domingo, 29 de março de 2020

Hermeticidade...

Diálogo que tive com o meu potencial (des)orientador, quando decidi candidatar-me a um doutoramento em sociologia, sem que tivesse tido formação de base em sociologia:
- A sua ideia tem potencial... mas assim como está, não será aprovada.
- Sim, eu sei que não tenho o domínio dos conceitos... O tema parece-me de toda a relevância... mas é precisamente na linguagem que eu preciso de ajuda... para colocar isso em termos que possam ser aceites... Não me pode ajudar com isso?
- Não.
- Não?... Mas... porque não?... O tema é bom!...
- O tema até pode ser bom... mas não sei... Não o entendo bem.

sexta-feira, 27 de março de 2020

Ciência em tempos de pandemia...

Fico com a ideia de que nos dias de pandemia que estamos a viver, estamos de algum modo a dar mais valor à ciência. Valorizamos e acreditamos no trabalho dos cientistas, realçamos como para a compreensão e combate da doença são necessários médicos, farmacêuticos, engenheiros, matemáticos, químicos, físicos... até coisas esquisitas como epidemiologistas! Ao mesmo tempo, parece-me não demonstramos a confiança habitual na pseudociência.

E isso, para quem como eu acredita no valor da ciência, estaria muito bem, não fosse este conjunto de atitudes revelar uma incompreensão em relação à ciência que já existia, e que continua a existir.

Aliás, pensando bem, como é que de repente a sociedade inteira teria ganho consciência sobre o método científico, as suas vantagens e desvantagens face a outros métodos, e teria mudado a sua atitude em geral perante a ciência?... Não pode! A médio ou longo prazo, talvez. Assim, de repente, não pode.

Este artigo pretende ser mais sobre a ciência do que a pseudociência e actividades afins. Mas não posso deixar de reparar como neste momento não existem demonstrações em massa de fé relativamente à numerologia, à astrologia, à cartomância, à homeopatia, aos movimentos anti-vacinas, à cura pelos cristais, aos curandeiros, à naturopatia, à iridologia, à reflexologia e a mais sei lá o quê!... Nem sequer à medicina tradicional chinesa!... Ide lá ver como é que os chineses ultrapassaram a epidemia...

O que, neste momento, me parece mais preocupante é esta outra fé na ciência, esta crença profunda de que a ciência tudo resolve.

Parece que, enquanto sociedade, conseguimos situar-nos bem num extremo, o que considera que a ciência é apenas uma maneira de fazer as coisas, semelhante a tantas outras, ou noutro extremo, o que considera que a ciência tudo pode, mas parece que não ficamos confortáveis numa situação intermédia.

No fundo, parece que não gostamos de dúvidas. Gostamos de certezas. Quando confrontados com uma pergunta do tipo: a ciência irá resolver? Gostamos de poder dizer sim, ou não, mas não gostamos de ficar na dúvida. Não é só o admitirmos que não sabemos, que não temos respostas para tudo... É mesmo a sensação de incompletude que a dúvida deixa. Parece que precisamos de preencher esse vazio com alguma coisa... precisamos de alguma coisa muito definida em que acreditar.

Infelizmente, a realidade é bem outra.


Suspeito que muitas pessoas, quando pensam em ciência ou em cientistas, imediatamente recordam imagens de laboratórios com gente de bata branca, paredes brancas, bancadas brancas, tudo muito branco, tecnologia caríssima por todos os lados, máquinas brancas com luzinhas coloridas... Recordam complexos inteiros de edifícios como o do CERN e o seu acelerador de partículas, dos laboratórios LIGO e os seus detectores de ondas gravitacionais, ou o centro de Los Alamos onde foi estudada a cisão nuclear. Talvez imaginarão os cientistas como pessoas super inteligentes, com hábitos estranhos, difíceis de compreender... pessoas um pouco aluadas, longe do mundo dos comuns mortais.


Em boa verdade, a ciência não se define por nada disso. Há muitos laboratórios muito brancos e pejados de alta tecnologia onde não se faz ciência alguma. E há muita ciência que se faz apenas de papel e lápis, ou nem sequer isso, simplesmente dentro da cabeça das pessoas. E muitas cabeças que fazem ciência são cabeças normais. Nós próprios fazemos ciência em dias alternados!

O que é isso de "fazer ciência"? É simplesmente o processo de aumentar o conhecimento recorrendo a um método científico. Como já alguém antes de mim disse, todos nós fazemos ciência quando vamos comprar uvas e resolvemos experimentar algumas uvas antes de concluirmos se o cacho é bom ou não. Quando olhamos para o cacho e, dentro das nossas cabeças, nos perguntamos se elas são boas ou não, não rejeitamos a dúvida e não concluímos logo por um ou outro resultado. Em vez disso, resolvemos investigar. Então tiramos uma uva e provamos. Concluímos: é boa! Mas sabemos que só uma uva pode não ter representatividade para o cacho todo... Às tantas pegamos numa uva naquele cacho que calhou de ser a melhor de todas, e todas as restantes são piores. Então resolvemos aumentar a dimensão da amostra, para aumentar o nosso nível de confiança, e tiramos outra uva qualquer. Como acreditamos que as uvas próximas daquela que já comemos não devem ser muito diferentes dela, e como queremos que a amostra seja representativa, vamos escolher uma uva doutro sítio mais afastado no mesmo cacho. Provamos... e concluímos: é boa! Satisfeitos com o grau de confiança que temos sobre a qualidade daquelas uvas, decidimos comprar o cacho. Mas, mesmo assim, sabemos que algumas uvas lá no meio podem não ser tão boas como aquelas que nós provámos. Ou seja, não rejeitámos por completo a nossa dúvida inicial. Isso é "fazer ciência". E nem sequer papel e lápis é necessário!

Posto da sua forma mais simples, a ciência é basicamente um método que sustém uma dúvida metódica e tenta investigar a verosimilhança, isto é, a probabilidade de veracidade, das diversas possibilidades de resposta por confrontação com a observação do mundo real.

Ao contrário das pseudociências, que geralmente tentam criar em nós a sensação de certeza, convencendo-nos da veracidade das suas afirmações, a ciência tenta levantar em nós dúvidas acerca daquilo que julgamos saber e pistas de investigação sobre o que é desconhecido.



O método científico é, aos meus olhos, o melhor método que a humanidade possui para tentar conhecer, com rigor, o mundo em que vive.

Mas, ao contrário do que isso possa fazer acreditar, a ciência não nos devolve respostas definitivas para nada. O próprio método científico inclui, geralmente, uma parte sobre a estimação da verosimilhança de cada solução. Ou seja, é sabido à partida que a solução proposta pode estar certa ou errada, que ninguém sabe isso, que possivelmente nunca ninguém saberá, mas que a probabilidade de estar certa deve ser tal ou tal.

A ciência vive muitas vezes mais de falsificar os seus próprios resultados, de demonstrar que são falsas proposições antes avançadas como "leis", do que de demonstrar que alguma coisa é verdadeira. Em boa verdade, a ciência nunca demonstra que uma coisa é verdadeira! As demonstrações de veracidade são algo que só existe no mundo das ideias, na matemática e na filosofia, e não existe nos ramos do saber que dependem do confronto com a realidade, que dependem da experimentação.

Na prática, a tecnologia depende dos nossos avanços no conhecimento, muitas vezes, mas nem sempre, proporcionados pela ciência. Ao contrário, a ciência depende da tecnologia para agilizar processos e para permitir experiências que de outro modo não seriam possíveis.



Se quisermos testar a "queda dos graves", isto é, testar que uma pena cai à mesma velocidade que uma esfera de chumbo, precisamos de tecnologia para o fazer. De nada adianta subirmos à torre de Pisa e lançarmos os dois objectos... Precisamos de uma câmara de vácuo, para retirar quase todo o ar do caminho dos objectos em queda. E só assim conseguiremos fazer a experiência e verificar se a hipótese de que "todos os objectos caem à mesma velocidade" está ou não de acordo com aquilo que é observado.

Mas se a ciência e a tecnologia dependem um do outro, não são a mesma coisa.

Um aspecto muito importante que é necessário entender acerca da ciência, é que ela não nos dá resposta a todas as questões. Há questões filosóficas, como a existência ou não de um ou vários deuses, às quais a ciência não pode responder. Mas há sobretudo a questão de não sabermos nunca o que virá.

Depois de Newton, muitos pensaram que as suas leis da gravitação eram definitivas, precisamente porque todas as experiências efectuadas no mundo real estavam de acordo (para lá da incerteza associada à mediação de seja o que for) com as predições do seu modelo. No entanto, anos mais tarde, Einstein fez ciência, na sua cabeça, com papel e lápis, e concluiu que em situações limite, situações que geralmente não observamos no mundo real, esse modelo não iria funcionar bem. E avançou com uma proposta de modelo alternativo. Esse modelo alternativo dava as mesmas respostas que o modelo de Newton para as situações habituais, mas nas situações limite produzia resultados diferentes.

Agora reparem como é que se faz ciência! Depois de Einstein ter avançado com a sua proposta alternativa, existiam (pelo menos) dois modelos alternativos que explicavam igualmente bem tudo aquilo que tinha sido observado e medido até então. O que era necessário para decidir qual dos dois modelos era melhor, era colocá-los à prova nas tais situações limite. O processo científico passou então pela construção mental de experiências que pudessem permitir-nos observar essas situações limite. Munidos desse conhecimento, os cientistas de todo o mundo passaram o próximo século a tentar construir essas experiências, processo que ainda hoje continua. E, tanto quanto podemos dizer, o modelo de Einstein safou-se melhor que o modelo de Newton.

Assim, hoje em dia, as pessoas usam, para as situações comuns, o modelo de Newton, e para as situações extraordinárias, o modelo de Einstein. Sabemos que este último é mais "verdadeiro" que o primeiro, mas o primeiro é bastante mais simples e é suficiente para as situações do dia-a-dia.

