quarta-feira, 10 de junho de 2026

Dia de Portugal, da agressividade normalizada, do conformismo realista, da auto e da heterobajulação

 


Excelentíssimas senhoras e excelentíssimos senhores,

representantes uns dos outros

e dos respectivos interesses,

meretíssimos e digníssimos jogadores do poder,

senhores uns dos outros,

e respectivos aspirantes:

Hoje, Portugal continua a ser um pedaço de terra

que, em conjunto com todos os outros pedaços de terra dos outros países

perfaz a terra toda do planeta Terra.

Mas Portugal não é apenas esse pedaço de terra!

É também as pessoas que lá vivem,

pessoas que como todas as outras pessoas da Terra

possuem cabeça, tronco e membros,

sonhos, necessidades e desejos,

medos e angústias

e vontade de se sentirem bem

consigo mesmas e com os outros.

Em Portugal os pais desejam o melhor para os seus filhos,

e choram de desgosto quando lhes morre um familiar ou um amigo,

tal como acontece em todos os outros países do Mundo.

Mas os portugueses distinguem-se dos outros povos pela sua cultura,

pelo modo como falam, como cozinham e ocupam os seus tempos livres,

tal como qualquer par de vizinhos também se distingue entre si,

apesar de serem profundamente semelhantes

naquilo que é verdadeiramente importante.

Herdamos as fronteiras que outros riscaram no nosso planeta,

tal como herdamos os discursos do "dia da raça"

que nos dizem sermos diferentes dos outros,

apesar de sabermos que somos muito mais iguais do que diferentes.

Os representantes uns dos outros,

e dos respectivos interesses,

sabem como é importante dividir os povos no planeta

porque é impossível "governar" todos em simultâneo

mas é possível governar um só,

desde que ele seja governável.

Para governar um povo

é necessário que ele acredite que é uno e distinto dos demais,

é necessário que ele veja nos outros uma ameaça,

e esteja disposto a manipular máquinas de incrível poder destrutivo

para garantir essa diferença.

Para governar um povo

é necessário que ele se submeta às leis

que para o reger elaborámos

e que saiba reconhecer em nós,

excelentíssimos representantes uns dos outros,

uma superioridade que não está ao seu alcance.

Governar um povo assim é indispensável

num mundo onde outros governantes

de outros povos iguais ao nosso

ameaçam ultrapassar o nosso poder.

O povo português é um povo capaz

que sabe obedecer ao chamamento da produtividade,

da criatividade e do desenrascanço.

Mas não podemos adormecer à sombra dessas qualidades.

A competição entre os representantes dos representantes,

que fragmenta o Mundo em países e povos diferenciados,

e lhes inculca um saudável espírito competitivo,

uns contra os outros,

e todos contra todos,

obriga-nos, para não perdermos a corrida, a batalha, a luta,

a superação, a ultrapassagem, o progresso, o crescimento,

a inovação, a transformação e a marcha inelutável dos tempos,

a dotarmos os portugueses de mais e melhores ferramentas

de obediência e desenvolvimento.

Precisamos de escolas que formem melhor capital humano.

Precisamos de hospitais que diminuam os tempos de baixa médica.

Precisamos de vias de comunicação para escoar as matérias primas

e os produtos de que é feita a felicidade dos portugueses,

e a nossa.

Precisamos ainda de canais, tecnologias e todos os meios necessários

à veiculação sistemática de mensagens motivacionais,

que façam o português comum perceber a importância do seu trabalho

no financiamento de todos estes investimentos

necessários ao seu trabalho,

e à felicidade de todos!

Mas a mensagem que todos, e eu também, temos de nos empenhar em transmitir,

é que os portugueses são capazes disso tudo,

mas isso só não é suficiente!

Os portugueses têm de manter o olho aberto

aos líderes dos outros países como o nosso,

que querem para si o que nós queremos para nós!

Essa ameaça permanente é também uma oportunidade permanente

de canalizarmos recursos para a renovação e melhoria

da máquina de paz e de defesa.

Cada caça supersónico, cada drone militar, cada bomba

conseguida com o esforço de um português

é um passo dado no caminho da sua emancipação

e da sua afirmação

no xadrez geopolítico contemporâneo

onde, como desde há milénios,

os povos se aniquilam mutuamente por vontade dos respectivos líderes,

dos representantes dos representantes,

e dos respectivos interesses.

Excelentíssimas senhoras e senhores,

Portugal tem dez milhões de habitantes,

mas são muitos mais aqueles que noutros países

sabem vergar-se, obedecer e respeitar o poder das autoridades portuguesas,

e o significado dos símbolos por nós adoptados

para os distinguirmos de todos os outros.

Às vezes, alguns portugueses podem sentir-se abandonados por nós.

Por isso mesmo considero importante celebrar o dia da ideia da coisa que Portugal é

junto das pessoas que habitam lugares mais remotos.

É importante que todos se sintam unidos

nas diferenças perante os demais,

que tanto nos temos empenhado em construir e preservar,

ao longo de tantos séculos.

E se o presidente não pode estar sempre fisicamente junto do seu povo,

por não deter o dom da ubiquidade,

a bandeira, o hino e os demais símbolos nacionais ajudarão

a que nunca o povo se esqueça de onde reside a sua liderança,

para onde deverá remar,

e quais os impostos que deverá pagar

a fim de se financiar a si mesmo

e a nós.

Saiba o povo ser empenhado, dedicado, honesto,

responsável, trabalhador, honrado,

confiável, leal, humilde e medroso,

mas também confiante, fiel, resiliente

e perseverante na ausência de ideais em que o soubemos educar,

saiba o povo escolher as palavras do meio,

que como todos sabem é onde está a virtude,

saiba o povo ser moderado e sereno,

nunca caindo nos radicalismos de quem quer ver mais

do que aquilo que lhe é dado para ver,

e os representantes dos representantes

poderão assegurar-se que os seus interesses continuarão a ser respeitados,

por muitos e muitos séculos,

muitos mais do que aqueles todos de onde viemos,

e de onde já alguém poderia e deveria ter aprendido alguma coisa,

mas não.

A todas e a todos um santo e laico dia das diferenças artificiais,

e das asas de ferro, boinas mandadas, símbolos e todo o manancial

de coisas que inventamos

para que o povo acredite que é de entre todos o mais especial.

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