quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Alexandre e os seus amigos do deserto...

Uma história que me chegou através do "clube de contadores de histórias", que regularmente envia por email pequenas histórias. Esta é muito simples, mas não resisto a pô-la aqui. De facto, a combinação do Alexandre, da casa de adobe, do gosto pelos bichos e pelos outros e da turbina eólica é uma coincidência surpreendente! :)

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Alexandre vivia numa casinha de adobe à beira da estrada perdida no meio do deserto. Ao lado, havia um poço e uma hélice movida a vento. Alexandre e o seu único companheiro, um burrico, dispunham assim de toda a água de que precisavam. Naquele lugar afastado do mundo, Alexandre acolhia de boa vontade quem ali parasse para se refrescar. Mas os visitantes eram raros e iam-se logo embora.
Alexandre sentia-se muito só. Para ocupar os momentos de solidão, decidiu fazer um jardim. Semeou cenouras, feijões e grandes cebolas roxas, tomates e milho, melões, abóboras e pimentos vermelhos. Logo de manhã cedo e durante horas, Alexandre trabalhava no seu jardim. Gostava sobretudo de o ver crescer, antes do calor do deserto apertar e o obrigar a refugiar-se em casa.
Os dias passavam lentamente, sem qualquer novidade, até que uma bela manhã foi surpreendido pela chegada de um visitante. Um esquilo surgiu do silêncio e avançou, lentamente, pé ante pé. Ao vê-lo aproximar-se do jardim, Alex ficou imóvel. O esquilo escapou-se para um rego onde matou a sede e depois desapareceu. Nesse instante, Alexandre deu-se conta de que tinha esquecido a sua solidão, e passou a ficar à espera que o esquilo regressasse.
O esquilo voltou muitas mais vezes e sempre com novos companheiros: ratos de pescoço branco, os geomis da montanha, grandes lebres, ratos cangurus do Texas e ratinhos de bolsa de Bailey. Também vieram muitos pássaros visitar o jardim de Alex: os cucos corredores da Califórnia, os picanços de Gila e os tordos dos remedos de bico curvo. Os trogloditas de cabeça castanha, os pardais de artemísia, de olhos orlados de branco, as pombas da Carolina e ainda muitos mais, que pousavam nos ramos da alfarrobeira, ou descansavam nos catos sanguaro, antes de saciaram rapidamente a sua sede, ao cair da noite. Por vezes, até uma velha tartaruga atravessava lentamente o jardim.
Alex sentia que, assim, o tempo passava mais depressa, porque a cada instante se distraía com um novo visitante. Já não estava só, mas interrogava-se se isso seria de facto o mais importante.
Depressa percebeu que os visitantes não vinham procurar um amigo, mas vinham simplesmente à procura de água. E Alex pensou em todos os outros animais do deserto… o coiote e a raposa cinzenta, os linces ruivos, as mofetas, os texugos, os pecaris (os porcos monteses da América do Sul), os veados, a corça e os cabritos monteses. Encontrar água para todos não era problema. Com o dínamo e o poço, Alex podia fornecer muita água. Mas tinha de descobrir um meio de todos poderem usufruir dela.
Alex resolveu fazer um reservatório. Sem perder tempo, começou a escavar. Foi uma tarefa cansativa, que durou vários dias, sob um sol escaldante. Mas encheu-se de coragem ao pensar que podia ajudar tantos hóspedes sequiosos. Restava agora esperar pela chegada dos animais corpulentos. Alex andava de um lado para o outro, como era costume, dava de comer ao burrico, tratava do jardim… Os dias passavam e nada de novo acontecia. Alex tinha esperança, mas passavam semanas e semanas e tudo continuava calmo. Porque é que os animais não vinham? Alguma coisa devia estar errada!
Depressa se desvendou o mistério. Uma manhã, uma mofeta aventurou-se a chegar perto da poça de água. Mas, mal viu Alex, fugiu para o silvado. Como é que ele não tinha pensado nisso? Era preciso mudar a poça de água de lugar o mais depressa possível. Alex começou a cavar num lugar mais afastado, escondido atrás de um silvado. Acabada a obra, escondeu-se ali perto e esperou. Será que viriam? E desta vez não ficou desiludido!
Uns atrás dos outros, tímida e furtivamente, os animais saíram do deserto. Como a nova poça ficava um pouco afastada da casa e da estrada, os animais não tinham medo. Alex tinha muitas provas disso: a chilreada dos pássaros ao cair da tarde, o sussurro da alfarrobeira na calada da noite, traindo a presença de um coiote, de um texugo ou talvez de uma raposa cinzenta, o passo leve de um veado, os grunhidos dos pecaris.
E, durante as horas passadas a ouvir calmamente todos os ruídos dos seus novos companheiros, Alex pensou que era essa a sua melhor recompensa… O presente que lhes oferecera, a poça de água, nada era, comparado com o que ele recebera em troca: a presença cúmplice e amiga dos animais.
Richard E. Albert
Alexandro et ses amis du désert
Paris, Éditions Autrement, 1997

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Um capitalista se confessa...

Mas só um bocadinho!... Neste vídeo poderão ver um homem a dizer meia dúzia de coisas que são banalidades. Mas o que torna isto muitíssimo interessante é que as banalidades que são ditas são-no em potencial prejuízo próprio (um capitalista a dizer mal dos benefícios que lhe são concedidos?...) e são contrárias à crença da maioria das pessoas.

Como é possível que a maioria das pessoas acredite em coisas que são mentiras evidentes?... Vejam por exemplo aqui mesmo ou estas obras do Vicente Romano que podem adquirir ou procurar numa biblioteca.



Adiante vou comentar o que foi dito.

O que ele diz:
- A ideia de que aumentar os impostos sobre os ricos faz diminuir a criação de empregos é uma fé.

O que eu digo:
- Sim.

O que ele diz:
- Os ricos não criam empregos. O aumento do consumo é que obriga o capitalista a aumentar a produção e para isso, e apenas em último recurso, ele tem de aumentar o número de empregados.

O que eu digo:
- Sim. Evidentemente. Porque raio é que algum empresário haveria de contratar quem quer que fosse se não fosse a única maneira de ele conseguir fazer dinheiro? Obviamente contratar pessoas é uma chatice!... Quem são os ingénuos que acreditam que há almas boas a criar empregos que até nem seriam necessários, mas que o fazem para distribuir a riqueza?... Assim que as máquinas puderem substituir o trabalho humano de forma rentável, vereis como os capitalistas têm bom coração!...

O que ele diz:
- Os impostos sobre os ricos são diminuídos para que a criação de empregos aumente, mas na realidade o único resultado visível é uma diminuição dos empregos e o aumento da fortuna dos ricos.

O que eu digo:
- Sim.

O que ele diz:
- Os ricos não conseguem mobilizar grandes economias.

O que eu digo:
- Pois... Mas aí é que a porca torce o rabo, e de que maneira!... A lógica dele é a seguinte: os ricos não consomem proporcionalmente ao seu rendimento. Portanto, se queremos aumentar o consumo, os ricos sozinhos não vão originar um grande impacto, em vez disso é necessário aumentar o consumo de toda a classe média.
- Tudo bem. No entanto, digo eu, isso é na perspectiva de que o aumento do consumo é bom e necessário. Essa é a lógica de toda a economia do crescimento. Relacionem com a "seta dourada" deste vídeo e com a ideia de que o capitalismo não pode "aceitar limites" ("abide any limits") deste vídeo.
- Mais tarde ou mais cedo é necessário que comecemos a compreender que o aumento do consumo nem é bom nem é necessário.

O que ele diz:
- Os salários nominais estagnaram. Mas se tivessem acompanhado o crescimento económico, desde os anos 80, deveriam hoje ser o dobro.

