quarta-feira, 10 de junho de 2026

Dia de Portugal, da agressividade normalizada, do conformismo realista, da auto e da heterobajulação

 


Excelentíssimas senhoras e excelentíssimos senhores,

representantes uns dos outros

e dos respectivos interesses,

meretíssimos e digníssimos jogadores do poder,

senhores uns dos outros,

e respectivos aspirantes:

Hoje, Portugal continua a ser um pedaço de terra

que, em conjunto com todos os outros pedaços de terra dos outros países

perfaz a terra toda do planeta Terra.

Mas Portugal não é apenas esse pedaço de terra!

É também as pessoas que lá vivem,

pessoas que como todas as outras pessoas da Terra

possuem cabeça, tronco e membros,

sonhos, necessidades e desejos,

medos e angústias

e vontade de se sentirem bem

consigo mesmas e com os outros.

Em Portugal os pais desejam o melhor para os seus filhos,

e choram de desgosto quando lhes morre um familiar ou um amigo,

tal como acontece em todos os outros países do Mundo.

Mas os portugueses distinguem-se dos outros povos pela sua cultura,

pelo modo como falam, como cozinham e ocupam os seus tempos livres,

tal como qualquer par de vizinhos também se distingue entre si,

apesar de serem profundamente semelhantes

naquilo que é verdadeiramente importante.

Herdamos as fronteiras que outros riscaram no nosso planeta,

tal como herdamos os discursos do "dia da raça"

que nos dizem sermos diferentes dos outros,

apesar de sabermos que somos muito mais iguais do que diferentes.

Os representantes uns dos outros,

e dos respectivos interesses,

sabem como é importante dividir os povos no planeta

porque é impossível "governar" todos em simultâneo

mas é possível governar um só,

desde que ele seja governável.

Para governar um povo

é necessário que ele acredite que é uno e distinto dos demais,

é necessário que ele veja nos outros uma ameaça,

e esteja disposto a manipular máquinas de incrível poder destrutivo

para garantir essa diferença.

Para governar um povo

é necessário que ele se submeta às leis

que para o reger elaborámos

e que saiba reconhecer em nós,

excelentíssimos representantes uns dos outros,

uma superioridade que não está ao seu alcance.

Governar um povo assim é indispensável

num mundo onde outros governantes

de outros povos iguais ao nosso

ameaçam ultrapassar o nosso poder.

O povo português é um povo capaz

que sabe obedecer ao chamamento da produtividade,

da criatividade e do desenrascanço.

Mas não podemos adormecer à sombra dessas qualidades.

A competição entre os representantes dos representantes,

que fragmenta o Mundo em países e povos diferenciados,

e lhes inculca um saudável espírito competitivo,

uns contra os outros,

e todos contra todos,

obriga-nos, para não perdermos a corrida, a batalha, a luta,

a superação, a ultrapassagem, o progresso, o crescimento,

a inovação, a transformação e a marcha inelutável dos tempos,

a dotarmos os portugueses de mais e melhores ferramentas

de obediência e desenvolvimento.

Precisamos de escolas que formem melhor capital humano.

Precisamos de hospitais que diminuam os tempos de baixa médica.

Precisamos de vias de comunicação para escoar as matérias primas

e os produtos de que é feita a felicidade dos portugueses,

e a nossa.

Precisamos ainda de canais, tecnologias e todos os meios necessários

à veiculação sistemática de mensagens motivacionais,

que façam o português comum perceber a importância do seu trabalho

no financiamento de todos estes investimentos

necessários ao seu trabalho,

e à felicidade de todos!

Mas a mensagem que todos, e eu também, temos de nos empenhar em transmitir,

é que os portugueses são capazes disso tudo,

mas isso só não é suficiente!

Os portugueses têm de manter o olho aberto

aos líderes dos outros países como o nosso,

que querem para si o que nós queremos para nós!

Essa ameaça permanente é também uma oportunidade permanente

de canalizarmos recursos para a renovação e melhoria

da máquina de paz e de defesa.

Cada caça supersónico, cada drone militar, cada bomba

conseguida com o esforço de um português

é um passo dado no caminho da sua emancipação

e da sua afirmação

no xadrez geopolítico contemporâneo

onde, como desde há milénios,

os povos se aniquilam mutuamente por vontade dos respectivos líderes,

dos representantes dos representantes,

e dos respectivos interesses.

Excelentíssimas senhoras e senhores,

Portugal tem dez milhões de habitantes,

mas são muitos mais aqueles que noutros países

sabem vergar-se, obedecer e respeitar o poder das autoridades portuguesas,

e o significado dos símbolos por nós adoptados

para os distinguirmos de todos os outros.

Às vezes, alguns portugueses podem sentir-se abandonados por nós.

Por isso mesmo considero importante celebrar o dia da ideia da coisa que Portugal é

junto das pessoas que habitam lugares mais remotos.

É importante que todos se sintam unidos

nas diferenças perante os demais,

que tanto nos temos empenhado em construir e preservar,

ao longo de tantos séculos.

E se o presidente não pode estar sempre fisicamente junto do seu povo,

por não deter o dom da ubiquidade,

a bandeira, o hino e os demais símbolos nacionais ajudarão

a que nunca o povo se esqueça de onde reside a sua liderança,

para onde deverá remar,

e quais os impostos que deverá pagar

a fim de se financiar a si mesmo

e a nós.

Saiba o povo ser empenhado, dedicado, honesto,

responsável, trabalhador, honrado,

confiável, leal, humilde e medroso,

mas também confiante, fiel, resiliente

e perseverante na ausência de ideais em que o soubemos educar,

saiba o povo escolher as palavras do meio,

que como todos sabem é onde está a virtude,

saiba o povo ser moderado e sereno,

nunca caindo nos radicalismos de quem quer ver mais

do que aquilo que lhe é dado para ver,

e os representantes dos representantes

poderão assegurar-se que os seus interesses continuarão a ser respeitados,

por muitos e muitos séculos,

muitos mais do que aqueles todos de onde viemos,

e de onde já alguém poderia e deveria ter aprendido alguma coisa,

mas não.

A todas e a todos um santo e laico dia das diferenças artificiais,

e das asas de ferro, boinas mandadas, símbolos e todo o manancial

de coisas que inventamos

para que o povo acredite que é de entre todos o mais especial.

segunda-feira, 8 de junho de 2026

We love americans - uma mensagem iraniana...

We love americans, but not their leaders.

