(no dicionário, amoque é um acesso de loucura furiosa e homicida, ou uma reacção súbita de mau humor ou irritabilidade)
A primavera na ilha Terceira, e por simples proximidade geográfica presumo que no resto do arquipélago dos Açores, tem este ano sido um pouco estranha, para dizer o mínimo. O sintoma mais notório talvez tenha sido uma temperatura do ar mais baixa que o habitual. Bom, vou corrigir o que acabei de dizer: mais baixa do que aquilo que eu, que só cá vivo há uma década, considero habitual, sabendo bem que em termos de meteorologia uma década não é um período amostral suficiente para extracção de conclusões robustas. De qualquer modo, e tentando novamente ser um pouco mais objectivo, a temperatura do ar foi este ano mais baixa do que em anos precedentes.
Talvez a maioria dos terceirenses não se banhe no mar em Abril e Maio, porque entre outras coisas a temperatura do mar é nesta altura próximo do mais frio que aqui se consegue, que costuma rondar os 16ºC. Para mim, que cresci a banhar-me no mar perto do Porto ao longo de todo o ano, essa temperatura é bastante suportável, pelo que aqui na Terceira posso usufruir desse privilégio que é ir ao mar o ano todo, sem ficar preocupado com uma potencial necessidade de amputação de alguma extremidade, mais cilíndrica ou mais esférica. E fazendo-o regularmente desde que para cá vim morar, apercebi-me de como a temperatura da água do mar e a temperatura do ar estão intimamente relacionados.
Quem vive nos Açores sabe bem que quando o vento sopra de Norte o ar é mais frio e seco, mesmo que com alguns aguaceiros, e que quando o vento sopra de Sul o ar é mais quente e húmido. No entanto, em qualquer dos casos, o ar tem de viajar centenas ou milhares de quilómetros em contacto com a superfície do oceano antes de cá chegar, e durante essa viagem ocorrem naturais transferências de calor entre o ar e a água. Desta forma, o oceano comporta-se como uma enorme massa que imprime inércia às variações de temperatura do ar. Se no inverno o mar estiver a 16ºC, quando o vento sopra de Norte a temperatura do ar à sombra será talvez de 13ºC e quando sopra de Sul será talvez de 19ºC, variando pouco entre o dia e a noite. Se no verão o mar estiver a 25ºC, o vento Norte poderá estar a 22ºC e o vento Sul poderá estar a 28ºC. As coisas não se processam exactamente assim, mas de uma forma grosseira é isto que acontece.
A temperatura mínima da água do mar costuma ocorrer lá pelo final do mês de Março, começando a aquecer a partir daí. Este ano, porém, notei que a temperatura se manteve baixa, nos 16ºC, durante grande parte de Abril, só começando a aquecer em Maio. A diferença para um ano normal é mínima, talvez de apenas um grau, mas eu senti-a, mais pela evolução ao longo do tempo do que talvez pelo valor absoluto. E se a minha conjectura sobre a relação entre as temperaturas da água do mar e do ar está certa, então é natural que a temperatura do ar esteja a ser, nesta primavera, inferior àquilo a que estou habituado.
Ora, recentemente, temos tido várias ocorrências de um fenómeno que apesar de não ser raro não costuma ser assim tão frequente: nevoeiro a altitudes muito baixas, mesmo até à superfície do mar. O mais habitual é, quando o vento sopra de Sul, as nuvens formarem-se mais ou menos à altitude do Monte Brasil, isto é, cerca de 200m, um pouco acima da altitude da minha casa.
Eu não pude deixar de relacionar estas duas percepções: a água do mar mais fria que o habitual e a existência mais frequente que o normal de nevoeiros baixos. A relação parece-me muito plausível, uma vez que esse fenómeno existe: o ar que originalmente já está saturado de humidade arrefece por contacto com a superfície do oceano que está mais fria e a humidade condensa, formando o nevoeiro.