Mas será o modelo de Einstein o "verdadeiro modelo"?... Ninguém sabe. Actualmente existe pelo menos um cientista, por acaso português, a apontar falhas ao modelo de Einstein. E é assim, apontando falhas, levantando questões para as quais não existe resposta pronta, que o conhecimento de todos evolui.

O conhecimento não evolui com certezas, o conhecimento evolui com dúvidas!

Centremo-nos agora um pouco na pandemia que temos em mãos... ops!... vou já lavar as mãos!!...

Há bem pouco tempo, há apenas dois séculos, não havia grandes evidências de que as doenças se propagavam através de pequenos seres vivos... Havia teorias sobre o assunto, isso sim, mas não existiam evidências. Quanto aos vírus, que são bem mais pequenos que as bactérias, eles só foram descobertos na última década do século 19, há menos de 130 anos!

Toda a evolução recente da medicina, com os resultados que estão à vista de todos, é um exemplo excelente de uma evolução quase simbiótica entre tecnologia e conhecimento, associada à sistemática construção de experiências para tentar refutar hipóteses. Sempre um processo de dúvidas, hipóteses, experiências, dúvidas, hipóteses, experiências...

A ciência é uma actividade humana como todas as outras. Os cientistas são seres humanos como os outros. E isso quer dizer que, tal como noutras actividades e com outras pessoas, a ciência e os cientistas estão sujeitos a erros. Muitos erros!...



Desenhar bem uma experiência científica no ramo da medicina não é fácil. Não é fácil, não é rápido e não é barato. E é por causa disso que o mundo está pejado, talvez ao contrário do senso comum, de experiências científicas erradas.

Para nos certificarmos de que uma afirmação qualquer não é uma aldrabice, não nos basta saber que existe um "artigo científico" sobre o assunto, ou que algum "cientista" se pronunciou sobre a matéria. Porque existe muita má ciência e muitos cientistas que se espalham ao comprido.

Portanto cuidado!... A dúvida é a nossa melhor conselheira. Aqui e noutras situações, não nos devemos contentar com a primeira certeza que o nosso cérebro achar confortável. Devemos investigar. Muito. E não, não há alternativa... A não ser que queiram confiar esse trabalho a um "fazedor de opinião" que costumam ver na televisão, no telejornal das nove.



É importante saber um pouco de ciência para conhecer um pouco os seus limites.

Muitos de nós, em tempos de pandemia, acreditam que se existe um vírus, então nós damos dinheiro aos cientistas, e eles devolvem-nos uma cura ou, melhor ainda, uma forma de nos tornarmos imunes sem nunca termos contraído a doença.

Mas... como é que um cientista sabe quais são os elementos químicos e as substâncias químicas que estão presentes numa maçã?... Há uma data de conhecimento acumulado sobre o assunto. Há teorias, há tecnologia... podemos sujeitar uma maçã às mais duras provações! Mas ao certo, ao certo, com 100% de certeza, ninguém pode dizer tudo o que existe numa maçã.

O corpo humano é muito mais complexo do que uma maçã. As incógnitas são muitas mais!...

Quanto ao novo coronavírus, bem... ele é novo!...

Já pensaram como é que alguém sabe que uma nova doença é causada por um novo vírus?... Para percebermos como esse passo que parece tão simples já tem a sua complexidade, é necessário sabermos que o vírus tem, no máximo, uns 200 nanómetros de diâmetro, isto é, cerca de 1000 vezes mais pequeno que o diâmetro de um cabelo. Isso faz com que o vírus seja praticamente impossível de detectar com os melhores microscópios ópticos. Detectar... porque depois há a tarefa de identificar... de saber se é algum vírus com o qual já tenhamos contactado no passado!



Quando uma pessoa está doente, sobretudo quando está doente com uma doença nova, geralmente é muito difícil para um médico fazer o diagnóstico correcto. Porque doenças há imensas, muitas delas podem atacar em simultâneo, com interacções nem sempre fáceis de reconhecer, as pessoas reagem de forma diferente, os médicos estão naturalmente enviesados para identificar casos "normais", etc.

Assim, a simples identificação de uma nova doença, o reconhecimento de que é causada por um vírus, a detecção e identificação do vírus como algo novo, só isso já deve merecer a nossa consideração.

Mas depois da identificação do problema, há a etapa dedicada à sua resolução.

Como é que se combate um vírus?...

Temos de ter consciência que existem, neste preciso momento, muitos vírus que atacam o ser humano e para os quais não existe cura. Por exemplo, o vírus da herpes ou o HIV.

Temos também de ter consciência que há sempre vírus novos a surgir. Por exemplo, todos os anos lá vem um novo vírus da gripe... A ciência ajudou-nos a construir vacinas para a gripe. Mas!... um grande mas, não existe uma vacina universal. Todos os anos é necessário produzir uma nova vacina para o novo vírus. E só é possível ajustar os ingredientes da nova vacina depois de conhecer o vírus que nos está a atacar!

Ou seja, mesmo para uma doença recorrente como a gripe, que mata todos os anos mais de 300 mil pessoas (em 1918 foram 100 milhões!), não conseguimos, no estado actual da arte, produzir uma vacina universal que antecipe a emergência do vírus e nos dê imunidade para o que há-de vir!

Mais do que isso: ninguém sabe, com 100% de certeza, se isso alguma vez será possível de obter, uma espécie de vacina universal que nos proteja do que há-de vir, mas que ainda não existe.

É preciso compreender que a ciência, mesmo sendo a melhor forma de aumentarmos o conhecimento sobre o mundo que nos rodeia, é apenas um método, uma maneira de pensar e de agir, tal como fazemos quando testamos as uvas que queremos comprar. A ciência não é algo que nos dê grandes garantias, sobretudo acerca daquilo que nos é desconhecido.

A minha actividade profissional actual é a estatística. Tenho estado, desde quase o início da identificação desta nova doença COVID-19, a construir modelos matemáticos de estimação da evolução dos casos de infecção para diversos países.

Deixo-vos então um exemplo do que a ciência e a técnica conseguem fazer, e do que não conseguem fazer.

No gráfico em baixo, pode ver-se a evolução do número total de casos de infecção em Portugal (linha a preto, com cruzes) até 27 de Março. Pode igualmente ver-se o andamento de quatro modelos alternativos.



Conforme é visível, o ajustamento aos dados reais é muito bom, para qualquer dos quatro modelos alternativos.

Se quisermos antecipar quantos casos novos surgirão amanhã, e sem sabermos mais nada (já voltarei a isto mais adiante), qualquer um destes quatro modelos dá respostas que muito provavelmente não se irão afastar muito do valor real. Até posso avançar os valores previstos pelos cinco modelos para o dia 28 de Março, e ficará assim aqui, para a história, a adequação ou não das previsões à realidade.


Modelo1: 5047
Modelo3: 4896
Modelo4: 5007
Modelo5: 4967

(Actualização: o verdadeiro valor para 28 de Março foi de 5170)

Se quisermos antecipar o número de casos novos para dois ou três dias mais adiante, os modelos também ajudam.

Mas, e este é o ponto onde quero chegar, se quisermos saber onde é que estes modelos nos conduzem, isto é, aquilo que verdadeiramente precisamos de saber, o número máximo de novos casos diários, o número total de infectados, e consequentemente o número de casos graves que vão requerer cuidados intensivos, etc., estas são as quatro respostas que os quatro modelos alternativos nos apresentam:



Ou seja, tudo é possível!...

É possível construir modelos bem mais complexos do que os quatro que eu construí. Talvez consigam previsões a curto prazo melhores que os meus modelos, acredito que sim.

Mas não há neste momento um estatístico, matemático, epidemiologista ou vidente que possa ter a certeza, ou sequer um grau de confiança elevado, acerca do resultado final desta pandemia.

Não é a ciência que está a falhar. É simplesmente a natureza das coisas: há processos para os quais é muito difícil conseguir prever o que vai acontecer. Ponto.

Isso é especialmente verdadeiro para os processos em que o ser humano tem uma intervenção directa. Porquê?... Porque os resultados dependem das acções dos seres humanos mas, ao mesmo tempo, as acções dos seres humanos também dependem dos resultados.

De facto, se os modelos previssem desde o início que com intervenção ninguém morreria e sem intervenção morreriam todos, toda a gente começaria imediatamente a intervir!

Mas prever os comportamentos dos seres humanos, e as interacções entre esses comportamentos e as informações que lhes chegam, é muitíssimo difícil.

É por isso que as "ciências sociais" têm tanta dificuldade em produzir resultados fidedignos. É por isso, por exemplo, que ninguém consegue prever com segurança a emergência da próxima crise económica.



É preciso salientar um aspecto no que acabei de dizer: ninguém consegue prever com segurança. Prever, toda a gente consegue. E como toda a gente consegue prever, há previsões para todos os gostos. É sempre muito fácil, à posteriori, dizer "fulano de tal é um génio, porque conseguiu prever que isto ia acontecer!". Não... isso não significa que seja um génio. Significa simplesmente que quando se fazem muitas previsões alternativas, eventualmente uma delas lá terá de acertar!

No último campeonato mundial de futebol, em 2018, um grupo de matemáticos resolveu demonstrar o que acabei de dizer. Para isso, pediram ao maior número de pessoas possível que tivessem cães de estimação, para fazer a seguinte experiência:

iriam escolher um método para "interpretar" os sinais do cão de forma a "entender", para cada jogo, qual era o resultado final previsto pelo cão: ou ganhava a primeira equipa, ou ganhava a segunda, ou empatavam. O método podia ser a colocação da pata assim ou assado, a escolha de um biscoito em vez de um chocolate, qualquer coisa.

