terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Ressabiadas...

 

Talvez lá no fundo
acredite
que os seres humanos são todos
sensivelmente os mesmos
em toda a parte

Mas então necessariamente
as mulheres são mais

Costumes que frequentamos:
o arame da loiça
os panos dos pratos
os ganchos e a linha do estendal
a vinha de alhos
o fogão
o alguidar
guardamos os restos
torcemos os trapos
os nossos recados
os nossos sacos
os nossos ovos

Certamente que eles
em grande maioria
escanhoam os queixos
e gostam de arejar
Mas são médicos
polícias, engraxadores,
economistas
e os vários naipes
da banda filarmónica

Nós somos todas domésticas
Mesmo assim não nos entendemos
E nem serve escrever isto
que o maniqueísmo em traços largos
resvala na aldrabice
E a poesia vem dos anjos
já se sabe
carecidos de sexo
E aliás, que me rala a mim?
Levo a minha vida
e tenho o amor de que não

desconfio
E se consolo o cio e a fome,
decerto falo de cor
Nem é por isso que me doem os

calos
mas por causa dos bicos
dos vossos saltos
no desnível dos soalhos
refinadas galdérias
que se tomam a sério
Pestanas certeiras
e beiços que brilham
línguas que estalam
e mamas que chispam
corada invoco
a imagem mal tirada
da fêmea recortada
ao macho que a conforma

Sei que desminto
qualquer laço comunal
e seja como for
ninguém pediu o meu palpite
Pelo que não me habilito
e me desquito
Assim te mudo
Era eu quem estava mal.

 

Margarida Vale de Gato, in Mulher ao mar

A ilha em nós...

 

Não,

não ecoa a ilha em nós.

Ilha É cada um de nós.

Porquê então a ilha a dar-nos nós,

se atamos nós os nossos próprios nós?


AWF, Angra do Heroísmo, 2026