Tudo isto são conjecturas, especulações, percepções, hipóteses, que eu não tenho possibilidade, com os parcos conhecimentos e recursos disponíveis, de testar. No entanto, as minhas pesquisas na Internet sobre este assunto levaram-me a tropeçar inúmeras vezes nesta coisa a que deram o nome de "cold blob", que até já tem artigo na Wikipedia, mas que ainda não está traduzido para português. Podemos chamar-lhe mancha fria. Esta mancha fria não é uma conjectura: é um fenómeno que tem sido medido com rigor desde há mais de uma década.
O mapa ilustrado no início deste artigo mostra, para toda a superfície do planeta, a anomalia da temperatura do ar à superfície em 2015, isto é, a diferença entre a temperatura média registada nesse ano e a temperatura média dos anos entre 1951 e 1980. Pode ver-se que em quase todo o planeta a anomalia é positiva, ou seja, o ar aqueceu relativamente aos dados históricos, à excepção da região em torno da Antárctida e de uma mancha situada no Noroeste do oceano Atlântico.
Quem tiver o olho apurado, poderá ver que o arquipélago dos Açores fica de fora, nesse mapa de 2015, da dita mancha fria, mesmo por um triz. De facto, nos últimos anos, a temperatura nos Açores também tem estado mais alta do que o normal. E como eu só cá estou há dez anos, esse transformou-se no meu novo normal. Mas a mancha fria varia na sua localização e intensidade de ano para ano, e pode ser que este ano as temperaturas nos Açores tenham sido mais afectadas por ela, senão com uma anomalia negativa, então talvez apenas regressando aos seus valores normais, e mais frios do que tem acontecido recentemente.
A mancha fria salta à vista na imagem de cima, e naturalmente levantou todo o tipo de interrogações sobre as suas causas aos meteorologistas que estudavam o assunto. Aparentemente a justificação que parece estar a ganhar mais aceitação é a de que o aquecimento global está a contribuir para o abrandamento da circulação global de água no oceano Atlântico, conhecida como AMOC (Atlantic Meridional Overturning Circulation), na qual a corrente do Golfo se insere.
A AMOC funciona, de maneira simplificada, nestes termos: a água quente, menos densa, entra no oceano Atlântico, vinda do oceano Índico, contornando a ponta Sul de África. Essa corrente de superfície atravessa o Atlântico Sul até ao Brasil, seguindo até às Caraíbas e ao Golfo do México, de onde segue depois para Nordeste até à Europa, onde se divide e espalha. A água que atinge as maiores latitudes arrefece em contacto com o ar mais frio até um ponto em que, apesar da sua salinidade mais elevada, se torna mais densa que a água que está em baixo. É então que se dá o "capotamento" ("overturning") e a água afunda. Este afundamento funciona como um motor para sugar a água da superfície, mantendo a corrente do Golfo e toda a corrente superficial de água quente, e para empurrar a água fria para o fundo do oceano, e daí novamente para latitudes menores, passando novamente nas Caraíbas, descendo a costa da América do Sul e juntando-se finalmente à corrente de água fria que circunda a Antárctida.
O aquecimento global está a alterar o afundamento da água no norte do oceano Atlântico de duas formas. Primeiramente, como a temperatura do ar é superior ao habitual, a água não arrefece tão rapidamente depois de sair do Golfo do México, e consequentemente mantém a sua densidade mais baixa durante mais tempo. Em segundo lugar, o aquecimento global está a conduzir ao degelo da calote polar do Árctico, o que introduz mais água doce do que o habitual no Norte do oceano Atlântico. Isto reduz a salinidade média das águas, e também das águas quentes da superfície, tornando-as igualmente menos densas do que o habitual e dificultando o seu afundamento.