À medida que os jogos do campeonato iam decorrendo, os cães que falhassem nas suas previsões iam sendo eliminados. No final, conseguiram identificar um cão que adivinhou os resultados de todos os jogos correctamente! Era, claramente, um cão com poderes especiais!...

Ou então era simplesmente um cão como os outros, que calhou de acertar nas previsões que eram, em boa verdade, feitas ao calhas.

Não consegui encontrar um vídeo do cão... vai um vídeo do polvo que uns anos antes também adivinhou uma série de jogos:


A ciência não consegue responder a tudo.

No ramo da mecânica dos fluidos, existe um conjunto de equações que modelam o comportamento dos fluidos na sua integridade. São as equações dos senhores Navier e Stokes. São equações diferenciais simples, que resultam de princípios simples, como a conservação da energia. No entanto, não existem soluções gerais para o sistema de equações! Só existem soluções para casos muito simplificados. Para lá disso, a modelação do comportamento dos fluídos só se pode socorrer de modelos numéricos, isto é, modelos que nos dizem: se agora a sitação é exactamente esta, no instante imediatamente a seguir a situação será aproximadamente aquela.

Só que, mesmo munidos desses modelos numéricos, não conseguimos resultados muito melhores. Isto porque os pequeníssimos erros em cada etapa da iteração acumulam-se e multiplicam-se.

Há sistemas que são inerentemente caóticos. Isto é, apesar de sabermos que são mecânicos e conhecermos com bastante rigor as razões pelas quais vão de um estado ao outro, não conseguimos nunca prever a evolução do seu comportamento a longo prazo.

A mecânica dos fluídos é um bom exemplo. E é por isso que, não importa quão avançada é a ciência e quanto dinheiro despejamos em cima dos cientistas, nunca seremos capazes de prever, mas prever com segurança!, o estado do clima num local do planeta com um ano de antecedência.

A imagem seguinte mostra um conjunto de previsões de trajectórias possíveis de um furacão no Sul dos EUA.

The Error Cone and Visualizing Uncertainty – ZastrowPhysics

A ciência é, aos meus olhos, o melhor método para conhecermos o mundo em que vivemos. Devemos, por diversos motivos, apostar na ciência. Claro que sim! Mas temos de ter a noção do que a ciência pode e não pode fazer, e temos de ter a consciência de que os seus resultados são incertos.

Portanto, em tempos de pandemia, tal como em todos os outros, temos de fazer o que estiver ao nosso alcance, sem esperar soluções milagrosas.

sábado, 21 de março de 2020

Coronavirus, versão 2019...

Algumas considerações mais ou menos irónicas sobre o assunto.



1ª Consideração

Ai, ai, ai!... O mundo vai acabar!!!...


2ª Consideração

Morrerá muita gente?

Os dados a que tive acesso falam de taxas de fatalidade (para quem tenha contraído a doença) de 14,8% para quem tem 80 ou mais anos de idade, caindo rapidamente para 0,4% para quem tem entre 40 e 49 anos de idade e tendendo depois para zero nas classes etárias mais novas.

Aplicando essas taxas à estrutura da população mundial, o resultado é o seguinte: se toda a população mundial fosse contagiada, morreriam cerca de 87 milhões de pessoas. Isso parece um oceano de gente, mas vamos colocar a coisa em perspectiva: isso é 1,1% da população mundial.

É claro que não vou avançar com aquele argumento supostamente estalinista de que uma morte é uma tragédia, mas 87 milhões é uma estatística. Mas mais sobre isso adiante.

Coloquemos as coisas ainda mais no seu contexto. Façamos umas contas de merceeiro (sem desprimor para os merceeiros, que afinal sabiam fazer contas melhor que a maioria das pessoas): se existirem cerca de 8 mil milhões de pessoas no planeta, se essas pessoas estiverem igualmente repartidas por todas as idades entre os 0 e os 100 anos de idade, então todos os anos terão de morrer 1% das pessoas, o que dá cerca de 80 milhões de pessoas. Segundo os dados da Organização Mundial de Saúde, em 2016 morreram 57 milhões de pessoas. Portanto as nossas contas de merceeiro não são completamente descabidas.

Se tudo correr bem, no nosso cenário hipotético, as pessoas vivem as suas vidas descansadas durante 99 anos, e morrem ao fazer 100, ou algo do género. Mas a realidade é outra. Muitas das mortes registadas são na verdade prematuras, e destas muitas são evitáveis. Por exemplo, para o mesmo ano de 2016 a OMS diz que 1,4 milhões de mortes foram relacionadas com o transporte rodoviário, e destas, 74% foram do sexo masculino, muitos dos quais jovens.

Se juntarmos todas as mortes evitáveis que ocorrem todos os anos, não serão necessários muitos anos para atingir um valor de 87 milhões de mortes, das quais uma grande proporção será de pessoas jovens.

No entanto, este número potencial de mortes do (ou mais correctamente "da") Covid-19 foi calculado assumindo que toda a população mundial ficaria infectada. Mas será isso realista?

Vejamos o caso da China. Se aplicarmos as mesmas taxas de fatalidade à estrutura da população da China, o número de mortes previsto seria de 19 milhões, ou 1,4% da população. No entanto, nesta data (20 de Março), o número de mortos que estavam infectados na China é de 3248. E, analisando a evolução dos números, o número total de mortos na China dificilmente aumentará muito. E isso significa que a China ultrapassará esta crise com bem menos de 0,001% de mortos, significativamente menos do que 1,4%.

Entretanto, em Portugal e outros países europeus, vivemos "a fase do crescimento exponencial", uma expressão que só pode vir de quem não percebe muito de funções... Uma função logística, por exemplo, que modela razoavelmente bem a evolução do número total de casos de infecção, possui uma componente exponencial, que está sempre presente, da origem até ao fim dos tempos. Mas enfim, essa é outra conversa, mais técnica e menos relevante para este caso.

Se a população portuguesa fosse toda infectada, e usando as mesmas taxas de fatalidade, teríamos no final cerca de 260 mil mortos, ou seja, cerca de 2,5% da população. Se as medidas de contenção entretanto impostas resultarem, talvez possamos atingir uma mortalidade pouco superior à da China, em termos relativos. Se ela fosse de 0,002%, por exemplo, seriam apenas cerca de 200 mortes. Num país onde, todos os anos, morrem muito mais pessoas em acidentes de viação.

Entretanto, e de qualquer modo, vamos esperar que os avanços técnicos e científicos nos ajudem a combater melhor a doença, de dia para dia, de tal modo que daqui a uns meses possamos reduzir as taxas de fatalidade actuais.

É, claramente, o fim do mundo!

Mas... falando de avanços técnicos e científicos...



3ª Consideração

Não há vacina?

Na minha terra diz-se bacina com o primeiro a aberto. E eu digo que a história é escrita pelos vencedores e os dicionários pelos opressores. Mas isso, nobamente, é outra cumbersa.

Há pessoas que acreditam que isto da imunidade contra as ameaças bacteriológicas e virais que andam por aí é uma questão de despejar dinheiro em projectos de investigação.

Existe, por exemplo, um movimento chamado Zeitgeist (procurem... talvez vos interesse!) que defende a construção de um mundo melhor para todos (bom!), baseado nas possibilidades que a ciência tem aportado à humanidade (falacioso!).

Estamos a falar, em boa verdade, de uma posição de fé. A fé é uma crença que existe apesar de não existirem razões claras para ela. Não vamos, apesar disso, menosprezar a fé. Por um lado, é bem verdade que a fé move montanhas. Depois, a nível individual, é bem verdade que a fé contribui para o nosso bem-estar (e não apenas psicológico... veja-se por exemplo o efeito placebo). Finalmente, a verdade é que nada ou muito pouco no mundo e na vida é inteiramente demonstrável. Se eu posso dizer "penso, logo existo", demonstrando assim a minha existência, já não posso demonstrar do mesmo modo a existência dos outros, nem posso demonstrar aos outros a minha existência. No fundo, tarde ou cedo, tudo se baseia em fé.

Existe então esta fé de que a ciência tudo pode.

Eu creio, no entanto, que só tem essa crença quem nunca conviveu com o processo científico e os cientistas o tempo suficiente para perceber como é que a ciência funciona.

Um exemplo. A eficiência das turbinas dos aviões a jacto depende da temperatura e da pressão que podem ser atingidas no seu interior: quanto maior a pressão e a temperatura, mais eficientes são as turbinas, mantendo tudo o resto constante. O problema de aumentar a pressão e a temperatura no interior das turbinas é que isso coloca os materiais de que são feitos sob maior tensão, num ambiente de maior temperatura. As peças que mais sofrem são as pás das hélices, sobretudo nas suas extremidades. Assim, a eficiência do consumo de combustível num avião (que é uma coisa importante para toda a humanidade, ainda mais num contexto de alterações climáticas aceleradas), depende da resistência à tensão e à temperatura dos materiais usados nas pás das hélices da turbina.

O que é que se faz então?... Dá-se rios de dinheiro a gente super-inteligente das melhores universidades e laboratórios técnicos do mundo e exige-se: queremos um material que se mantenha resistente a temperaturas de 20 mil graus (podem usar a escala de temperatura que quiserem, que tanto dá).

Fico com a impressão, por vasta experiência própria e alheia, que há muitos políticos e empresários que pensam que isto funciona assim... Mas não funciona. Por algo que é muito simples de entender. Quando se investiga, por definição, está-se a ir para o mundo desconhecido. É assim como ir passear a caminho de Algés, lá para o centro que o Champôlimão ajudou a criar para estudar "o desconhecido"! Só que no mundo desconhecido, por ser desconhecido, ninguém sabe ao certo o que vai encontrar.