O que eu digo:
- Todas as pessoas que como eu começaram a trabalhar nos finais dos anos 90 a ganhar 1000 euros e hoje estão a ganhar os mesmos 1000 euros já deviam ter percebido isso! A cada ano que passa os preços sobem, tudo sobe, o produto sobe, e os salários ficam na mesma.
- A teoria económica mais em voga (com a qual eu discordo radicalmente em muitos aspectos) afirma que os salários podem crescer ao mesmo ritmo que a produtividade. Isso parece pomposo, mas é mais uma banalidade: significa o mesmo que dizer que se um trabalhador passa a produzir o dobro, então pode receber o dobro. Mas a teoria parece estranhamente esquecer o mundo real. No mundo real foi-nos vendida mais uma fé, a de que a criação de emprego precisa de flexibilização de emprego. Ou seja, que é necessário poder despedir facilmente para que os empregos sejam criados. Mas num ambiente onde há desemprego e é possível fazer gato-sapato com os trabalhadores, os salários não crescem. Podem crescer, mas não crescem. Como é evidente!

O que ele diz:
- Os ricos são adorados enquanto criadores de emprego. E de criadores de emprego a criadores, semi-deuses, é um pequeno passo.

O que eu digo:
- Sim. Toda a gente se lembra do badameco que mandou fazer isto e aquilo e do Dom Afonso Henriques e sei lá que mais, mas ninguém se lembra dos que verdadeiramente fizeram as coisas. Acerca disto, este poema do Brecht dito por Mário Viegas.

O que ele diz:
- Os rendimentos do capital são tributados a 15% e os rendimentos do trabalho a 30%. É difícil de justificar isto.

O que eu digo:
- Pois é! O roubo dos rendimentos do capital é o roubo mais evidente do capitalismo. O capitalista rouba o rendimento do capital (rendas, juros ou lucros) que na verdade deveria ser do trabalhador, simplesmente porque o trabalhador trabalha e o capitalista não. Mas depois vem o Estado, defensor dos interesses de... quem será?..., e cobra mais imposto nos rendimentos do trabalho que nos outros. E as pessoas aceitam isto de bom grado. Genial! :)

O que ele diz:
- Taxar os ricos é o melhor que se pode fazer para os pobres, para a classe média e para os próprios ricos.

O que eu digo:
- Sim, se acreditarmos na economia liberal, deve ser. Isso será sempre muito mau para o planeta, e isso mais tarde ou mais cedo será muito mau para os pobres, a classe média e os ricos. Mas a questão é que entretanto, daqui para lá, irá sempre basear-se na lógica do maior poder a quem tem mais dinheiro. E mais dinheiro a quem já tem mais dinheiro. E "queres? paga". E uma data de outras barbaridades deste sistema...

O que ele não disse mas digo eu:

O IVA é um imposto injusto precisamente pelo que ele diz no vídeo. Se uma família normal tem 2 carros e uma família de ricos, que ganha como ele diz 100 ou 1000 vezes mais, tem 3 carros, então a proporção do montante pago em imposto é muito mais pequena nos ricos que na família normal.

No entanto, o que se tem observado na nossa economia e nas outras todas que seguem a par, é um aumento do IVA, em simultâneo com uma diminuição da taxação das empresas, dos bancos, dos capitais...

Finalmente uma última coisa que ele não disse mas que eu digo: ele quer lá saber das outras pessoas!

Ele disse o que disse porque, estranhamente, e ao contrário do que acontece com a maioria dos capitalistas, a consciência lá lhe deve ter pesado... Ou então percebeu que os seus negócios estão mesmo a ficar em risco com a quebra do consumo da classe média... Mas dê por onde der uma coisa é certa: ele está-se marimbando para a situação dos outros.

Não é possível ser simultaneamente rico e estar muito preocupado com os outros. Por um lado, o processo de acumulação de riqueza implica sempre um roubo, porque se baseia sempre em rendimentos de capitais ou em salários completamente inalcançáveis por qualquer comum mortal. Por outro lado, para alguém que se preocupa com os outros, há sempre mil e uma maneiras de aplicar o dinheiro.

Enfim, que nos sirva para abrir os olhos...

Placebo...




Da Wikipedia:

Placebo (do latim placere, significando "agradarei") é como se denomina um fármaco ou procedimento inerte, e que apresenta efeitos terapêuticos devido aos efeitos fisiológicos da crença do paciente de que está a ser tratado.

Lonmin, a exploração e o modo pouco inocente como as notícias são transmitidas...

Confrontos entre a polícia e grevistas de uma mina de platina na África do Sul conduziram à morte de 40 pessoas. A luta entre polícias armados de metralhadoras e grevistas armados com paus e catanas levou à morte de 30 grevistas apenas no dia de ontem. Das outras 10 vítimas mortais, dois foram polícias.

(imagem retirada daqui)

Vejamos quais são as causas dos confrontos. Segundo a BBC, prestigiada empresa noticiosa e de grande visibilidade internacional:

"The Lonmin-owned platinum mine has been at the centre of a violent pay dispute, exacerbated by tensions between two rival trade unions."

Portanto, ficamos a saber que a causa dos confrontos é uma rivalidade entre sindicatos. É esta a versão que passou, certamente via grandes agências noticiosas como a Reuters, para os media portugueses, que dão a mesma explicação. Mas será?...

Podem ler a notícia da BBC aqui. Verão como durante toda a notícia se fala dos sindicatos e da polícia, da polícia e dos sindicatos, que é a ideia que fica na cabeça das pessoas, e só aqui e ali são-nos dadas algumas pistas sobre o que se passará de facto.

Segundo a versão da polícia, que foi enviada para acabar com a manifestação (acabar com a manifestação?... porquê?... por quem?... como?...), foi uma actuação em auto-defesa. É claro que quando existe um grupo de pessoas a manifestar-se numa colina e a polícia vai lá para acabar com aquilo, está a agir em auto-defesa. Porque a coitada da polícia nem tem para onde fugir!... Enfim... Segundo um deles:

"What should police do in such situations when clearly what they are faced with are armed and hardcore criminals who murder police?"

Cá está. Eu explico melhor.

Os trabalhadores da empresa Lonmin passavam os dias calmamente a trabalhar. Mas, como são assassinos, isso não os satisfazia. Resolveram então armar um estardalhaço para ver se conseguiam satisfazer os seus instintos assassinos. Para isso dividiram-se em duas facções, fizeram greve, foram buscar armamento pesado e começaram e ameaçar toda a gente à sua volta. Quando veio a polícia os trabalhadores-assassinos correram para os matar.

Será mesmo?...

Porque é que as pessoas fazem greve?... Porque é que estes trabalhadores fizeram greve?... Porque é que nas notícias isso não é dito a não ser muitíssimo de raspão?...

Um passo mais adiante. Vemos que a única menção da BBC à verdadeira causa da greve é o protesto pelo aumento dos salários. É dito que os trabalhadores reclamam por um salário de mais de 1000 USD (dólares dos EUA).

A empresa Lonmin é uma empresa mineira criada no início do século XX e sediada em Londres. Claramente é uma, de tantas outras, que pertencem a ricos de países ricos e que existem para sugar os materiais dos pobres dos países pobres. Os portugueses também foram bons nisso durante uns tempos...

Os salários dos directores ou executivos ou presidentes ou seja lá o nome que têm ascenderam a mais de 100 mil euros por mês. Os salários dos trabalhadores que esburacam a rocha e arriscam a vida são de 390 euros mensais.