Aparentemente este fenómeno ainda não é bem compreendido e os especialistas ainda não sabem dizer exactamente o que está a acontecer ou o que virá a acontecer no futuro próximo ou distante. Uma das razões para isso é a falta de dados, pois só há poucos anos (à escala dos períodos amostrais na área da meteorologia) é que se recolhem dados sobre a água do oceano em profundidade.
Mas se a justificação apresentada em cima, e que é por ora a mais aceite, for verdadeira, então a humanidade vai ter bastante com que se divertir durante as próximas décadas. De facto, para além das consequências mais conhecidas do aquecimento global, os especialistas receiam que a circulação da água do oceano Atlântico seja pura e simplesmente interrompida, e que isso possa acontecer num período muito curto, talvez de apenas poucas décadas, em consequência de um fenómeno que se auto-alimenta.
Que consequências poderá trazer uma eventual interrupção da AMOC? Entre coisas que suspeito ainda não foram imaginadas, o clima de grande parte da Europa poderá ser drasticamente alterado. Estamos a falar de uma mudança de uma magnitude nunca antes observada: as temperaturas médias em algumas regiões podem descer entre 5º e 10º em apenas uma década. Além disso prevêem-se secas extremas em toda a região Sul. Toda a agricultura seria afectada e a vida de todos os europeus iria sofrer uma alteração profunda.
Para tornar as coisas ainda piores, uma alteração da AMOC para um outro equilíbrio meta-estável é, no estado actual da nossa tecnologia e do nosso conhecimento, algo que a humanidade não pode reverter.
Se isso acontecer em 2080, eu provavelmente já cá não estarei para ver. Mas os nossos filhos estarão. Ou seja, é já ao virar da esquina!
Enfim, é assustador o que o ser humano é capaz de fazer. É impressionante pensar como ainda há muito pouco tempo muitas pessoas não acreditavam sequer na capacidade de a humanidade alterar a dinâmica de coisas tão grandes como o clima ou os oceanos. Era uma ignorância conveniente. Mas depois colocámos o termómetro e vimos as temperaturas a subir. Registámos o aumento do nível médio dos oceanos, a sua acidificação, o aumento da concentração de gases com efeito de estufa na atmosfera... Agora não há lugar para dúvidas: o espectáculo está montado, só temos de nos deliciarmos com as consequências da nossa negligência.
Outro "enfim" ainda, para acrescentar que isto tudo para a humanidade é uma grande brincadeira. Vamos poder entreter-nos a inventar revoluções verdes e cor-de-laranja e de muitas outras cores, produtos e penduricalhos com alegados efeitos miraculosos, drones a combater incêndios, rios de investigação e desenvolvimento, artigos científicos sobre tudo e mais alguma coisa... vai-nos dar muito que pensar e que fazer. Mas para outras espécies de seres vivos já será tarde.
Quando pensamos em problemas ambientais causados pela humanidade, pensamos muitas vezes nas alterações climáticas. Mas a cada dia que passamos a pensar, dezenas de espécies são extintas para sempre. São milhares a cada ano. Serão milhões quando terminarmos. Não entender o valor de uma espécie e o desastre que é a sua extinção é não entender o valor da vida. E não é neste artigo que eu vou por esse caminho. Lembro apenas Carl Sagan, que tanto se esforçou para nos convencer a todos de quão incrivelmente raras são as condições que existem no nosso planeta para a vida, e um conjunto de outros autores como Charles Darwin, Richard Dawkins, Rachel Carson, Aldo Leopold, David Attenborough que nos transmitiram um fascínio pela beleza e a maravilha da existência de todas as formas de vida.
Às vezes, o melhor que a humanidade pode fazer é não fazer nada. Parar um pouco. Em vez disso, parecemos baratas tontas: não temos sentido para a vida, mas não conseguimos parar de inventar coisas para estarmos a mexer. É um natural estilo do "não sei por onde vou, mas sei que não vou por aí", onde deixamos a nossa infantilidade e vaidade governar o nosso comportamento. Se não sabes por onde vais, então pára um pouco e pensa!

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