Assim, dar dinheiro e exigir uma vacina para o Covid-19 é parecido com fornecer navios e respectivo pessoal e material e dizer a um tipo para ir achar a Atlântida, sem saber de antemão se ela existe ou não.

Neste caso concreto, parece-me, com o meu olho não especialista, que o terreno não é completamente desconhecido. Por isso talvez haja motivos para termos fé na descoberta de uma vacina eficaz e barata... e barata!!... (quem é que financia a investigação? quem se apropriará dos lucros que irão ser gerados?... outra cumbersa). De qualquer modo, isso não será já para amanhã.



No entanto, produzir vacinas para ameaças que hão-de vir, como novas estirpes de coronavirus, ou outro tipo de ameaças desconhecidas, isso sim, é mais como ir para fora do sistema solar à procura de asteróides de ouro maciço, coisa que ninguém faz ideia se existe ou não.

As vacinas são produzidas para atacar problemas concretos. E demoram bastante tempo a ficarem prontas, por diversos motivos, e ainda bem que assim é! É que todas as coisas a que sujeitamos os nossos corpos têm efeitos benéficos e maléficos em simultâneo. E é preciso medir muito bem as coisas se não queremos matar as pessoas da cura!... Conforme, aliás, era prática corrente até há muito pouco tempo, inclusivamente nas "medicinas" com origens mais antigas. Mas isso, novamente, é outra cumbersa.

Acerca da facilidade ou dificuldade de combater pandemias com vacinas, veja-se, por exemplo, o seguinte artigo:
https://www.historyofvaccines.org/content/articles/vaccines-pandemic-threats


Voltando por um segundo ao tal movimento Zeitgeist: acreditar que a felicidade das pessoas depende dos avanços científicos e tecnológicos é o mesmo que negar a possibilidade de felicidade a toda a humanidade que nos precedeu... e isso devia fazer-nos pensar. Mas para lá disso, acreditar que os avanços científicos e tecnológicos contribuem necessariamente (ou até maioritariamente) para a felicidade das pessoas é errar estrondosamente na análise da história da humanidade.


4ª Consideração

Mas então o que é que podemos fazer?

Há muitas coisas que podemos e devemos fazer. Uma morte é uma tragédia, um milhão de mortes são um milhão de tragédias. Estamos a falar de pessoas, e temos de pensar em cada pessoa em concreto e fazer tudo o que está ao nosso alcance para minorar o seu sofrimento.

No entanto, o sofrimento das pessoas não se mede apenas em mortes. Nem só de coronavirus vive a morte, e nem só de morte vive o sofrimento. Há muito mais mundo e, infelizmente, muitos mais problemas que afligem a humanidade.



E não me venham com a treta de que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa, que os atropelamentos na estrada e as mortes por coronavirus não têm nada a ver, porque tudo nesta vida está ligado a tudo. A nossa paciência é que não nos leva aos meandros dos fios que unem estas coisas todas. Mas eu aposto convosco que um recolher obrigatório por causa do coronavirus irá diminuir o número de atropelamentos! :)

As coisas estão todas ligadas de muitas formas. Duas coisas que unem tudo são o tempo e o dinheiro. Se nos dedicamos muito a umas coisas, não nos dedicamos a outras. Não dá para tudo.

A vida não dá para tudo. O doente de cancro do pulmão que é fumador escolhe ter o prazer de continuar a fumar e encurtar a sua vida, ou ter o desgosto de deixar de fumar e estender a sua vida. A vida, e a morte também, é feita de opções.

É importante dizer isto, porque de repente parece que o coronavirus é mais importante do que tudo o resto. Mas não é. Objectivamente não é. Um jovem de 30 anos que não tem onde dormir estará provavelmente mais preocupado com arranjar casa do que com não propagar um vírus a outras pessoas. Como várias pessoas têm dito ultimamente, e com toda a razão: como é que quem não tem casa faz quarentena?...



É importante pensar nestas questões... O coronavirus vem e há-de ir... e mesmo que outros venham (que virão), nós entretanto vamos ter de levar as nossas vidas. E se há muito que podemos fazer para minorar o sofrimento das pessoas por causa do coronavirus, há ainda mais que podemos e devemos fazer para minorar o sofrimento das pessoas com tudo o resto. E as coisas estão ligadas entre si, mesmo que isso não seja evidente.

Bom, para já, no imediato há uma coisa importante que podemos e devemos fazer: ir comprar resmas de papel higiénico! Toda a gente sabe que o vírus se borra de medo de papel higiénico. É isso e laranjas! Vejam lá este exemplo da guerra das laranjas contra os vírus:



No imediato há que fazer aquilo que todos os canais estão fartos de propalar. Essencialmente, fazer de conta que estamos infectados e agir de modo a impedir ao máximo a propagação do nosso (hipotético) vírus às outras pessoas.

Mas, e no longo prazo?

No longo prazo é muito provável que venham de lá... de algures... novas estirpes de outros coronavirus ainda mais novas que este novo coronavirus. E há coisas que podemos fazer para minorar a probabilidade disso acontecer e também o seu impacto, caso ocorra mesmo.

Vamos dar uma voltinha a um bilhar um bocadito maior...

No sistema capitalista que temos, uma coisa que acabou por assumir alguma importância para a economia foi a bolsa de valores. Chamo assim ao mercado, essa coisa fictícia, onde as pessoas e instituições podem comprar e vender títulos financeiros (desde as inteligíveis acções, até ao supra-sumo do virtual, como opções de futuros de opções). No entanto, apesar de aparentemente importantes para a economia, o que se passa no seu seio não é mais do que um jogo: comprar e vender os títulos certos nos momentos certos. O trunfo neste tipo de jogo é a capacidade de antecipação (acertada!) de uma tendência de subida ou descida.

Toda a gente já ouviu falar de histórias como aquela em que o presidente de sei lá quê desmaiou e os mercados da bolsa colapsaram no outro lado do mundo. Ora, neste contexto, o que é que acontece se todos os mercados financeiros de todo o mundo estiverem 24h por dia em funcionamento, e se toda a gente em todo o mundo tiver acesso instantâneo ao mesmo tipo de informação?... A resposta é simples: maior volatilidade. Os preços dos títulos tenderão a sofrer episódios de aumentos e descidas abruptos e enormes! E isso poderá ter consequências económicas devastadoras... tal é a maravilha do sistema económico que nós "escolhemos".

Mas quem gere os cordelinhos deste tipo de instituições não anda na vida a dormir. À medida que a globalização foi avançando e o mundo se transformou numa pequena aldeia, o risco deste tipo de variações bruscas aumentou imenso, e assim também os mecanismos preventivos. Que mecanismos preventivos? Quarentena!

Quando uma coisa corre mal num mercado, coloca-se o mercado em quarentena. Fecha-se a transacção de determinado título, fecham-se todas as transacções num determinado mercado, fecham-se todas as transacções a nível mundial, se preciso for!



Outro exemplo: num edifício habitacional existem sempre escadas de emergência, e estas têm de estar equipadas com portas corta-fogos. Aliás, também nos incêndios florestais (embora me pareça um erro chamar floresta a plantações de pinheiros e/ou eucaliptos) existem longos corredores sem árvores, corredores corta-fogos.

A lógica é sempre a mesma: isolar, para impedir a propagação.

A tal globalização, de que já falei, tem implicado que de ano para ano as pessoas viajem cada vez mais. Por vários motivos. Nos últimos anos, pelo menos na parte do mundo mais próxima de Portugal (mas suspeito que em todo o mundo), o turismo tem aumentado imenso. E com isso os voos.

Este vídeo dá uma ideia da quantidade de aviões que andam no ar, num só dia, em todo o planeta. Notar que o vídeo já tem mais de 10 anos de idade, portanto hoje estaria bem mais povoado! Bem... se calhar hoje não... precisamente por causa do coronavirus!...



Quem quiser ver mais destas coisas pode tentar, por exemplo, este site: www.flightradar24.com.

Interligar fisicamente o planeta é obviamente colocar-nos sob um risco acrescido. É como misturar os iogurtes do mundo inteiro... e perdoem-me se às vezes viajo um pouco no iogurte... porque é melhor no iogurte que no avião: se aparecer uma bicheza num iogurte qualquer, muito mais depressa se irá alastrar a todos os outros.

Isto é evidente. Portanto, uma medida que nós, humanidade, podíamos tomar era, a longo prazo, parar de querer fazer uma equivalência entre viajar e ser feliz (até porque viajar muito tem uma série de outras consequências negativas, para além das óbvias positivas... mas isso é outra cumbersa).

Há quem possa achar esta minha sugestão estúpida e descabida. No entanto, ela terá resultados garantidos. Atirar rios de dinheiro para a investigação à procura de vacinas contra vírus que ainda estão para vir não dá resultados garantidos. O que é mais descabido?

Trata-se simplesmente de isolar as regiões do planeta. E, de resto, nem sequer é nada de novo. Quando viajamos de avião, não nos é permitido transportar uma série de animais e plantas precisamente com o objectivo de conter o alastramento de vírus ou bactérias ou até das próprias espécies animais ou vegetais que se podem tornar infestantes no local de destino. Podemos e devemos, digo eu, impor algum tipo de controlo à deslocação das pessoas entre países.

Controlo não quer dizer proibição.

Aliás, aproveito esta deixa para dizer que outra coisa que podemos e devemos fazer é tornar-nos mais politizados.

Tudo o que diz respeito à tomada de decisões conjuntas acerca da utilização de recursos que são de todos é uma questão política. Portanto, medidas que a nossa sociedade possa tomar com vista à prevenção futura de situações como a que estamos a viver, são medidas políticas. Era bom que as pessoas acordassem da lavagem cerebral a que foram sujeitas e que as fizeram acreditar que política = infelicidade e viagem = felicidade.