A empresa emitiu um comunicado onde se lê que o presidente da empresa afirmou:

"We are treating the developments around police operations this afternoon with the utmost seriousness. The South African Police Service (SAPS) have been in charge of public order and safety on the ground since the violence between competing labour factions erupted over the weekend, claiming the lives of eight of our employees and two police officers. It goes without saying that we deeply regret the further loss of life in what is clearly a public order rather than labour relations associated matter."

Lá está a versão da BBC sobre os trabalhadores-assassinos e da polícia às ordens de Deus!...

Ao longo da história, os confrontos entre os trabalhadores que estão mal e querem lutar contra isso e os trabalhadores que estão mal mas querem chupar cus sempre aconteceram. Lá em cima, do escritório do presidente, é divertido ver como cá em baixo os pobrezinhos lutam entre si... Dividir para reinar, já tem barbas.

Entretanto nós consumimos notícias destas e produtos com platina impávidos e serenos... pagando e rindo. É o mundo a andar à roda.

Aconselho vivamente a leitura destas duas páginas a quem quiser compreender melhor isto e o mundo em que vivemos:

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Chupar culos e outras coisas...

 Pedro Ruiz, entrevistado por...
Jesus Quintero.

Aqui - ver até aos 28 minutos e 40 segundos.

Isto foi-me mostrado há meses pelo João Reis. Entre outras coisas interessantes, diz-se o seguinte:

- Y porque somos tan hipócritas?
- Porque conviene. Porque es rentable. Y porque lo que no es hipócrita se queda en la calle con unos cartones, o tiene que trabajar el triple que los demás. El que chupa culos llega arriba. El que no chupa culos se come los dos pedos: el del que va y el del que viene.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

O amor a Deus e a cultura...



Complete Causal Loop Diagram for 2 Peter 1:1-11
(retirado daqui)

Para quem é crente eu tentei escrever algo que lhe fizesse sentido. Embora o meu Deus seja diferente, creio que partilha muitas coisas com o Deus dos cristãos. Talvez dizer isto já seja uma heresia...


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Ontem, sábado, dia 11 de Agosto de 2012, à vinda da praia, passei em Colares por um espectáculo com ar muito familiar, muito caseiro, num estrado com um toldo por cima, num pequeno jardim à margem da estrada. Já era de noite. Eu estava com vontade de tirar os calções húmidos, tomar banho para tirar o sal do corpo, comer e descansar. Mas os espectáculos familiares têm para mim um valor sempre especial, sejam em Balugães ou em Colares ou qualquer outro local. Portanto parei o carro e fui-me sentar numa das cadeiras que estava livre na plateia improvisada.

Era um espectáculo por membros de um grupo intitulado "exército de salvação". Eram aí umas vinte ou trinta pessoas, sobretudo jovens e sobretudo mulheres, com t-shirts brancas e "cristo" estampado a preto na parte da frente, a cantar, representar, tocar instrumentos de banda, etc. Pelos agradecimentos que iam fazendo uns aos outros durante o espectáculo deu para compreender que tinham uma estrutura bem hierarquizada e que estavam a fazer aquilo com a colaboração de alguns membros de associações congéneres de outros países.

No final, o elemento estrangeiro aparentemente no topo da hierarquia disse algumas palavras em inglês que foram traduzidas por uma jovem portuguesa. Entre as várias coisas que disse, disse que temos de traduzir o nosso amor a Deus pelo amor pelos homens. E é sobre isso que eu vos quero falar.

É preciso traduzir o nosso amor a Deus em amor pelos Homens. Sim, está certo. Está certo mas não basta, é insuficiente. Se amamos a Deus, amamos também a sua obra. Nós, os Homens, somos obra de Deus. Directamente porque foi ele que nos criou, e indirectamente porque nós também nos fazemos a nós próprios. É assim que sabemos matemática, porque a vontade de Deus se concretizou no nosso desenvolvimento desse conhecimento e na sua posterior transmissão aos nossos filhos. É assim também que nos deslocamos de automóvel, e muitas outras coisas. Deus faz-nos directa e indirectamente, por linhas direitas e por linhas tortas.

Mas Deus não criou apenas os Homens. Dizer que tudo está bem quando expressamos o nosso amor pelo próximo, pelos Homens, é uma visão demasiado antropocêntrica, demasiado centrada em nós mesmos. À nossa volta há todo o mundo. E também foi Deus que o criou. Deus criou-nos a nós, mas também criou os outros seres vivos e todos os equilíbrios naturais que existem neste e noutros mundos. Amar a Deus é amar a sua obra. Portanto, o amor a Deus deve traduzir-se não só no amor pelos Homens, mas também no amor pelos outros seres vivos e pelos equilíbrios naturais.

E, no entanto, o Homem nunca esteve tão cego como agora. Nós amamos a Deus, mas não estamos a ser capazes de traduzir esse amor num amor pelo próximo e pelo mundo que nos rodeia.

Antigamente, e em alguns locais até há bem pouco tempo, algumas décadas apenas, as pessoas viviam, fosse essa ou não a sua vontade, integradas numa comunidade. A vida em comunidade existia independentemente das pessoas gostarem mais ou menos disso, existia pela necessidade, pelos serviços que a comunidade prestava aos seus membros. A comunidade era a segurança social que as pessoas tinham nesses dias, fornecendo-lhes, entre outras coisas, maior segurança. Mais segurança no abastecimento de produtos alimentares e outros, maior segurança contra inimigos, maior segurança contra qualquer desgraça. A vivência em comunidade fazia com que a preocupação pelo próximo se tornasse mais evidente.

Nessas mesmas comunidades do antigamente, a tecnologia era rudimentar, a mortalidade era elevada e a população era reduzida. Assim, as consequências das acções das pessoas eram limitadas no seu alcance. O resultado do que se fazia sentia-se logo ali, naquele local e naquele instante. O que as pessoas faziam, por serem poucas e por terem ferramentas pouco poderosas, não afectava muito o resto do mundo nem nesse momento nem no futuro.

De acordo com o Génesis, depois de ter criado o homem e a mulher Deus ordenou-lhes "crescei e multiplicai-vos". E o mandamento foi cumprido: os Homens cresceram e multiplicaram-se. Hoje, em Portugal, todos falam da falta de bebés. Não sei com que se preocupam as pessoas quando falam da falta de bebés. Estarão preocupados porque os vizinhos não têm filhos? Ou estão simplesmente preocupados com a manutenção do sistema de segurança social? Ou estão, como se calhar deviam, a pensar nas pessoas que querem ter filhos e não os têm porque sentem que não têm condições para isso? Seja como for, as pessoas que se procupam com a falta de bebés em Portugal, não estão certamente muito preocupados com o mundo.

Se as pessoas estivessem preocupadas com o mundo, compreenderiam que os Homens cresceram e multiplicam-se agora como nunca desde a criação. Há hoje mais pessoas vivas no mundo do que alguma vez houve e o seu número está a aumentar como nunca esteve. Em cada geração que passa somos mais mil e tal milhões de almas! Tantas quantas as que existiram durante toda a história do Homem até à descoberta da ciência moderna, há dois ou três séculos atrás.

Somos muitos. E isso altera as coisas. Se antigamente, nas comunidades primitivas, as pessoas se aqueciam a lenha, hoje isso já não é possível. Se todas as pessoas em Portugal, sobretudo nas grandes cidades do litoral, se aquecessem a lenha durante o inverno, o ar ficaria completamente irrespirável. E é preciso saber que as lareiras domésticas são dos principais causadores de dioxinas, que são dos compostos químicos mais tóxicos que há.

Ou seja, as acções que antigamente o homem fazia sem grande impacto no mundo, hoje, simplesmente pelo facto de sermos muitos mais, já podem ter um grande impacto. Se amamos a Deus e queremos respeitar a sua obra, temos de ter isso em consideração.

Mas do antigamente até aos dias de hoje não foi só o número de seres humanos que se modificou. Também a tecnologia se modificou. Deus não criou as tecnologias. Fomos nós, os Homens, que as criámos. Certamente de acordo com a sua vontade. Mas compreender os desígnios de Deus não é fácil...

Os Homens criaram e desenvolveram a tecnologia para poderem viver melhor. A tecnologia permitiu aos Homens fazer coisas novas, que antigamente eram impossíveis, e também fazer as coisas que já fazia, mas com uma produtividade muito maior. Um homem com um sequenciador de ADN consegue identificar doenças genéticas nas pessoas, o que antigamente era impossível. Outro homem, com um tractor, consegue lavrar um campo inteiro de um hectare em muito menos tempo do que antigamente seria capaz com um sacho.

A tecnologia trouxe coisas maravilhosas ao Homem e fez com que ele, de facto, vivesse hoje muito melhor do que vivia antigamente. Mas não trouxe apenas coisas boas. Por um lado, criou uma série de compostos químicos nefastos para o meio ambiente e para ele próprio. Por outro lado, as tecnologias aumentaram muito a capacidade de o Homem modificar o meio onde vive. E o Homem, ao contrário dos outros animais, é um ser que faz sempre questão de modificar o meio onde vive.

A tecnologia permitiu ao Homem ter um enorme poder de acção sobre o meio. Os efeitos da acção do Homem no meio multiplicaram-se. Costuma dizer-se que se Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Maomé. Pois nos tempos recentes o Homem já removeu montanhas inteiras! Mas talvez o efeito da tecnologia que mais demonstra o poder que esta confere ao Homem é o aumento do nível médio da temperatura da atmosfera e dos oceanos terrestres. O aquecimento global altera o clima, derrete as calotes polares e os glaciares, aumenta o nível médio das águas do mar, altera os hábitos dos animais e das plantas, e tudo isso foi o resultado do acção do Homem, potenciada pela tecnologia.

Hoje somos mais e temos tecnologias mais poderosas do que antigamente. Mas além disso a vida do Homem no século XXI é também muito mais complexa do que era antigamente. Nas comunidades primitivas as pessoas nasciam, cresciam, viviam e morriam praticamente no mesmo local, apoiando e gozando do apoio das poucas pessoas que os acompanhavam durante a vida toda. Produziam os produtos de que necessitavam e poucas coisas tinham de ser adquiridas fora da comunidade. Hoje em dia, pelo contrário, as pessoas nascem num local, crescem noutro, depois trabalham num sítio, depois noutro, emigram, regressam, voltam a emigrar... Criam relações de amizade mais ou menos sólidas em cada sítio por onde passam. Consomem produtos que são feitos com materiais extraídos em África do Sul, transformados nos Estados Unidos e na China, embalados na Alemanha e vendidos pela Internet. E produzem produtos que seguem os mesmos caminhos complexos. Hoje as coisas mudam a um ritmo alucinante. Quando as pessoas regressam aos locais onde viveram há vinte anos atrás já têm dificuldade em reconhecê-los, tamanhas são as transformações que entretanto esses locais sofreram.

A enorme complexidade das vidas que hoje levamos fazem com que as consequências das nossas acções se tornem muito mais difíceis de identificar. Tornam-se mais difusas. Quais são as consequências de não se brincar na rua e alternativamente passar-se muito tempo a brincar no computador? Quais são as consequências de produzir cortiça para a exportação? Quais são as consequências de aprender línguas estrangeiras na escola e ouvir pop-rock inglês na rádio? Quais são as consequências de conduzir automóveis ou de fazer compras em grandes centros comerciais? Tudo isso é hoje mais difícil de avaliar. Antigamente era mais fácil avaliar as consequências das nossas acções.

Portanto, o impacto que aquilo que fazemos ou que não fazemos, e valem ambos o mesmo, sobre o próximo, sobre a humanidade, sobre os outros seres vivos e sobre os equilíbrios naturais, isto é, a forma como afectamos tuda a obra de Deus que nos circunda, é maior, porque nós somos muito mais, é mais intensa, porque dispomos de tecnologias mais poderosas, e é mais difícil de avaliar, porque a vida hoje é mais complexa.

Tomemos como exemplo a ida de uma pessoa ao supermercado. Imaginemos que conduz um carro até ao hipermercado de um centro comercial. Aí compra uma série de produtos. Entre eles algumas romãs com óptimo aspecto importadas de Israel, colocadas dentro de um saco plástico para pesar, e umas latas de atum de conserva. Na caixa, a empregada coloca tudo noutros sacos plásticos maiores e a pessoa paga com o seu cartão de crédito. No final, regressa a casa no seu carro.

Qual é o impacto que a condução do automóvel tem no aquecimento global do planeta? E no défice energético e da balança comercial portuguesa? E na segurança rodoviária? E na poluição sonora? E na saúde do próprio condutor? Qual é a relação que a compra de romãs israelitas tem na guerra na Palestina? Qual é o impacto que a produção de romãs gordas e sumarentas pode ter num país tão árido como Israel? O que é que acontece ao rio Jordão em consequência disso? Que efeitos podem ter na saúde das pessoas a ingestão de romãs com taninos e anti-oxidantes? Que é o impacto que o consumo de romãs importadas tem nos produtores de romãs nacionais? Qual a relação entre o consumo de peixe e a diminuição das reservas de peixe no mar? E o impacto que pesca de atum tem nos golfinhos? E o impacto que isso tem na indústria de conserva nacional? Qual a consequência da ingestão de peixes gordurosos na saúde das pessoas? Qual é a relação entre a utilização de sacos plásticos e a diminuição do número de tartarugas nos oceanos e as manchas enormes de detritos que há no meio dos oceanos? Etc, etc etc.

Como é que podemos expressar o nosso amor a Deus, o nosso amor aos Homens, às criaturas e às coisas, se não sabemos quais as consequências das nossas acções?

Reparem que o exemplo da ida ao supermercado podia ser estendido ao que fazemos nos dias das eleições, ao modo como reagimos perante um toxico-dependente, ao local e ao modo como passamos férias, ao trabalho que temos...

As pessoas hoje sabem mais do que antigamente. Mas, talvez paradoxalmente, o aumento do número dos Homens na Terra, o desenvolvimento da tecnologia e a complexificação da vida avançam mais rapidamente que o nosso conhecimento. Assim, o aumento das nossas condições de vida avança em simultâneo com o aumento da nossa cegueira, da nossa irresponsabilidade.

O que é que podemos fazer então? Se quisermos abandonar a cegueira, se quisermos ser responsáveis, se amamos a Deus e queremos traduzir isso num amor pela sua obra, pelos outros Homens, pelos outros seres vivos e pelos equilíbrios naturais, hoje e no futuro, temos duas alternativas. Ou abandonamos os benefícios da vida actual e voltamos a viver como os Homens viviam há séculos atrás, ou se não queremos perder esses benefícios, temos de aprender a avaliar melhor as consequências dos nossos actos.

Para isso são necessárias duas coisas: vontade e conhecimento. Para ter conhecimento é necessário estar atento, falar, discutir, criticar, pensar, ler, experimentar coisas novas, contactar com outras pessoas. Enfim, é necessário ser mais culto. A palavra "culto" vem do latim e quer dizer cultivado. Cultivado tal como as hortaliças são cultivadas: são plantadas, são regadas e tratadas e assim vão crescendo. Do mesmo modo temos de colocar no nosso espírito as sementes do conhecimento, e depois temos de tratar delas, de as alimentar, de as fortalecer, todos os dias, para que crescam fortes e saudáveis. Ser culto é algo que resulta de um estado de espírito e de um trabalho permanente. Ninguém se torna culto do dia para a noite. É necessário um trabalho aturado todos os dias.