Um vídeo iraniano, parte de uma campanha de vídeos feitos com bonecos Lego que tentam combater a imagem estereotipada que os "ocidentais" têm dos iranianos, como se eles não fossem gente. A letra desta música contém a essência de tantos enganos, não apenas nos EUA, mas em tantos outros países, incluindo Portugal. Para ver, ouvir, e sobretudo ler atentamente.

Em baixo a letra original em inglês, seguida de uma tradução quase-automática para português.


Em inglês:

We do not hate you, people of the West.
We see you through the smoke of what they call progress.
We have watched from across the ocean,
from behind their walls.
And what we see is a people who deserve better than what rules them.
This is not a war cry.
This is a wakeup call.
Open your eyes, brothers and sisters.
The hands that wave your flag
are not the hands that hold you.
Listen:
[Chorus]
We love Americans.
We love your soul.
The land of dreamers, the brave, the bold.
But something sits on top of you.
Dressed in your name.
Spending your children's blood like a game.
We love Americans. Oh yes we do.
But the ones who speak for you don't speak for you.
Wake up. Wake up before the morning's gone.
They built the cage so slow.
You thought it was your home.

Uh yeah. They hand you left and right, like two halves of a lie.
Different faces, different voices, same agenda inside.
One wears a blue suit, one wears a red tie.
But behind closed doors, they shake hands and divide
the taxes from your table, from the war you never chose.
They name it liberation, but it's oil – everyone knows.
They call us terrorists on the television screen.
While the real terrorism wears a suit and gets a pension and a dream.
They sell your children futures built on manufactured debt.
They send those very children off to wars they'll soon forget.
And when the coffins come home, draped in stars and stripes,
nobody on that podium is losing sleep at night.
The media machine spins before the body hits the ground.
A new enemy is needed every time the polls come down.
We watched it from Tehran, from Kabul, from Baghdad too.
The ones they demonized were people just like you.
They said "we hate your freedom", but your freedom is our dream.
We read your constitution. We know what those words mean.
It's the ones who wrote the speeches and then buried what they said.
Who turned that sacred document into a tool of dread.

[Chorus]

Uh uh. The billionaire who funds the law and writes the law himself.
The pharmaceutical machine that keeps you sick for profit and for wealth.
The school that teaches history with chapters torn away
so you never ask the question: who really made it this way?
They gave you social media so you'd argue with your neighbor
while they sign the deals in secret, taking everything you labor
Left versus right, black versus white.
They need you divided because the united people is the only thing they've ever dreaded.
They sanctioned us. They bombed us. They painted us as beasts.
But the ordinary American was never at that feast.
You were working double shifts while they were working diplomats.
You were counting grocery bills while they were counting combat stats.
We don't confuse the empire with the people that it rules.
History is full of kings who turn their own into their tools.
Your founding fathers warned you. Yes, they wrote it clear
that power concentrated is the thing that you should fear.
That foreign wars and secret deals and banks too big to name
were the very seeds of tyranny dressed up in freedom's frame.
And now we watch across the sea and wonder: do they know?
Do the people of that nation see the curtain and the show?
We've lost our brothers, lost our sisters, lost our skies to their machines.
But we separate the people from the politics and schemes
because hatred is their weapon. Love is ours to wield
and truth is the only armor that will never crack or yield.
So we sing this not in anger but in solidarity
that the people of the world want nothing more than to be free
from the ones who take our names and use them for their wars.
We are not your enemies. We're prisoners of the same cause.

[Chorus]

We do not celebrate your suffering.
We mourn it the same way we mourn our own.
Because your mother crying for a soldier is no different
from my mother crying in the rubble.
Pain does not have a passport. And the ones who cause it never feel it.
So to every American reading a headline and feeling confused,
to every citizen wondering why everything feels rigged:
You are not crazy. You are not alone.
And from the other side of the wall they built between us.
We see you. We hear you.
And we are standing here.
Not as your enemy, but as proof that the world...

[Repeat from the beginning]


Em português:

Não vos odiamos, povo do Ocidente.
Vemo-vos através do fumo do que eles chamam progresso.
Observamos do outro lado do oceano, por detrás dos seus muros.
E o que vemos é um povo que merece algo melhor do que aquilo que os governa.
Este não é um grito de guerra.
Este é um alerta.
Abram os olhos, irmãos e irmãs.
As mãos que agitam a vossa bandeira não são as mãos que vos acolhem.
Escutem:

[Refrão]
Nós amamos os americanos.
Amamos a sua alma.
A terra dos sonhadores, dos bravos, dos ousados.
Mas algo pesa sobre vós,
vestido com o vosso nome,
gastando o sangue dos vossos filhos como um jogo.
Nós amamos os americanos. Oh, sim.
Mas aqueles que falam por vós não falam por vós.
Acordem. Acordem antes que a manhã acabe.
Construíram a jaula tão lentamente.
Vocês pensaram que era o vosso lar.

Dão-te esquerda e direita, como duas metades de uma mentira.
Rostos diferentes, vozes diferentes, a mesma agenda por dentro.
Um veste fato azul, o outro gravata vermelha.
Mas, à porta fechada, cumprimentam-se e dividem
os impostos da vossa mesa, da guerra que vocês nunca escolheram.
Chamam-lhe libertação, mas é petróleo – toda a gente sabe.
Chamam-nos terroristas na televisão.
Enquanto o verdadeiro terrorismo veste um fato, recebe uma reforma e um sonho. Vendem aos seus filhos futuros construídos sobre dívidas fabricadas.
Enviam esses mesmos filhos para guerras que em breve esquecerão.
E quando os caixões chegam a casa, cobertos de estrelas e riscas,
ninguém naquele pódio perde o sono à noite.
A máquina dos media gira antes mesmo do corpo tocar no chão.
Um novo inimigo é necessário sempre que as sondagens baixam.
Vimos isso de Teerão, de Cabul, de Bagdade também.
Aqueles que eles demonizaram eram pessoas como vocês.
Diziam "nós odiamos a vossa liberdade", mas a vossa liberdade é o nosso sonho.
Lemos a vossa constituição. Sabemos o que estas palavras significam.
Foram aqueles que escreveram os discursos e depois enterraram o que diziam,
quem transformou este documento sagrado numa ferramenta de terror.