Se formos mais politizados e interventivos naquilo que a todos diz respeito, talvez possamos discutir que tipo de medidas é que podemos e devemos tomar para colocar portas corta-fogos que impeçam a rápida transferência de doenças entre países e continentes.

Outra coisa que podemos fazer, é tentar minorar a exploração dos animais, quer dos animais selvagens, quer dos animais domésticos que criamos para a nossa alimentação. A investigação científica tem mostrado, repetidamente, que a interacção próxima entre diversos tipos de animais e humanos promove a transferência de doenças dos animais para os humanos (doenças chamadas zoonóticas). Podemos e devemos deixar de criar animais como em fábricas, podemos e devemos deixar de, como espécie, querer comer todas as outras espécies, tudo o que mexe e que não mexe. Ser mais comedidos, portanto.

Veja-se, por exemplo, o seguinte artigo, publicado pela ONU:

https://www.unenvironment.org/news-and-stories/story/coronavirus-outbreak-highlights-need-address-threats-ecosystems-and-wildlife


Esta seria mais uma medida que teria resultados garantidos. No entanto, tal como com as viagens de avião, iria, pelo menos na cabeça das pessoas, reduzir a sua felicidade!... Portanto, haja política, ou seja, haja debate, discutamos entre nós as opções... Porque certo é que não há benefício que não tenha um custo associado.

Neste caso concreto do Covid-19, a cadeia de transmissão da doença foi, aparentemente, promovida pelo comércio de animais selvagens que não são de consumo habitual por toda a população. Pelo contrário, são animais vendidos a preços elevados às camadas da população chinesa mais endinheiradas.

O mesmo tem acontecido ao longo da história com o comércio de madeiras das florestas tropicais, papagaios, cornos de rinoceronte, etc, etc, etc. O que é que se pode fazer acerca disso? Uma série de coisas!... Estaremos dispostos a fazê-las?

Outras coisas que podemos fazer no médio ou longo prazo...

E que tal criar hospitais e centros de saúde com mais salas que permitam o atendimento de pessoas com doenças contagiosas? Que essa coisa de "se estiver doente NÃO venha ao hospital"... compreende-se... mas num mundo melhor isso poderia ser tratado de outro modo... E que tal ter um sistema de saúde mais bem equipado? E não me venham com a treta do dimensionamento óptimo para o número de casos expectáveis e tal e tal... Eu entendo bem de economia e de estatística, e insisto na última pergunta.


E que tal um outro sistema económico, não baseado no crescimento infindável?


Viriato Soromenho Marques afirmava, no seu artigo de 7 de Março, que"o covid-19 devolve-nos, sem maquilhagem, o rosto assustador da verdadeira peste do nosso tempo. A nossa servil e suicida adição ao encarniçado crescimento exponencial, que corrói os próprios ecossistemas de que depende a nossa sobrevivência como civilização!"



5ª Consideração

Há quem fale num "teste à democracia"...

Como dizia o outro, a democracia é o pior de todos os sistemas, com excepção de todos os outros.

Como dizia eu mesmo, a democracia funciona bem se as pessoas forem boas. Mas também a ditadura funciona bem se o ditador (ou a ditadora) for bom (ou boa).

A ditadura é má, na medida em que não nos defende da possibilidade de o ditador ser mau. A democracia está cá para isso, para nos permitir "sermos donos dos nossos destinos"... Ah!... Que belo!!...

Não me interpretem mal: eu sou completamente contra ditaduras e completamente a favor de democracias. A questão é a de saber mais rigorosamente o que é isso de democracia e considerar também as suas falhas. Mas, novamente, isso é outra cumbersa. Uma outra conversa que talvez nos permitisse entender que a "nossa democracia" não é tanto "demos", nem tanto nossa.

As democracias, na medida em que o forem verdadeiramente, implicam politização, participação activa das pessoas, debate, votação... Ou seja, são uma grande chatice!... Todo este processo implica tempo. Tomar boas decisões pode ser uma questão de sorte. Mas fazer os possíveis para tomar em conjunto as melhores decisões, é sempre um processo moroso.

E isso implica que num contexto diferente daquele a que estamos habituados, que não foi antecipado, e no qual é preciso tomar rapidamente decisões radicais, as democracias estão condenadas a não funcionar muito bem.

Foi decretado há dias, em Portugal, o "estado de emergência".

Ai, ai, o mundo vai acabar!...

Na verdade, o estado de emergência não é apenas uma parangona que permite publicitar junto das pessoas a necessidade de agir de um ou outro modo, não é apenas uma coisa para se meter num cartaz ou num jornal a dizer "isto é uma emergência!". Decretar um estado de emergência é algo que compete conjuntamente à Assembleia da República e ao Presidente da República e tem como efeitos imediatos conferir mais poderes de actuação ao Governo, através da suspensão temporária de direitos, liberdades e/ou garantias dos cidadãos.

Afinal, bem vistas as coisas, o estado de emergência não é mais do que uma situação temporária e excepcional na qual uma democracia se aproxima um pouco mais de uma ditadura, no sentido de que os direitos dos cidadãos ficam mais restringidos e o poder de actuação dos órgãos governantes fica mais alargado.

Ninguém decreta um estado de emergência para debater assuntos com os cidadãos ou para fazer referendos. Os estados de emergência são necessários para impor medidas urgentes que de outro modo seriam simplesmente ilegais. Como, por exemplo, a obrigação das pessoas se manterem em suas casas.



As pessoas são geralmente muito mais subservientes aos poderes instituídos do que aquilo que julgam. Talvez a muitas não tenha sequer ocorrido que o Governo simplesmente não tem capacidade para nos obrigar a ficar em casa. Pois em geral, não tem. Em geral... Mas num "estado de emergência" o caso muda de figura.

Ou seja: no caso que temos em mãos, e a menos que os ditadores e respectivos adjuntos sejam uns totós, uma ditadura está sempre em melhor situação para atacar o problema. Simplesmente porque pode actuar mais rapidamente e de forma mais "enérgica".

Em tudo na vida há um lado positivo e um negativo. Não faz sentido julgar as democracias (admitindo que são efectivamente democracias) pela capacidade de actuação face a um coronavirus. Não é nisso que elas são boas. Não vale a pena insistir.


6ª Consideração

A economia.

Ou: será que vamos morrer da cura?


Bom, se em relação à saúde das pessoas, tudo está em aberto, em relação à economia não há problema algum! É só deixar os mercados funcionar e a mão invisível do nosso amigo Adam Smith irá tratar de tudo!

Senão, vejamos: o encerramento obrigatório de diversos tipos de estabelecimento irá reduzir os proveitos dos empregadores. Esses empregadores terão de (a) recorrer a poupanças para continuar a pagar aos trabalhadores, (b) recorrer a empréstimos para o mesmo fim ou (c) despedir os trabalhadores. No conjunto da economia, as três coisas irão acontecer em simultâneo.

Os primeiros trabalhadores a saltar são os que têm vínculos precários. Mas não se deixem enganar pelo nome! "Precário" quer dizer que é bom para a economia, precisamente porque permite que as empresas se adaptem mais rapidamente e com menos custos às flutuações do mercado!... Depois saltarão os trabalhadores cujas indemnizações sejam menores, o que em geral significa os mais jovens. Mas neste caso os despedimentos implicarão custos para os empregadores.

O recurso a empréstimos irá deixar as empresas numa situação de dependência, e implicará o pagamento de juros potencialmente durante longos períodos. Mas isso é óptimo, porque dinamiza o sector financeiro, e dá um rendimento acrescido aos bancos, coitadinhos, que têm andado pela hora da morte.

O recurso a poupanças, para os empregadores que as tenham, é mau para esses empregadores, porque lhes diminui os proveitos financeiros, mas é bom para a economia, pois é uma espécie de investimento forçado, injectando dinheiro na economia no momento em que ela mais precisa!

De um modo ou de outro, ou de todos os modos em simultâneo, muitas empresas terão custos acrescidos e proveitos diminuídos. O rendimento do capital investido irá, portanto diminuir. Mas isso é óptimo, porque irá permitir uma "purga" do mercado, libertando-o de empresas pouco produtivas, e deixando de pé aquelas que são efectivamente as mais eficientes. Assim, no final da crise, a economia estará povoada apenas de empresas sãs, com óptimas condições de crescimento!

Do ponto de vista das famílias, o rendimento tenderá a diminuir, sobretudo por causa das reduções dos salários e do aumento do desemprego. Mas isso é óptimo! Por um lado, as reduções de salários implicam reduções de custos para as empresas, que assim poderão aumentar a sua competitividade num mercado global cada vez mais exigente! Por outro lado, o aumento do desemprego, além de contribuir ele próprio para um abaixamento dos salários, aumenta a competição entre os candidatos a um qualquer emprego. E já se sabe que a competição é o melhor dos estímulos para as pessoas conseguirem o que quer que seja! É assim que o aumento do desemprego será bom para promover o aumento da formação profissional e o "abaixamento da bolinha" no mercado do trabalho, tudo coisas óptimas!

Na interacção entre as famílias e as empresas será mais difícil de prever a evolução dos acontecimentos. Por um lado, o encerramento de empresas irá diminuir a oferta. Por outro lado, a diminuição do rendimento das famílias irá diminuir a procura. Assim, é difícil de antecipar se os preços irão aumentar ou diminuir. De qualquer modo, se os preços diminuírem, isso será óptimo para a economia, porque não só permitirá um aumento do nível de vida das famílias, como colocará a economia numa posição competitiva privilegiada! Por outro lado, se os preços aumentarem, isso será óptimo, porque irá permitir um rendimento acrescido às empresas que estiverem em actividade, e é esse rendimento acrescido que faz girar a economia. Já se sabe que para distribuir riqueza, primeiro é necessário gerá-la!