No início, todos os trabalhos são mais penosos. Quando se aprende a dançar pela primeira vez, os músculos estão tensos, fazem-se movimentos exagerados, cansamo-nos mais. Tudo custa mais no início. No início temos de pensar: mas o que é que as romãs israelitas têm a ver com o rio Jordão? E as coisas parecem não fazer qualquer sentido para nós. Tal como quando nos tentam ensinar a história de Portugal: é muito difícil ligar as coisas umas às outras.

Mas uma coisa é certa: quanto mais se sabe dançar, mais facilmente aprendemos danças novas, mais facilmente dançamos as danças que já aprendemos e mais gozo retiramos disso tudo. E com o conhecimento é igual.

Jesus disse "abençoados sejam os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus". Isso era o que fazia sentido quando as pessoas não tinham como cultivar o seu espírito. E o mesmo se aplica hoje em dia para quem não tenha oportunidade de o fazer. Mas a vida que hoje levamos resulta de séculos de benefícios introduzidos pelo Homem. E um desses benefícios é a possibilidade que o Homem criou para que todos possam cultivar o seu espírito. Hoje há escolas, há livros, há conhecimento na Internet, há centros de "ciência viva", há bibliotecas, há universidades, há conhecimento nos canais de rádio e televisão. E hoje há também tempo! E do tempo livre que todos temos, uns mais e outros menos, basta tirarmos um pouco para, todos os dias, cultivarmos o nosso amor a Deus e cultivarmos também o nosso espírito. Hoje todos temos oportunidade de o fazer.

Mas para podermos cultivar o espírito, e para podermos transformar essa cultura e esse conhecimento das consequências do que fazemos e não fazemos, num modo de vida mais consentâneo com o amor que temos a Deus, precisamos acima de tudo de ter vontade.

E isto é o mais importante que tenho para vos dizer. É que para podermos conhecer melhor o mundo e para podermos modificar aquilo que fazemos e não fazemos, precisamos de muita vontade.

Aprender pode ser uma chatice. Tal como para quem não sabe, aprender a dançar faz doer os músculos das pernas. E se nunca se aprender um pouco mais e se nunca se praticar, isso vai sempre acontecer. Para quem insiste em não saber e em não querer saber, aprender pode ser sempre uma grande chatice.

Mas isso não é nada quando comparado com o que é necessário para mudarmos os nossos hábitos. Deixar de fumar é muito difícil, todos temos mais ou menos consciência disso, mesmo que não tenhamos passado pela experiência. Mas para quem anda de carro, deixar de andar de carro pode ser igualmente difícil. E o mesmo pode ser dito em relação a deixar de ir passear para o centro comercial, para quem tem esse hábito, ou para passar a frequentar museus, para quem nunca o fez, ou para passar a ler livros.

A vontade de querer conhecer mais e de querer agir melhor devia vir naturalmente do amor que temos a Deus. Amar a Deus é querer agir correctamente.

Mas as nossas acções e omissões têm efeitos que são difusos no tempo, isto é, podem fazer-se sentir só nos nossos filhos e não em nós próprios, e são difusos no espaço, isto é, podem fazer-se sentir só no vizinho e não em nós próprios, e a nossa falta de conhecimento não nos permite ver isso. Nós não sabemos isso, mas uma coisa que todos sabemos é que queremos viver melhor. E portanto é simplesmente isso que tentamos fazer. Quando pensamos em traduzir o amor a Deus em amor pelos próximos, estamos a pensar em fazer comida, fazer festas e outras coisas que façam os que nos são próximos viver mais felizes. E aparentemente está tudo bem. A ignorância e a cegueira dão-nos uma sensação de tranquilidade.

Que vontade é que as pessoas podem ter em dedicar-se a aprender coisas que lhes podem tirar a tranquilidade, quando há tantas outras coisas para fazer que nos dão mais prazer?

As pessoas só mudam quando sentem necessidade. E quanto mais as pessoas conhecem, mais compreendem a necessidade desse conhecimento. Talvez a mudança comece pelos nossos filhos. Talvez a mudança comece quando as pessoas começarem a sentir na pele os incêndios, o desemprego, e tantas outras consequências negativas das nossas acções e omissões.

Era bom poder acreditar que a vontade viria simplesmente do gozo que dá saber mais, tal como quem sabe dançar tem gozo em aprender uma dança nova.

No século XXI, saber traduzir o amor por Deus é mais difícil e mais exigente. Mas se foi Deus que, pela sua vontade, contribuiu para que o número de Homens na Terra aumentasse, para que a tecnologia se desenvolvesse, para que a vida se complexificasse e para que tivéssemos com isso inúmeros benefícios e também malefícios, também foi Deus que nos deu as ferramentas para agirmos de uma forma mais correcta e minimizarmos esses malefícios. Deus criou os obstáculos e deu-nos as ferramentas para os ultrapassarmos. Compete-nos sermos melhores.

Tenhamos, portanto, vontade de sermos mais cultos e melhores.

"
- Senhor, posso dizer uma coisa?
- O Amor ouve-te.
- Senhor, tantas vezes a Vossa Palavra é dada; mas, quantas vezes também, Ela não é nem ouvida nem acreditada.
- Eu sei. Apesar disso, nem tudo é inútil, porque, embora muitos não ouçam, há sempre alguém que ouve. E assim, mesmo que uma só semente crie raízes, vale a pena fazer todos esses sacrifícios.
"

AWF, Lisboa, 12 Agosto 2012

Renascer...


Renascermos nós, ou algo em nós.

Ou, na famigerada música do Sérgio Godinho,

"E entretanto o tempo fez cinza da brasa
e outra maré cheia virá da maré vaza
nasce um novo dia e no braço outra asa
brinda-se aos amores com o vinho da casa
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida."

(foto no canhão da Ota)

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Sim! que é preciso caminhar avante!



(tirado daqui)


Tentanda Via

I

Com que passo tremente se caminha
Em busca dos destinos encobertos!
Como se estão volvendo olhos incertos!
Como esta geração marcha sozinha!

Fechado, em volta, o céu! o mar, escuro!
A noite, longa! o dia, duvidoso!
Vai o giro dos céus bem vagaroso...
Vem longe ainda a praia do futuro...

É a grande incerteza, que se estende
Sobre os destinos dum porvir, que é treva...
E o escuro terror de quem nos leva...
O fruto horrível que das almas pende!

A tristeza do tempo! o espectro mudo
Que pela mão conduz... não sei aonde!
- Quanto pode sorrir, tudo se esconde...
Quanto pode pungir, mostra-se tudo. -

Não é a grande luta, braço a braço
No chão da Pátria, à clara luz da História...
Nem o gládio de César, nem a glória...
É um misto de pavor e de cansaço!

Não é a luta dos trezentos bravos,
Que o solo amado beijam quando caem...
Crentes que traz um Deus, e à guerra saem,
Por não dormir no leito dos escravos...

É a luta sem glória! é ser vencido
Por uma oculta, súbita fraqueza!
Um desalento, uma íntima tristeza
Que à morte leva... sem se ter vivido!

Não há aí pelejar... não há combate...
Nem há já glória no ficar prostrado -
São os tristes suspiros do Passado
Que se erguem desse chão, por toda a parte...

É a saudade, que nos rói e mina
E gasta, como à pedra a gota d'água...
Depois, a compaixão, a íntima mágoa
De olhar essa tristíssima ruína...

Tristíssimas ruínas! Entristece
E causa dó olhá-las - a vontade
Amolece nas águas da piedade,
E, em meio do lutar, treme e falece.

Cada pedra, que cai dos muros lassos
Do trémulo castelo do passado,
Deixa um peito partido, arruinado,
E um coração aberto em dois pedaços!

II

A estrada da vida anda alastrada
De folhas secas e mirradas flores...
Eu não vejo que os céus sejam maiores,
Mas a alma... essa é que eu vejo mais minguada!

Ah! via dolorosa é esta via!
Onde uma Lei terrível nos domina!
Onde é força marchar pela neblina...
Quem só tem olhos para a luz do dia!

Irmãos! irmãos! amemo-nos! é a hora...
É de noite que os tristes se procuram,
E paz e união entre si juram...
Irmãos! irmãos! amemo-nos agora!

E vós, que andais a dores mais afeitos,
Que mais sabeis à Via do Calvário
Os desvios do giro solitário,
E tendes, de sofrer, largos os peitos;

Vós, que ledes na noite... vós, profetas...
Que sois os loucos... porque andais na frente...
Que sabeis o segredo da fremente
Palavra que dá fé - ó vós, poetas!

Estendei vossas almas, como mantos
Sobre a cabeça deles... e do peito
Fazei-lhes um degrau, onde com jeito
Possam subir a ver os astros santos...

Levai-os vós à Pátria-misteriosa,
Os que perdidos vão com passo incerto!
Sede vós a coluna do deserto!
Mostrai-lhes vós a Via-dolorosa!

III

Sim! que é preciso caminhar avante!
Andar! passar por cima dos soluços!
Como quem numa mina vai de bruços,
Olhar apenas uma luz distante!

É preciso passar sobre as ruínas,
Como quem vai pisando um chão de flores!
Ouvir as maldições, ais e clamores,
Como quem ouve músicas divinas!

Beber, em taça túrbida, o veneno,
Sem contrair o lábio palpitante!
Atravessar os círculos do Dante,
E trazer desse inferno o olhar sereno!

Ter um manto da casta luz das crenças,
Para cobrir as trevas da miséria!
Ter a vara, o condão da fada aérea,
Que em ouro torne estas areias densas!

E, quando, sem temor e sem saudade,
Puderdes, dentre o pó dessa ruína,
Erguer o olhar à cúpula divina,
Heis-de então ver a nova-claridade!

Heis-de então ver, ao descerrar do escuro,
Bem como o cumprimento de um agouro,
Abrir-se, como grandes portas de ouro,
As imensas auroras do Futuro!

(por Antero de Quental)
(a expressão latina "tentanda via" significa tentativa, o caminho que deve ser tentado)
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Aos bocados, na música do José Mário Branco:

domingo, 5 de agosto de 2012

Beleza por cima das nossas cabeças...




Noite de "astronomia no verão" no Instituto Geográfico do Exército, em Lisboa. No topo do edifício, com um telescópio de 30 cm de diâmetro, todo aparelhado com motores e computadores, a espreitar para a nebulosa M57 (há fotos bem melhores na Internet, cheias de cores e tudo, mas nós estávamos a ver a coisa mais ou menos como se vê nesta foto).

Diz o nosso anfitrião, José Ribeiro:
- Assim é como o nosso sol vai acabar.
E pergunta uma rapariga que devia ter os seus 7 ou 8 anos de idade:
- O sol vai acabar?
- Vai.
- E se ele não acabar?
- Mas sabemos que vai. É para isso que serve a ciência...
- Daqui a quanto tempo?
- Daqui a cinco mil milhões de anos.
- Ah! Então ainda temos muita vida!...

Depois de reflectir um pouco mais, e já de saída, a rapariga acrescenta:
- O céu é trágico!

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Manifesto Anti-Cavaco...

Por Mário Viegas.



MANIFESTO ANTI-CAVACO

BASTA PUM BASTA

Manifesto Anti-Cavaco escrito por Mário Viegas e inspirado em o Manifesto Anti-Dantas

Uma geração que consente deixar-se representar por um Professor Aníbal Cavaco Silva é uma geração que nunca o foi. É um coio d´indigentes, d´indignos e de cegos! É uma resma de charlatães alaranjados e de vendidos, e só pode votar e parir abaixo de zero!

Abaixo a geração laranja!

Pôrra pró Cavaco, pôrra! Pim!

Uma geração com um Cavaco Silva a cavalo, é um burro algarvio incompetente!

Uma geração com um Eng. António Guterres à proa é uma canoa em seco!

O Manuel Monteiro é um magano!

O Fernando Nogueira é meio-mangano!

O Anibal Silva saberá gramática, saberá sintaxe, saberá vender gasolina, saberá inglês, saberá tudo, menos dirigir económica e politicamente o País, que é a única coisa que ele quer fazer e nunca o fez bem, nem soube fazer!

O Cavaco pesca tanto de Economia, que até faz quadras à António Aleixo, com as ligas da sua Maria Cavaca!

O Guterres é um habilidoso!

O Carlos Carvalhas veste-se mal!

O Manuel Monteiro usa ceroulas de malha!

O Paulo Portas especula e inocula os concubinos!

O Cavaco é Aníbal!

O Cavaco é Guterres!

Pôrra, também pró Gueterres, pôrra! Pim!

O Professor Cavaco tem feito uma política para Portugal, que tanto podia ser como a do Fernando Nogueira ou a Maria Cavaca ou a Leonor Beleza, ou o Eng. António, ou a Teresa Patrício Gouveia, ou a Nau Catrineta, ou a cantora Dina do Partido Popular!

E o Cavaco teve claques e maiorias absolutas!

E o Nogueira teve palmas! E o António Guterres agradeceu de mão dada com o Jaime Gama!

O Francisco Louçã é um manganão!!

Não é preciso ir para a Fonte Luminosa vestido de laranja, para se ser uma laranjada!

Não é preciso saber contar pelos dedos, para se ser Professor de Economia, basta fazer contas pelos dedos como o Silva! Basta não ter escrúpulos, nem morais, nem artísticos, nem humanos! Basta andar com as modas europeias, com as políticas comunitárias e com as opiniões de Bruxelas! Basta usar o tal sorrizinho com escuma ao canto dos lábios, basta ser muito penteadinho por um barbeiro de bairro, usar figos algarvios e cócos marroquinos e olhos de Sá-Carneiro mal morto em Camarate! Basta ser Judas! Basta ser Fernando Cavaco Nogueira Silva!

Pôrra pró Cavaco! Pôrra! Pim!

O Professor Aníbal Cavaco Silva nasceu para provar, que nem todos os que governam sabem governar.

O Fernando Nogueira é um autómato extra-terrestre que deita para fora o que os trabalhadores pobres já sabem que vai sair… Mas é preciso que os trabalhadores pobres paguem impostos! Os ricos, não!!

O Nandinho Nogueira é um verso-de-pé-quebrado dele próprio!

O Cavaco em génio nem chega a uma garrafinha de mau-cheiro e em talento o Nogueira é pim, pam, pum!

O Cavaco nu é horroroso!

O Cavaco escuma dos cantos da boca!

Pôrra pró Cavaco, Pôrra! Pim!

O Nogueira é o escárnio da consciência!

Se o Cavaco Silva é Europeu eu quero ser Australiano!

O Vasco Graça Moura é a vergonha da intelectualidade portuguesa!

O Vasco Pulido Valente é a meta da decadência mental!

E ainda há quem não core quando diz que apoia o Cavaco!

E ainda há quem lhe estenda a mão!

E quem lhe lave a roupa, manchada de sumo de laranja, que custa imenso a sair!

E quem tenha dó da gazolineira dos Cavacos!

E ainda há quem esteja indeciso de que se votar no Nogueiro-Cavaco não vale nada, e que não serve para nada, e que nem é inteligente, nem decente e é um voto contra si próprio, que nem chega a zero!

Vocês não sabem quem é a senhora Mariani do Cavaco? Eu vou-lhes contar:

A princípio, por notícias das “Olás”, entrevistas, tempos de antena e outras preparações com as quais nada temos a ver, pensei tratar-se da cantora lírica Francesca De Mariani, italiana, que lhe escreveu várias cartas em italiano, apaixonadíssima por ele quando o viu a dormir na primeira fila do S. Carlos, durante uma récita, há uns anos atrás e a subir a um coqueiro em S. Tomé. Depois de ler todas as “Revistas do coração”, de “Maria” a “Manuel”, da “Dona” ao “Diabo”, do “Crime”, ao “Jornal de Letras e Artes e Ideias”, também não fui capaz de distinguir, porque a lâmpada da minha mezinha de cabeceira é muito fraca, era noite muito escura e só a meio dum pesadelo, aí pela madrugada é que tive um sobressalto e lembro-me de consultar a “Nova Gente”, a “Visão” e “Casa, Jardim e Decoração”. E não é que descubro que a tal Mariani do Cavaco era a sua Vivenda algarvia! Adormeci mais descansado e comecei a sonhar o que seria viver naquele paraíso algarvio, só possível à nova sociedade de novos-ricos, criados pelo cavaquismo.

Sonho que a Maria Cavaco vem descendo uma escada estreitíssima, mas não vem só, traz também o Jacques Chirac, que eu não cheguei a ver, ouvindo apenas uma voz muito conhecida dum apaixonado por experiências nucleares e repressões aos Emigrantes em França. Pouco depois o agente do SIS é que me disse que ele vinha com uma camisola do PS, com um grande coração laranja.

A Maria Cavaco e o Chirac estão sozinhos na Vivenda, e às escuras, dando a entender perfeitamente que estiveram indecentemente a conspirar à beira da piscina, sobre a candidatura do Aníbal, à presidência da República, e o tabú do Aníbal. Depois o Chirac, completamente francês e satisfeito, despede-se e salta pela janela, com grande mágoa da Maria Laranjada borbulhante e lacrimosa. E ainda hoje os pobres turistas algarvios, a GNR, a Guarda-Fiscal, a Guarda Florestal, a PSP, e os agentes do SIS têm ocasião de observar a janela arrombada do primeiro andar da Vivenda Mariani, perto de Boliqueime, na Rua do Touro, (perdão, do Aníbal), por onde se diz que fugiu o célebre político em Portugal e bombista nuclear em Paris.

A Maria que é histérica, começa a chorar desatinadamente nos braços da sua confidente e excelente pau de cabeleira, a famosa tia Anica de Loulé…

… Vêm descendo pla dita estreitíssima escada, varias Marias todas iguais e de cigarros acessos, menos uma que usa óculos, dentes saídos para fora como uma vampira, horrorosamente feia, o que quer dizer que é a deputada Conceição Monteiro.

E seria até uma excelente personificação das bruxas de Goya, se quando falasse não tivesse aquela voz tão fresca e maviosa da ex-secretária de Sá-Carneiro. E reparando nos dois vultos interroga espaçadamente com cadência social-democrata, austeridade e imensa falta de camarate:

“Quem está aí?! E de cigarros apagados?”

- Foi o Freitas do Amaral, foi o Otelo, foi o General Eanes, foi o Mário Tomé, foi o Eng. Carlos Marques, foi o Mário Soares, foi o Álvaro Cunhal, foi o Major Canto e Castro, foi o Pinto Balsemão, foi a viúva do Soares Carneiro, foi o vento… dizem as pobres inocentes “Marias Vão Com As Outras”, varadas de terror pluripartidário… E a Conceição Monteiro que só é horrrorosa nos dentes saídos, nos binóculos, nos destroços da avioneta, e em andar sempre a chatear todos os grupos parlamentares, telefona imediatamente para a sede do SIS, em Faro, que é um dó d´alma ouvi-la assim tão sá-carneirista desempregada. Vão todas para a casa de banho, mas eis que, de repente, batem no portão e sem se anunciar nem limpar-se da poeira nortenha, sobe a escada e entra p´lo salão o Eng. Eurico de Melo, que quando era novo fez brejeirices com a menina da alfarroba e da fava-rica algarvia.

Agora completamente nortenho e emendado, revela à dentuças, que sabe por relatórios secretos do ministro Dias Loureiro que há homens que vão com as “Marias Vão Com As Outras”, na Vivenda e que ainda há pouco, fora detectado, por radar, um a saltar pela janela. A Sãozinha Monteiro diz que efectivamente já há tempos que Maria Cavaco vinha dando p´la falta de figos e galinhas no quintal e tão inocentinha, coitada, que naqueles oitenta anos, ainda não teve tempo para descobrir a razão da humanidade estar dividida entre homens e mulheres do PSD e homens e mulheres do PS e de outros partidos. Depois de sérios embaraços do tio Eurico é que ela deu com o atrevimento político e mandou chamar as Marias de há pouco, com os cigarros apagados. Nesta altura, este meu pesadelo policial toma um pedaço de interesse, porque o engenheiro Melo ora parece o Loureiro disfarçado de polícia-sinaleiro, ora um polícia de trânsito com a falta de educação dum agente da polícia de choque, e tão perspicaz que descobre em menos de meio minuto, o que o povinho está farto de saber - que o Cavaco anda a dormir com o Guterres!!!

O pior é que a Maria Silva foi à serra com as indiscrições do Barão do Norte e desata a berrar, a berrar como quem se estava marimbando para tudo aquilo. Esteve mesmo muito perto de se estrear com um par de murros na coroa do Chefe do Grupo da Sueca, no que se mostrou de um atrevimento, de uma insolência e de decisão social-democrata que excedeu todas as expectativas.

Ouve-se uma corneta tocar o Hino da Comunidade Europeia e da França e Maria, sentindo no ruído do escape do avião super-sónico francês, toda a alma tricolor do ser preferido, foi qual passarinha engaiolada, a correr até ao portão da Vivenda Mariani, a gritar desalmadamente pelo seu Jacques. Grita, assobia e redopia e pia e rasga-se e magoa-se e cai de costas com um acidente, de que já previamente tinha avisado o jornal “O Público” e a bandeira gigante do PSD também cai e os antigos votantes sociais-democratas também caem em si e desatam numa dessas ondas de contestação, abstenção e arrependimento tão enorme e tão monumental, que todos os jornais de Lisboa, Loulé e do Porto, no dia seguinte, foram unânimes naquele êxito político do Engenheiro Eurico de Melo e da Conceição Monteiro.

A única consolação que os ex-votantes decentes tiveram, foi a certeza de que aquilo não se tinha passado na Residência Oficial de S. Bento, mas na Vivenda Mariani em Boliqueime, com uma Maria escavacada e encavacada, que tem cheliques e exageros esquerditas.

Continue o Sr. Cavaco a mandar governar assim, que ha-de ganhar muito com as cavacas das Caldas e há-de ver que ainda apanha uma estátua de prata laranja por um ourives de Loulé e uma Exposição das maquetas pelo seu monumento erecto por subscrição social-democrata pelo “Povo Livre” a favor das vítimas da sua péssima política de apoio aos Timorenses, e a praça Dr. Francisco Sá-Carneiro mudada em Praça Professor Aníbal Cavaco Silva e com festas da cidade no Centro Cultural de Belém e sabonetes em conta. “Aníbeis Silvas” e pastas Cavacas prós dentes, e graxa Guterres prás botas, e bananas Jardim, e Niveína Durão Barroso, e comprimidos Paulo Mendo, e autoclismos Santanas e Santanas, Santanas, Santanas, Santanas… E limonadas Ferreira do Amaral - Magnésia.

E fique sabendo o Fernando Nogueira que se um dia houver justiça em Portugal, todo o mundo saberá que o autor de “Os Lusíadas” foi a Agustina Bessa Luís, que num rasgo memorável de modéstia só consentiu a glória do seu pseudónimo “A bruxa da Areosa”.

E fique sabendo o Carlos Carvalhas que se todos votassem como eu, haveria tais munições de punhos fechados, de “Esquerda a Valer” e não “A Necessária” que levariam dois séculos a gastar, sem “sair da rotina da esquerda” do Francisco Louçã!

Mas julgais que nisto se resume a política portuguesa? Não! Mil vezes não!

Temos além disto o Jorge Sampaio, que já fez decretos para a Câmara de Lisboa, que deixou de ser a derrota do machão Macário Correia, para poder passar a ser a derrota do Dr. Sampaio, com notas negativas do Professor Rebelo de Sousa.

E as pinoquices do Vasco Pulido Valente passadas no tempo em que “emborcava copos” na Secretaria de Estado da Cultura e no semanário “O Independente”! E as infelicidades de Carlos Pimentinha? E o talento insólito de Urbano Rodrigues! E as gaitadas do Vilhena! E as traduções só para homens do ilustríssimo excelentíssimo senhor António Barreto? E o Frei Hermano da Câmara!

E a Leonor Beleza co-responsável por uma série de contaminações de sangue nos nossos hospitais! E as imbecilidades do Pacheco Pereira! E mais pedantices do Albeto Pimenta! E o Pinto Coelho, o cavaquista do desenho! E alguns jornalistas cavaquistas, socialistas e fascistas d´”O Público”, e da “Capital”, e do “Diário de Notícias”, e d´ “O Diabo”, e d´ “O Dia”, e d´ “O Crime”, e do “Correio da Manhã”, e do “Expresso” e de todos, todos os jornais que não derem sempre notícias sobre a UDP nas primeiras páginas e ainda tempos de antena diários de meia hora na rádio e na TV.

E os Actores de todos os quatro canais de televisão e de todos os teatros pseudo-vanguardistas! Mário Viegas, incluído.

E todos os artistas que andaram a mamar dinheiro de Lisboa Capital Europeia da Cultura de 94 e futuramente da Expo 98 de que nós já desconfiamos! E os Valentins Loureiros do Porto e os palermas de Coimbra que não votarem UDP! E a estupidez do caso das gravuras de Foz Coa e o Dr. José de Figueiredo e oh oh os Mota Pinto hu hi e os burros de Boliqueime e os menus das festas do Centro Cultural de Belém e a Caixa Geral dos Depósitos feitos pelo Michel! E o raquítico Marques Mendes, palerma do PSD a quem o Dr. Soares com imensa piada intrujou que era mais alto do que parecia numa recepção em Belém! E todos os que são Políticos e Artistas, excepto os da UDP, como é evidente.

E as Exposições anuais no A.C.A.R.T.E. da Gulbenkian! E todas as obras de fachada? E as do Eduardo Prado Coelho em Paris; e os Vaz da Silva, os Estrela, os Josés de Magalhães, os Pintos da Costa, os Louçãs, os Arnaldos Matos, os Hermínios Martinhos, os Almeidas Santos, os Narcisos de Miranda, os Falcões e Cunha, os Jaimes Gamas, os Torres Coutos, os Fernandos Gomes, os velhos antigos salazaristas, os idiotas eanistas, os arranjistas socialistas, os racistas, os impotentes do PSN, os celerados do PP, os vendidos do PRD, os imbecis do MRPP, os párias vendedores de droga, os ascetas democratas-cristãos, os Fernandos Teixeiras da Maçonaria, os das coligações das Câmaras, os diabo que os leve, os Filipes Menezes, os Jardins, os Ricardos Pais, os La Férias, os Guedes, os Manúeis Alegres, os Esteves Cardosos, os Abrunhosas, as Veras Lagoas, os Motas Pinto, os Joões Bosco, os Alpoins Galvões, os Duartes Pios de Bragança, os Silvas Melos, os Marcos Paulos, as Zitas Seabras, as Simonetas Luz Afonso, os Mendes Botas, os Jaimes Neves, e todos os laranjas cor de rosa que houver por aí!!!!!

E as convicções urgentes do Soares Pai e as convicções catitas do Soares Filho!…

E os concertos de “Os Madre de Deus”! E as estátuas a fascistas, ao Amaro da Costa e ao despertar e a tudo! E tudo o que seja Arte e Cultura, em Portugal! E tudo! Tudo por causa do Cavaco disfarçado de Nogueira afónico!

Pôrra pró Cavaco, pôrra! Pim!

Portugal que com todos estes senhores conseguiu a classificação de País mais atrasado da Europa e de todo o Mundo! O País que tão pouco tem ajudado os irmãos Africanos e Timorenses! O exílio dos desiludidos, dos abstencionistas e dos desacreditados e indiferentes dos políticos! A África reclusa dos europeus! O entulho de lixos tóxicos europeus, da poluição e da entrada de droga internacional! O Paraíso dos ricos que não pagam impostos, nem pagam a Crise e a Fome! Portugal inteiro (incluíndo Madeira e Açores) há de abrir os olhos no dia 1 de Outubro de 1995 - se é que a sua cegueira não é incurável - e então gritará comigo, a meu lado, a necessidade que Portugal tem de ter vozes diferentes na Assembleia da República, Deputados duma “Esquerda a Valer”! Deputados da UDP, claro, e a necessidade que Portugal tem de ser qualquer coisa de asseado e despoluído.

Pôrra pró Cavaco, (e seus camaradas de várias cumplicidades, cores, silêncios e futuros compromissos), Pôrra! Pim!

Mais de oitenta anos depois do Manifesto dum tal Almada Negreiros.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Palavras bem ditas...

Por Luís Miguel Cintra.

Tirando a parte referente ao acordo ortográfico, uma bela apologia ao amor, à vida, à liberdade, ao conhecimento, à diversidade, ao respeito, à integração, e contra o dinheiro, o mercado e o que é comercial.

A nossa felicidade depende da felicidade dos outros. Coisa tão simples, tão evidente, e tão esquecida.

Ter a palavra num meio de comunicação social é a oportunidade de fazer um discurso que é ouvido por muitas pessoas. Sem dúvida. Pena que tanta gente não tenha nada para dizer!... E perdoem os risinhos idiotas do moderador.

sábado, 5 de maio de 2012

Donos de Portugal...



"Donos de Portugal" - um documentário que vale a pena ler, baseado num livro que vale a pena ler.

A meu ver, há duas conclusões importantes a extrair daqui:
  1. Que as famílias que detêm os principais grupos económicos portugueses (se bem que esta coisa do "portugueses" seja de definição cada vez menos clara para mim) sempre beneficiaram, de diversas formas, da acção do Estado.
  2. Que as pessoas que nos diversos governos e restantes órgãos de soberania sempre concederam esse apoio do Estado aos grandes grupos económicos (a bem da "economia", pois claro, da "criação de empregos", pois claro) foram sempre os mesmos, dos mesmos partidos, e tiveram sempre uma promiscuidade enorme com os negócios que beneficiaram.
Os corolários destas conclusões parecem-me óbvios... Eu gostava de estar muito enganado, mas parece-me que por mais óbvios que sejam, a maioria das pessoas vai continuar a achar que estes senhores engravatados é que são os senhores "responsáveis" a quem é necessário confiar os nossos destinos, e tudo continuará na mesma neste cantinho das aromáticas... Oxalá esteja muito enganado.