sábado, 14 de fevereiro de 2015

A alegoria do frango assado (6/6)...

(capítulo1)

Capítulo 6


Fulaninho não teve alternativa. Acabou de comer e abandonou o palácio. As palavras do conselheiro deixaram-no pensativo. Afinal também havia nelas alguma verdade, pensava... E assim caminhou pelos caminhos da 'terra de sabe-se lá onde'.

Foi só quando o sol se pôs que Fulaninho caiu em si. 'Mas... eu não tenho casa! Não tenho para onde ir. Não tenho onde dormir. E o que é que vou comer?' - pensou. Pôs as mãos aos bolsos e agarrou as duas moedas que sabia que ainda tinha... Não, não podia desistir assim tão facilmente.

Passou os próximos dias a pensar e repensar na sua conversa com os conselheiros. Passou todo esse tempo a ganhar coragem para ir novamente ao palácio contar-lhes a sua versão.

Fulaninho não desistiu e conseguiu de novo uma audiência no palácio real. Veio de lá ainda a lamber os beiços do frango que comera e a pensar no que lhe haviam dito. Mas não estava satisfeito. E foi apenas uma questão de tempo até lá regressar de novo.

Os meses passaram-se. Tantas vezes foi Fulaninho ao palácio que já o porteiro o conhecia, já os conselheiros o aguardavam e ele já sentia falta do frango assado quando não o tinha. Os conselheiros compreenderam a situação de Fulaninho. E mais: viram a sua inteligência. Resolveram apoiá-lo. Deram-lhe trabalho no palácio. Marcaram com ele conversas semanais. Pouco depois atribuíram-lhe uma cela.

O tempo passou. E em Fulaninho as sensações de frio e de fome eram agora nada mais do que memórias cada vez mais longínquas e às quais ele não queria regressar. Fulaninho compreendia agora melhor do que nunca o valor dos sapatos, dos copos, dos pratos, dos garfos (uma invenção recente), das carruagens, das moedas. Aos poucos compreendeu o verdadeiro significado do IB. Afinal o IB era um indicador da 'verdadeira economia' (termo também recentemente inventado pelo CEES), daquilo que realmente interessava na vida. A 'verdadeira economia' não estava errada. Quem estava errado era quem dela não fazia parte. O que Fulaninho agora não compreendia era como as pessoas insistiam em não fazer parte da 'verdadeira economia' apesar de tantas e tantas vezes o seu rei lhes estender a mão através das suas medidas.

A inteligência de Fulaninho abriu caminhos novos na corte do rei. Dez anos depois Fulaninho era dos conselheiros mais respeitados. Nessa tarde a reunião era sobre a agora denominada 'economia paralela' (que, segundo o CEES, se opunha à 'verdadeira economia'). Fulaninho fez furor entre os seus colegas defendendo que não se podem manter as regalias 'àqueles que não querem trabalhar'. Com base no seu raciocínio Fulaninho avançou a sua proposta: os inquilinos dos senhores feudais que não apresentem ao longo do ano sinais evidentes de 'produtividade' (uma coisa nova) ficarão sujeitos à expulsão da 'terra de sabe-se lá onde'. A sua proposta foi aprovada por unanimidade.

Fulaninho comeu frango assado e bebeu vinho com os seus colegas. Já o sol se punha quando regressou à cela satisfeito com a sua jornada. O céu estava vermelho para o poente... Não muito longe dali, a mãe de Fulaninho, rugas na testa, mãos calejadas, lenço na cabeça, frio nos pés, seca, velha, cansada, pôde finalmente largar a sua enxada e regressar a casa. Desde que o marido tinha morrido era apenas ela que trabalhava a terra. Já não havia tanto para fazer em casa...

(fim)

(A versão original continha um corolário, mas sinceramente penso que a história não necessita dele. Cada um dá importância ao que quer.)

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

A alegoria do frango assado (5/6)...

(capítulo 1)

Capítulo 5

Na corte todos sabiam que descer os impostos fazia subir o IB. E todos sabiam que isso significava que o povo da 'terra de sabe-se lá onde' viveria melhor. Mas Fulaninho via coisas diversas. Via que quem pagava os impostos eram apenas os que podiam pagar. Pessoas como os seus pais nem dinheiro tinham com que pagar o que quer que fosse. Baixar os impostos só fazia com que os que viviam bem passassem a viver ainda melhor. E consequentemente comessem mais frangos assados. E o IB subia, pois claro...

Na corte também sabiam que quanto maior fosse o número de diligências produzidas num ano, mais o IB subiria. O que Fulaninho sabia é que não era o IB que fazia subir o número de diligências nem o inverso. Ambos subiam quando as famílias mais abastadas conquistavam mais alguns privilégios.

E tudo isto Fulaninho via simplesmente porque um dia resolveu dizer não àquela vida ordeira na aldeia de seus pais e viajara de encontro às coisas e às pessoas e às situações e aos problemas. O rei, aquele rei complacente que queria melhorar a vida do seu povo, nem sequer o seu povo conhecia. E apesar de todos os índices, continuava a desconhecer as suas condições de vida. Para ele o tal 'povo' era simplesmente uma amálgama de muitas pessoas que viviam todas mais ou menos bem, que reagiam em uníssono às suas medidas e que ficavam muito felizes e muito agradecidos por elas.

'-O povo vai nu!' - gritou Fulaninho quando percebeu a profundidade do seu próprio pensamento. '-O povo vai nu e ninguém vê!...'

Fulaninho sentiu que sabia mais que todos. Sabia o que os outros não sabiam. Tinha de os avisar. Decidiu que iria expor o caso ao rei. Lavou as suas roupas no rio, tomou banho, pôs azeite no cabelo, e dirigiu-se confiante para o palácio real. À porta explicou que tinha um assunto muito importante a expor ao rei, mas que só a ele o poderia revelar. Quando o porteiro estava pronto a bater a porta no seu nariz, Fulaninho acrescentou apressadamente 'tem a ver com o IB'. A porta abriu-se um pouco e o porteiro disse 'com o IB?... vou ver se o podem receber'.

Fulaninho foi recebido por três conselheiros do rei em pleno repasto. Podia cheirar-se o frango assado com que se lambuzavam.

'-Senta-te. Come. Ao que vens?' - perguntaram a Fulaninho que não resistiu ao convite. E enquanto mastigava o delicioso frango, Fulaninho ia explicando como o IB de nada servia...

'Como? Que dizes? Ousas vir até aqui desrespeitar o meu trabalho e o de todos os meus colegas?'

Fulaninho tentou então explicar tudo aquilo que sabia, tudo o que aqueles longos anos sem tecto lhe haviam ensinado. Mas não estava a ter sucesso. Depois de ouvir o último argumento de Fulaninho um dos conselheiros respondeu-lhe:


'-Jovem. Vieste aqui dizer-nos que o IB não interessa. No entanto, de tudo o que dizes, vejo que percebes bem a relação entre o IB e outras grandezas deste reino. Sabes que o número de sapatos está relacionado com o IB. Sabes que os bens que nos chegam das colónias estão relacionados com o IB. Sabes que o número de talheres de prata está relacionado com o IB. Sabes que os números de mestres e de nobres e de padres estão relacionados com o IB. Sabes que o número de casas senhoriais está relacionado com o IB. Sabes que o produto das colheitas do trigo está relacionado com o IB. Sabes que a gravidade das epidemias está relacionada com o IB. E muito mais pareces saber tu acerca das relações de todas estas coisas com o IB. E apesar disso ousas repetir que o IB não interessa? Como não interessa? Se o IB não interessa, o que é que interessa? O que mais pode interessar do que o vinho que se produz, do que as roupas que se fazem, do que as casas que se constróem? A vida é isto. E o IB traduz isto. Agora acaba de comer esse frango, volta para tua casa, reflecte sobre isto e descansa. Pareces agitado, jovem...'

(continua)

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Ó Brigada!...


("crowdfunding")


A Brigada Víctor Jara comemora este ano 40 anos de existência. Eu comemoraria 41, não fosse o facto de gostar cada vez menos de contabilizar as voltas que cada pessoa dá ao sol... Tal como na história do Papalagui... mas isso são outras histórias.

Um dos discos de vinil que os meus pais tinham lá por casa era o "Tamborileiro", da Brigada Víctor Jara, publicado em 1979. Tantas e tantas vezes ouvi aquele disco... E com ele aprendi sem o saber, apreendi, interiorizei, melodias, instrumentos, ritmos, cantares que não eram os mesmos que usualmente se podiam ouvir na rádio. Eu adorava aquilo. E ainda adoro!... Mas só muito mais tarde é que percebi que afinal as coisas que eu tinha interiorizado eram a maneira de as pessoas que moram neste pedaço de mundo a que se chama Portugal fazerem música. Eram "as maneiras", aliás, porque eram muitas e diferentes entre si, ao contrário daquilo que a tendência "ocidentalizante" que leva tudo à sua frente nos quer fazer acreditar.

Muito aprendi e cresci com a música que deles me chegou. Deixo-vos aqui um exemplo, precisamente do Tamborileiro:

"Se quereis alguma coisa, rema que rema, lá em terra falaremos...", porque as contas nunca se acertam quando a vida está em risco e não há espaço para fugas... :)

E por isso mesmo só tenho que lhes agradecer. Não lhes agradeço o seu gosto pela música, nem o facto de a fazerem. Agradeço-lhes sempre que o partilham com os outros.
Agradeço sempre as partilhas...

A Brigada adoptou o nome de Víctor Jara. Víctor Jara era uma pessoa que nasceu num sítio deste planeta a que se dá o nome de Chile. E porque defendia abertamente ideias de esquerda, foi morto pelos de direita. A 11 de Setembro de 1973 o comandante do exército chileno, Augusto Pinochet, liderou um golpe de estado que teve o apoio dos EUA e que o viria a sagrar ditador daquela parcela do planeta Terra até 1990. Imediatamente no dia seguinte o exército de Pinochet fez milhares de prisioneiros, entre os quais Víctor Jara, que acabou por ser morto três dias depois, a 15 de Setembro, aos 40 anos de idade... precisamente.

