Cuba está às escuras.
O bloqueio económico dos EUA a Cuba acaba de deixar os seus 11 milhões de habitantes sem energia eléctrica.
---
Sinto demasiadas vezes que a capacidade argumentativa de uma generosa fatia da população nunca deixou as cadeiras da escola primária. Isso acontece de diversas maneiras e uma delas é através da resposta que critica não a ideia mas a pessoa que a teve ou que a defende. Outra é através da comparação com o incomparável. E há tantas outras maneiras de argumentar falaciosamente, com ou sem consciência disso. Tudo isto já foi mais do que estudado em filosofia e noutros campos do saber, e para todas estas formas de fugir com o rabo à seringa há nomes pomposos, alguns em latim. Eu prescindo da pomposidade, porque não me parece que forrar as coisas a latim as torne mais verdadeiras e não pretendo convencer usando aquilo que estou a criticar.
Quando dizemos que a Alemanha matou judeus, não precisamos de clarificar que "a Alemanha" não passa de um conceito abstracto e que não tem consciência, porque percebemos que estamos a mencionar as instituições que governavam aquele país num determinado momento, as pessoas que ditavam as orientações dessas instituições e as pessoas que estavam às ordens dessas instituições.
Pelos mesmos motivos, quando dizemos que os EUA são responsáveis pela falta de energia eléctrica em Cuba, não estamos a querer denegrir aquele pedaço de terra do continente americano, nem os seres que lá vivem, em geral. Subentende-se da nossa frase que a crítica visa as instituições e as pessoas que implementam as orientações de política externa dos EUA e, acima de tudo, as pessoas que determinam essas orientações.
Talvez seja bom salientar que quando mencionamos as pessoas que determinam as políticas dos EUA, vem-nos talvez à ideia um senhor com ar de grande miúdo mauzão, parco cabelo louro e cara alaranjada. Todavia, não devemos ser ingénuos ao ponto de acreditar que as políticas dos EUA são determinadas por esse senhor isoladamente. Devemos, isso sim, considerar quais são os poderes que esse senhor representa, poderes esses que permitem, mesmo que não legitimem, que ele faça o que faz.
Isto pode parecer simples verborreia, mas não é. Quando há uns dias me reuni com outros manifestantes à entrada da base das Lajes para deixar claro aos órgãos da comunicação social e a quem nos quisesse ouvir que não estamos de acordo com o uso dessa base para agressões militares, praticamente não se ouviu nem se leu nos cartazes a palavra EUA, em sigla ou por extenso.
Muitos terceirenses têm desde há décadas uma relação estreita com os EUA, e os benefícios económicos da presença da base na ilha ou dos melhores salários dos emigrantes nesse país são naturalmente relevantes. Uma manifestação na conservadora ilha Terceira é por si só uma aberração. Gritar alguma coisa como "abaixo os EUA" seria um convite ao linxamento público. Por isso a nossa manifestação focou em vez disso o protesto no cara alaranjada.
Mas enfim, esse é um caso extremo. No continente português a ligação com esse país não é tão forte. Ainda assim, e mesmo aí, parece tabu criticar os EUA quanto às suas orientações políticas internas ou externas.
Já muitos estudos foram feitos acerca do modo como primeiro nós optamos e depois é que racionalmente construímos as justificações para as nossas opções. Todos nós passamos muito tempo neste jogo. Temos dissonâncias cognitivas, vêmo-nos de um modo e agimos doutro, e quando nos apercebemos disso tentamos reconstruir a nossa integridade encontrando justificações para o que fizemos.
Um destes estudos, relativamente recente, mostra-nos como este efeito existe mesmo em manifestações extremas. O estudo confrontava uma população com algumas proposições consensuais na comunidade científica (tanto quanto é possível falar de consensos nessa comunidade), como por exemplo a concentração crescente de dióxido de carbono na atmosfera estar a contribuir para um aquecimento global do planeta. A população dividia-se em pessoas que concordavam e discordavam com a proposição apresentada. Mas o mais interessante é que as opiniões das pessoas acerca desse assunto tornavam-se mais extremadas quanto mais conhecimento e aptidões gerais as pessoas tivessem. Mais: se as pessoas recebessem formação acerca do assunto, de acordo com os padrões científicos geralmente aceites, em vez das opiniões se aproximarem mais desses padrões, tornavam-se ainda mais extremadas.
Estudos deste tipo são muito importantes a revelar que, ao contrário do que muitos acreditam, não é qualquer educação, ou simplesmente um maior conhecimento, que isoladamente permite às pessoas ter maior esclarecimento. Pelo contrário, muitas pessoas utilizam essa educação e esse conhecimento para blindarem ainda mais a sua argumentação, para se arreigarem ainda mais nas suas posições, posições essas escolhidas aprioristicamente com base em critérios muito diferentes e que muitas vezes nada têm de racional.
Muitos outros estudos revelam que para os indivíduos é mais importante sentirem-se integrados na sua comunidade do que terem razão, seja lá o que isso for. As possíveis justificações para esse comportamento incluem coisas que parecem evidentes: em muitas circunstâncias a sobrevivência e a qualidade de vida dependem mais dessa integração do que propriamente da validade das crenças.
Isso era assim há milhares de anos, e talvez seja tão ou mais evidente num contexto de emigrantes portugueses nos EUA.
Infelizmente, o corolário do que acabamos de expor é que as tentativas de chamar as pessoas à razão estão quase sempre condenadas à partida. As pessoas já escolheram, por motivos que nada têm a ver com a razão, a sua versão da verdade. Depois, inclusivamente porque não gostam de se sentirem estúpidos, passam anos à procura de todo o tipo de evidências e a construir todo o tipo de conjecturas que permitam sustentar, inclusivamente de forma racional, a versão da verdade que escolheram. Sentem-se integrados e valorizados pela sua comunidade até na medida em que consigam defender esse ponto de vista que não é apenas seu. E finalmente, como acontece com todos nós, reagem fortemente a qualquer pessoa que venha pôr em causa o seu castelo de crenças, sobretudo se essa pessoa acrescentar ao seu discurso que essas posições revelam insensatez, irracionalidade, estupidez ou mesmo malvadez.
O que fazer então?
Os EUA, ou se quiserem de forma explícita, as administrações e as políticas desse país, têm desde há décadas cometido todo as mais horrendas atrocidades.
Os EUA e o genocídio dos indígenas. Os EUA e o racismo. Os EUA e os milhões de mortos na guerra no Vietnam. Os EUA e as bombas nucleares lançadas mesmo no centro de grandes cidades japonesas, obviamente pejadas de civis. Os EUA e as centenas de intervenções mais ou menos dissimuladas para retirar (um eufemismo) dirigentes noutros países e colocar lá outros do seu agrado. Os EUA e a caça às bruxas. Os EUA e a degradação ambiental do planeta. Os EUA e a propaganda, a criação de mitos, a construção de heróis e anti-heróis. Os EUA e os campos de tortura. Os EUA e o desrespeito das leis internacionais. E, enfim, uma extensíssima lista de eteceteras, que incluiría alguns volumes só para nos dedicarmos ao que se tem passado no grande e aparentemente esquecido continente africano, acima e abaixo do deserto do Saara.
Será que os apoiantes indefectíveis dos EUA não conseguem distinguir as políticas do território ou das gentes desse país? Ou será que não têm uma ponta de conhecimento de história?
Os EUA e a Venezuela. Os EUA e Cuba. Os EUA e a Palestina. Os EUA e o Irão. Os EUA e as manipulações que conduziram os governantes europeus a uma histórica sucessão de tiros no pé, que continua neste preciso instante.
Um dos argumentos para justificar o apoio aos EUA é o do mal menor. É, no fundo, um voto (in)útil: porque se não fossem os EUA, os outros ainda seriam piores. Consequentemente, alegam, não se pode ou deve criticar os EUA. Interessantes falácias argumentativas usadas sem o mínimo de pudor... e para prejuízo próprio, consciente ou inconsciente, apesar dos aumentos dos preços de combustíveis na sequência da guerra na Ucrânia e agora da guerra no Irão o tornarem evidente.
Conforme defendeu uma vez o Slavoj Zizek, a existência da URSS tem uma importância vital para o capitalismo e para os EUA. E os apoiantes dos EUA sabem disso e utilizam-no na sua retórica: se alguém critica os EUA é porque defende o contrário, o contrário dos EUA é a URSS e o "comunismo" (entendido como aquilo que se passou nesse país no tempo de Stalin), e isso é nada menos que o inferno na Terra, portanto o diálogo fica:
- Os EUA estão a cometer um genocídio em Cuba.
- Tu deves ser é um comunista cubano com saudades de gulags, ó filho da p#$a!
A estratégia argumentativa não se cinge a esses casos. Basicamente faz-se por ver o mundo a preto e branco, pinta-se um dos lados de preto, e conclui-se que não é possível defender o preto, portanto temos de optar pelo branco. Maniqueísmo?
O caso actual da guerra do Irão é paradigmático. Na reacção à manifestação na base das lajes contra o seu uso na guerra do Irão, algumas pessoas comentaram: entre os EUA e o Irão eu prefiro apoiar os EUA.
Sim, estamos de volta aos bancos da escola primária. Aliás, tal como George Bush Junior nos ensinou: ou estás comigo ou estás contra mim.
Livrem-se as pessoas de terem pensamento próprio! Ou algum laivo de emancipação que lhes permita perceber que não só não existem apenas duas vias, como qualquer via nova pode ser criada a qualquer instante conforme a vontade das pessoas. Afinal, como afirmou David Graeber, que infelizmente morreu recentemente e cedo demais, a derradeira verdade escondida do mundo é que ele é algo que nós fazemos, e que poderíamos com a mesma facilidade fazer de outro modo.
Seria bom ter pessoas mais maduras, mais racionais e mais bondosas neste planeta. E esta afirmação é tanto mais radical quanto os tempos são de obscurantismo, esoterismo, crítica da razão (mas não à moda de Kant), ignorância, infantilidade, individualismo e profundo egoísmo.
Na verdade, podemos e devemos criticar tudo o que quisermos nas políticas de todos os países, incluindo URSS e Rússia (sendo que talvez os mais distraídos não tenham reparado nas diferenças de monta nas políticas destes dois países/conceitos), EUA, China, Brasil, Índia, a autarquia de Cernancelhe de Arroios, seja lá o que for. Não existem intocáveis. Existem, isso sim, argumentações de qualidades variáveis, realidades e capacidades também variáveis de investigar essas realidades.
Mas se vamos criticar as políticas de outros países, talvez devêssemos começar por aqueles que nos são mais próximos, que influenciam mais directamente as nossas políticas, que pertencem às mesmas instituições internacionais a que nós pertencemos, que têm mais poder sobre os outros povos e, já agora, que fazem maiores asneiras.
O objectivo não deve nunca ser o de ridicularizar, menosprezar, achincalhar, agredir. Deve sempre ser o de construir um mundo melhor para todos. Isso vale para as argumentações e para as políticas.
O que temos visto ultimamente por parte dos dirigentes dos EUA é inenarrável em toda a sua extensão.
O que temos visto ultimamente de inação cúmplice por parte dos nosso conterrâneos e conterráqueos é do mais triste que há. Como muito se tem ouvido ultimamente, também eu afirmo que me sinto envergonhado de pertencer a esta (des)humanidade. Mas com maior ou menor vergonha, e enquanto conseguir, hei-de seguir fazendo o que considero mais correcto.
Como muitos antes de mim já expressaram, de Jean-Paul Sartre a Chris Hedges, eu não combato os nazis porque vou ganhar, eu combato-os porque eles são nazis. É isso que é necessário fazer.

Sem comentários:
Enviar um comentário