[Refrão]

O bilionário que financia a lei e redige-a ele próprio.
A indústria farmacêutica que te mantém doente para obter lucro e riqueza.
A escola que ensina história com capítulos arrancados para que nunca se pergunte: quem realmente fez isto acontecer?
Deram-vos as redes sociais para que discutissem com os vossos vizinhos
enquanto eles assinam os contratos em segredo, levando tudo o que vocês produzem. Esquerda contra direita, negros contra brancos.
Precisam que vocês estejam divididos porque o povo unido é a única coisa que sempre temeram.
Eles sancionaram-nos. Eles bombardearam-nos. Pintaram-nos como bestas.
Mas o americano comum nunca esteve presente neste banquete.
Vocês trabalhavam em turnos duplos enquanto eles trabalhavam como diplomatas.
Vocês fazem contas ao supermercado enquanto eles contam estatísticas de guerra.
Não confundimos o império com o povo que ele governa.
A história está repleta de reis que transformam os seus próprios cidadãos em ferramentas.
Os vossos "pais fundadores" alertaram-vos.
Sim, deixaram claro que o poder concentrado é o que devem temer.
Que guerras estrangeiras, acordos secretos e bancos demasiado grandes para serem nomeados eram as próprias sementes da tirania disfarçadas de liberdade.
E agora observamos do outro lado do oceano e perguntamo-nos: será que eles sabem? Será que o povo daquela nação vê a cortina e o espectáculo?
Perdemos os nossos irmãos, perdemos as nossas irmãs, perdemos os nossos céus para as máquinas deles.
Mas separámos o povo da política e das intrigas porque o ódio é a sua arma.
O amor é nosso para empunhar e a verdade é a única armadura que jamais se quebrará ou cederá.
Então cantamos isto não com raiva, mas em solidariedade
que os povos do mundo não desejam mais do que libertar-se daqueles que tomam os nossos nomes e os usam nas suas guerras.
Não somos vossos inimigos. Somos prisioneiros da mesma causa.

[Refrão]

Não celebramos o vosso sofrimento.
Lamentamo-lo da mesma forma que lamentamos o nosso.
Porque o choro da vossa mãe por um soldado não é diferente do choro da minha mãe nos escombros.
A dor não tem passaporte. E aqueles que a causam nunca a sentem.
Assim, a cada americano que lê uma manchete e se sente confuso, a cada cidadão que se interroga porque tudo parece manipulado:
Você não está louco. Não está sozinho.
E do outro lado do muro que construíram entre nós, nós vemo-vos. Nós ouvimo-vos. E nós estamos aqui. Não como vossos inimigos, mas como prova de que o mundo...

[Repete desde o início]

sexta-feira, 5 de junho de 2026

O amoque...

 

(no dicionário, amoque é um acesso de loucura furiosa e homicida, ou uma reacção súbita de mau humor ou irritabilidade)

A primavera na ilha Terceira, e por simples proximidade geográfica presumo que no resto do arquipélago dos Açores, tem este ano sido um pouco estranha, para dizer o mínimo. O sintoma mais notório talvez tenha sido uma temperatura do ar mais baixa que o habitual. Bom, vou corrigir o que acabei de dizer: mais baixa do que aquilo que eu, que só cá vivo há uma década, considero habitual, sabendo bem que em termos de meteorologia uma década não é um período amostral suficiente para extracção de conclusões robustas. De qualquer modo, e tentando novamente ser um pouco mais objectivo, a temperatura do ar foi este ano mais baixa do que em anos precedentes.

Talvez a maioria dos terceirenses não se banhe no mar em Abril e Maio, porque entre outras coisas a temperatura do mar é nesta altura próximo do mais frio que aqui se consegue, que costuma rondar os 16ºC. Para mim, que cresci a banhar-me no mar perto do Porto ao longo de todo o ano, essa temperatura é bastante suportável, pelo que aqui na Terceira posso usufruir desse privilégio que é ir ao mar o ano todo, sem ficar preocupado com uma potencial necessidade de amputação de alguma extremidade, mais cilíndrica ou mais esférica. E fazendo-o regularmente desde que para cá vim morar, apercebi-me de como a temperatura da água do mar e a temperatura do ar estão intimamente relacionados.

Quem vive nos Açores sabe bem que quando o vento sopra de Norte o ar é mais frio e seco, mesmo que com alguns aguaceiros, e que quando o vento sopra de Sul o ar é mais quente e húmido. No entanto, em qualquer dos casos, o ar tem de viajar centenas ou milhares de quilómetros em contacto com a superfície do oceano antes de cá chegar, e durante essa viagem ocorrem naturais transferências de calor entre o ar e a água. Desta forma, o oceano comporta-se como uma enorme massa que imprime inércia às variações de temperatura do ar. Se no inverno o mar estiver a 16ºC, quando o vento sopra de Norte a temperatura do ar à sombra será talvez de 13ºC e quando sopra de Sul será talvez de 19ºC, variando pouco entre o dia e a noite. Se no verão o mar estiver a 25ºC, o vento Norte poderá estar a 22ºC e o vento Sul poderá estar a 28ºC. As coisas não se processam exactamente assim, mas de uma forma grosseira é isto que acontece.

A temperatura mínima da água do mar costuma ocorrer lá pelo final do mês de Março, começando a aquecer a partir daí. Este ano, porém, notei que a temperatura se manteve baixa, nos 16ºC, durante grande parte de Abril, só começando a aquecer em Maio. A diferença para um ano normal é mínima, talvez de apenas um grau, mas eu senti-a, mais pela evolução ao longo do tempo do que talvez pelo valor absoluto. E se a minha conjectura sobre a relação entre as temperaturas da água do mar e do ar está certa, então é natural que a temperatura do ar esteja a ser, nesta primavera, inferior àquilo a que estou habituado.

Ora, recentemente, temos tido várias ocorrências de um fenómeno que apesar de não ser raro não costuma ser assim tão frequente: nevoeiro a altitudes muito baixas, mesmo até à superfície do mar. O mais habitual é, quando o vento sopra de Sul, as nuvens formarem-se mais ou menos à altitude do Monte Brasil, isto é, cerca de 200m, um pouco acima da altitude da minha casa.

Eu não pude deixar de relacionar estas duas percepções: a água do mar mais fria que o habitual e a existência mais frequente que o normal de nevoeiros baixos. A relação parece-me muito plausível, uma vez que esse fenómeno existe: o ar que originalmente já está saturado de humidade arrefece por contacto com a superfície do oceano que está mais fria e a humidade condensa, formando o nevoeiro.