Quanto à relação dos Estados com as empresas, o coronavirus irá permitir um aprofundamento dessas relações. De facto, prevê-se que os Estados, em vez de emitirem moeda pelos seus próprios meios, o que toda a gente sabe que seria péssimo pois criaria automaticamente uma situação de hiperinflação, irão endividar-se ainda mais juntos dos bancos e outras empresas. Isso permitirá criar a obrigação do pagamento de juros pelo Estado durante muitas décadas, o que é óptimo para a economia, uma vez que é uma forma de os Estados transferirem dinheiro de quem tem pouco, porque não o sabe usar, para quem tem muito, porque sabe usá-lo da forma mais eficiente!

Portanto, veja-se a coisa como se quiser ver, ela será sempre óptima para a economia! E já se sabe que o que é bom para a economia, é bom para todos nós!

Ou será?...

Mas enfim... Aterrando um pouco depois do meu delírio economicista (mas que é tão real que levamos com ele todos os dias, mesmo não querendo!), eu diria que esta é toda uma outra cumbersa.

É, no entanto, uma conversa que podemos deixar para outra altura, porque este artigo já vai longo, e receio, muito sinceramente, que as sequelas na economia serão bem mais graves e duradouras que as sequelas que este vírus deixará na nossa saúde.

Seria, sem dúvida, uma altura ideal para repensar a economia que temos e a que queremos ter.



Mas numa sociedade onde falar de política é mal visto e/ou liberta os sentimentos mais básicos das pessoas, e onde as economias possíveis são, na cabeça das pessoas, ou aquilo que temos, ou uma ditadura com filas para adquirir manteiga, eu sinceramente não estou muito optimista.

Enfim... haja saúde!

sábado, 29 de fevereiro de 2020

O capitalismo, os pássaros e o novo aeroporto de Lisboa...


Desde há já muitos anos que se fala da eventual necessidade e possibilidade de construir um novo aeroporto que sirva a região da Grande Lisboa.

(É interessante esta coisa de uma infraestrutura "servir" uma região!... Eu julgava que os serviços eram prestados às pessoas... mas parece que os aeroportos não servem tanto as pessoas que moram nos respectivos concelhos, quanto servem os passageiros aéreos que os utilizam. Portanto diz-se que o aeroporto "serve" a região... fazendo uma equivalência implícita entre servir passageiros aéreos e servir todas as pessoas que vivem numa região. Mas será essa equivalência válida?...)

Ainda pequeno achava assustador os aviões aterrarem em Lisboa praticamente por entre os prédios, quase numa continuação do Campo Grande! Anos mais tarde, lembro-me de ouvir o Miguel Sousa Tavares, que apesar de todas as parvalheiras, ainda tem a qualidade de produzir e revelar pensamentos autónomos, a dizer que era uma grande vantagem poder ter um aeroporto quase à porta de casa. Eu sempre pensei que ele não devia morar assim tão perto do aeroporto, caso contrário não lhe iria achar muita graça... É que os pássaros podem ser estúpidos ou não, mas as pessoas têm obrigação de não o ser, e mesmo assim não fogem das imediações dos aeroportos, mesmo quando isso lhes dá direito a pequenos tremores de terra periódicos, distúrbios de sono, alterações de humor, perda de sensibilidade auditiva ou maior exposição a partículas em suspensão. Não fogem, porque não podem!... Certamente o Miguel Sousa Tavares não fugiu, porque não teve necessidade, porque se morasse lá perto, teria fugido.

Depois falou-se na Ota, de cuja existência eu passei a saber, apesar de só mais tarde, ao circular na A1, ter ficado a saber onde ficava... Falou-se na margem sul... Falou-se de muita coisa. Os anos foram passando, e o aeroporto de Lisboa foi ficando mais congestionado. Fizeram-se obrinhas e obronas no aeroporto existente, que a seu ritmo se foi transformando num centro comercial de passagem obrigatória entre a praça de táxis e o parque de estacionamento dos aviões.

Agora veio a taradice do turismo. O número de turistas em Portugal praticamente duplicou nos últimos 6 anos, tal como o número de passageiros aéreos que utilizaram os aeroportos de Lisboa ou do Porto. Actualmente, o aeroporto de Lisboa é utilizado por mais de 30 milhões de passageiros por ano.

Claramente, podemos afirmar com segurança, é chegada a hora de investir num novo aeroporto!

Ou será?...

Uma das características do capitalismo é que não conhece limites. Não conhecer limites é uma consequência, mas também uma necessidade intrínseca do capitalismo. É uma consequência, porque o modus operandi do capitalismo é o de transformar todas as adversidades em oportunidades para fazer negócio. E é uma necessidade, porque no momento em que algo, seja um recurso, seja a procura num mercado, seja um preço, seja o que for, no momento em que esse algo atinge um limite, todas as "regras" de funcionamento do capitalismo, tal como o conhecemos, começam a desabar.

Vejamos a coisa em prática no caso do aeroporto de Lisboa: há uma procura crescente, há a possibilidade de aumentar a oferta para satisfazer a procura, isso significa mais negócio... então bora lá!

Mas...
1ª questão: será que não existem mesmo limites?

Esta questão é mais difícil de responder do que possa parecer. À partida, creio que qualquer pessoa reconhecerá que devem existir limites para tudo, mesmo que não saibamos bem onde estão. Por exemplo: o céu de Lisboa não poderá suportar mais do que um número X de aviões a voar em simultâneo. Ou as ruas de Lisboa não poderão suportar mais do que Y turistas a passear ao mesmo tempo nelas.

No entanto, o capitalismo é a melhor máquina que existe a transformar essas dificuldades em oportunidades de negócio e a afastar os limites para cada vez mais longe. Se os céus de Lisboa não comportam mais do que X aviões, os aviões poderão aterrar em aeroportos mais distantes, criando-se as condições para que os passageiros se desloquem até Lisboa de outro modo. Se as ruas de Lisboa não suportam mais do que Y pessoas em simultâneo, fazem-se ruas com dois pisos e estende-se a cidade de Lisboa. Tudo é possível!...

Poderão existir impactos que serão mais difíceis de contornar, limites mais difíceis de obviar. Pensemos, por exemplo, no abastecimento de água à cidade. Será mais difícil contornar esse limite... Mas talvez uma ou outra obra de engenharia, e talvez um pouco de racionamento ou subida dos preços... alguma coisa há-de se inventar para ultrapassar isso.

E os pássaros?


Os pássaros são espertos, disse algum político há pouco tempo, e portanto saberão adaptar-se à construção no seu habitat de mais um aeroporto. Bom, para aferir a veracidade de tal afirmação seria necessário definir com algum rigor o que se entende por esperteza. Em boa verdade, os pássaros não são conhecidos por saberem muita matemática. Mas apesar disso eu tenho a certeza que se irão adaptar, porque se o aeroporto for construído no seu habitat, não lhes restará outra alternativa.

O que é que significa adaptar?... Os pássaros certamente serão perturbados. Grandes extensões de terreno serão desmatadas e desflorestadas, destruíndo qualquer possibilidade de aí os pássaros poderem alimentar-se, construir os seus ninhos ou simplesmente viver. Uma extensa área será asfaltada. Isso, juntamente com a desflorestação poderá afectar a humidade e a temperatura locais. Talvez os pássaros convivam bem com isso... talvez alguns insectos que lhe sirvam de alimento já não... Haverá um tráfego constante de aviões que constituirão ameaças de morte para pássaros voando perto. Os que não se afastarem por algum motivo, serão objecto de uma experiência de selecção, neste caso pouco natural. Haverá intenso ruído... talvez isso afecte qualquer coisinha a capacidade de os pássaros comunicarem entre si ou com o meio (serão igualmente capazes de ouvir os seus predadores?).

Enfim, não sou ornitólogo... embora certamente não seja estúpido... e sei que adaptação, neste caso, significará simplesmente: alguns irão para outras paragens, outros morrerão, e tarde ou cedo a área ficará propícia para as aeronaves, brinquedinhos do ser humano.

Mas, se quisermos que as aves lá permaneçam, então isso poderá constituir um limite, um limite à expansão da actividade económica, um limite à construção de aeroportos e atracção de turistas e "entreprenôres"?

Não faz mal. O senhor entreprenôr irá pegar num casalinho de cada cor e construir uma espécie de arca de Noé ornitológica que colocará mesmo à porta do aeroporto para que os turistas possam visitar e conhecer a magnífica fauna voadora do lindíssimo "PortugAll". Tudo por apenas uns trocos.

A questão sobre os limites não se deveria nunca colocar em termos da possibilidade física da coisa. Os limites não deveriam ser entendidos como aquilo que ainda é possível, ou que já não é possível fazer, mas sim como aquilo que nós queremos, ou não queremos, que seja feito. O que nos leva à segunda questão.

2ª questão: será que é isso que nós queremos?

O que é que nós queremos, afinal? Se a população mundial continuar a crescer, se o seu rendimento disponível continuar a subir, se o seu tédio continuar a aumentar, se a febre pelas viagens continuar a transformá-las no objectivo supremo da existência de cada vez mais seres... é automático concluir que o número de potenciais visitantes às nossas cidades continuará a aumentar e fortemente. Mas é mesmo isso que nós queremos?

Neste momento eu moro em Angra do Heroísmo. É uma cidade pequenita, numa ilha pequenita, no meio do oceano. O número de turistas que visitam esta cidade é uma fracção muito pequena daqueles que visitam Lisboa. Mas já é o suficiente para me dificultar a vida quando saio à procura de um restaurante para almoçar num dos meses de Verão! Ao ponto de chegar a suspirar de alívio quando o Verão termina!

Talvez em Lisboa as pessoas já estejam mais fartas dos turistas do que eu aqui na cidade onde moro. Não sei. Talvez elas não queiram, verdadeiramente, encher a cidade com ainda mais turistas. Talvez, vistas as coisas por esse prisma, elas não estejam assim tão interessadas na aplicação de dinheiros (públicos ou privados) na construção de mais um aeroporto.


