quinta-feira, 10 de setembro de 2026

O sicofanta, o resiliente e o pavão...

 

Sicofanta

Apareceu-me há pouco tempo num texto esta palavra rara: sicofanta. Não sabia o que era.

O dicionário diz "pessoa que acusa ou denuncia, o mesmo que acusador, delator, denunciante. pessoa que dá ou inventa informações falsas, o mesmo que caluniador, difamador, mentiroso". A palavra vem do grego antigo e significa literalmente aquele que mostra os figos. Como a palavra acabou por adquirir o significado de denunciante é controverso. Menos controverso, contudo, parece ser o processo pelo qual a palavra ganhou outro significado, o de bajulador. Aparentemente os poderosos antigos recorriam a sicofantas, denunciantes, como uma espécie de investigadores, detectives ou polícias, acusando os prevaricadores. Os poderosos perceberam então que podiam utilizar os sicofantas para denegrir o nome de quem desejassem. Simultaneamente, os sicofantas perceberam que podiam continuar a vender os seus serviços desde que agradassem ao senhor poderoso, independentemente das suas acusações serem verdadeiras ou não.

Conclusão: sicofanta, um denunciante, um caluniador ou um bajulador. Ora, como a língua portuguesa possui diversos sinónimos para esses termos, não admira que a palavra seja pouco utilizada.

Por que é que a palavra me apareceu à frente então?

Aparentemente a palavra sicofanta reapareceu nos últimos anos no contexto do desenvolvimento e utilização de computadores, tendo o advento da utilização massiva da Inteligência Artificial (IA) sido o maior motivador. Dado o contexto e a actualidade, não admira que esse ressurgimento tenha ocorrido sobretudo na língua inglesa. Ora, nesta língua, e ao contrário do que acontece tradicionalmente no português, o seu significado comum é o de bajulador. Os modelos utilizados pela IA são conhecidos por alterarem as suas respostas de forma a satisfazer os utilizadores, no que pode ser considerado uma bajulação, e portanto "sychophancy".

Sendo assim, e dada esta necessidade que as pessoas sentem em demonstrar que estão sempre a surfar a crista da onda vanguardista, suspeito que iremos observar ao declínio do significado de delator, para essa palavra, e à utilização preferencial para o significado de bajulador. Isto até que um dia a onda passe, todos se esqueçam do que aconteceu, mas o significado da palavra fique indelevelmente modificado.

Resiliente

Ao contrário da origem mais obscura do significado da palavra sicofanta, a palavra resiliente tem uma origem bem mais clara: vem do latim e significa literalmente voltar a sair. A palavra é originalmente empregue para caracterizar materiais que depois de se deformarem em resultado de uma pancada, regressam elasticamente à sua posição inicial.

Contactei pela primeira vez com esta palavra no contexto da ciência dos materiais. Ela era e é usada para descrever precisamente essa característica dos materiais que conseguem absorver elasticamente um impacto, regressando depois à sua forma original.

Nos anos seguintes e mais recentes, contudo, fomos invadidos com o uso da palavra resiliente em tudo o que tem a ver com psicologia, com o mundo empresarial e com a política. Na psicologia, por exemplo, o termo é utilizado para caracterizar a capacidade de um indivíduo recuperar o seu equilíbrio emocional (ou outro) depois de ter sofrido uma experiência negativa. Este significado não é exactamente o mesmo que na ciência dos materiais, uma vez que as pessoas não regressam exactamente à sua situação inicial depois da tal experiência negativa. Noutros contextos, a palavra resiliente acaba por ser um pouco um eufemismo, uma vez que significa a capacidade das pessoas, ou das empresas, ou da economia, levarem pancadaria, e mesmo assim seguirem em frente com as suas vidas.

Não sei se existem sinónimos alternativos e melhores da palavra resiliente em cada um destes contextos. Sei é que está bem documentada a tendência das ciências sociais (e afins, incluindo as pseudociências) de recrutarem termos técnicos da área das ciências exactas (seja lá o que isso for), de forma a imprimir um carácter aparentemente mais rigoroso e confiável ao seu discurso (ver, por exemplo, "Imposturas intelectuais" de Alan Sokal).

O elemento em comum

O que estes neologismos, renascimentos, ressignificações, apropriações e também invenções têm muitas vezes em comum é uma tentativa de tornar o discurso mais credível através da sua forma e não do seu conteúdo. Deste ponto de vista, são uma farsa.

Não sou especialista em semiótica, mas sei que as palavras são símbolos e como tal cumprem diversas funções. Uma delas é precisamente a de tornar possível a linguagem e a comunicação: se de cada vez que eu quiser transmitir a outra pessoa que o pão está duro, não puder utilizar a palavra pão, porque ela simplesmente não existe, a comunicação será mais difícil. Isso funciona para simples objectos, mas também funciona para entidades mais complexas, como por exemplo para movimentos sociais. As palavras têm aí também a função de dar existência às coisas: a partir do momento em que inventamos o termo "feminismo", esse conjunto de preocupações e atitudes, esse posicionamento político, esse movimento social, passou a ser uma coisa com real existência. Sei, para além disso, que as palavras possuem também conotações e contextos onde são maioritariamente empregues, pelo que o uso de termos sinónimos, mas diferentes, pode conduzir o interlocutor num ou noutro caminho.

Tomemos por exemplo estes dois parágrafos:

Pá, o gajo é um mega bajulador e passa a vida a dar graxa ao chefe só para ver se consegue subir na empresa e lixar os outros. Mas o pior é que a malta agora percebeu que a IA da firma faz igualzinho: o bicho finge que concorda com tudo o que a gente diz só para nos lamber as botas e nos deixar contentes, em vez de mandar a verdade nua e crua.

O indivíduo manifesta uma conduta marcadamente sicofântica, instrumentalizando a adulação sistemática perante a liderança autocrática como vetor de ascensão socioprofissional e sabotagem interpares. Concomitantemente, observou-se uma homologia comportamental no sistema conversacional automatizado corporativo, cujo fenómeno de sicofantismo algorítmico enviesa as respostas em direção à validação heurística do utilizador, preterindo a fidedignidade factual em prol da condescendência relacional.


Quando digo que a escolha das palavras ajuda a conduzir o interlocutor num ou noutro caminho, refiro-me também àquilo que todos fazemos consciente ou inconscientemente, que é avaliar a qualidade do discurso e de quem o profere e/ou é seu autor, atribuindo ao mesmo tempo maior ou menor credibilidade ao seu conteúdo.

O elemento comum no uso da palavra resiliente no contexto das ciências sociais ou do uso da palavra sicofanta, é que simultaneamente torna o discurso mais opaco, hermético, eventualmente até inalcançável, não acrescenta nada ao seu conteúdo, mas cria no receptor a percepção de que ele é mais válido, mais rigoroso, mais credível, estendendo-se esta percepção a quem o profere.

Temos então um público que consciente ou inconscientemente está pronto a avaliar o conteúdo de um discurso em função do palavreado que ele utiliza, e não só isso, mas que acredita que quanto mais complexo e ininteligível ele é, mais verdadeiro é; e temos ao mesmo tempo um conjunto de oradores que sabem que o seu público é assim, e portanto abusam de termos sofisticados com a intenção de parecerem ser mais conhecedores, sérios, rigorosos e credíveis que todos os outros.

A mim cansa-me isto tudo.

Lembro-me de Feynman que dizia que só conseguimos explicar aos outros uma coisa de forma que eles compreendam, quando nós próprios a compreendemos bem. A verdadeira compreensão, defendia, está na capacidade de tornar o complexo em simples. Isto é o que deviam fazer todos os oradores ou escritores que verdadeiramente estão interessados em passar uma mensagem a um público. Isto é o que deviam fazer todos os públicos que verdadeiramente estão interessados em compreender um qualquer assunto. Mas não é nada disto que acontece. Isto cansa-me, claro, porque estou a tentar ver coisas onde elas não existem. O que existe, na verdade, é um conjunto de pessoas que utilizam as palavras para se mostrarem aos outros, como os pavões utilizam as suas penas, e outro conjunto de pessoas que utilizam as palavras para escolher de quem se irão tornar seguidores e quem serão os seus companheiros de grupo. Nada disto tem a ver com tentativas de compreensão de seja o que for.