Tudo isto são conjecturas, especulações, percepções, hipóteses, que eu não tenho possibilidade, com os parcos conhecimentos e recursos disponíveis, de testar. No entanto, as minhas pesquisas na Internet sobre este assunto levaram-me a tropeçar inúmeras vezes nesta coisa a que deram o nome de "cold blob", que até já tem artigo na Wikipedia, mas que ainda não está traduzido para português. Podemos chamar-lhe mancha fria. Esta mancha fria não é uma conjectura: é um fenómeno que tem sido medido com rigor desde há mais de uma década.

O mapa ilustrado no início deste artigo mostra, para toda a superfície do planeta, a anomalia da temperatura do ar à superfície em 2015, isto é, a diferença entre a temperatura média registada nesse ano e a temperatura média dos anos entre 1951 e 1980. Pode ver-se que em quase todo o planeta a anomalia é positiva, ou seja, o ar aqueceu relativamente aos dados históricos, à excepção da região em torno da Antárctida e de uma mancha situada no Noroeste do oceano Atlântico.

Quem tiver o olho apurado, poderá ver que o arquipélago dos Açores fica de fora, nesse mapa de 2015, da dita mancha fria, mesmo por um triz. De facto, nos últimos anos, a temperatura nos Açores também tem estado mais alta do que o normal. E como eu só cá estou há dez anos, esse transformou-se no meu novo normal. Mas a mancha fria varia na sua localização e intensidade de ano para ano, e pode ser que este ano as temperaturas nos Açores tenham sido mais afectadas por ela, senão com uma anomalia negativa, então talvez apenas regressando aos seus valores normais, e mais frios do que tem acontecido recentemente.

A mancha fria salta à vista na imagem de cima, e naturalmente levantou todo o tipo de interrogações sobre as suas causas aos meteorologistas que estudavam o assunto. Aparentemente a justificação que parece estar a ganhar mais aceitação é a de que o aquecimento global está a contribuir para o abrandamento da circulação global de água no oceano Atlântico, conhecida como AMOC (Atlantic Meridional Overturning Circulation), na qual a corrente do Golfo se insere.

A AMOC funciona, de maneira simplificada, nestes termos: a água quente, menos densa, entra no oceano Atlântico, vinda do oceano Índico, contornando a ponta Sul de África. Essa corrente de superfície atravessa o Atlântico Sul até ao Brasil, seguindo até às Caraíbas e ao Golfo do México, de onde segue depois para Nordeste até à Europa, onde se divide e espalha. A água que atinge as maiores latitudes arrefece em contacto com o ar mais frio até um ponto em que, apesar da sua salinidade mais elevada, se torna mais densa que a água que está em baixo. É então que se dá o "capotamento" ("overturning") e a água afunda. Este afundamento funciona como um motor para sugar a água da superfície, mantendo a corrente do Golfo e toda a corrente superficial de água quente, e para empurrar a água fria para o fundo do oceano, e daí novamente para latitudes menores, passando novamente nas Caraíbas, descendo a costa da América do Sul e juntando-se finalmente à corrente de água fria que circunda a Antárctida.

O aquecimento global está a alterar o afundamento da água no norte do oceano Atlântico de duas formas. Primeiramente, como a temperatura do ar é superior ao habitual, a água não arrefece tão rapidamente depois de sair do Golfo do México, e consequentemente mantém a sua densidade mais baixa durante mais tempo. Em segundo lugar, o aquecimento global está a conduzir ao degelo da calote polar do Árctico, o que introduz mais água doce do que o habitual no Norte do oceano Atlântico. Isto reduz a salinidade média das águas, e também das águas quentes da superfície, tornando-as igualmente menos densas do que o habitual e dificultando o seu afundamento.

Aparentemente este fenómeno ainda não é bem compreendido e os especialistas ainda não sabem dizer exactamente o que está a acontecer ou o que virá a acontecer no futuro próximo ou distante. Uma das razões para isso é a falta de dados, pois só há poucos anos (à escala dos períodos amostrais na área da meteorologia) é que se recolhem dados sobre a água do oceano em profundidade.

Mas se a justificação apresentada em cima, e que é por ora a mais aceite, for verdadeira, então a humanidade vai ter bastante com que se divertir durante as próximas décadas. De facto, para além das consequências mais conhecidas do aquecimento global, os especialistas receiam que a circulação da água do oceano Atlântico seja pura e simplesmente interrompida, e que isso possa acontecer num período muito curto, talvez de apenas poucas décadas, em consequência de um fenómeno que se auto-alimenta.

Que consequências poderá trazer uma eventual interrupção da AMOC? Entre coisas que suspeito ainda não foram imaginadas, o clima de grande parte da Europa poderá ser drasticamente alterado. Estamos a falar de uma mudança de uma magnitude nunca antes observada: as temperaturas médias em algumas regiões podem descer entre 5º e 10º em apenas uma década. Além disso prevêem-se secas extremas em toda a região Sul. Toda a agricultura seria afectada e a vida de todos os europeus iria sofrer uma alteração profunda.

Para tornar as coisas ainda piores, uma alteração da AMOC para um outro equilíbrio meta-estável é, no estado actual da nossa tecnologia e do nosso conhecimento, algo que a humanidade não pode reverter.

Se isso acontecer em 2080, eu provavelmente já cá não estarei para ver. Mas os nossos filhos estarão. Ou seja, é já ao virar da esquina!

Enfim, é assustador o que o ser humano é capaz de fazer. É impressionante pensar como ainda há muito pouco tempo muitas pessoas não acreditavam sequer na capacidade de a humanidade alterar a dinâmica de coisas tão grandes como o clima ou os oceanos. Era uma ignorância conveniente. Mas depois colocámos o termómetro e vimos as temperaturas a subir. Registámos o aumento do nível médio dos oceanos, a sua acidificação, o aumento da concentração de gases com efeito de estufa na atmosfera... Agora não há lugar para dúvidas: o espectáculo está montado, só temos de nos deliciarmos com as consequências da nossa negligência.

Outro "enfim" ainda, para acrescentar que isto tudo para a humanidade é uma grande brincadeira. Vamos poder entreter-nos a inventar revoluções verdes e cor-de-laranja e de muitas outras cores, produtos e penduricalhos com alegados efeitos miraculosos, drones a combater incêndios, rios de investigação e desenvolvimento, artigos científicos sobre tudo e mais alguma coisa... vai-nos dar muito que pensar e que fazer. Mas para outras espécies de seres vivos já será tarde.

Quando pensamos em problemas ambientais causados pela humanidade, pensamos muitas vezes nas alterações climáticas. Mas a cada dia que passamos a pensar, dezenas de espécies são extintas para sempre. São milhares a cada ano. Serão milhões quando terminarmos. Não entender o valor de uma espécie e o desastre que é a sua extinção é não entender o valor da vida. E não é neste artigo que eu vou por esse caminho. Lembro apenas Carl Sagan, que tanto se esforçou para nos convencer a todos de quão incrivelmente raras são as condições que existem no nosso planeta para a vida, e um conjunto de outros autores como Charles Darwin, Richard Dawkins, Rachel Carson, Aldo Leopold, David Attenborough que nos transmitiram um fascínio pela beleza e a maravilha da existência de todas as formas de vida.

Às vezes, o melhor que a humanidade pode fazer é não fazer nada. Parar um pouco. Em vez disso, parecemos baratas tontas: não temos sentido para a vida, mas não conseguimos parar de inventar coisas para estarmos a mexer. É um natural estilo do "não sei por onde vou, mas sei que não vou por aí", onde deixamos a nossa infantilidade e vaidade governar o nosso comportamento. Se não sabes por onde vais, então pára um pouco e pensa!

quinta-feira, 4 de junho de 2026

A estupidez económica do policiamento dos subsídios e o seu interesse político...

  

(capa de um livro do Quino com excerto de cartoon que está exibido na íntegra no final deste artigo)


Os preguiçosos que vivem da mama

Existem pessoas na sociedade que são preguiçosas, que não querem trabalhar, que preferem viver às custas dos outros que trabalham, e que "mamam" do Estado através dos seus apoios "sociais". Estas pessoas são um fardo para os outros, que trabalham, não contribuem para o progresso do país e, portanto, devem ser fiscalizadas, esses apoios devem ser bem justificados e devem ter como contrapartida o trabalho útil à sociedade.

Esta ideia não é peregrina – é uma ideia bem implementada no senso comum, faz parte da ideologia dominante, e tem sido acarinhada por diversos partidos políticos desde há muitas décadas, incluindo recentemente aqueles que fazem grandes cartazes a dizer que é preciso acabar com a "mama" do Estado (e que podiam, talvez, só por coerência, começar por extinguir a sua própria "mama").

Em tempos idos, a ideia de que os trabalhadores não podiam ou não deviam sustentar os preguiçosos fazia todo o sentido. A colheita de batatas podia não chegar para todos, e dar a quem não trabalha, podendo trabalhar, podia significar reduzir a ração dos que trabalham abaixo do limite necessário para a reprodução da força de trabalho, além de ser uma profunda injustiça.

Apesar desta argumentação poder fazer todo o sentido nessa época, mesmo que infelizmente utilizada para instigar o conflito entre os trabalhadores, e não para os fazer ver que os principais preguiçosos a quem era dada a fatia de leão eram os senhores feudais, os das ordens militares e religiosas e o rei, os tempos mudaram.

Esta ideia não faz actualmente qualquer sentido do ponto de vista económico. Passo a explicar porquê.

 

Quanto custam os preguiçosos?

Vou avançar alguns números que têm apenas o rigor suficiente para nos fazer perceber a ordem de grandeza daquilo que estamos a falar. Quem quiser números exactos, fica convidado a investigar os orçamentos e as contas do Estado português, coisa que não posso deixar de recomendar, como sempre, porque antes de adoptarmos como nossas as ideias dos outros, devíamos sempre investigar a sua veracidade.

Existem muitas prestações sociais em Portugal, sendo que muitas delas são entregues a pessoas que contribuem para o sistema da Segurança Social (SS). Se todos os meses um trabalhador desconta do seu salário para a SS, e se num mês ele fica doente e recebe um subsídio de doença, ele não fará parte do grupo dos "preguiçosos". Portanto, não são estas prestações que nos preocupam.

Anualmente, o Estado português e a SS gastam cerca de 4,3 mil milhões de euros em prestações do regime não contributivo. Isto parece muito dinheiro, simplesmente porque não estamos habituados a lidar com as quantidades de dinheiro ao nível de um país inteiro. De facto, estes muitos milhões, representam apenas 1,5% do PIB português. Mas vamos esmiuçar um pouco mais. Este valor divide-se aproximadamente pelas seguintes parcelas:

- IPSS (Instituições Particulares de Solidariedade Social, incluindo lares de idosos, centros de dia e creches): 1800 milhões

- prestação social para a inclusão (invalidez e deficiência): 850 milhões

- pensões de velhice: 600 milhões

- complemento solidário para idosos: 400 milhões

- rendimento social de inserção: 350 milhões

- abono de família: 300 milhões

Quando pensamos nos "preguiçosos", não creio que estaremos a pensar nos que não podem trabalhar, ou porque são demasiado novos, ou demasiado velhos, ou inválidos, ou deficientes. Assim, o montante de que estamos verdadeiramente a falar é sobretudo o do rendimento social de inserção (RSI), que é de cerca de 350 milhões de euros anuais.

O RSI representa menos de 0,15% do PIB.

 

As escolhas políticas nas receitas e despesas do Estado

Podemos pensar que 0,15% do PIB é pouco, mas se pensarmos nos 350 milhões de euros ainda parece um valor elevado. O que não se faria com esse dinheiro?...

As possibilidades de aplicação do dinheiro do Estado são imensas. Entre elas estarão despesas que certamente todos aprovarão, como a manutenção de vias de comunicação, a melhoria do sistema de educação ou do sistema de saúde.

Mas comparemos os 350 milhões de euros gastos no RSI com algumas outras despesas:

- todos os anos o Estado português concede às empresas benefícios fiscais em sede de IRC de cerca de 1,8 mil milhões de euros;

- ao que se somam 1,5 mil milhões de euros em apoios às pequenas e médias empresas, vulgarmente designadas de PME. Note-se que estas não são microempresas, não são a mercearia ou o café da esquina. As PME, apesar do nome, são empresas que podem facturar até várias dezenas de milhões de euros por ano e ter até 250 empregados;

- ao que se somam ainda cerca de mil milhões noutro tipo de apoios directos às empresas;

- todos os anos o Estado português perde mais de mil milhões de euros (o que pode ser encarado como uma forma de despesa) de IRC de empresas que colocam as suas sedes fiscais noutros países, incluindo paraísos fiscais;

- e perde mais de 2,5 mil milhões de euros em evasões fiscais de pessoas individuais;

- nos últimos anos, o Estado português tem gasto cerca de 4 mil milhões de euros anualmente em apoios do "plano de recuperação e resiliência" (PRR) que são destinados sobretudo às empresas e a entidades públicas;

- a despesa em fins militares tem aumentado substancialmente e é agora de cerca de 4 mil milhões de euros por ano;

- todos os anos o Estado gasta 7 mil milhões de euros em juros da dívida pública.

Os 350 milhões de euros do RSI, quando comparados com estas despesas do Estado, são uma fatia insignificante. No entanto, o que está em causa não é apenas uma questão de montante. O que está em causa é também a justificação da despesa e o impacto que ela tem na economia por via directa e indirecta.

Os gastos em armamento, por exemplo, são verbas que saem imediatamente do país. Podemos argumentar que são gastos que contribuem para construir um mundo mais seguro ou mais inseguro, conforme acreditemos que a paz se faz com bombas ou não. Mas não podemos argumentar que esses gastos são bons para a economia nacional.

 

Os verdadeiramente preguiçosos

Os 7 mil milhões de euros que o Estado português paga anualmente de juros da dívida pública portuguesa são para remunerar exactamente o quê?

O Estado optou, há algumas décadas, e sem sequer consultar a opinião do seu povo, por desistir do uso de diversas ferramentas económicas, entre as quais a política monetária. Ou seja, deixou de ter a capacidade de emitir moeda. A justificação para isso foi, e continua a ser, a sacrossanta luta contra a inflação. Essa justificação é mais uma ideia que a propaganda inculcou no senso comum e nos currículos das escolas de economia, apesar de ser mais controversa do que aparenta. A sua desconstrução sai fora do âmbito deste texto.

Assim, o Estado passou a financiar os excessos de despesa sobre a receita, isto é, os défices, com a assumpção de dívidas. Até aí estaria tudo muito bem, não fosse a forma como o montante global da dívida foi gerido pelos diversos governos, não apenas portugueses, naquilo que foi, é, e provavelmente continuará a ser durante muitos anos, o maior roubo "legal" da história da humanidade. Novamente, esse assunto extravasa a intenção deste texto. Mas ficam, apenas como incentivo à curiosidade, as seguintes questões: quem são os principais credores?, como é determinada a respectiva taxa de juro?, porque é que quase todos os países "ocidentais" partilham um peso da dívida pública no PIB de quase 100%?

As dívidas assumidas pelo Estado devem ser pagas de volta. Até aí, novamente tudo mais ou menos bem, desde que consideremos que essa dívida é legítima, o que talvez possa não ser o caso para alguns tipos de dívida. O problema é que o Estado tem de pagar não apenas o montante que pediu emprestado, mas também um juro calculado sobre esse montante.

O juro não remunera trabalho. O juro é apenas um prémio que se dá a quem mais tem, simplesmente porque tem. Na nossa economia, qualquer pessoa, com ou sem trabalho, com ou sem instrução, com ou sem sorte ou iniciativa ou seja o que for, consegue viver apenas de juros, desde que tenha um património considerável, que tanto pode ser adquirido através do euromilhões, de uma herança ou de aplicações de capital – dificilmente um património considerável se consegue à custa do trabalho.

Portanto, todos os anos o Estado português paga 7 mil milhões de euros, 20 vezes mais do que o RSI, para pagar... nada! E esse dinheiro vai directamente para o bolso daqueles que mais têm, que assim o poderão aplicar novamente e multiplicar ("alavancar") o efeito.

É curioso que também é do senso comum que na nossa economia, com as regras que ela tem, "dinheiro faz dinheiro". Todos sabem disso, mas não se revoltam, nem se lembram da "preguiça". Antes ambicionam ser um dos felizardos.

 

O destino do dinheiro do RSI

Ao contrário do dinheiro gasto em armamento, que em grande medida sai imediatamente do país, ou do dinheiro gasto em juros da dívida pública, que saindo ou não saindo do país não está associado à produção de qualquer bem ou serviço, o dinheiro atribuído os beneficiários do RSI é integralmente gasto em compras de bens e serviços na nossa economia, e é-o num prazo muitíssimo curto.

Assim, a despesa em RSI transforma-se, numa questão de dias, em receita de supermercados, empresas de telecomunicações, gasolina, cafés, etc. Todo esse dinheiro contribui para a economia nacional.

Contrariamente ao senso comum, as prestações sociais não foram criadas apenas para ajudar os mais necessitados – elas foram criadas para apoiar a economia. O dinheiro do RSI paga a mercearia, mas por sua vez o merceeiro paga o restaurante e por aí fora. O efeito global de um gasto deste tipo na economia tem um efeito multiplicador que Keynes estudou no início do século XX, e que está na base da criação de apoios directos do Estado após a grande recessão de 1929, que se mantiveram até aos dias de hoje.

 

Porque é que as pessoas não querem trabalhar?

É uma simplificação excessiva de pensamento considerar que os beneficiários de prestações sociais do Estado não querem trabalhar. Logo à partida devemos averiguar se essas pessoas podem ou não trabalhar.

Actualmente, quase metade dos jovens seguem os estudos até ao nível superior. Também faz parte do senso comum que antigamente uma licenciatura era uma garantia de um emprego com boas condições, e que hoje uma licenciatura é quase o mínimo exigido para se conseguir um emprego, não sendo garantia de nada.

Ora, se as pessoas compreendem que não é fácil para um jovem recém-licenciado conseguir um emprego, porque é que lhes custa compreender que uma pessoa que não tem essa formação, que às tantas nem a escolaridade obrigatória tem, que às tantas não tem carro, nem computador, ou então não sabe trabalhar em ferramentas informáticas produtivas, que já não é jovem, e que certamente não tem um currículo recheado de experiências prestigiantes, tenha dificuldade em conseguir um emprego?

Curiosamente, ou talvez não, os dados disponíveis não permitem caracterizar com rigor o perfil dos beneficiários do RSI. No entanto, os poucos dados que existem permitem perceber que a grande maioria não tem sequer a escolaridade obrigatória.

Consideremos, contudo, o caso raro do beneficiário de RSI que tem condições para ser apreciado por potenciais empregadores. Alguns destes casos raros serão pessoas que, efectivamente, não querem trabalhar. E a questão não devia ser tanto "porque é que não querem trabalhar?", mas antes o "porque é que existe gente que quer trabalhar?".

A maioria das que trabalham fazem-no sobretudo porque precisam do dinheiro. Se lhes fosse dada a possibilidade de receber o mesmo dinheiro sem trabalhar, não hesitariam.

Todavia, não devíamos menosprezar outras funções que o trabalho pode e deve ter no bem-estar das pessoas, para além do dinheiro. As pessoas podem sentir-se realizadas no trabalho, podem sentir-se úteis, podem aumentar os seus conhecimentos, podem conhecer outras pessoas, sentir-se integradas, construir um sentimento de pertença e de identidade ("eu sou mecânico"), ajudar outros, contribuir para o progresso material da sociedade. Isso, e talvez muito mais, desde que as condições no trabalho sejam adequadas.

Infelizmente, muitos trabalhos actuais não têm as condições adequadas: não fornecem formação, antes exigem; têm horários difíceis de conciliar com a vida familiar; são em ambientes competitivos sujeitos a todo o tipo de agressões psicológicas; etc. E, além do mais, são mal pagos. Nesses contextos, não querer trabalhar só pode ser apontado como um sinal de sanidade mental!

 

O crescimento e o progresso dependem do trabalho de todos?

Ao contrário dos tempos feudais, em que a produção agrícola dependia directamente do número de pessoas a trabalhar nos campos, os tempos actuais são de abundância. Mais do que abundância, são de superabundância!

A crise de 1929, a tal que esteve na origem das políticas macroeconómicas de incentivos directos do Estado como as prestações sociais, não foi uma crise de escassez, foi uma crise de superabundância gerada por um excesso de produção que não encontrou compradores suficientes e resultou na descida dos preços.

E, como é consabido, a produtividade aumentou tremendamente desde 1929. Hoje em dia, a produtividade é de tal ordem que a grande dificuldade é a de conseguir manter e justificar o discurso que transforma a inovação na solução de todos os postos de emprego que são substituídos por máquinas. De tal modo assim é, que a economia tem criado uma série de postos de trabalho cuja real contribuição para a produção útil não é de todo evidente. David Graeber escreveu um livro inteiro sobre o assunto, que recomendo, chamado "bullshit jobs" (ou em português "trabalhos de merda").

Conforme já tantos disseram no passado, e até Chaplin pôs na tela no seu famoso discurso de "o grande ditador", de 1940, há quanto chegue para todos. Apesar do impressionante aumento de produtividade desde então, ainda está por chegar o dia em que a humanidade pode colher o principal fruto disso, nomeadamente a possibilidade de trabalhar menos, sem sentir culpa ou ser atacado pelos outros. Os tempos actuais deviam ser tempos de direito à preguiça para todos, e não da sua condenação.

 

É verdade que o dinheiro não estica?

Um dos argumentos que está na base da ideia feita sobre a necessidade dos beneficiários de prestações sociais trabalharem é a de que "o dinheiro não estica". A ideia é simples, para não dizer mesmo básica: o dinheiro é como um bolo, se damos parte desse bolo a pessoas que não contribuem para produzir um novo bolo, arriscamo-nos a não ter bolo suficiente para todos.

Essa ideia, apesar de parecer evidente, é falsa. O bolo é uma coisa, o dinheiro é outra coisa completamente diferente, e não existe uma relação directa entre uma e outra coisa.

Para entendermos isso precisamos de perceber melhor o que é o dinheiro, para que serve, como é criado, quais os seus efeitos na economia.

É perfeitamente possível conceber uma economia que funciona sem dinheiro. Imaginemos um Robinson Crusoé que vive isolado numa ilha: ele tem necessidades que satisfaz por sua conta independentemente da presença ou não de dinheiro. No seu caso, notas e moedas serviriam para quase nada. Imaginemos agora uma comunidade de pessoas que se especializaram em diferentes trabalhos e que trocam os respectivos excessos directamente umas com as outras – também elas não precisam de dinheiro.

Não pretendo dizer que o dinheiro é inútil, longe disso. Demonstro apenas que uma coisa são os bens e serviços que são produzidos, distribuídos e consumidos, e outra coisa diferente é o dinheiro com o qual podemos comprar essas coisas (e também, na economia que temos, comprar o trabalho das pessoas).

Até há poucas décadas, o Estado português tinha o poder de emitir moeda, por exemplo através da impressão de notas. Ora, a quantidade de notas existentes dependia directamente da vontade dos políticos ou técnicos responsáveis. Quando o Estado queria fazer uma qualquer obra, por exemplo construir uma barragem, podia ir buscar o dinheiro para financiar essa obra a diversas fontes. Podia, por exemplo, financiar a obra através de impostos. Mas também podia, e talvez provocando menos insatisfação nos contribuintes, emitir mais notas e pagar o investimento com as notas acabadas de imprimir.

No entanto, cedo se percebeu que esta solução fácil de financiar os gastos do Estado, através da criação de dinheiro novo por si emitido, tinha um efeito indesejável: inflação. O mecanismo é simples de entender: o novo dinheiro introduzido na economia dava às pessoas um maior poder de compra, e do ponto de vista dos vendedores de bens e serviços, o maior poder de compra pode ser respondido com um aumento da quantidade produzida ou com um aumento de preços, ou ambos.

Embora este assunto tenha outros contornos não tão evidentes, a verdade é que alguns interesses económicos levaram a que o Estado português abandonasse essa ferramenta política.

No entanto, a criação de dinheiro a partir do nada continua, e com mais força do que nunca. O dinheiro agora é criado nas instituições bancárias através do crédito. De cada vez que um banco concede crédito, geram-se nos seus livros dois registos contabilísticos: um "deve", correspondente à dívida que esse beneficiário passa a ter perante o banco, e um "haver", correspondente ao dinheiro colocado na conta do beneficiário. O dinheiro é criado como uma dívida. E, em boa verdade, sempre assim foi. Por isso algumas notas incluem ou incluíam inscrições do tipo "dívida do banco central". Veja-se o exemplo das mais recentes notas de 5 libras esterlinas que contêm a inscrição "I promise to pay de bearer on demand the sum of five pounds" ("eu prometo pagar ao portador, a pedido, a soma de cinco libras"):


Ao desistirem da capacidade de imprimir notas à sua vontade, os Estados, como o português, desistiram da possibilidade de contraírem dívidas perante si próprios. Em vez disso, passaram a contrair dívidas junto dos "credores" e passaram a pagar juros. É uma opção cujos beneficiários são fáceis de identificar.

Muito mais haveria por dizer acerca deste assunto. Mas voltemos à questão do dinheiro não ser suficiente para as prestações sociais. Isso é total e demonstravelmente falso. Basta que o Estado contraia um novo empréstimo, coisa que está sempre a acontecer, e o problema fica resolvido. Isso, entre muitas outras soluções alternativas, que seriam praticamente ilimitadas não fosse o Estado português ter aderido, por sua iniciativa, às limitações impostas pela União Europeia.

Quanto ao bolo ser ou não suficiente, isso é uma questão não directamente relacionada com a quantidade de dinheiro a circular na economia. Isso é uma questão relacionada com a economia real, com a quantidade de bens e serviços realmente produzidos. Ora, conforme vimos, vivemos tempos de superabundância, não de escassez.

 

Mas então porque é que os governos insistem na retórica sobre os "preguiçosos" e a necessidade de trabalharem?

A retórica de que existem uns preguiçosos que estão a sorver o dinheiro público, na "mama", que são uns privilegiados culpados por "isto não andar para a frente" é, conforme vimos, totalmente falsa, de muitos pontos de vista. No entanto, ela é difundida e amplificada por algumas vozes na sociedade, incluindo alguns partidos políticos e também os que agora apoiam o governo.

Os que o fazem terão as suas razões para o fazer (o que nem sempre quer dizer que quem faz uma coisa sabe inteiramente porque o faz). Mas eu irei avançar com algumas possibilidades explicativas.

Logo à partida, a ideia da "mama" é uma ideia já feita, já presente no senso comum. Fazer política indo ao encontro do senso comum é uma forma (populista?) de satisfazer imediatamente o eleitorado. E isso é tanto mais rentável quanto o eleitorado acreditar que isso é uma questão importante e quanto mais baratas forem as medidas propostas. Neste caso, ambos os critérios são preenchidos, portanto não admira que o governo vá por aí.

Mas as razões principais serão porventura de outra índole, nomeadamente a da criação de uma mentalidade e de um estilo de vida conformes a um determinado sistema económico que se quer implementar ou manter.

A revolta dos trabalhadores contra os "preguiçosos" gera uma cisão imediata naquilo que de outro modo poderia ser considerada uma classe trabalhadora homogénea, porque se apresenta na economia de igual modo, isto é, sem rendimentos de capital suficientes para deles poder viver bem sem ter de trabalhar. Em vez disso, são os próprios trabalhadores que criam divisões dentro do seu grupo, entre os que trabalham mais e os que trabalham menos, os que ganham mais e os que ganham menos, os que são promovidos e os que nunca saem da cepa torta, e passam depois tempos imensos a fazer comentários sobre isso.

Essas divisões impedem uma tomada de consciência plena sobre a situação comum que todos eles enfrentam, por exemplo em relação à condução das políticas do Estado, como a adesão ou não à moeda única.

Mais do que isso, impedem que o foco, a atenção, o pensamento, de todos os trabalhadores, empregados e desempregados, bem e mal pagos, recaia sobre os outros, nomeadamente os que verdadeiramente têm o poder, os que decidem por nós fazendo-se passar por nossos representantes, os que vivem dos seus rendimentos de capital escolhendo de que forma nos irão pôr ou não a trabalhar.

É assim mesmo que a sociedade portuguesa discute muitíssimo mais o RSI do que a insanidade dos gastos em armamento ou o colossal roubo "legal" que são os juros da dívida pública, entre muitos outros assuntos, que são efectiva e demonstravelmente muito mais importantes para as suas vidas do que o RSI.

Para além de criar divisões entre os trabalhadores e desviar a sua atenção para faits divers, a promoção desta retórica tem também o efeito de aprofundar e enraizar (de onde o radicalismo, quer dos actuais governantes e sua ideologia, quer dos necessários contrapontos) a crença numa moral do trabalho que molda de forma indelével o nosso modo de vida. Enquanto acreditarmos que o "andar para a frente" é necessário e só se consegue com oito horas de esforço diário de todos e cada um, estaremos ocupados o suficiente para, nas horas extra, nos transformarmos nos consumidores ideais: aqueles que procuram prazeres imediatos e compensatórios do justo esforço, aqueles que já não têm pachorra para ler textos como este, ou para estudar assuntos a fundo, ou sequer enfrentar opiniões diferentes ou factos que contrariem as opiniões já formadas, faladores baratos enérgicos e por vezes agressivos, mas consumidores mansos, cujo objectivo de vida é simplesmente ser feliz através do consumo de automóveis, viagens e penduricalhos.

E enquanto vamos trabalhando, a piar baixinho e com más condições, vamos consumindo e desejando tanto quanto podemos, e vamos descarregando as nossas frustrações no vizinho, só porque ele tem uma coisa que nós não temos. Neste caso, o vizinho tem um RSI, que é um rendimento miserável, provavelmente como prémio por não ter conseguido vingar e ter "sucesso" no mercado de trabalho como os outros. Vale a pena a nossa inveja?

A promoção destas narrativas, destas ideias, destas políticas, tem também o efeito perverso de desumanizar os outros, de lhes minar a auto-estima, de os enterrar ainda mais fundo na suposta "escada social". Creio que não teremos problemas em considerar que é justo e humano a atribuição de uma pensão a alguém que tenha uma incapacidade grave e seja considerado economicamente inválido. Mas no caso do pobre, já justificamos a nossa posição com base na sua culpa: os pobres são culpados da sua pobreza, dizemos. Mas ao fazê-lo, não só demonstramos a nossa ignorância, como também a nossa falta de humanidade. Oxalá não venhamos nós um dia a ser pobres e a descobrir, da forma mais dura, outras luzes sobre esta realidade.

 

Qual é a alternativa?

O problema das alternativas é serem sempre muitas, ao contrário do que a mesma propaganda, aquela do "não temos alternativa!", nos quer fazer acreditar. Menciono apenas uma: o rendimento mínimo incondicional. Ou com outros nomes: garantido, básico, universal. Um rendimento que é distribuído por todos independentemente de tudo, simplesmente porque as pessoas existem, porque merecem o mínimo de dignidade, e porque a produtividade da nossa economia o permite. Quem quiser trabalhar mais, para ter um nível de vida acima do mínimo, pode fazê-lo. Mas se não quiser, terá pelo menos o mínimo garantido, sem ter de recorrer a esmolas e sem ser forçado contra a sua vontade.

Se o podermos fazer, porque não o fazemos?