Víctor Jara morreu aos 40 anos de idade, assassinado, o seu corpo deitado aos bichos, porque defendia o direito de viver em paz. Augusto Pinochet morreu aos 91 anos de idade, de edema pulmonar, no hospital e rodeado pela sua família, porque matou muitos milhares de pessoas.


Você não é nada,
nem chicha nem limonada,
se passa a vida a manusear
a sua dignidade...

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

A alegoria do frango assado (4/6)...

(capítulo 1)

Capítulo 4

Fulaninho nunca mais se esqueceu do dia em que viu pela última vez o mensageiro. Veio anunciar a mais recente subida no 'índice de bem-estar' e as medidas para o novo ano: uma nova descida nos impostos e um novo aumento nas rendas. Foi nesse mesmo dia que Fulaninho fez as malas e zarpou.

Ao longo dos últimos mais de dez anos Fulaninho tinha sabido, através do mensageiro, das subidas do IB 'que tão importantes são para o povo da terra de sabe-se lá onde'. No entanto, em casa dele eram todos os anos os mesmos quatro ou cinco frangos. Os pais, agora com dores nos ossos, continuavam a levantar-se com o nascer do sol para trabalhar nas terras que não eram deles. E alguns amigos seus, os mesmos de sempre, continuavam sem frango assado mesmo no Natal.



Fulaninho estava farto daquilo. Arrancou à procura de outra sorte.

Ele não via nem mais nem menos do que viam os seus: que o IB subia, que não se falava noutra coisa senão nas subidas do IB e nas políticas do rei, mas que na realidade tudo continuava na mesma. Na sua aldeia, o velho Falus Baratus :) lá comunicava todos os anos ao rei o consumo de frangos assados. Todos os anos o consumo era maior. Mas Fulaninho sabia quem tinha aumentado o consumo de frangos... Valis Longus e companhia. Para os outros tudo permanecia mais ou menos na mesma.

No entanto Fulaninho era o único inconformado. Quando nesse jantar insistiu com os pais que eles tinham de se manifestar contra o aumento das rendas, e estes lhe disseram que tinha razão, mas que se o fizessem o senhor Longus trataria de arranjar outros inquilinos, Fulaninho percebeu que não podia suportar mais aquela situação.

Fulaninho transformou-se num vagabundo. Era inteligente, e não perdia a oportunidade de encantar alguém com as suas qualidades. Às vezes conseguia comida e abrigo. Outras vezes dormia na rua, ao frio, com o estômago vazio. Durante anos foi essa a sua sorte.

Para ele tinha valido a pena. O mundo revelara-se-lhe. Era essa a sua recompensa. E não a trocava nem por cem frangos assados! Ao longo das suas deambulações tinha descoberto coisas que nunca poderia ter conhecido lá na sua aldeia. Fulaninho cruzou fronteiras, conheceu a 'terra de cima' e a 'terra de baixo', dormiu com filhas de nobres (inclusive uma vez fez-se passar por um!), aprendeu a fazer sapatos, teve de roubar para comer... Via as diversas facetas da verdade. Viu como era importante para os senhores das terras ter mais poder sobre os seus inquilinos e como ficavam doentes quando estes lhes estragavam os campos ou lhes secavam os poços. Percebeu como esses senhores, as escolas, os mensageiros e o IB nada significavam para quem não tinha onde dormir ou o que comer.

Tinha conhecido pessoas que comiam tanto frango assado como o rei, que tinham o poder de distribuir o frango assado excedentário pelos que lhes prestavam vassalagem. Mas tinha igualmente conhecido quem nunca tivesse provado frango assado. Perto da fronteira com a 'terra de baixo' tinha conhecido uma comunidade de pessoas a quem o frango assado fazia azia. Noutra ocasião conheceu uma família que dizia que frango assado era para os que não conheciam a 'verdadeira cozinha'. Esses comiam pato assado. E na 'terra de cima' percebeu que a religião do povo não permitia a ingestão de aves de qualquer espécie.

Fulaninho confirmou de todas as formas as suas já antigas suspeições. o IB era uma falácia. Era um indicador do bem-estar, sem dúvida, mas só para algumas pessoas.

(capítulo 5)

Dependências involuntárias...

Ou "como as coisas boas estão sempre ligadas a coisas más"... e como é necessário ter força para suportar as más, se queremos também as boas... Temas que já aflorei no passado, por exemplo aqui.

Esta é a gata que me tem feito companhia nos últimos meses em casa do meu pai, durante as obras:
Enquanto trabalhava no exterior da casa, ela apanhava sol aninhada sobre o capô de algum carro. E, tal como na história da raposa do principezinho, foi-se chegando. E agora gosta de dormir no meu colo... logo o meu! que sou alérgico a gatos!...

Um dia eu partirei. Para ela será de repente, e sem explicação. Sentirá a minha falta? Ficará ressentida? Que posso eu fazer?...

Em Valongo, em 2007, escrevi assim:

É difícil o amor

Dei-te tudo o que pude
enquanto pude.

E agora, que estou esgotado,
espero em troca a tristeza
pela fonte que secou.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

A alegoria do frango assado (3/6)...


(capítulo 1)

Capítulo 3


Após os primeiros anos de construção e publicação sistemática do IB os conselheiros do rei começaram a perceber que não existia uma relação directa entre as medidas e as expectativas do rei e a evolução do indicador. Chegou mesmo a acontecer que em anos em que o rei mais apostou na subida do IB, ele desceu, e em anos em que o rei se desleixou, o IB cresceu mais do que o habitual.

Das reflexões que se seguiram acabou por ser constituído um grupo de estudo incumbido de averiguar precisamente qual a relação entre as medidas que o rei tomava e a respectiva evolução do IB. Ao fim de trinta e duas semanas de trabalho árduo o grupo chegou à sua primeira conclusão: não havia aparentemente qualquer relação entre as medidas adoptadas e a evolução do IB! No entanto, o grupo tinha descoberto algo verdadeiramente espantoso: nos anos em que chovia menos, o IB não crescia tanto, chegando mesmo a descer se desse alguma praga nos animais.

Entusiasmados com as suas novas descobertas, o grupo de estudo e os conselheiros do rei logo lhe propuseram a manutenção dos fundos de apoio às suas actividades. E assim surgiu o CEES - Centro de Estudos Económico-Sociais da 'terra do sabe-se lá onde'.

Pouco tempo depois o CEES já tinha constatado a existência de relações entre dezenas de variáveis - a pluviosidade, a taxa de imposto, o número de feriados, as rendas pagas pelas terras, a taxa de natalidade, a saúde dos animais, a emigração, os bens que chegavam das colónias, o número de escravos, o número de moedas de ouro cunhadas, o número de sapatos produzidos, etc. - e a forma como todas estas relações influenciavam as descidas e as subidas do IB.

Apoiado pelo produto dos seus mais brilhantes pensadores, o rei sentia-se cada vez mais confiante nas medidas que tomava. E tinha razões para isso: o IB crescia de uma forma cada vez mais consistente (alguns conselheiros diziam que o IB crescia 'sustentadamente'). O rei estava orgulhoso de si. Nesse ano decidiu baixar os impostos e aumentar as rendas - os estudos do CEES demonstravam sem margem para dúvidas que tais medidas fariam subir o IB.

(capítulo 4)

domingo, 18 de janeiro de 2015

Janeiro lento - Celina: take five...

No penúltimo disco da Celina da Piedade, "Em Casa", está incluído o tema "Janeiro lento em Lisboa". Uma vez que o vídeo que se segue foi gravado em 2011, o tema terá sido provavelmente composto em Janeiro desse ano. Janeiro lento, em qualquer parte do mundo:

Celina da Piedade - "Janeiro lento em Lisboa" (quarto) from MPAGDP on Vimeo.

Um tema que já abordei no passado (por exemplo aqui) é o de que o conhecimento só acrescenta à nossa experiência: quanto mais se sabe, mais se gosta. Em relação à música, não tenho dúvida alguma que o ser capaz de ouvir as muitas coisas que nelas há para ouvir só torna a experiência melhor, de diversos pontos de vista. Dissecar os gostos é algo que desgosta muita gente. Mas só assim poderemos compreender porque é que gostamos e desgostamos. Explicar o que se sente, juntando pensamento e sentimento, além de nos tornar mais íntegros, torna-nos mais conhecedores de nós próprios e do mundo.

E agora... vou dissecar!...

O tempo desta música é 5/4. As primeiras notas da melodia soam mais ou menos assim. Ou seja, temos conjuntos de 4 notas, mas a quarta nota de cada conjunto demora o dobro das restantes. Portanto é como se em cada conjunto existissem 5 notas. Se, pelo contrário, a quarta nota demorasse o mesmo que as restantes, a música soaria mais ou menos assim, tendo um tempo de 4/4.

A música que normalmente ouvimos em Portugal (a que se ouve nas rádios e nas televisões, a que se compra nas lojas, a que se ouve nos elevadores e nos supermercados, a que acompanha a publicidade...) é quase toda em compassos binários, ternários ou quaternários. O mesmo se passa com as músicas deste mundo a que resolvemos chamar de "ocidental". Um compasso quíntuplo é, portanto, e para nós, um compasso esquisito, fora do comum, e que como tal classificamos de complexo.

