o todo é apenas a soma das partes, que a sociedade pode ser vista como uma soma de indivíduos, que o Estado é apenas a expressão dessa soma. Ele critica esse estado atomístico. Alternativamente ele propõe que o colectivo é mais do que a soma das partes, que a sua existência não depende apenas dos indivíduos, que os próprios indivíduos dependem do colectivo.

- "Quem poderá calcular o número de liberdades que nós sacrificaremos à ordem no momento em que a desordem começar a facultar-nos o direito ao governo, com a supressão do direito ao jantar ". Esta frase contém alguma ambiguidade e permite várias interpretações, sobretudo devido à inclusão de "a desordem começar a facultar-nos o direito ao governo". Sem essa proposição, a frase parece de interpretação inequívoca: se nos faltar a comida, ficaremos dispostos a restringir a liberdade para podermos ter de novo ordem e com ela o acesso à comida. Em termos históricos há muitas evidências de que nos períodos de maior aperto económico as populações ficam mais permeáveis aos demagogos que identificam inimigos comuns e avançam com políticas que restringem a liberdade de todos. Parece que neste preciso momento estamos a caminhar para algo semelhante. Resta saber de que forma é que a desordem nos pode facultar o direito ao governo. Deixo à interpretação de cada um.

- Pisístrato (séc. VI a.C.) feriu-se a si próprio e fingiu ter sido atacado pelos seus inimigos políticos e tomou outras medidas com o objectivo de elevar a sua popularidade. No entanto, o seu governo é visto pelos historiadores actuais como benéfico para a maioria da população, pelo que Ortigão poderá ter interpretado mal a história, talvez pela classificação de Pisístrato como um tirano. Aparentemente, essa classificação dizia antigamente respeito a alguém que toma o poder de forma considerada ilegítima, e não a alguém que exerce um poder que oprime o povo.

- Dionísio (séc. IV a.C.) "ganhou apoio popular ao acusar os generais e os ricos de incompetência e traição durante as guerras púnicas, apresentando-se como o único defensor capaz de salvar a Sicília dos cartagineses" (enciclopédia Britânica). Ele também conquistou o poder de forma considerada ilegítima, e desse modo foi classificado de tirano, mas aparentemente ele foi efectivamente um déspota e um tirano no sentido actual do termo.

- Teágenes (séc. VII a.C.) foi um demagogo que conquistou o apoio dos pobres e camponeses com medidas arbitrárias e simbólicas contra os ricos e foi um tirano, no sentido antigo do termo, uma vez que ascendeu ao poder através de um golpe de Estado. No entanto, é aparentemente difícil de avaliar quão bom ou mau foi o seu governo para a população.

- Napoleão Bonaparte desembarcou na baía Golfe-Juan, perto de Cannes, no sul da França, em 1815, fugido do exílio na ilha mediterrânica de Elba, tendo então iniciado uma marcha até Paris, onde acabou por reconquistar o poder, embora por apenas alguns meses.

- A última frase aqui apresentada mostra novamente a importância que Ramalho Ortigão atribui à autoridade. No entanto, perante eventuais situações de perda de autoridade pelo poder político, ele afirma que a autoridade deve permanecer na razão, e que essa autoridade e essa razão devem ser asseguradas pelo povo. Interessante, e porventura polémico. Mas de qualquer modo, potencialmente útil nos dias que correm, uma vez que o povo parece nunca ter deixado de se influenciar mais por crenças mal fundamentadas e sensações primárias ou viscerais do que pela razão esclarecida. As lanternas do iluminismo têm podido bem pouco contra os oceanos do obscurantismo.