O problema é que o capitalismo coloca as coisas sob um outro prisma: o do dinheiro. O prisma do dinheiro e da ausência de tomadas de posição conjunta sobre problemas de conjunto.

Talvez algumas pessoas não estejam interessadas em ter tantos turistas à porta de casa, mas no dinheiro todos estão sempre muito interessados. E os turistas trazem dinheiro, claro. Os turistas são dinheiro!

Se os lisboetas pudessem reunir-se todos e decidir em conjunto o que fazer com os turistas que os visitam e o dinheiro que trazem... talvez também conseguissem chegar a acordo acerca de um qualquer limite para o seu número.

No mundo petrolífero, organizações como a OPEP (organização de países exportadores de petróleo) agregam os interesses da oferta. No nosso mundo, há uns anos atrás, cooperativas de consumidores agregavam os interesses da procura. Mas no mundo do capitalismo neo-liberal as agregações são mal vistas. Bom... oficialmente são mal vistas, embora existam na realidade por todos os lados, mesmo que invisivelmente para os olhos destreinados.


Uma concertação de lisboetas a impor um limite ao número de turistas que podem visitar a cidade de Lisboa seria algo muito diferente daquilo a que o nosso sistema económico nos tem habituado!... Sobretudo porque implicaria que o conjunto dos lisboetas também teria de chegar a um acordo acerca da repartição do dinheiro que esses turistas trariam.

Esta ideia da concertação pode parecer abstrusa, e no entanto talvez apenas ela permita ir um pouco mais de encontro às reais vontades dos lisboetas.

Os representantes dos lisboetas e dos seus vizinhos dos concelhos limítrofes, por eles eleitos, deviam poder representar eficazmente os seus interesses. No entanto, se um grupo de lisboetas disser "queremos mais dinheiro, logo queremos mais turistas" e outro grupo disser "não queremos mais turistas, mesmo perdendo dinheiro", adivinhem lá que grupo é que os tais "representantes" irão apoiar!

Enfim... questões de representatividade, democracia e colectivismo à parte, a verdade é que é possível desejar um futuro diferente. Um novo aeroporto não é um ditame de deus! Nem os turistas ou outros passageiros aéreos mandam mais que os residentes das áreas "servidas". Tudo depende, ou devia depender, daquilo que estes últimos verdadeiramente querem.

Mas, o que acontecerá então se não houver um segundo aeroporto?

Resposta: o capitalismo toma conta da ocorrência.

Se a oferta não aumentar e a procura continuar a aumentar, eventualmente os preços irão aumentar. O mesmo que tem acontecido com os preços das casas... estão a ver o filme?...

E qual é o problema disso?... Segundo os teóricos que suportam o nosso sistema económico lindinho, não há problema nenhum. Leis da oferta e da procura, mercados livres, preços que flutuam, pessoas que só compram o que querem quando querem, pessoas que só vendem o que querem quando querem...


Um dos muitos problemas que este sistema económico tem é que despreza as pessoas. Valoriza muito o dinheiro que elas têm, isso sim. Mas se elas não tiverem dinheiro, então serem pessoas ou serem penedos tanto faz.

Creio que já contei esta história noutras ocasiões, mas vem novamente a propósito. Quando fazia parte da "comissão de finalistas" do curso de economia que frequentei, gerou-se a questão de saber qual seria o preço alvo para a viagem de finalistas que iríamos encomendar. A comissão de finalistas tinha à sua guarda uma pequena maquia que tinha sido acumulada ao longo dos cinco anos do curso, à custa de contribuições de todos os nossos colegas. Essa maquia seria então descontada ao preço das viagens, de modo a tornar as viagens mais acessíveis. Ainda assim, conscientes de que nem todos os colegas tinham a mesma capacidade económico-financeira, ou seja, que nem todos os pais dos colegas tinham o mesmo dinheiro, alguns membros da dita comissão, e eu também, resolvemos questionar os nossos colegas sobre o montante máximo que estariam dispostos a pagar. Com os resultados das respostas construímos um histograma que tinha a forma expectável de um sino. Apontamos então para um valor à esquerda, antes da respectiva cauda, isto é, um valor que a grande maioria dos colegas pudesse suportar. Qual não foi então o nosso espanto quando a maioria dos membros da "comissão de finalistas" rejeitou a nossa proposta e acabou por aprovar um valor para a viagem de finalistas que apenas uns 25% dos colegas conseguiam suportar. Toda a maquia reunida por todos os colegas ao longo de cinco anos serviu então para abater ao preço das viagens dos colegas mais endinheirados. O argumento esgrimido por quem aprovou tal alarvidade foi então "não podemos restringir a liberdade daqueles que podem e querem pagar mais". Eu não tive dúvida alguma que estávamos perante brilhantes economistas!

É assim... Para a economia e os economistas, o que conta é o dinheiro, e a voz das pessoas é tanto mais audível quanto mais dinheiro transportar.

Portanto, voltando aos aeroportos, o que acontecerá no caso de não se construir um novo aeroporto é que os preços das viagens irão aumentar. Tal como os preços das casas já aumentaram, dizia. Só que, não havendo concertação de interesses entre todos os implicados, isto é, todos os habitantes da Grande Lisboa, uns irão beneficiar mais com isso do que outros, e alguns irão ficar impedidos de viajar.

O que também não terá grandes repercussões, porque por essa altura esses já terão sido expulsos da Grande Lisboa.

Viva o capitalismo! Viva!

Vivam os pássaros inteligentes!

Vivam os grandes pássaros metálicos!

Amen.

 
 

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Os pais no Natal...



No Natal os pais fazem questão de transmitir aos seus filhos a ideia do Pai Natal. É uma ideia rebuscada. O Pai Natal é um personagem que vive na imaginação colectiva de milhões de pais, mas que estes têm dificuldade em situar de modo concreto. Falta uma bíblia que unifique, ou um sistema de certificação ISO9000 que standardize para todos a história do Pai Natal.

De facto, apesar dos pais acarinharem muito esta ideia, eles não são capazes de dizer, senão para eles próprios pelo menos de forma coerente no seu colectivo, de onde é que ele vem, onde mora, quem são os seus pais, que idade tem, o que é que representa, como é que actua... As poucas características unificadoras nesta história são algo como: é um ser que só existe no Natal, já que durante o resto do ano ninguém se lembra da sua existência, é velho, é homem, tem barba branca, não é magro, vem de um local qualquer frio e mais perto do Árctico e distribui presentes. É basicamente isto. E é melhor não entrar em detalhes sobre a sua função de distribuição de presentes, a única função partilhada neste imaginário colectivo, porque senão a coisa descamba: quantos presentes distribui, se é só para as crianças ou para toda a gente, onde é que vai buscar os presentes, onde é que os entrega... tudo temas de discórdia.

Apesar da ideia do Pai Natal ser assim uma coisa de contornos gelatinosos, muitos pais esforçam-se imenso para garantir que os seus filhos acreditem nessa ideia. Fazem então coisas que não repetem em mais ocasião alguma durante o ano: brincam com os filhos ao faz de conta, vestem roupas propositadamente idiotas, entram em casa pela janela, contam histórias...

No final, ficam fascinados com o modo como os seus filhos acreditam no Pai Natal. Ficam deliciados! Descrevem às visitas as provas que possuem dessa crença dos seus filhos, cheios de orgulho!...

E isto é tudo um pouco espantoso, quando se repara bem. Na verdade, os filhos nunca têm problema em acreditar em histórias fantásticas. Pegam num pau e de repente já é uma espada, pegam numa bola de ténis e é uma cabeça, em pedrinhas e são pães, num livro aos quadradinhos e são os animais que falam, vêm um filme e ficam logo a acreditar nalgum personagem exótico que existe sabe-se lá onde.
Ainda menos difícil é fazer os filhos acreditar em qualquer coisa que os pais lhes digam. Se os pais lhes falarem da existência do João Pestana, que vem atirar areia aos olhos das crianças quando começa a ser tarde, e elas começam então a esfregar os olhos e a bocejar, as crianças acreditam. Se lhes contarem que há por aí um Homem do Saco que pega nas meninas e meninos que andam perdidos na rua, longe dos pais, e os levam consigo dentro do saco para sei lá onde, elas acreditam.

Muito para além disso, se os pais disserem aos filhos que o mundo é plano, que Deus (qualquer que seja) existe, que o melhor clube do mundo é o Barcelona, que o melhor na vida é estar calado e continuar a trabalhar, que a felicidade é casar e ter casa e carro e filhos e um bom emprego e um bom nome, os filhos vão acreditar em tudo, sem pestanejar. Porque os filhos são assim, ingénuos, vêm ao mundo pouco apetrechados para os jogos manhosos dos adultos... E nesse sentido até é bom que os adultos os iniciem nessas andanças, se não queremos que as crianças sejam ingénuas a vida toda e continuem a acreditar em coisas que os prejudicam a vida toda.

Portanto, qual é o espanto de as crianças acreditarem no Pai Natal?... E qual é a beleza disso?... É belo que as crianças acreditem no Homem do Saco quando os adultos lhes garantem que esse personagem existe?... Então porque é que acreditar no Pai Natal é belo?... Será pelas ideias lindas que acompanham essa crença?... Quais?... Que as crianças bem comportadas recebem mais presentes que as mal comportadas?... A sério?...

Todo o fenómeno pode ser entendido se percebermos que as crianças são, em boa verdade os pais.

Fui a esse manancial de informação mal amanhada que é a Internet à procura de exemplos de textos que atribuam importância à crença no Pai Natal. Desafio-vos a fazerem o mesmo e a relerem esses textos na perspectiva de que os pais é que são as crianças. Tudo ficará mais claro, prometo!