Note-se, porém, que noutros sítios deste planeta, e noutras culturas, uma vez que as culturas não têm propriamente sítio, tempos de 5/4, 5/8, 7/8, 9/8, 11/8 e por aí fora são muito comuns. Por exemplo, se ouvirem as músicas tradicionais búlgaras deste pacote, poderão reparar que muitas músicas são em 7/8. Ou poderão ter dificuldade em reparar nisso, mas certamente constatarão que não se enquadram nos nossos conhecidos compassos binário, ternário ou quaternário.

(Já agora, a Celina também lá põe no mesmo cd duas valsa a 8 tempos e outra música cuja batida também é no conjunto 3+3+2, mais uma coisa esquisita. Ide lá investigar)

Se atentarmos agora às notas mais graves (tocadas pela mão esquerda) notaremos que os acentos são colocados mais ou menos assim ou, se quisermos, assim. Isto significa que cada conjunto de 5 notas pode ser agrupado em 3+2. Outra forma de reparar nisso é atentar à linguagem corporal da Celina: toda ela é movimento 3+2! É uma maneira de o fazer, mas naturalmente poderia ser de muitas outras maneiras. No final haverá um exemplo alternativo.

O modo como este tempo 3+2 é bem marcado ao longo de toda a música faz dela uma óptima música para dança... digo eu!

Ainda numa análise objectiva, a escala adoptada começa em Lá e é uma escala menor natural (a que pelos vistos também se dá o nome de modo eólio). Soa assim. Se fosse uma escala maior em Lá soaria antes assim. O efeito que tem sobre nós uma escala menor já é algo mais subjectivo e até certo ponto culturalmente determinado.

Finalmente, a Celina enfia-nos uma pequena surpresa a meio da melodia, que é a introdução da nota Si bemol no primeiro vaivém às notas altas, e que perdura até ao final dessa frase melódica. Estou-me a referir a esta nota aqui. Mesmo não estando muito atento, nota-se que há uma variação, alguma coisa que muda... e isso enriquece a música.

A minha análise subjectiva desta música é que ela é ao mesmo tempo alegre e triste, ou uma mistura dos dois. As voltinhas das notas mais agudas a irem para cima e para baixo são como que os altos e baixos, as alegrias e as tristezas que vão ocorrendo ao longo do tempo, que passa sempre sem parar... conforme as notas mais graves nos transmitem. A cadência e as repetições da música acentuam esse efeito, tal como a repetição com que ela termina... Como se o tempo fosse um comboio que não pára nunca... e afinal o que é lento não é Janeiro, nem é Lisboa, mas somos nós, é a nossa vida!

Provavelmente é obra do acaso, mas a mão esquerda é a que está mais iluminada e visível, e é também dela que gosto mais nesta música...

Uma música bonita. Celina: take five!



(que é uma maneira de acabar com outra música em 5/4, mas desta vez as notas agrupam-se em 2+1+2. uma forma de o sentirmos é tentarmos dançá-la, notando que se dança bem com um passo lento, depois um rápido, depois outro lento, e voltando ao início)

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

A alegoria do frango assado (2/6)...

(capítulo 1)

Capítulo 2



Fulaninho da Silva veio ao mundo senhor de alguns cabelos na careca e um vozeirão capaz de irritar mesmo as mães mais babosas. Nada mais lhe pertencia. Nada mais seus pais lhe puderam dar.

Seus pais trabalhavam a terra que não era deles. O pai lá ficava nos campos, de sol a sol. A mãe só lá trabalhava durante as manhãs. De tarde voltava para casa e fazia os restantes trabalhos domésticos. Fazia questão de ter a casa sempre limpa. Além disso guardava sempre 'um pouco do melhor' para quando lá fossem visitas: alguns frutos secos, algum vinho. Só não tinha era frango assado. Não que ela não quisesse. Não que não estivesse disposta a suportar o seu custo só para agradar aos convidados. Mas o frango estragava-se...

Fulaninho cresceu. Quando fez seis anos os seus pais decidiram mandá-lo para a escola. Faziam questão que o seu filho não tivesse a mesma vida que eles, custasse o que custasse. Fulaninho era uma criança irrequieta e curiosa, cheia de vida. Queria saber tudo. Perguntava tudo aos pais. E os pais, mesmo que não soubessem responder, lá lhe contavam a sua versão das coisas, só para não darem parte de fracos. Fulaninho tinha muita confiança e muito orgulho nos seus pais.

Certo dia, já tinha Fulaninho dez anos de idade, chegou à aldeia onde morava um senhor a cavalo, muito bem vestido. Parou na adro do pelourinho e tocou uma corneta muito barulhenta. Quando se certificou que tinha captado a atenção dos habitantes, sacou de um papel que trazia enrolado, e à medida que o desenrolava ia dizendo em voz alta: que o rei tinha morrido, que o novo rei era tal e tal...

Fulaninho perguntou aos seus pais se isso era bom. Os pais não sabiam... Disseram-lhe que era assim... que para eles pouca diferença fazia... que as coisas só podiam melhorar...

Poucos meses depois o senhor do cavalo e das vestimentas voltou para anunciar as medidas que o novo rei tinha tomado. Explicou como se havia de eleger um representante para comunicar anualmente ao rei o número de frangos assados consumidos naquela aldeia. É claro que Fulaninho ficou intrigado.

'-Ó pai, para que é que o rei quer saber quantos frangos assados comemos?'

Lentamente Fulaninho começou a perceber que os pais afinal não sabiam tudo. E também não era na escola que saciava a sua curiosidade. Mas Fulaninho não desistia... queria saber, tinha de saber. E lentamente começou a construir o seu próprio rumo, por onde acabaria por ir sozinho.

Quatro anos passaram. Por essa altura, no início de cada ano, o mesmo senhor do cavalo já era aguardado com expectativa por todos. Vinha comunicar a variação no IB e as novas medidas adoptadas pelo rei. Na escola os colegas mais novos de Fulaninho já aprendiam o que era o IB. Na aldeia já todos compreendiam o que era o IB e sabiam como era importante que o IB aumentasse. Assim, se o mensageiro anunciava uma descida no IB, todos ficavam deprimidos, ansiosos, expectantes, todos tratavam de poupar e gerir melhor os seus haveres. Se fosse anunciada uma subida, todos reforçavam as suas impressões de uma melhoria nas suas vidas e logo os homens iam comemorar para a tasca.

Na família de Fulaninho comia-se frango assado nas ocasiões especiais: no Natal e nos aniversários do pai. Eventualmente, se a dignidade de algum convidado justificasse, lá se comeria um frango assado extra. Fulaninho dava-se por satisfeito. Sabia que nem todos os seus colegas de escola tinham a mesma sorte. Alguns nunca comiam frango assado. No entanto, sabia também, porque volta e meia se falava disso, que o filho do pároco comia para aí uns cinco ou seis frangos por ano! E não era o único: também havia o filho do senhor doutor e os filhos do Valis Longus, o senhorio dos pais e de todos os vizinhos.

Fulaninho cresceu, trilhando solitário o seu próprio rumo. Foi descobrindo que algumas das coisas que se falavam na escola não eram verdadeiras. Mas foi percebendo também que as desigualdades eram muito mais relevantes e consequentes do que havia julgado. Nem todos na aldeia comiam o mesmo número de frangos. E quando as coisas melhoravam, não melhoravam de igual forma para todos. E por muito que os pais trabalhassem, com as costas cada vez mais vergadas e as rugas cada vez mais sulcadas, lá em casa nunca se comiam mais de quatro ou cinco frangos por ano.

(capítulo 3)

sábado, 10 de janeiro de 2015

A alegoria do frango assado (1/6)...

Uma história, ou estória se quiserem ser mais chiques, que escrevi há exactamente dez anos atrás (como o tempo voa!...). Tem seis capítulos. Aí vai o primeiro:


Capítulo 1

Era uma vez um reino perdido nas montanhas da 'terra do sabe-se lá onde'. Depois de uma série de reinados despóticos, chegou ao trono um rei complacente que elegeu como prioridade do reino a melhoria das condições de vida do seu povo.

Mas, na realidade, o rei não fazia sequer ideia de como vivia o seu povo: se vivia bem ou mal e quais as suas carências. Depois de pensar um pouco sobre isso (não muito, que os reis cansam-se depressa), e considerando que o reino de cem quilómetros quadrados era demasiado vasto para ser pessoalmente percorrido de lés a lés (uma vez que, como disse, os reis cansam-se depressa), o rei decidiu reunir os seus conselheiros e debater a questão.

Os conselheiros reuniram então com o seu rei. O objectivo era arranjar um modo de aferir sobre as condições de vida da população. Muitas ideias foram lançadas para o debate (naquilo que hoje se chamaria um 'brainstorming' ou, se quiserem, uma 'tempestade cerebral'): seria permitido às pessoas enviarem cartas directamente para o rei a exporem os seus problemas, seria eleito um representante em cada aldeia que faria anualmente uma exposição das carências aí verificadas... Até que um dos conselheiros disse que não concordava com nada daquilo.

Segundo Numerus Clausus (era este o nome do conselheiro), não se deveria determinar o estado em que a população vivia através dos relatos das diversas pessoas. Não se deveria confiar de todo nesses relatos, dizia. Clausus era a pessoa certa para fazer tal afirmação. Lá na corte era o elemento mais introvertido e misantropo. Ficava dias e dias encarcerado na sua cela, profundamente mergulhado nas suas tábuas de 'números cósmicos', que segundo ele podiam explicar todos os fenómenos observáveis.

Clausus defendia que deveria haver um processo mais objectivo para determinar as condições de vida da população. Um conselheiro sugeriu então que se contassem os bens que cada pessoa possuia. Mas claramente, retorquiu logo outro, não faria sentido atribuir o mesmo significado a uma batata ou a uma casa. Foi então que o rei se lembrou de que no seu reino era usual comer-se frango assado. E uma vez que os frangos assados não eram tão baratos como as batatas, nem tão caros como as casas, podia-se contar o número de frangos assados que cada pessoa comia - esse número daria uma ideia de como as pessoas viviam.

Claro que ele, o rei, comia frango assado dia sim dia não, e só não comia mais porque se aborrecia de estar sempre a comer a mesma coisa. À sua volta os elementos da corte comiam bastante frango assado, embora não tanto como o rei. No entanto, o rei não conhecia ninguém que não comesse, pelo menos de vez em quando, frango assado.

Depois de se limarem uma data de arestas, o rei e os seus conselheiros chegaram à seguinte conclusão: seria construído um 'índice de bem-estar da população'. Para esse efeito, todos os anos, numa data precisa, os representantes de cada comunidade comunicariam ao rei o número de frangos assados comidos durante o ano. Os conselheiros do rei calculariam então uma média ponderada pelo número de homens de cada comunidade (as mulheres e as crianças só mais tarde é que foram consideradas).

O rei ficou feliz com a sua decisão. No primeiro ano o número médio de frangos assados consumidos por pessoa foi de três. O rei não fazia ideia se isto era bom ou mau. À primeira vista pareceu-lhe péssimo, uma vez que ele próprio consumia anualmente mais de cem frangos assados. Mas depois pensou que o seu povo não podia viver assim tão mal... ele é que vivia muito bem, pois claro! E como não tinha termo de comparação, o entretanto baptizado IB - índice de bem-estar - assumiu nesse primeiro ano o valor de 100.

Ora, pensou o rei, se o objectivo é melhorar as condições de vida das pessoas, só tenho que fazer com que o IB cresça. Nem o rei nem os conselheiros sabiam quanto é que o IB devia crescer, mas rapidamente se habituaram à ideia de que o IB devia crescer... e isso era tudo!

Os anos passaram. O rei, sempre complacente, assinou acordos de paz com os seus vizinhos e tomou algumas medidas que lhe pareciam poder beneficiar o seu povo. O IB lá foi crescendo, paulatinamente. Na corte, todos os anos, já se ansiava pela divulgação do novo valor do IB. E quando a conversa era sobre o reino, o IB vinha sempre à baila: porque o IB sobe, porque o IB desce, não se pode fazer isso por causa do IB, o IB para aqui e o IB para ali.

(capítulo 2)

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

O detector de tretas - complemento...

Aqui está um curto vídeo (como aparentemente todos os vídeos hoje em dia têm de ser se os seus autores querem ter alguma audiência) que explora uma questão que levantei no meu artigo sobre o detector de tretas e que é: como é que podemos saber as coisas que sabemos?...



Conforme afirmei, sejamos nós crentes ingénuos ou cientistas cépticos, aquilo que aceitamos como realidade é sempre uma questão de fé. Sempre.

Isso não quer dizer, contudo, que é indiferente para nós acreditarmos numa ou noutra versão distinta das coisas. Acredito eu! Há consequências sérias de acreditar em coisas que não se ajustam bem à realidade. Acredito eu!... E nunca poderemos saber se esta minha crença é verdadeira ou não, mas se continuarem a acreditar que o Passos Coelho é um porreiraço e voltarem a votar nele, eu aposto que continuarão a ter as dificuldades económicas que agora têm... É uma maneira de testar!

E testar é importantíssimo para construirmos um bom detector de tretas.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

TV Rural - a dar-nos música pela barba...

É bom saber que há música a surgir à nossa volta em todos os sabores...


Estes sabores, para mim diferentes dos que a música portuguesa costuma ter, e bons, podem ser lidos e ouvidos com mais extensão e intenção neste site:

http://tvrural.bandcamp.com/

querias viver a vida a dormir
...
sem o ruído da razão
a moldar-te a percepção
...
e ainda dizes que nada disto te é sentido.
olha que bem!
...
nunca me fez tanto sentido
cantar canções de intervenção,
basta olhar à volta
...
e não aceitar
que a voz se apague pelo cansaço
...
mas olha, não te vás embora,
junta-te a mim!
mas olha, não te vás embora,
junta-te a mim!
...

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

O homem que plantava árvores...


Uma pequena animação que tive oportunidade de ver há uns meses atrás. Para lá da interpretação ecológica que pode ter, eu entendo-a como uma apologia à perseverança, à recompensa adiada, à dádiva, à luta, à poesia... ao seguir-se aquilo em que se acredita, independentemente das circunstâncias, movido pela esperança, senão apenas pelo sentido do dever cumprido, pelo ter de ser, pela procura da paz interior que nos assoma quando deixamos sair de dentro o que queríamos que fosse.

Todo o altruísmo é egoísta, pois sim, mas nem todo o egoísmo é altruísta. Terá o Adolfo, aquele do bigode, sido um homem que plantava árvores?... Levando a sua perseverança avante com chuveiros de gás?... Apesar do mundo... ou até contra o mundo?...

É assim que a utopia não é boa apenas por ser utopia, independentemente de saber se lá chegaremos ou não. É assim que a perspectiva ecológica ganha a sua importância, juntando a força para fazer à beleza do que se quer fazer. Cada um destes não é nada sem o outro.

E a metáfora de plantar árvores, já a conhecemos. Semeiam-se e plantam-se coisas vivas, que crescem e proliferam por seu próprio pé, por direito próprio. Plantam-se árvores porque elas demoram a crescer, bem mais do que nós demoramos a morrer, e porque nos são belas... De algum modo não imaginamos um homem que plantava árvores a trabalhar em plantações de eucaliptos... nem de acácias...

De algum modo, mesmo que nunca tenhamos ido a uma verdadeira floresta, as histórias de encantar já nos terão levado a extensos soutos, já nos terão levado a trepar pelos ramos de algum imenso carvalho centenário, já nos terão deitado à sombra de uma majestosa faia... São essas as árvores que vemos o homem a plantar. As que nos são mais belas.

De resto, como já alguém disse, as revoluções são cozinhadas pelos idealistas e sonhadores, servidas pelos lutadores e convictos, e comidas pelos homens práticos. E há já algum tempo que a boa psicologia positiva que nos tenta acossar advoga:

Sê prático, inteligente:
se alguém o fará por ti,
deixa o trabalho duro
e colhe o fruto maduro
da vida, simplesmente.

O mundo é uma maçã.
Alguém plantará hoje
as macieiras donde
comeremos amanhã.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

O detector de tretas...

Uma das coisas que mais me aflige em relação ao futuro da humanidade é verificar que as minhas previsões em relação à evolução da sua clarividência parecem confirmar-se, ano após ano. As previsões não são apenas minhas, de resto. De facto, à medida que os anos passam e que a escolaridade média da população com quem mais contacto (directa ou indirectamente) aumenta, à medida que o acesso à informação se torna cada vez mais simples e rápido, a clarividência da população não aumenta.

Esta não é uma afirmação científica, uma vez que não se baseia em nenhum estudo. É apenas a minha percepção. No entanto, poderia escrever um livro inteiro com exemplos do modo como as pessoas não desenvolveram como deveriam o seu detector de tretas, como lhe chamava Hemingway. E tivesse eu os recursos, estou certo que os estudos resultantes confirmariam esta percepção.

Detectar tretas não é algo que se possa fazer sem treino. Nenhum de nós nasce com um detector de tretas. Até o próprio conceito de treta tem de ser aprendido. E como não gosto de guerras de palavras, entendo aqui por treta, num sentido lato, todas as atitudes, acções e omissões, incluindo palavras, que um qualquer sujeito emprega para consciente ou inconscientemente nos enganar, isto é, para nos fazer acreditar em algo que não pode ser considerado verdadeiro.

É preciso muito treino para perceber as tretas do Passos Coelho. É preciso muito treino para perceber as tretas que nos chegam pelos noticiários na rádio, no jornal ou na televisão, todos os dias, e que nos são apresentadas como a mais suma verdade, verdadinha!

É preciso muito treino para perceber que forrar as estradas com lombas que ao serem pressionadas pelos automóveis que passam produzem energia que abastece os lampiões é uma treta. Não é que isso não se possa fazer! Pode, claro que sim. Mas é uma treta acreditar que isso é uma boa ideia ou uma boa coisa para se fazer.

É preciso muito treino para se perceber que a caridade é uma treta. Muito treino mesmo!... E é preciso ainda mais treino para perceber que o discurso da meritocracia ou do aumento da produtividade também são tretas.

A lista de tretas que devíamos ser capazes de detectar é infinita... assim um infinito da mesma ordem de grandeza que a infinita estupidez humana que o Einstein referia. Precisamente porque todos os dias há imensos seres humanos a inventar imensas novas tretas. Às vezes com malícia, às vezes sem malícia nenhuma... por simples ignorância.

Ao longo dos anos envolvi-me em muitas conversas em que alguém, já lá mais para o final, acabava por depositar as esperanças de um mundo melhor (fosse lá o que isso fosse) na educação das pessoas. Estas conversas, já se sabe, pressupõem sempre que os oradores são os detentores da verdade... Mas pronto... temos de ser benevolentes, se queremos uma boa e longa conversa à volta da fogueira, caso contrário a conversa termina logo num batente de cepticismo. Mas estas conversas assumem igualmente outros pressupostos, como por exemplo o pressuposto de que as pessoas não sabem o que precisam de aprender, se quisermos nem sequer sabem o que andam a fazer na vida, e que outros devem chegar-se à frente para lhes indicar o caminho.

Mas o mais engraçado desta ideia é precisamente que ela não passa de mais uma treta. Acreditar que um mundo melhor é uma consequência necessária do aumento da duração da educação formal das pessoas é uma treta. E acreditar que as pessoas podem aperfeiçoar o seu detector de tretas com mais anos de educação formal é também uma treta. O facto de gente muito instruída apregoar aquela primeira treta é só por si demonstrativo desta segunda treta.

A resposta sobre o que acontece quando a nível de educação da população aumenta depende, como é evidente, daquilo que entendemos por educação, daquilo que as pessoas estão efectivamente a fazer enquanto se “educam”, das condições que encontram no mundo para pôr em prática as suas ideias, etc, etc, etc.

E um problema que a educação formal que eu conheço tem é precisamente que em vez de ajudar as pessoas a desenvolverem o seu detector de tretas, desenvolve nas pessoas mecanismos de aceitação dócil de tretas! Vou mais longe, aliás, para dizer que aquilo que eu conheço do ensino formal em Portugal me leva a concluir que o ensino trata, ele mesmo, de enfiar uma data de tretas na cabeça das nossas "proto-pessoas"! Poderia listar um conjunto fastidioso dessas tretas...

É uma treta acreditar nos argumentos de autoridade que são inerentes ao ensino: a palavra do professor vale mais que a palavra do auxiliar de educação que por sua vez vale mais que a palavra do aluno; o que está escrito vale mais do que o que é dito, o que está escrito num texto bonito ou em bom português vale mais do que o que está escrito a vermelho nas costas de um envelope, o que está escrito num livro é quase certamente verdadeiro, o que está escrito no jornal é mesmo verdadeiro... Enfim, não vou continuar com estes exemplos.

Mas então como é que se faz para desenvolver o detector de tretas?

Do meu ponto de vista isso consegue-se apenas com método e tempo. Por isso falei atrás em treino, que me parece uma boa analogia. O método poderia dizer que não é mais nem menos que o científico. Isso parece pomposo, mas não é nada! É até bastante simples. Implica ser capaz de aceitar que não se sabe sobre um determinado assunto. Implica ser capaz de conviver bem com a dúvida. Implica ser capaz de rever tudo aquilo que podemos considerar as nossas certezas em função das novas informações que nos vão chegando e de estar disposto a deixá-las cair para aceitar uma outra versão das coisas. Implica ser curioso e querer sempre saber mais. Implica imaginar hipóteses sobre a realidade que nos rodeia. Implica não tentar “demonstrar” ou “provar” essas hipóteses, mas pelo contrário tentar refutar essas hipóteses (assim no estilo “eu acho que isto não parte, mas deixa-me testar... olha! partiu!”).

Como dizia alguém, que eu já não me lembro quem era, ciência é o que qualquer pessoa faz quando come uvas: come uma e avalia a sua doçura, come outra... e logo logo estará a extrapolar que as restantes uvas são todas como as primeiras... mas percebe que há alguma variabilidade nas uvas e de qualquer modo não está certo da sua extrapolação (que podemos chamar indução) e portanto vai provando mais uma e mais outra...

Provavelmente toda a gente que me lê está a pensar neste momento: ah, mas eu faço isso tudo! Eu afinal encaro o conhecimento e a sua aquisição de um ponto de vista científico!... Eu sou um cientista!

Infelizmente, na maior parte dos casos, não é isso que realmente se verifica. O ser humano precisa de colo, de mimo, de afago. E isso, ao nível da nossa mente, significa que todos gostamos de ter as nossas âncoras, as nossas certezas inabaláveis. Gostamos de andar pela nossa cabeça como quem anda numa casa de olhos fechados, sabendo exactamente o que é que lá está.

E é assim que as pessoas escolhem os seus gurus. Quase toda a gente que conheço tem os seus gurus. O que o guru diz ou faz é que é bom, é que é verdadeiro, e por aí vamos... Os gurus são intelectuais de alta roda (normalmente isso implica uma imagem de gente um pouco doida, que se deita muito tarde, que não dispensa uma droga qualquer de vez em quando e que tem outros comportamentos excêntricos), são cantores populares, são políticos, são escritores de livros...

É assim que as pessoas escolhem também as suas religiões. E uma data de outras coisas.

É assim que as pessoas dizem “prefiro nem saber!”. É assim que gostam de ler livros de autores já conhecidos, ver filmes com formatos já dominados, ouvir músicas com batida de quatro por quatro, bateria e guitarra. E é assim que quando os turistas portugueses vão até à Tailândia e a camioneta os deixa no centro da capital para almoçarem onde entenderem, eles logo correm para o primeiro restaurante português que encontram.

Mas para além desta “cientificidade” do método, ele possui um outro aspecto fundamental e que tem a ver com a selecção daquilo que se considera verdadeiro. É aqui, do meu ponto de vista, que a porca verdadeiramente torce o rabo!

A questão é que mais tarde ou mais cedo, no processo de interacção entre a nossa cabecita e o mundo, chega o momento em que temos de optar por aquilo que consideramos verdadeiro, rejeitando o resto. Temos de decidir se continuamos a acreditar que o Passos Coelho é uma pessoa escorreita apesar de termos um tipo à frente que nos tenta fazer acreditar que ele é um energúmeno. Temos de decidir se acreditamos na versão da CNN ou na versão da Al Jazeera da mesma notícia. Temos de decidir se é melhor acreditar no fazedor de opinião que está na moda ou se devemos começar a pensar pela nossa própria cabeça e começar a procurar informação noutras fontes.


A verdade é que, por mais científicos que sejamos, e mesmo para os que se apelidam de cientistas, quando se trata de decidir pela versão A ou pela versão B da mesma realidade, a nossa escolha é sempre uma questão de fé. Sempre. Nem que seja fé nos resultados da experiência super controlada que nós próprios acabámos de realizar.

O busílis da questão é então o de saber como nos haveremos de conduzir nestas tomadas de decisão, por que caminhos e como haveremos nós de conduzir a nossa fé.

Como já disse, há quem conduza a sua fé indo atrás de um guru qualquer e já está!

Se, porém, queremos desenvolver um bom detector de tretas, devemos conduzir a nossa fé por comparação com todo o nosso conhecimento e toda a nossa experiência adquirida. Devemos, conforme já referi, ter uma atitude científica e submeter ao teste mesmo as certezas que consideramos mais inabaláveis. E ir, desse modo, acumulando um conjunto de conhecimentos que podemos considerar “testados”. Cada nova decisão que tenhamos de tomar deverá ser então feita através de comparação com esse conhecimento adquirido.

No entanto, há proposições que são para nós quase impossíveis de testar: por exemplo, como poderemos testar, sem nenhum auxílio mirabolante, a influência que a posição dos planetas tem na nossa vida? Ou como poderemos nós testar se o Passos Coelho é um aldrabão?... As decisões que tomarmos acerca destas hipóteses ficarão acumuladas como conhecimento “não testado”. Não deixa de ser conhecimento. Mas o facto de não podermos testar algumas das coisas em que decidimos acreditar, deve-nos fazer desconfiar um pouco mais delas.

O tempo é então essencial para permitir a confrontação do nosso conhecimento adquirido com as novas realidades que vamos vivendo, para permitir o estabelecimento de ligações entre todos estes dados que estão à partida mais isolados, para permitir, enfim, a constituição de uma rede de referência, um crivo de referência, um detector de tretas, através do qual devermos fazer passar tudo o que nos dão.

Este é um processo que é intimamente pessoal. Ninguém pode criar noutra pessoa um bom detector de tretas. Não é algo que se ensine. Só com vontade própria se chega lá...

Resta então saber se, para cada um de nós, isso valerá a pena.

Infelizmente, do meu ponto de vista, eu sei que há muitíssimas pessoas para quem isso não vale a pena. A questão, como outro alguém dizia, não está no que as pessoas passivamente desconhecem, mas naquilo que activamente não querem conhecer! As drogas, num sentido lato, desde as viagens rápidas às séries televisivas, passando pelos cafés, são demonstrações de como as pessoas preferem mimos a quererem conhecer a por vezes dura realidade dos factos.

So... help us God.


domingo, 12 de outubro de 2014

Para o meu filho, que ainda não nasceu...

Se soubesses como és querido, filho...

Aqui, por todo o lado, todos te querem, filho. Preocupam-se que não nasças, dizem que a natalidade está muito baixa. Por isso desejam bebés e querem-te a ti também, filho.

Alguns têm medo de não ter dinheiro quando já não puderem trabalhar, e contam contigo para trabalhares para eles. Ficarás então incumbido de trabalhar muito e bem para os outros. Quanto mais próximas as pessoas forem de ti, mais quererão que trabalhes muito e bem. Chamarão a isso sucesso. E para que possas ter muito sucesso, essas pessoas quererão que aprendas muitas coisas. Mas as coisas certas! Não quererão que aprendas a falar mirandês, que isso não serve para nada, mas inglês, que é a língua dos negócios. Não quererão que aprendas a questionar, não vás tu questionar o mundo e questioná-los a eles, mas antes quererão que decores, enumeres e nomeies todas as coisas, para assim poderes deixar de pensar nelas enquanto te tornas num campeão da trivialidade que lhes é tão querida. Não quererão que aprendas na rua, nem com os amigos, nem com os pais, muito menos na tua própria vivência, mas sim num instituto de renome que emita diplomas valorizados pelos mais poderosos do planeta.

Dir-te-ão que é tudo para o teu bem, filho. E para o teu bem tentarão fazer de ti o super-homem...

Por aqui, por todo o lado, todos te querem muito. Há quem se sinta mal num mundo com poucas crianças, sabes? Dizem que as crianças são alegria, porque já não a conseguem encontrar em si próprios ou à sua volta, no mundo dos adultos. Perderam a alegria e a esperança de a encontrar ou construir. E por isso dizem que as crianças são esperança. Mas não tenhas tu tantas esperanças, filho, porque não te irão deixar construir um mundo melhor. Enquanto fores criança, precisamente quando virem em ti a esperança com pernas, dir-te-ão que não, que não podes, porque não sabes, porque não atinges, ainda tens muito para aprender. Depois, quando já fores maior que a esperança deles, dar-te-ão todas as justificações para que nunca possas mudar nada, para que nunca corram o risco de perder o que já têm e para que nunca entendas que afinal o medo deles foi sempre muito maior que a esperança.

Ficas então a saber, meu filho, que te quererão muito enquanto bebé, mas que depois te quererão cada vez menos, e estarão prontos a deitar-te ao lixo quando fores velho. A menos que trabalhes muito e bem. Que tenhas muito sucesso. Mas não te enganes: trabalhar bem não significa fazer as coisas bem feitas. Significa ganhar muito dinheiro. Só isso. Depois, se tiveres muito sucesso, poderás então ajudar muita gente. Ajudar não significa motivar, alertar, cooperar... significa apenas dar dinheiro. Os teus próprios familiares, quando não tiverem forças para tomarem banho sozinhos, preferirão que tenhas sucesso e lhes compres um robot a que lhes dês o banho tu mesmo.

Mas como te querem, filho... Precisam de bebés para se entreterem, porque eles nunca foram capazes de se entreter por sua conta. Cedo lhes mataram a curiosidade e eles nada fizeram para a ressuscitar. Por isso irão deliciar-se com a tua curiosidade. Mas também a irão matar, filho... Para o teu próprio bem! Porque este mundo está cheio de perigos, dizem. Eles nunca os viveram, mas sabem bem que é assim, porque os vêem todos os dias na televisão. Assim, porque te querem muito, nunca te deixarão andar sozinho na rua, nem sequer acompanhado pelos teus amigos. Dar-te-ão instruções para nunca falares com estranhos de tal modo que todos à tua volta continuarão a ser estranhos pela vida fora. Todas as esquinas ficarão protegidas com peças de plástico e borracha, as facas os medicamentos os electrodomésticos o isqueiro ficarão trancados a sete chaves, e tu próprio andarás escudado em capacetes e cotoveleiras. Porque eles sabem que este mundo é mesmo muito mau, depositar-te-ão numa redoma, a ti e à esperança, e farão o possível e o impossível para que nunca tenhas de aprender a viver no mundo real e para que nunca chegues a saber ao que sabe o sangue.

Por minha conta, meu filho, serás muito amado. Como se fosse uma parte de mim. Porque o serás. Serás amado pelos teus genes e pelo orgulho que me darás ao espalhares pelo mundo o tanto que te quero ensinar. Serás tão amado quanto fores eu.

Só não penses que virás ao mundo para o fazeres teu, ou sequer para seres tu.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Os ricos, os ricos...




A este monumento da Manuela, se pudesse, Almeida Garrett, numa passagem de "Viagens na minha terra":

"Andai, ganha-pães, andai; reduzi tudo a cifras, todas as considerações deste mundo a equações de interesse corporal, comprai, vendei, agiotai. No fim de tudo isto, o que lucrou a espécie humana? Que há mais umas poucas dúzias de homens ricos. E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar a miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico? - Que lho digam no Parlamento inglês, onde, depois de tantas comissões de inquérito, já devia andar orçado o número de almas que é preciso vender ao diabo, número de corpos que se tem de entregar antes do tempo ao cemitério para fazer um tecelão rico e fidalgo como Sir Robert Peel, um mineiro, um banqueiro, um granjeeiro, seja o que for: cada homem rico, abastado, custa centos de infelizes, de miseráveis."

Se fosse eu, diria assim: como é que se faz um rico?... Pega-se num balde de merda... Não, não vou por aí. Vamos antes reduzir tudo a cifras, como os ricos entendem. Um rico faz-se com o suor do rosto?... Vejamos: se uma pessoa trabalhar muito e do seu trabalho honesto conseguir poupar 1000 euros por mês, ao fim de 50 anos de trabalho terá conseguido poupar 600 mil euros. Isso dá uma grande moradia, talvez... Não me parece que seja o suficiente para classificar alguém como rico. Como é que se faz um rico?...

E como é que se desfaz?...

Coitadinhos!...

terça-feira, 8 de julho de 2014

Joe Hisaishi...

Mas como não sou surdo...



Os filmes do Miyazaki, as sensações, os sentimentos, e sobretudo as memórias... os afectos... as memórias dos afectos... que são sempre o que mais perdura.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Se eu fosse surdo...

...os aviões afectar-me-iam à mesma.

Este é o aspecto do sinal de um aparelho que eu tentava analisar ontem, no qual o efeito da passagem dos aviões é bem visível:






O aparelho que estava a analisar é uma balança para utilização em túnel de vento:

quinta-feira, 19 de junho de 2014

O esforço de ser simples...

A vida inteira a preparar o imprevisto
e depois isto
tudo conforme o plano...
ao desengano
no desvio pouco sadio
do vazio quotidiano.

Vai-se a ver e é mesmo assim
assim-assim...

Longe o canto do chapim
guardadas as notas no piano...
a vida a andar às voltas
num sem-fim
ano após ano.

E apesar de tudo
insisto
no querer fazer um mundo disto.

Se de tão longe vim
e fiz o meu caminho caminhando
se sou alecrim
que suporta o sol a seca e o solo mais ruim
e apesar de tudo vai medrando.

Se o meu sonho é construído em mim
sem no céu azul haver clarim
mas tão só o cheiro a avião em meio urbano,
não desisto!
de fazer desta humanidade
um o que quer que seja mais humano.
De no seio do ser rasgar enfim
um olhar mais fundo
e sem plano:
viver a vida!

Ouvir o canto do chapim,
amar o amor até ao fim,
aumentar em três as notas do piano.

awf, 10/06/2014

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Não fora o mar!...

de Fernanda de Castro:

Não fora o mar,
e eu seria feliz na minha rua,
neste primeiro andar da minha casa
a ver, de dia, o sol, de noite a lua,
calada, quieta, sem um golpe de asa.

Não fora o mar,
e seriam contados os meus passos,
tantos para viver, para morrer,
tantos os movimentos dos meus braços,
pequena angústia, pequeno prazer.

Não fora o mar,
e os seus sonhos seriam sem violência
como irisadas bolas de sabão,
efémero cristal, branca aparência,
e o resto — pingos de água em minha mão.

Não fora o mar,
e este cruel desejo de aventura
seria vaga música ao sol pôr
nem sequer brasa viva, queimadura,
pouco mais que o perfume duma flor.

Não fora o mar
e o longo apelo, o canto da sereia,
apenas ilusão, miragem,
breve canção, passo breve na areia,
desejo balbuciante de viagem.

Não fora o mar
e, resignada, em vez de olhar os astros
tudo o que é alto, inacessível, fundo,
cimos, castelos, torres, nuvens, mastros,
iria de olhos baixos pelo mundo.

Não fora o mar
e o meu canto seria flor e mel,
asa de borboleta, rouxinol,
e não rude halali, garra cruel,
Águia Real que desafia o sol.

Não fora o mar
e este potro selvagem, sem arção,
crinas ao vento, com arreio,
meu altivo, indomável coração,

Não fora o mar
e comeria à mão,
não fora o mar
e aceitaria o freio.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

O suonho dum inginheiro...

O sotaque é excelente e recomendo. As gruas por todo o lado é que...


sexta-feira, 23 de maio de 2014

Os aviões da bola...

Amanhã, dia 24 de Maio de 2014, ocorrerá em Lisboa um jogo de futebol. O futebol é um jogo onde duas equipas de onze pessoas cada tentam meter uma bola dentro de uma baliza. Por causa disso a cidade será invadida, segundo as notícias desta manhã, por 120.000 pessoas vindas do país do lado.


Essas pessoas chegarão à cidade em carros, comboios, autocarros, barcos, bicicletas, patins e aviões. Segundo as mesmas notícias, só amanhã chegarão ao aeroporto da Portela 740 aviões.

O local do meu trabalho é praticamente contíguo ao aeroporto, e para maior sorte, alinhado com a pista principal. Portanto dou graças a um senhor qualquer por não estar em Lisboa amanhã!... E não será apenas por causa dos aviões!...

Dediquei-me a fazer algumas contas. Com base em informação dispersa na Internet (e não deixa de ser curioso esta informação não estar concentrada, de modo que qualquer cidadão que coloque perguntas a esse respeito encontre respostas claras e rápidas...) tentei calcular quanto é que isso significaria de consumo de combustível só na atmosfera que rodeia as cabeças dos lisboetas.

Os dados seguintes podem e devem ser utilizados para outro tipo de cálculos, portanto penso que são úteis para qualquer pessoa que prefira pensar pelos seus próprios neurónios. Afinal, quase toda a gente sabe que um carro normal consome qualquer coisa como 5 litros de combustível por cada 100 quilómetros, não é verdade?...
  • Um avião de passageiros a jacto, um avião normalíssimo da costa, possui motores com uma capacidade de propulsão máxima de aproximadamente 200 kg por cada passageiro.
  • O consumo de um desses motores é de aproximadamente 0,6 kg de combustível por cada kg de propulsão e por hora, quando à velocidade máxima, e cerca de 0,3 kg quando à velocidade mínima.
Agora façamos as contas, admitindo que os 740 aviões levam em média 200 passageiros cada um e demoram, desde que começam a acelerar para levantar voo até que saem dos céus de Lisboa uns 5 minutos: 740 aviões x 200 passageiros por avião x 200 kg por passageiro x 0,3 kg de combustível por kg por hora x 5 minutos =  740000 kg de combustível.

Se considerarmos que os aviões que descolam também têm de aterrar, vemos que o jogo de futebol vai permitir aos lisboetas respirar os produtos da combustão de mais de um milhão de quilogramas de combustível!...

Mas vá, para que não fiquemos tão alarmados, comparemos isso com o consumo de combustível dos automóveis. Admitindo que há um milhão de automóveis em Lisboa (há mais, podem procurar as estatísticas aqui), que cada um deles anda em média uns 25 km por dia e que consome em média uns 4 kg de combustível por cada 100 km, isso dá precisamente um milhão de kg de combustível por dia.

Portanto os aviões que teremos a mais por causa do jogo de futebol contribuirão tanto para a poluição da cidade como o tráfego automóvel de um dia.

Estes grandes números são assustadores... e devem fazer-nos pensar.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Investimentos públicos em tempo de vacas esqueléticas...

Tenho passado alguns dias nos últimos meses pelas bandas de Matosinhos. Não pude deixar de reparar na colossal picadora 1-2-3 que alguém deixou cair num dos paredões do Porto de Leixões.


Trata-se, vim a saber, de um "terminal" para os muitos milhares de passageiros de paquetes que alguém espera vir a receber no futuro.

Noutro dia, já em Lisboa, deu-me para pensar (erros meus, má fortuna...) sobre o custo daquilo e sobre quem estará a financiar a obra. Ocorreu-me, sabe-se lá porquê, que às tantas era eu mesmo que estava a financiar aquilo!... Fui à procura e descobri que sim, que eu, tu, e muitos outros como nós, andamos a financiar a construção da mega-picadora em betão armado.

"Este projecto, da autoria do Arq. Luís Pedro Silva, com um investimento global na ordem dos 49 milhões de euros, foi financiado pelo Programa Operacional Regional do Norte 2007/2013, no âmbito da Acção Específica de Valorização da Economia do Mar, do Eixo Prioritário II – Valorização Económica de Recursos Específicos, Convite Público para apresentação de Candidaturas – Mar/TC/PCT/1/2009.", conforme se pode ler nesta página do "Porto de Leixões".

Cerca de 50 milhões de euros então, direitinhos dos nossos bolsos e de outros contribuintes da União Europeia. É discutível se precisamos de investimentos deste tipo para podermos viver melhor, se o betão nos torna mais felizes, se os grandes navios a cruzarem os oceanos nos fazem mais saudáveis... O que me parece menos discutível é que no nosso país de hoje em dia obras deste tipo totalmente financiadas com dinheiro dos contribuintes são verdadeiros estandartes das prioridades políticas assumidas pelo nosso governo.

Num país onde falta dinheiro nos hospitais, nas estradas, nas escolas, nas bibliotecas, nas infraestruturas desportivas, nos tribunais, no apoio aos desempregados, aos pensionistas e a sei lá quantas mais pessoas e sei lá quantas mais coisas, num país onde falta tanta coisa essencial, gastam-se milhões e milhões de euros em terminais de luxo para turistas endinheirados?...

Mas há outro aspecto igualmente chocante neste tipo de opções sobre os gastos do dinheiro que é público: é que sistematicamente financiam-se negócios que têm obrigação de ser rentáveis por sua própria conta! É caso para perguntar: o que é que o nosso governo está a fazer?...

Alguns argumentarão que o porto de Leixões é gerido por uma entidade pública e portanto o dinheiro público aí investido irá gerar receitas que também serão públicas. Isto é acreditar que o porto de Leixões irá gerar superavits nos próximos anos que poderão então ser utilizados na protecção social e outras coisas mais prioritárias. Por outras palavras, é acreditar no pai natal!

Não só isso não vai acontecer, como já se está mesmo a ver que a construção irá ser adjudicada à empresa privada tal e tal, depois aquilo irá ser concessionado por 20 anos à empresa privada tal e coiso, para trabalhar em parceria com dezenas de empresas de turismo e restaurantes e bancos e sabe lá mais o quê privado.

Todos os homens de negócios salivam quando há dinheiros públicos a distribuir para o incentivo a isto ou àquilo...


Há menos de meia dúzia de dias o governo anunciou (antigamente tinham vergonha, agora publicitam... é a vantagem de ter uma população bem instruída...) que ia gastar 185 milhões de euros em projectos de 12 empresas para a criação de 401 novos postos de trabalho. Mas reparem como a notícia é transmitida: é o governo que põe o dinheiro, mas são as empresas, em letras garrafais, que investem!... Genial!... Limpeza cerebral em acção!...

E porque é que o governo vai gastar 460 mil euros em cada posto de trabalho dessas 12 empresas?... Reparem que se me dessem a mim 460 mil euros para criar o meu posto de trabalho, eu tinha a vida garantida até à reforma!... O governo vai fazer isso porque, coitadinhas das empresas, elas precisam do apoio do Estado, sem o qual nunca conseguiriam criar os benditos "postos de trabalho"...

Se fosse a mercearia da esquina do Sr. Zé, aí não era preciso qualquer apoio, bem pelo contrário, porque toda a gente sabe que a mercearia do Sr. Zé um potentado económico! Mas como é a coitadinha da Portucel, a pobrezinha da Metal Rolo, SGPS, a indigente Zhejiang Huadong Aço Group, da China, a Sodecia, a Borgwarner Emission e outras que tais, é evidente que o apoio dos contribuintes esfaimados é fundamental!

Mas isso é ainda muito pouco. Que dizer da coitadinha da Autoeuropa? Essa precisa de 677 milhões de euros para criar 500 postos de trabalho. Isso dá para pagar 1000 euros por mês a cada trabalhador durante 112 anos!...

terça-feira, 13 de maio de 2014

A obra e a herança sujas do Passos...

Agora que tudo parece correr bem na relação entre Portugal (o que é isso?) e os mercados financeiros (quem são eles?) é caso para perguntar: e o montante da dívida, afinal diminuiu?...

A resposta:

Querem saber quanto é que está previsto pagarmos nos próximos anos para abater esta dívida? Montantes como 15.000.000.000 € por ano são assustadores? Querem saber o que isso significa no quotidiano de cada um de nós?

Então recomendo fortemente a leitura deste artigo.

Salgalhadas na Lusolândia (4/4)...

Mensagem original


Excerto do capítulo XX de "Salgalhadas na Lusolândia" de José Luís Felix:

Eram 20 horas e iniciavam-se os telejornais. Chegara por fim a hora das declarações do chefe do governo, ansiosamente aguardadas e publicitadas ao longo do dia.
“Lusolandas e lusolandos”, começou ele, solenemente enquadrado por uma bandeira nacional, uma jarra de rosas amarelas e um galo de Barcelos. “Os adversários da estabilidade, dos mais sacrossantos valores pátrios e a gente de todas as oposições não tem descanso.
Levantam calúnias e utilizam o embuste como uma arma de arremesso. Atrevem-se até a insinuar que o nosso governo não tem exercido uma acção sem paralelo nos últimos anos em toda a Europa, para conseguirmos enfileirar entre os melhores actores da acção política na União Europeia.
Os exemplos que podem atestar a nossa actividade são inúmeros, do choque tecnológico ao Programa Acelerex, das Reformas na Função Pública à construção de novos estádios de futebol e auto-estradas, a melhoria da produtividade e a modernização do tecido empresarial lusolando. Todas estas acções se inserem numa estratégia devidamente definida. Nós não nos deixamos arrastar pela demagogia, pelo discurso fácil. Podemos assegurar que só com o esforço de hoje será possível o aumento da riqueza do país e, no futuro, a melhora das condições de vida de todos nós. Principalmente dos menos favorecidos pela sorte, sempre presentes nos nossos corações.
Por isso mesmo posso desde já anunciar-vos duas novas medidas para apoiar os nossos idosos mais desfavorecidos, aqueles que auferem uma pensão inferior a 200 euros. Assim, daqui a 3 meses, todos eles irão beneficiar de um aumento extraordinário de 4 euros mensais.
Além disso todos irão também usufruir de uma medida excepcional da Segurança Social. A cada um será oferecido mensalmente um quilo de arroz e uma asa de frango. O nosso governo está atento às dificuldades sentidas pelos mais desfavorecidos dos nossos concidadãos.
Estas dificuldades resultam, é bom realçar, da conjuntura internacional e do aumento dos preços da energia. Convém recordar que tal situação foi recentemente agravada com a tentativa de realização maciça de shows de sexo ao vivo na Arábia Saudita, o que originou graves inquietações entre os crentes daquele país e o consequente aumento do preço do petróleo.
Também a crise dos mercados financeiros, uma verdadeira hecatombe diabólica, cujo entendimento só está ao alcance das mentes mais capacitadas da complexa ciência económica, não nos deixou de lado.
No entanto, a nossa economia é sólida e resistente a todas as procelas, estejam descansados. Os grandes especuladores, essa gente de maus instintos, que se aproveitam do idealismo dos governantes, não têm cabimento nem entrada na nossa Lusolândia. Tranquilizem-se que o governo está permanentemente atento!
Posso assegurar-vos no entanto que, apesar destes factores negativos provenientes do estrangeiro, não esquecemos aqueles que mais se ressentem da crise dos mercados mundiais. As nossas crianças também serão contempladas com uma medida extraordinária. Cada uma delas terá, já a partir do próximo ano lectivo, uma cesta de fruta todas as semanas, contendo uma laranja, uma banana e um cacho de uvas.
Isto revela o empenhamento do meu governo, apesar das graves dificuldades orçamentais herdadas que, desde a primeira hora, temos combatido. Passado tão pouco tempo já conseguimos alcançar um défice bem inferior à meta dos 3% que as normas comunitárias nos impõem, um facto único na história orçamental da Europa, conseguido em tão pouco tempo. Tudo isto sem esquecer os mais desfavorecidos, como todas as medidas de carácter social que temos tomado bem demonstram, reforçadas agora com as decisões anunciadas.
Quanto ao tema da segurança, tantas vezes invocado pelas oposições da forma mais despudorada, como ainda hoje se viu na Assembleia, num espectáculo indigno dos mais altos valores democráticos que nos norteiam, trata-se de uma falsa questão. A Lusolândia é já um dos países mais seguros do mundo e as medidas que irei anunciar irão consolidar ainda mais a nossa posição no ranking dos países seguros.
Todas as nossas forças policiais colocadas no terreno irão receber novos equipamentos, nomeadamente couraças de couro e aço, cassetetes de grande alcance e armas de raios imobilizantes.
Por outro lado o Governo vai fazer um enorme esforço financeiro e serão abertos imediatamente concursos para a admissão de 6.000 novos polícias nos diversos serviços policiais nacionais.
A investigação e repressão também conhecerão um novo impulso com a entrada em vigor do sistema de outsourcing nos serviços policiais. Toda a actividade administrativa, auxiliar e de guarda das instalações passará a ser executadas por uma empresa multinacional devidamente credenciada nesta área, a Brutal Police, que também nos fornecerá o mais moderno know-how e técnicas avançadas de ataque e investigação da criminalidade. Nesta mesma perspectiva se insere a construção de 5 novas super-prisões, a serem geridas pela Brutal Police, que permitirão alojar 10.000 presos e vender as prisões situadas dentro das maiores cidades do país.
(...)
Foi por esse espírito de missão pelo interesse geral que eu, assim como todos os membros do meu governo, decidimos abraçar a causa pública. Para o bem da nossa Pátria, de uma Lusolândia mais feliz, de acordo com os valores que nos foram transmitidos pelos nossos heróis ao longo da história.
A Pátria não se discute, não permitiremos que os mais sagrados valores da democracia sejam postos em causa por uma dúzia de indivíduos que, certamente mal avisados, decidiram colocar em causa a honrada actividade da política. Não é demais lembrar que, sem acção dos responsáveis políticos, sem o empenhamento dos partidos políticos, sem os garantes da democracia, a existência da nossa civilização não seria possível. Se déssemos ouvidos ao canto de sereia da ignorância, dentro de pouco tempo mergulharíamos no caos, no salve-se quem puder, no homem lobo do homem. Nunca permitiremos que se ponha em causa a grandeza dos partidos políticos, os verdadeiros pilares que garantem uma relação harmoniosa e democrática entre os povos.
Lutaremos com determinação, mas sempre de forma democrática, para impedir o regresso à barbárie e garantir as regras da civilização compreendidas e aceites por toda a sociedade.
(...)”
Todo o restante discurso se pautou pela mesma orientação e o efeito que as palavras do Aristóteles produziram foi esmagador.
Todos aqueles que o ouviram ficaram sensibilizados com a sua sensatez e clarividência. Estes eram também os atributos que, a par da sua condição democrática, os mais encartados comentadores da Lusolândia passaram imediatamente a salientar. O Aristóteles e o seu partido davam a devida resposta aos opositores e os diversos politólogos não lhe poupavam elogios. O velho oráculo professor Fatelo, por exemplo, não se detinha nos encómios e chegou a propor, “Face a esta atitude que revela um enorme sentido das responsabilidades, é chegado o momento do TYD, o meu partido, entrar em negociações com o Arquitecto Aristóteles e o PF para estabelecer um pacto de regime. A pátria tem de estar acima das rivalidades partidárias”. Também o Dr. Vitelinho ficou extasiado face à intervenção do líder do governo, “O Arquitecto Aristóteles Acomodado revela mais uma vez uma enorme capacidade democrática e elevado sentido de estado”. O próprio Mikel Xosa Tavás, um consumado independente, assegurou, “O Aristóteles marcou pontos com esta intervenção, reveladora duma capacidade até aqui insuspeitada, própria de um verdadeiro homem de estado”.
(...)

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Salgalhadas na Lusolândia (3/4)...

Mensagem original

Excerto do capítulo XIX de "Salgalhadas na Lusolândia" de José Luís Felix:


(...)
O debate já tinha de facto começado.
No meio de um grande burburinho, discursava na altura o Francisco Matacães, líder do PWD, que a certa altura vociferou, “Os senhores traíram os trabalhadores, estão a criar uma situação insustentável entre vastas massas populares, entre os jovens e os pequenos e médios empresários. Por isso cresce a insegurança, mas esta insegurança é fruto da vossa insensibilidade. Só querem farras e abandonam os valores de Abril. A insegurança alastra e vocês são os responsáveis.
Têm de combater o grande capital e ouvir as aspirações do povo, que estão consubstanciadas nas propostas do nosso Partido. Mas o Arquitecto Aristóteles pratica o autismo em relação aos apelos populares, não lhe interessa a insegurança que grassa entre o nosso povo, não corresponde aos valores da democracia. Não passa de uma marioneta ao sabor dos interesses do grande capital monopolista...”. Nesta altura a confusão estalou e ninguém se entendia.
O Presidente da Assembleia, que se encontrava dormitando confortavelmente, numa atitude beatífica, devidamente acompanhado por mais de uma dezena de confrades das várias colorações partidárias, despertou do seu torpor e, enquanto martelava furiosamente a bancada à sua frente, berrou de forma descomunal, “Silêncio! Silêncio! Silêncio! Silêncio ou mando evacuar a sala. Olhem que eu não estou a brincar, senhores deputados”.
O ambiente serenou e, enquanto os distintos representantes do povo se olhavam assarapantados, o líder do Berloque Sinistro, professor Piscelim, colocando por uma vez fora de acção a sua característica vozinha que parecia provinda do além, berrou, o senhor Aristóteles é uma personagem mefistofélica que persegue os portugueses. O senhor tem de voltar imediatamente para os confins do inferno de onde fugiu para infernizar a vida dos lusolandos!
Esta intervenção lançou o fogo ao capim e os deputados do PF desataram a lançar todos os impropérios do seu vasto arsenal em alta gritaria sobre o chefe do Berloque Sinistro, com a consequente resposta dos seus colegas do Sinistro. Não tardou muito que todos os deputados opostos ao governo se lançassem por sua vez numa barragem de artilharia verbal sobre o chefe do PF. Não podiam de modo algum deixar o protagonismo para o Professor Piscelim, tanto mais que, como bem lembrara o Dr. Picassinos, as televisões estavam a transmitir directamente aquele espectáculo para todo o país.
Esta escalada verbal teve a resposta imediata. Os deputados do PF, convenientemente enquadrados pelo Boneco de Resina, utilizavam os máximos argumentos para desmantelar os adversários, o menor dos quais, berrado em coro por todos eles, proclamava, “Grosseiros! Carroceiros! Grosseiros! Carroceiros!”. O ambiente tornou-se escaldante, todos os deputados berravam e insultavam e, quando o Presidente da Assembleia pediu algum decoro, ninguém o quis ouvir. A gritaria ensandecia completamente as meninges dos representantes do povo e não tardou nada que, contaminados pela febre que se estendia por todo o salão, os visitantes da Assembleia se juntassem a este fervor.
Do alto dos lugares destinados ao público a delegação de desempregados e trabalhadores precários ali presente estendeu uma faixa onde se lia “Queremos viver como gente! Estamos fartos das promessas dos políticos!”, enquanto gritavam “Nem políticos nem capital! Demagogos! Demagogos!” De imediato se lhes juntou uma delegação de representantes da polícia, também sentada naquela tribuna, que, a exemplo dos primeiros, também levantou uma faixa que dizia, “Sem melhores condições não podemos exercer a autoridade”, e berravam em coro perfeito numa forma surpreendentemente afinada, “Sem melhor rendimento a polícia não actua a todo o momento!”, “Sem melhores cacete e couraça a nossa acção não tem graça!”.
A atmosfera tornou-se irrespirável, todos berravam a plenos pulmões e ninguém se entendia. O Presidente da Assembleia martelava com força, mas em vão, até que, também ele de cabeça perdida, assentou o martelo na tábua à sua frente, com a máxima força que as suas banhas ainda podiam desenvolver. Através deste expediente arrancou gigantescos sons audíveis a centenas de metros, uma, duas, três vezes, sem que os antagonistas à sua frente se comovessem, até que, por fim, um embate ainda mais violento teve um resultado inesperado. A força bruta das pancadas deixou-lhe ficar apenas o cabo na mão, enquanto o martelo voava por sobre as cabeças dos membros do governo e realizando uma surpreendente trajectória foi-se abater sobre a bancada parlamentar em frente, a do XDS. Aqui rasou perigosamente o capachinho do Dr. Picassinos e foi repousar no cadeirão da fila de trás. Era o lugar do Engenheiro Eugénio Bacamarte, que felizmente se encontrava ausente na ocasião. O prestigiado parlamentar, figura de proa do XDS, presidente da Marcenaria Democrática, rival da sua homóloga Lusitana, com larga influência nos negócios Palopianos, encontrava-se no Bar. Dirigira-se para lá havia já mais de uma hora, onde na companhia de algumas dúzias de colegas das diferentes bancadas e de umas goladas de whisky velho assistia a um jogo de futebol da selecção portuguesa. O entusiasmo reinante entre os clientes do Bar só tinha equivalente na apologia da selecção nacional, prodigalizada nos anúncios das mais prestigiadas empresas, que não perdiam a ocasião de lembrar à população, através dos mais diversificados meios de informação, que o bom povo português não podia deixar de erguer a bandeira nacional para apoiar esta gesta da equipa nacional de futebol, a “de todos nós”, como relembravam a cada instante.
As maiores empresas a operar no país, como os Hipermercados Incontinente, a Cerveja Sabes, a Caixa Geral de Repolhos, o Banco do Espírito Tonto, a TNT, a petroleira Golp e a Koka-Koka, patrocinavam a façanha que abalava todos os lusolandos.
Com este incidente, o ambiente tornou-se ainda mais pesado. Por sorte o voo do martelo não atingira o velho engenheiro, devido à sua feliz ausência, ou por intervenção divina, “devido a mais um milagre da santa”, como iria assegurar mais tarde o Picassinos, mas as altercações parlamentares cresciam a cada instante e ameaçavam transformar aquele debate parlamentar numa pura agonia.
(...)