Esbarrei logo num texto que se intitula “7 razões pelas quais acreditar no Pai Natal beneficia os seus filhos”. Vejamos então quais são essas sete razões:

  1. Boas Memórias. Acreditar no Pai Natal cria boas memórias e permite depois reviver essas boas memórias. Bom... isto é uma treta! Muitas crianças apanham um susto de morte quando vêem pela primeira vez um grande personagem barbudo e barrigudo a fazer de Pai Natal. Quem tem as boas memórias guardadas são os pais. E são eles que gostam de as reviver. E, de resto, se as boas memórias do Natal são a presença da figura do Pai Natal, isso diz alguma coisa acerca da riqueza do Natal desses pais.
  2. Imaginações mais fortes. Pois... para os pais. Os pais, coitadinhos, é que atrofiaram a máquina da imaginação, e tentam atabalhoadamente exercitá-la no Natal, inventando histórias para tentar conciliar as extremidades inconciliáveis dessa narrativa. Os filhos, por seu turno, nunca tiveram dificuldade em imaginar. Os pais é que, infelizmente (e digo isto com sentimento), nunca foram capazes de acompanhar os filhos nas suas viagens surreais.
  3. Tradição. E lá vamos nós para a treta da conversa acerca da importância das tradições... Vamos tentar sintetizar: existem ritos, actividades com regras definidas que se repetem de forma previsível no tempo e numa qualquer comunidade. Esses ritos dão às pessoas uma sensação de pertença, de sentido, blá blá blá. O que quem fala destas coisas parece esquecer sistematicamente é que ritos há muitos e para todos os gostos, que é quase impossível viver sem os ter, e que eles não são necessariamente bons ou maus em si mesmos. Dependendo no nosso juízo, alguns podem ser bons e outros maus. E, mais do que isso, um ritual que é extinto é quase sempre substituído por outro qualquer. As crianças são livros abertos. Ainda não foram iniciadas em quaisquer ritos. E portanto irão receber dos pais e da comunidade aquilo que os pais e a comunidade lhes quiserem dar. E é assim que irão criar a sua ideia própria acerca das “tradições”, que se não forem umas, serão outras. No momento em que são crianças, o Pai Natal não é para eles tradição alguma. O Pai Natal só é uma tradição para os pais.
  4. Motivação para bom comportamento. Se a motivação das crianças para se comportarem bem é poderem receber prémios no final, mal andamos em termos de formação de valores. Porque, para quem ainda não se apercebeu do efeito dos prémios, o valor que eles transmitem é de que vale tudo, desde que se consiga o prémio, e que aquilo que se faz no entretanto não tem valor em si mesmo, só o prémio tem valor em si mesmo. Neste ponto não se trata de os pais serem as crianças, trata-se de os pais serem educadores medíocres, muitas vezes exaustos de energia, de recursos e de fundamentos.
  5. Desenvolvimento de uma postura crítica. Diz-se que as crianças vão tender a testar a história, para tentar descobrir a verdade... Bom, isso em parte não é verdade, e em parte é irrelevante. As perguntas surgem naturalmente na cabeça das crianças quando partes da história parecem não encaixar com o conhecimento que elas têm da realidade. Se elas começam a imaginar o Pai Natal a voar num trenó e depois reparam que os trenós não voam... então formulam uma questão. Se os amigos da escola lhe dizem que o Pai Natal não existe, então formulam uma dúvida. Mas se não existir motivo para duvidarem, continuarão a acreditar tranquilamente durante a vida toda. Tal como os adultos acreditam que o dinheiro é o produto do seu trabalho (mesmo que neste caso os adultos tenham algumas razões para duvidar... mas os adultos são muito bons a ignorar razões). Por outro lado, é irrelevante o desenvolvimento do pensamento crítico das crianças a tentar descobrir a verdade acerca do Pai Natal, porque isso é apenas um episódio e as crianças desenvolvem efectivamente o seu pensamento crítico numa série infindável de episódios novos todos os dias. Novamente, parece-me que o que está em causa para os pais aqui é serem eles próprios a jogar o jogo do gato e do rato, o jogo de conseguir responder às dúvidas das crianças mantendo a sua crença durante o máximo tempo possível! Quase como se existisse um troféu para os pais que conseguem manter o segredo (ou a mentira) até os filhos serem adultos!
  6. Fortalecimento (ou lá como se traduz “empowerment”) das crianças. Diz-se que as crianças que entretanto percebem a treta acerca do Pai Natal passam a fazer parte da equipa dos pais, com a responsabilidade de manter o mito nos que ainda acreditam. É claro que os pais é que ficam felizes de colherem os frutos de anos e anos de tanto esforço: finalmente conseguiram criar um ser igual a eles, que irá engrossar a sua equipa!
  7. Enfatizar a alegria de dar. Bom, isto é simplesmente uma mentira e uma estupidez. Aquilo que é dado no Natal é-o independentemente da crença ou não no Pai Natal. Não conheço família alguma onde as coisas que são dadas no Natal mudem no momento em que as crianças deixam de acreditar no Pai Natal. A estupidez deste ponto é que o Pai Natal, ao centrar em si mesmo a glória da dádiva, retira essa glória a todas as pessoas que efectivamente a merecem!

Há que desculpar os pais pela sua falta de destreza a brincar com os filhos e a criar um imaginário colectivo de um mundo melhor... para não referir a sua inabilidade em lutar por isso... Mas este último ponto é aquele onde encontro mais dificuldade em desculpar a sua atitude. De facto, a magia do Natal, se existir, está no querermos bem uns aos outros, no acreditarmos na paz, está na dádiva não apenas material, mas do nosso tempo, do nosso calor, da nossa atenção (mesmo que depois haja o resto do ano...).

Tenho uma entrada no meu blogue dedicada ao disco de vinil “Os operários do Natal”. Todas as suas músicas nos contam, preto no branco, como as pessoas à nossa volta se dedicam e entregam o seu amor uns aos outros. Essa é a beleza do Natal!... E os pais, em vez de assumirem e transmitirem isso mesmo aos seus filhos, como a coisa mais bela de que somos capazes, preferem fazer de conta que não foram eles, afinal eles são os sacanas do costume, e foi tudo obra desse personagem enigmático chamado Pai Natal.

A terminar, gostaria de deixar esta questão: porque é que as crianças, depois de descobrirem que foram enganadas durante tantos anos, adoptam os mesmos comportamentos que os pais e fazem o mesmo aos seus filhos?... Soa-vos a alguma coisa?...

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terça-feira, 24 de dezembro de 2019

Merry Christmas, you suckers...


(Paddy Roberts - 1962)


(tradução em baixo)

Merry Christmas, you suckers, you miserable men.
That old festive season is with you again.
You'll be spending your money on cartloads of junk
And from here 'till New Year you'll be drunk as a skunk.

Merry Christmas, you suckers. It's perfectly clear
That you fall for it all a bit sooner each year.
If it goes on like this, you will find pretty soon
You're singing "White Christmas" as early as June.

The Christmas card racket
would cost you a packet.
Now there’s Ecards,an annual blight
The seasonal tweet
makes cards obsolete
And saves loads of cash if you’re tight.

You'll be taking the kids 'round the multiple stores
To be frightened to death by some old Santa Claus.
Then it's parties with spirits and "vino" and beer.
Merry Christmas, you suckers, and a Happy New Year!

Merry Christmas, you suckers, you bleary-eyed lot.
You'll never get rid of that headache you've got.
But I hope you'll feel splendid. you certainly should,
With your stomachs distended with turkey and "pud."

Merry Christmas, you suckers. Jump into your cars,
Roar off to your neighbors to "sink a few jars."
Though your vision is double, just keep smiling through.
There are others in trouble a lot worse than you.

Beyond any question,
Acute indigestion
Will plague you and make you unwell.
You won't take the warning.
You'll wake up each morning
Undoubtedly feeling like hell.

But, stick to it, suckers. Go swallow a pill,
For this is the season of peace and good will
While we patiently wait for that nuclear blast.
Merry Christmas, you suckers. It may be your last.



(tentativa de tradução às três pancadas)

Feliz Natal, seus idiotas, seus miseráveis.
Esta velha época festiva está novamente convosco.
Ireis gastar o vosso dinheiro em carradas de tralha
e daqui ao ano novo estareis podres de bêbedos.

Feliz Natal, seus idiotas. É perfeitamente claro
que vocês caem nessa um pouco mais cedo a cada ano
Se continuarem assim, irão descobrir em breve
que estarão a cantar "White Chirstmas" em Junho.

A negociata dos cartões de Natal
custa-te uma fortuna
Cada época parece maior
Os postais são tão giros
mas não têm nada a ver
com o assunto em questão.

Irão levar os miúdos às lojas
para se assustarem de morte por um qualquer Pai Natal
Depois há festas com vinho e licores e cervejas
Feliz Natal, seus idiotas, e um feliz ano novo!

Feliz Nata, seus idiotas, que não enxergam a ponta dum chavelho
nunca se livrarão dessa dor de cabeça
mas espero que se sintam estupendos. Sem dúvida que deveriam
com os vossos estômagos distendidos com perú e bolo rei.

Feliz Natal, seus idiotas. Saltem para os vossos carros
Acelerem até aos vossos vizinhos para afundar mais uns copos
Apesar de já verem a dobrar, continuem a sorrir
há outros em muito pior estado que vós.

Sem dúvida
indigestão aguda
irá afligir-vos e fazer-vos sentir mal
Não ouvireis o conselho
Acordareis todas as manhãs
inquestionavelmente no inferno

Mas aguentem-se, idiotas. Engulam um comprimido,
Pois esta é a época da paz e da boa vontade
Enquanto esperamos pela explosão nuclear
Feliz Natal, seus idiotas. Poderá ser o vosso último.


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Complemento: