terça-feira, 31 de março de 2015

Teaching...


Livro de Neil Postman e de Charles Weingartner que recomendo vivamente. Publicado pela primeira vez em 1969, mantém-se infelizmente muitíssimo actual e premente. Mais informação sobre o livro pode ser encontrada por exemplo aqui.

As ideias do Neil Postman, em geral, e este livro em concreto ajudam-me a sentir-me menos só. São ideias simples, que se tornam complexas apenas quando confrontadas com o pensamento dominante que está inculcado na cabeça de todos nós. Tornam-se complexas apenas porque colidem com as nossas ideias feitas a um nível muito profundo.

A nossa ideia feita acerca do ensino, por exemplo, é a de que existe um sentido universal para as coisas, existe informação cuja pertinência é independente de tudo o resto, e os alunos vão à escola para que os professores lhes transmitam essa informação e esse sentido, para que os alunos fiquem mais preparados para o mundo. "Mais preparados para o mundo" implica cada vez mais, à medida que o capitalismo aperta, o possuir as "competências" para poder vingar no "mercado de trabalho". Ou seja, ganhar muito dinheiro.

A subversão de que nos falam os autores deste livro é tão somente o questionar dessas ideias feitas. De todas as ideias feitas. Sempre que questionamos ideias feitas, estamos a subverter, estamos a virar as coisas do avesso, estamos a revolver, a revolucionar. O enfoque da subversão na actividade do ensino tem a ver com a crença dos autores de que a escola é uma instituição fundamental para as sociedades. Eu também acredito nisso. E muitas pessoas também acreditam nisso. O importante, porém, é compreender que não podemos ser ingénuos ao ponto de acreditar, como muitos, que o problema do mundo é a "falta de educação" das pessoas. A ingenuidade vem da crença, porventura inconsciente, de que "educação" é uma coisa universal, e é sempre boa, seja ela o que for.

O que os autores nos dizem, no entanto, é que para que a escola cumpra a sua função primordial, ela tem de ser subvertida. Por um lado, a subversão tem de existir face ao que era, e infelizmente ainda é, a realidade das escolas. Mas por outro lado é o próprio método subversivo que tem de ser fomentado nos alunos. Fomentado e não criado, porque todas as pessoas têm à partida um método subversivo que faz parte das suas funções inatas. E o que as escolas da época, e infelizmente ainda as actuais, melhor fazem é precisamente matar esse espírito subversivo...

O fomento do método subversivo nas pessoas concretiza-se na construção de um "crap detector", um detector de tretas, à la Hemingway, do qual aliás já aqui falei no passado.

Os autores abordam com alguma ênfase a ideia de que "the medium is the message", isto é, de que o conteúdo do que se transmite está intimamente ligado à forma como se transmite, e que esta última altera o modo como o conteúdo é percepcionado pelo receptor. Por exemplo, quando numa sala de aula se transmitem conhecimentos assumindo uma autoridade que não deve ser questionada, a mensagem que está verdadeiramente a ser transmitida é precisamente a de que existem autoridades de conhecimento que não devem ser questionadas. Noutro exemplo, as palavras que utilizamos para formular uma ideia, elas próprias servem para formatar e conter essa ideia. O mesmo é dizer que as palavras que utilizamos condicionam o nosso pensamento. Por isso mesmo os autores também dedicam um capítulo deste livro ao linguajar ("languaging"), dizendo-nos, por exemplo, que aquilo que dizemos que uma coisa é, ela não é, no sentido em que a verdade objectiva nunca é perfeitamente captada pelas nossas ideias, mas também aquilo que dizemos que uma coisa é, ela é mesmo, no sentido de que a verdade subjectiva acerca da realidade que nos envolve se molda às palavras que utilizamos para a definir. Assim, quando dizemos a um aluno que ele é inteligente, ele passa a percepcionar-se a si próprio como inteligente e isso pode efectiva e objectivamente torná-lo mais inteligente (embora não necessariamente). Assim também, e agora noutro contexto, quando dizemos que as instituições bancárias são fundamentais para o funcionamento da economia, elas passam mesmo a ser fundamentais, na nossa percepção, mesmo que nem sequer saibamos bem o que é ou como funciona uma "instituição bancária" ou uma "economia".

Mas os três capítulos que para mim assumem a maior importância neste livro são: "pursuing relevance", "what's worth knowing?" e "meaning making".

No fundo, esses três capítulos abordam a questão da consequência, do propósito, do sabermos o que andamos aqui a fazer. E essas são, a meu ver, as questões fundamentais de toda a nossa existência, que subjazem a tudo aquilo que fazemos ao longo das nossas vidas e que, portanto, devem mesmo ser levantadas ao virar de cada esquina, e mesmo no meio de cada recta, para nos assegurarmos de que vamos no bom caminho.

Desde há muitos anos que tenho esta imagem da humanidade como a tripulação de uma nave espacial, o planeta Terra, a deambular pelo espaço... A humanidade esforça-se muito por fazer com que a nave funcione bem. É assim que as pessoas se empenham nas suas tarefas do dia-a-dia e é daí que acabam por extrair o sentido das suas vidas. No entanto, ninguém sabe para onde a nave vai, e aparentemente ninguém se preocupa muito com isso!...

Na analogia dos autores deste livro, a humanidade age como alguém que conduz um automóvel olhando apenas através dos espelhos retrovisores. Ou seja, a humanidade não sabe para onde vai, apenas altera o seu comportamento consoante aquilo que são as suas interpretações do passado. Não obstante, a humanidade, entusiasmada por aquilo que considera ser o "progresso", carrega cada vez mais no acelerador... Os autores, com o que me parece ser alguma sensatez, dizem que não devemos esperar nada de bom se continuarmos a agir assim.

Também eu, em diversos momentos no passado, chamei a atenção para esta nossa ideia feita do "don't stand there, do something", ou seja, de que agir é o melhor que podemos fazer, mesmo que não tenhamos pensado muito no assunto e não saibamos muito bem o que é que efectivamente estamos a fazer. Somos uma sociedade de acção e acreditamos que para a frente é que é o caminho e que muita agitação (de preferência mental) é o que nos vai resolver os problemas. É assim, por exemplo, que acreditamos que a solução dos problemas económicos se atinge sempre com mais crescimento económico...

No entanto, é precisamente esta ideia feita que acaba por perpetuar e agravar uma série de problemas. O problema fundamental será precisamente o do nosso bem-estar, colectivo e individual, e da sua consequência no meio que nos envolve e no futuro bem-estar de outros. Procurar a felicidade de uma forma frenética, sem parar para pensar bem no que se está a fazer, pode ter consequências desastrosas...

É também assim que todos colocámos os nossos filhos nas escolas, para que aprendam, mas nunca nos perguntámos seriamente: o que é que é importante aprender?... Porquê?... Para quê?...

O importante a aprender será precisamente um método para aprender. Ou seja, é mais importante aprender a encontrar respostas às questões que nós próprios levantamos do que aprender uma colecção de dados que para nós não tem significado. Mas mais importante do que isso é saber formular as questões certas!

Por exemplo: eu vejo muitas pessoas à minha volta preocupadas com a questão de saber como hão-de conseguir ganhar mais dinheiro. Mas será essa a questão mais pertinente para essas pessoas?... Terão essas pessoas esquecido outras questões mais pertinentes?... Terão essas pessoas atrofiado a sua capacidade de questionar?...

Os autores dão-nos uma lista de perguntas que eles consideram ser relevantes (a tradução é minha):


  • o que é que te preocupa mais?
  • quais são as causas das tuas preocupações?
  • pode alguma das tuas preocupações ser eliminada? como?
  • qual das tuas preocupações abordarias primeiro? como podes decidir isso?
  • há outras pessoas com os mesmos problemas? como podes saber isso? como podes descobrir?
  • se tivesses uma ideia importante que quererias dar a conhecer a toda a gente do mundo, como farias para o conseguir?
  • o que é que te preocupa mais nos adultos? porquê?
  • de que forma queres ser semelhante ou diferente dos adultos que conheces quando cresceres?
  • achas que existe algo pelo qual valha a pena morrer? o quê?
  • como é que começaste a acreditar nisso?
  • o que é que achas que faz com que valha a pena viver?
  • como é que começaste a acreditar nisso?
  • actualmente, o que é que gostarias mais de ser, ou de ser capaz de fazer? porquê? o que é que precisarias de saber para atingires isso? o que é que terias de fazer para atingir esse conhecimento?
  • como é que podes distinguir os "tipos bons" dos "tipos maus"?
  • como é que o "bom" pode ser distinguido do "mau"?
  • que tipo de pessoa é que gostarias mais de ser? como é que podes conseguir vir a ser esse tipo de pessoa?
  • actualmente, o que é que gostarias mais de estar a fazer? e daqui a cinco anos? e daqui a dez anos? porquê? o que é que terias de fazer para concretizar essas expectativas? do que é que terias de desistir para conseguires fazer algumas ou todas essas coisas?
  • quando ouves ou lês ou observas algo, como é que sabes o que significa?
  • de onde vem o significado?
  • o que é que significa "significado"?
  • como é que podes saber o que uma coisa "é"?
  • de onde vêm as palavras?
  • de onde vêm os símbolos?
  • porque é que os símbolos mudam?
  • de onde vem o conhecimento?
  • quais é que achas que são as ideias mais importantes da humanidade? de onde é que elas surgiram? porquê? como? e agora o que faremos com elas?
  • o que é uma "boa ideia"?
  • como é que podes saber se uma ideia boa ou viva se torna numa ideia má ou morta?
  • que ideias da humanidade seria melhor esquecer? como é que decides?
  • o que é o "progresso"?
  • o que é a "mudança"?
  • quais são as causas mais evidentes da mudança? quais são as causas menos evidentes? que condições são necessárias para que haja mudança?
  • que tipos de mudança é que estão a acontecer neste preciso momento? quais são importantes? como é que elas são semelhantes ou diferentes de outras mudanças que já ocorreram?
  • quais são as relações entre novas ideias e mudança?
  • de onde vêm as ideias novas? como? e depois?
  • se quiseres parar uma mudança que está a ocorrer agora mesmo, escolhe uma, como é que farias? que consequências deverias considerar?
  • das mudanças importantes que agora estão a decorrer na nossa sociedade, quais deveriam ser fomentadas e quais deveriam ser restringidas? porquê? como?
  • quais são as mudanças mais importantes que ocorreram nos últimos dez anos? vinte anos? cinquenta anos? no último ano? nos últimos seis meses? no último mês? qual será a mudança mais importante no próximo mês? no próximo ano? na próxima década? como é que podes dizer? e daí?
  • o que é que mudarias se pudesses? como é que o conseguirias? das mudanças que irão ocorrer, quais é que impedirias se conseguisses? porquê? como? e daí?
  • quem é que tu pensas que tem as coisas mais importantes para dizer hoje em dia? a quem? como? porquê?
  • quais são as ideias mais estúpidas e perigosas que são populares hoje em dia? porque é que pensas isso? de onde vieram essas ideias?
  • quais são as condições necessárias para manter a vida? plantas? animais? humanos?
  • quais dessas condições são necessárias para todas as formas de vida?
  • quais para as plantas? quais para os animais? quais para os humanos?
  • quais são as maiores ameaças para todas as formas de vida? para plantas? para animais? para humanos?
  • quais são as estratégias que os seres vivos utilizam para sobreviver? quais são únicas das plantas? quais são únicas dos animais? quais são únicas dos homens?
  • que tipos de estratégia de sobrevivência humana são (1) semelhantes às estratégias das plantas ou dos animais e (2) diferentes das estratégias das plantas ou dos animais?
  • que estratégias de sobrevivência a linguagem humana permite desenvolver que os animais não consigam?
  • como é que as estratégias de sobrevivência humana seriam diferentes se ele não tivesse linguagem?
  • que outros tipos de linguagem os humanos possuem para além dos que consistem em palavras?
  • que funções é que estas linguagem têm? como e porque é que se criaram? podes inventar uma linguagem nova? como é que começarias?
  • o que é que aconteceria, que diferença faria, o que é que a humanidade não poderia fazer se não tivesse linguagens numéricas (matemáticas)?
  • quantos sistemas simbólicos a humanidade possui? como é que se chegou aí? e daí?
  • quais são alguns exemplos de símbolos bons? e maus?
  • que bons símbolos poderíamos usar mas que ainda não temos?
  • que maus símbolos temos e que viveríamos melhor sem eles?
  • o que é que vale a pena saber? como é que decides? quais são algumas maneiras de conseguir saber aquilo que vale a pena saber?
Vale a pena pensar, digo eu, no modo como as nossas escolas actuais dão ou não resposta a questões deste tipo. Vale a pena nós próprios pensarmos em como nós próprios pensamos ou não em questões deste tipo. Vale a pena nós próprios pararmos para reflectirmos e tentarmos dar resposta a questões deste tipo.

Vale a pena sabermos para que é que queremos o dinheiro, antes de nos matarmos para o conseguir. Vale a pena saber para que é que vamos ler livros, antes de lermos tudo o que nos aparecer à frente. Vale a pena saber o que é que andamos a fazer na vida...

Mas, como é que poderemos saber o que andamos aqui a fazer, e como é que poderemos decidir o que fazer?...

Para isso precisamos das nossas percepções e dos significados que lhes atribuímos. Baseados nos trabalhos de outros autores, os deste livro afirmam então:
  1. As nossas percepções não vêm das coisas à nossa volta, vêm de dentro de nós. Isso não significa que a realidade não tenha uma existência objectiva, mas que nós só lhe podemos chegar através do nosso sistema nervoso.
  2. As nossas percepções são uma função das nossas experiências passadas, dos nossos pressupostos e dos nossos objectivos. Ou seja, em geral nós apercebemo-nos das coisas como queremos e precisamos de as perceber.
  3. Em geral só ficamos disponíveis para mudar as nossas percepções quando somos frustrados no intento de fazer algo baseado nelas. Se as nossas percepções nos permitem atingir os nossos objectivos, não as vamos mudar, por mais que nos digam que elas estão "erradas" (para nós não estão).
  4. As percepções são únicas a cada um de nós. A comunicação com outras pessoas só se torna possível quando somos capazes de partilhar objectivos, pressupostos e experiências, isto é, quando somos capazes de "ver" o ponto de vista dos outros.
  5. As nossas percepções dependem dos nossos sistemas de classificação e categorização, os quais dependem da nossa linguagem. Nós vemos com a nossa linguagem.
  6. O significado de uma percepção é o modo como ela nos leva a agir.
Enfim, um livro que recomendo vivamente, e que está disponível online, por exemplo aqui.

"Remember: in order for a perception to change one must be frustrated in one's actions or change one's purpose. Remember too, that no one can force anyone else to change his perception."

quinta-feira, 19 de março de 2015

O submarino irrevogável...




terça-feira, 17 de março de 2015

A direita e as reformas estruturais - o paradoxo fundamental do liberalismo económico...


O liberalismo económico, qualquer que seja a sua modalidade, é um modo de interpretar e de fazer funcionar a economia com o mínimo de intervenção do Estado ou outras instituições colectivas.

Mas, o que é isso de "economia"? Bom, economia é o conjunto de pessoas e respectivas actividades que se destinam à satisfação das necessidades das pessoas. Se pensarem no assunto, compreenderão que economia é praticamente tudo o que as pessoas fazem, mesmo enquanto estão a dormir! Por isso mesmo, tudo o que afecta a economia, afecta a vida das pessoas e afecta tudo o resto que se passa na sociedade. E por isso mesmo Marx dizia que a economia era a infraestrutura social, isto é, aquilo que subjaz e que molda tudo o resto, incluindo as ideias das pessoas. A mim não me restam dúvidas que uma pessoa que nasce e cresce num ambiente abastado tem tendência a ter ideias económicas, políticas... até morais, diferentes de uma pessoa que nasce e cresce num ambiente depauperado.

E o que é isso de "Estado ou outras instituições colectivas"? Bom, na verdade isto não está bem escrito. Porque as empresas são instituições colectivas, e o liberalismo é todo acerca da promoção das empresas. As instituições colectivas a que nos referimos nesta definição de liberalismo são as instituições que são democráticas, isto é, cujo poder é exercido directa ou indirectamente pela maioria das pessoas, e em que cada pessoa tem o mesmo poder que qualquer outra. Uma cooperativa em que cada cooperante tem um voto de igual valor a todos os outros, é uma instituição colectiva deste tipo, ao contrário de uma empresa, onde só os accionistas têm poder, e têm-no de forma desigual, de acordo com o dinheiro que investiram na empresa. O Estado será a instituição colectiva de uma nação inteira e, portanto, do ponto de vista do liberalismo, o alvo preferencial a abater.

A ideia que os defensores do liberalismo tentam transmitir às pessoas é que o abandono das questões sociais à livre iniciativa de cada um, sem a intervenção dessas tais instituições colectivas (a que agora já sabemos que podemos chamar de democráticas), é a melhor forma da sociedade atingir o seu bem-estar máximo. Quanto mais o Estado intervier na economia, isto é, na vida de cada um, mais problemas irão surgir e mais dificilmente maximizaremos o bem-estar de todos.

Baseados nessa premissa, os liberalistas defendem a desregulamentação da economia.

É possível que as pessoas não se sintam muito atraídas pela ideia de uma economia "desregulada"... Isso pode fazê-los pensar em qualquer coisa como "a lei da selva" ou assim... Portanto os liberalistas não afirmam as coisas deste modo. Em vez disso falam-nos em flexibilização. Já não falam de desregulamentação, mas sim de flexibilização, de desburocratização, de incentivos à iniciativa de cada um... enfim, uma data de eufemismos que as pessoas costumam digerir muito melhor e que muitas delas até acabam por ficar convencidas que é mesmo daquilo que gostam.

E para implementarem a sua flexibilização, os liberalistas defendem "reformas estruturais".

E o qual é o conteúdo destas "reformas estruturais"? Bom, é tudo aquilo que conduza à desregulamentação da economia, isto é, tudo o que conduza à supremacia da inciativa individual sobre as decisões colectivas. Assim, as reformas estruturais dos liberalistas (ou liberais... não quero guerras de palavras) incluem, por exemplo:
  • privatização de todas as empresas e instituições detidas pelo Estado. Em Portugal estas reformas têm andado bastante bem. Desde o período "revolucionário" que se seguiu ao 25 de Abril, no qual se procedeu à nacionalização de uma série de instituições, as reformas têm conseguido reprivatizar tudo e mais alguma coisa: transportes, comunicações, energia, saúde, educação, etc.
  • limitação do poder (e se possível extinção... mas isso ainda não conseguiram chegar lá) das estruturas colectivas de representação dos trabalhadores, isto é, dos sindicatos
  • no mesmo sentido, alteração da legislação que regulamenta o trabalho (actualmente o código do trabalho, a lei geral do trabalho em funções públicas e normas acessórias) de modo a isolar os agentes económicos, isto é, as pessoas, no contexto do mercado de trabalho. Ou seja, tudo o que houver para negociar em questões de trabalho é cada vez mais deixado à negociação entre o empregador e o empregado, isolados e sem terem de obedecer a outras regras. Tudo fica entregue à liberdade de cada pessoa... é a imagem que tentam deixar passar. Mas como é que se exerce a liberdade individual quando não há regras e a diferença de poder original é abissal?
  • desmantelamento de instrumentos de política económica de modo que os Estados deixem de ser capazes de intervir nas respectivas economias e tudo passe a depender da soma das vontades individuais condicionadas pelo respectivo poder económico. Incluem-se aqui as integrações em organismos supra-nacionais como a União Europeia, a abertura das fronteiras económicas (e com isso a aniquilação da política alfandegária), a liberalização dos fluxos de capitais, a adesão a moedas únicas (e com isso a aniquilação da política cambial), a adopção de regras de emissão monetária independente da vontade política (como é o caso com o Banco Central Europeu, e com isso a aniquilação da política monetária), o deslize para e a aceitação de sistemas de agiotagem como o que engloba as dívidas públicas soberanas (e com isso a aniquilação da política orçamental), etc.
  • descredibilização dos órgãos máximos do Estado, fazendo as pessoas acreditar que os políticos são todos iguais, que não há alternativas, que os governos não têm poder nenhum sobre nada porque tudo depende da conjuntura económica internacional, da vontade dos EUA, do preço do petróleo, das decisões da União Europeia, etc.
  • afastamento dos centros de decisão das pessoas, concentrando e transferindo o poder das instituições colectivas, como o Estado, para instituições supra-nacionais que a maioria das pessoas não faz ideia do que sejam.
  • etc.
O paradoxo do liberalismo económico é precisamente que todas estas "reformas estruturais" têm de ser implementadas, à força, contra a vontade das populações, para que consigamos atingir finalmente o tão desejado (por alguns!) liberalismo económico!

Os liberais e as pessoas de direita fazem-nos acreditar que o liberalismo é um sistema "natural", um sistema sem imposições, onde as regras que vigoram são apenas as regras que qualquer sociedade, abandonada a si própria, e pela iniciativa de cada pessoa, acabaria por desenvolver. E que esse é o melhor modo de gerir uma economia.

No entanto, isso é redondamente falso! Todas as sociedades humanas, quando abandonadas a si próprias, desenvolvem regras de convivência em sociedade. E em todas essas sociedades, essas regras de convivência em sociedade incluem regras que limitam o poder dos mais poderosos, que incluem elementos de justiça, que são integradoras, que incluem estruturas colectivas democráticas, etc.

Pelo contrário, os sistemas económicos liberais que nos apregoam como sendo naturais são apenas e só o produto das tais "reformas estruturais" que políticos com mão de ferro, como a senhora Thatcher (uma besta de ferro, isso sim, que infelizmente as pessoas continuam a achar admirável) e todos os políticos de direita deste mundo "ocidentalizado", têm implementado, com grandes sacrifícios sociais, desde os anos 70 do século passado. Aqui em Portugal, os responsáveis pela implementação de tal pacote são os que sempre estiveram no governo desde o 25 de Abril: PSD e PS.

(E depois ainda nos querem fazer acreditar que o PS é um partido de esquerda?... Enfim, se perceberam o que disse acerca da descredibilização do sistema político como uma das facetas destas "reformas estruturais", então talvez entendam porque lhes é tão importante manter um partido como o PS a fazer de conta que é "socialista")

Bom... para já continuamos simplesmente com mais do mesmo... porque hoje mesmo, os "media" anunciam que o FMI quer melhores gestores nas empresas portuguesas!...

E como é que pretendem chegar lá, senhores excelsos arautos do liberalismo económico?... Com mais reformas estruturais?... Não seria bom, por uma vez, serem coerentes?... Se defendem o liberalismo, então deixem o liberalismo funcionar!

(Tive de interromper a escrita deste artigo para ir ao hospital. O meu pai teve consulta de pneumologia oncológica de manhã e à tarde terá sessão de hemodiálise. As duas coisas são em pavilhões separados. O meu pai não tem saúde para se deslocar pelos seus meios de um pavilhão para o outro. E, num momento em que hospitais privados equipados com o melhor que há em termos de material crescem que nem cogumelos por todo o lado, este hospital público acaba de anunciar que já não faz o transporte de doentes entre pavilhões!... Obrigado pelas vossas reformas estruturais, filhos da puta da direita económica liberal portuguesa, europeia e mundial!...)

Porque eu também defendo reformas estruturais, sim senhor. Só que ao menos sou coerente, e não defendo liberalismo nenhum! Quando se ama, não se deixa as coisas ao deus-dará! Ou acham que os filhos tornam-se melhores pessoas se abandonadas a si próprias?... As reformas estruturais que eu defendo seriam para criar melhores gestores, sim, mas sobretudo para criar melhores pessoas, que não precisassem de ninguém para as gerir!

segunda-feira, 9 de março de 2015

Tanto mar...

Uma música linda, do Chico Buarque, composta em 1975 para celebrar a revolução (diz que foi!) do 25 de Abril de 1974.



A letra da música foi censurada no Brasil (até 1978), que vivia à época uma ditadura militar. O próprio Chico a falar do assunto, em 1978:


Conforme ele diz, em 1978 "a revolução portuguesa já não é..." Deixou de ser uma revolução, para ser um conjunto de reformazinhas e a preparação de um longo caminho para voltar a pôr tudo como dantes (que, aliás, foi atingido com muito sucesso, conforme podemos verificar hoje em dia, com tudo o que era do Estado privatizado, a lei do mais forte, perdão, do mercado em força, hospitais privados que nem cogumelos, e por aí). Daí a mudança, para a segunda versão deste último vídeo.

Manda novamente algum cheirinho de alecrim!...
:)

Em termos musicais, quero salientar aqui as palmas finais desta segunda versão da música. Se tentarem acompanhar, irão reparar que há algumas mudanças a meio que são difíceis de acompanhar para quem não é experiente em ritmos (como é o meu caso). O tempo é claramente ternário. A questão é que no início das palmas temos duas batidas nos dois primeiros tempos do compasso e depois uma pausa, mas depois passa a uma pausa seguida de duas batidas nos dois últimos tempos do compasso. Representando com O palmas e com _ uma pausa, o que acontece na música é isto:

OO_
OO_
OO_
OO_

OO_
OO_
OO_
O_O

_OO
_OO
_OO
_OO

_OO
_OO
_OO
_O_

OO_
OO_
OO_
OO_

OO_
OO_
OO_
O_O

_OO
_OO
_OO
_OO

_OO
_OO
_OO
_O_

OO_
OO_
...

Tentem ouvir a música a olhar para as bolinhas e tracinhos e acompanhar com palmas nos momentos certos. Podem reparar que a mudança acontece a cada oitavo compasso. Se sentirem isto dentro de vós, ou se souberem contar até 8, e se praticarem um bocadito, poderão acompanhar as palmas sem a ajuda das bolinhas. E é uma sensação porreira acertar com elas nos sítios certos, de cor! :)


De resto, em relação a esta questão de mar, mar, mar e mar... há mar e mar, e há também isto:



Mar

mar...
cheira a mar
mar...
quero o mar
e se as costas me doem
é porque daqui não vejo peixe no mar
daqui não vejo o mar
tanto mar
mar...

sinto o vento a vir
e no mar crescem ondas ...grandes ondas
sinto o vento a vir
o vento a vir do mar

no outro dia,
do mar já não vem nada
é que aqui não se passa nada

e “mar”
já não me diz nada.

---

:) muito bom!...

(mais de TV Rural aqui)

domingo, 1 de março de 2015

Gentes da Terceira, uma vista de olhos...

Os dados apresentados aqui são os que resultam dos Censos de 2011 realizados pelo INE.

A ilha Terceira tinha nesse ano 56437 pessoas. A esse nível, equipara-se a uma cidade como Faro, Guimarães, Évora, Leiria, Viseu ou Aveiro. A ilha está dividida em 30 freguesias conforme a próxima imagem ilustra. As 11 freguesias a Nordeste pertencem ao concelho da Praia da Vitória e as 19 freguesias a Sudoeste pertencem ao concelho de Angra do Heroísmo. Como curiosidade, diga-se que "vitória" e "heroísmo" foram epítetos atribuídos por carta régia de 1837, em reconhecimento do papel que estes locais tiveram na luta entre liberais (de D.Pedro IV) e absolutistas (de D.Miguel) uns anos antes.

A densidade populacional média da ilha é de 138 habitantes por km2. Quando analisamos a densidade populacional por freguesia destacam-se facilmente dois conjuntos de freguesias com maior densidade: um conjunto englobando a cidade de Praia da Vitória e a planície do Ramo Grande e outro conjunto englobando a cidade de Angra do Heroísmo e "arredores".

Esta imagem em cima apresenta um mapa da pluviosidade da ilha Terceira. A imagem anterior apresentava um mapa da altitude. Podemos constatar que existe uma forte correlação entre a altitude e a precipitação. Esta forte correlação estende-se à humidade e à temperatura média anual, conforme as imagens seguintes atestam.

A densidade populacional máxima na Terceira regista-se na freguesia de Santa Luzia (Angra do Heroísmo), com 2296 habitantes por km2. Este valor pode ser comparado com as densidades populacionais mais elevadas do Continente: Amadora - 7363 hab/km2, Lisboa 6446 hab/km2 e Porto 5736 hab/km2.

A densidade populacional mínima regista-se na freguesia da Serreta, com 23 habitantes por km2. Por comparação, as densidades populacionais mínimas no Continente registam-se em grande parte do Alentejo e nas zonas raianas das beiras e Trás-os-Montes, com valores abaixo dos 10 hab/km2.

Conclui-se, portanto, que apesar das concentrações da população em torno dos dois núcleos urbanos da ilha, a população encontra-se distribuída de modo muito mais homogéneo que no Continente.

A idade média da população da Terceira é de 39,3 anos, relativamente mais jovem do que no Continente (42,3 anos). As freguesias com idade média mais elevada são Sé (47,2), Santa Luzia (44,7) e Nossa Senhora da Conceição (43,3), todas de Angra do Heroísmo.

As freguesias com idade média mais baixa são São Mateus da Calheta (35,1), Terra Chã (35,1) e São Bartolomeu de Regatos (35,9). Uma inspecção visual das pirâmides etárias destas três freguesias revela que todas apresentam o mesmo padrão marcado: uma menor quantidade de habitantes com mais de 70 anos, uma "barriga" nas classes etárias entre os 30 e os 39 e muitos jovens com menos de 10 anos de idade. Estes dados permitem especular que as freguesias sofreram um acréscimo populacional significativo nas últimas décadas e que a grande quantidade de crianças resulta da descendência dos adultos em "idade fértil".

Em termos da razão entre homens e mulheres, em toda a ilha existem em média 96 homens para cada 100 mulheres. A maior proporção de mulheres explica-se quase exclusivamente pela sua maior longevidade. Aliás, aproveito para salientar aquilo que é um mito que encontro com bastante frequência: o de que no mundo, ou em Portugal, ou em algum país ou região do planeta, existem muitos mais homens ou muitas mais mulheres... Isso não é verdadeiro, mas em geral é ainda muito menos verdadeiro aquilo que se apresenta como justificação para esse facto. Existem efectivamente alguns locais no planeta onde há algum desequilíbrio. As razões para estes desequilíbrios significativos são todas artificiais: guerras que têm homens como as principais vítimas, infanticídio de mulheres para selecção de filhos homens, etc. No entanto, estes fenómenos são muito localizados. Na esmagadora maioria do planeta Terra, o equilíbrio natural de 1 homem para 1 mulher existe, aproximadamente, e o desequilíbrio que se verifica nos países com esperança média de vida mais elevada resulta simplesmente da maior longevidade das mulheres.

Também na ilha Terceira o desequilíbrio entre homens e mulheres é mais acentuado precisamente nas freguesias com habitantes mais idosos, atingindo o máximo de 82 homens para cada 100 mulheres na freguesia da Sé. A freguesia das Doze Ribeiras, apesar de ter uma população com idade média elevada (42,8 anos) tem um rácio de um homem para cada mulher. Isso resulta de nas classes etárias entre os 35 e os 65 anos de idade existirem consistentemente mais homens que mulheres, uma situação curiosa, para a qual não possuo explicação. Na freguesia dos Altares verifica-se uma situação fora do comum: a idade média dos homens é 2,8 anos superior à idade média das mulheres, muito ao contrário do que acontece em todas as outras freguesias e do que seria expectável. Quando se analisam as respectivas classes etárias, verifica-se que existem idosos dos dois sexos em igual quantidade e que existem muito mais mulheres do que homens na classe etária com menos de 10 anos de idade. Um capricho da natureza?...

Em termos de escolarização, o número médio de anos de escolaridade da população da Terceira é de 7,1. No Continente este valor é de 7,7 anos. Conforme o gráfico anterior mostra, existem grandes disparidades na escolaridade média nas diferentes freguesias. As freguesias com maior escolaridade são São Pedro e Sé que se destacam das demais com 9,4 e 9,3 anos de escolaridade média. Das 8 freguesias com maior escolaridade média 7 são da cidade de Angra do Heroísmo ou arredores, sendo a única excepção a freguesia de Porto Martins.

O gráfico anterior também mostra que a escolaridade média das mulheres é superior à dos homens em quase todas as freguesias da ilha. Se atentarmos ao que se passa a nível do ensino superior, considerando os dois níveis de ensino mais representativos (licenciaturas e mestrados), a diferença entre sexos é ainda maior, existindo 3260 mulheres para apenas 1872 homens com cursos concluídos ou em frequência.

É também possível constatar no penúltimo gráfico que as freguesias com maior proporção de habitantes a frequentar um qualquer nível de ensino são Vila Nova (27,2%), Terra Chã (26%) e Posto Santo (25,2%). Em toda a ilha, este valor é de 20,4%, que compara com 18,8% do Continente. Estes são sinais claros de uma verdadeira revolução cultural que irá necessariamente aumentar muito a escolaridade média de toda a população no futuro, mas que, como qualquer revolução, pode ter efeitos secundários. Neste caso específico penso nas enormes diferenças entre gerações, com avós que muitas vezes não sabem ler ou escrever e netos que são universitários.

Apesar disso, a ilha Terceira ainda está uns pontos abaixo do que se passa no Continente, que provavelmente nem sequer é um bom padrão de referência. De facto, 43,5% da população da Terceira tem no máximo a 4ªclasse, contra 40,8% no Continente, e apenas 10,1% frequentam ou frequentaram o ensino superior, contra 15,4% no Continente.

Se considerarmos a população com cursos superiores concluídos (bacharelatos, licenciaturas, mestrados e doutoramentos) as diferenças entre freguesias tornam-se muito mais evidentes. De tal modo que é possível afirmar que estas diferenças são responsáveis por quase toda a variabilidade entre freguesias no que respeita à escolaridade média.

A presença do polo universitário em Angra do Heroísmo (São Pedro) é certamente uma das causas desta disparidade. No entanto, o último gráfico foi construído com a população que já concluiu cursos superiores, não considerando, portanto, os estudantes. Especulo, assim, que a grande disparidade entre freguesias deve ser também o resultado da disponibilidade de empregos adequados a habilitações superiores, posicionando-se as empresas geradoras dessas oportunidades em torno da cidade de Angra do Heroísmo e ficando a restante ilha relativamente desfalcada.

Discordo veementemente da ligação directa que por todo o lado se tenta fazer entre formação e emprego. Mas sabendo que os próprios jovens fazem essa ligação, suspeito que a ilha da Terceira pode não ter capacidade de reter os jovens recém-formados de agora e dos próximos anos. A ver que outras revoluções nos esperam a esse nível...

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Fernando Alvim...


Deixou-nos ontem. Conheci a sua música há muito tempo, através do LP "dedicatória". Por exemplo, este "improviso tropical".

Muitos anos depois, editou finalmente um disco, duplo, com músicas suas. "Os fados e as canções do Alvim", simplesmente (também a Celina lá deu uma mãozinha). Ele que havia passado a vida a acompanhar outros músicos e cantores. A última música desse disco é precisamente o mesmo "improviso tropical".

Vi os seus olhos azuis apenas uma vez, no museu das comunicações em Lisboa. Pareceu-me uma pessoa com uma conduta impecável. Não sei se o foi. Mas eu quero imaginá-lo assim. Obrigado Alvim.


Os Fados e as Canções do Alvim from [METAFILMES] on Vimeo.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Ilha Terceira em Fevereiro...


Fotos disponíveis aqui.
Fotos de Ponta Delgada aqui.
Foi o que consegui, dados os meios...

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Mar das ilhas



mar

erguem-se das tuas saias
rudes vulcões frementes
donde as ondas recorrentes
retalham redondas pedras
e das pedras fazem praias

mar

de onde todos os dias
surgem os sóis nascentes
que dos mais pequenos grãos
daquelas praias permanentes
fazem fogos cristalinos
luzidios reluzentes

...e no entanto são
filhos das tuas iras
sovados nas tuas mãos
e nas angústias mais pungentes

mar

que vagueias de vaga em vaga
na liberdade das tuas correntes
que com vagar o vento afaga
a retirar-te um tudo-nada
para semear verdes vertentes

tudo a ti volta

mar

que maternalmente aceitas
todos os dias sóis poentes,
nunca negas o amor
nem ao derrame exterior
dos magmas mais ardentes,

anseio a serenidade
com que nas noites quentes
beijos nas pedras vens pôr
e nestas praias te deitas

Tratamento de verrugas...

(atenção, tratamento só para malucos! só deve fazer isto se for mesmo maluco)

Verruga original.

Verruga após ser violentamente queimada com um ferro de soldar.

Uma semana depois.

Duas semanas depois.

Quatro semanas depois.

Cinco semanas depois.

Dezoito semanas depois.





sábado, 14 de fevereiro de 2015

A alegoria do frango assado (6/6)...

(capítulo1)

Capítulo 6


Fulaninho não teve alternativa. Acabou de comer e abandonou o palácio. As palavras do conselheiro deixaram-no pensativo. Afinal também havia nelas alguma verdade, pensava... E assim caminhou pelos caminhos da 'terra de sabe-se lá onde'.

Foi só quando o sol se pôs que Fulaninho caiu em si. 'Mas... eu não tenho casa! Não tenho para onde ir. Não tenho onde dormir. E o que é que vou comer?' - pensou. Pôs as mãos aos bolsos e agarrou as duas moedas que sabia que ainda tinha... Não, não podia desistir assim tão facilmente.

Passou os próximos dias a pensar e repensar na sua conversa com os conselheiros. Passou todo esse tempo a ganhar coragem para ir novamente ao palácio contar-lhes a sua versão.

Fulaninho não desistiu e conseguiu de novo uma audiência no palácio real. Veio de lá ainda a lamber os beiços do frango que comera e a pensar no que lhe haviam dito. Mas não estava satisfeito. E foi apenas uma questão de tempo até lá regressar de novo.

Os meses passaram-se. Tantas vezes foi Fulaninho ao palácio que já o porteiro o conhecia, já os conselheiros o aguardavam e ele já sentia falta do frango assado quando não o tinha. Os conselheiros compreenderam a situação de Fulaninho. E mais: viram a sua inteligência. Resolveram apoiá-lo. Deram-lhe trabalho no palácio. Marcaram com ele conversas semanais. Pouco depois atribuíram-lhe uma cela.

O tempo passou. E em Fulaninho as sensações de frio e de fome eram agora nada mais do que memórias cada vez mais longínquas e às quais ele não queria regressar. Fulaninho compreendia agora melhor do que nunca o valor dos sapatos, dos copos, dos pratos, dos garfos (uma invenção recente), das carruagens, das moedas. Aos poucos compreendeu o verdadeiro significado do IB. Afinal o IB era um indicador da 'verdadeira economia' (termo também recentemente inventado pelo CEES), daquilo que realmente interessava na vida. A 'verdadeira economia' não estava errada. Quem estava errado era quem dela não fazia parte. O que Fulaninho agora não compreendia era como as pessoas insistiam em não fazer parte da 'verdadeira economia' apesar de tantas e tantas vezes o seu rei lhes estender a mão através das suas medidas.

A inteligência de Fulaninho abriu caminhos novos na corte do rei. Dez anos depois Fulaninho era dos conselheiros mais respeitados. Nessa tarde a reunião era sobre a agora denominada 'economia paralela' (que, segundo o CEES, se opunha à 'verdadeira economia'). Fulaninho fez furor entre os seus colegas defendendo que não se podem manter as regalias 'àqueles que não querem trabalhar'. Com base no seu raciocínio Fulaninho avançou a sua proposta: os inquilinos dos senhores feudais que não apresentem ao longo do ano sinais evidentes de 'produtividade' (uma coisa nova) ficarão sujeitos à expulsão da 'terra de sabe-se lá onde'. A sua proposta foi aprovada por unanimidade.

Fulaninho comeu frango assado e bebeu vinho com os seus colegas. Já o sol se punha quando regressou à cela satisfeito com a sua jornada. O céu estava vermelho para o poente... Não muito longe dali, a mãe de Fulaninho, rugas na testa, mãos calejadas, lenço na cabeça, frio nos pés, seca, velha, cansada, pôde finalmente largar a sua enxada e regressar a casa. Desde que o marido tinha morrido era apenas ela que trabalhava a terra. Já não havia tanto para fazer em casa...

(fim)

(A versão original continha um corolário, mas sinceramente penso que a história não necessita dele. Cada um dá importância ao que quer.)

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

A alegoria do frango assado (5/6)...

(capítulo 1)

Capítulo 5

Na corte todos sabiam que descer os impostos fazia subir o IB. E todos sabiam que isso significava que o povo da 'terra de sabe-se lá onde' viveria melhor. Mas Fulaninho via coisas diversas. Via que quem pagava os impostos eram apenas os que podiam pagar. Pessoas como os seus pais nem dinheiro tinham com que pagar o que quer que fosse. Baixar os impostos só fazia com que os que viviam bem passassem a viver ainda melhor. E consequentemente comessem mais frangos assados. E o IB subia, pois claro...

Na corte também sabiam que quanto maior fosse o número de diligências produzidas num ano, mais o IB subiria. O que Fulaninho sabia é que não era o IB que fazia subir o número de diligências nem o inverso. Ambos subiam quando as famílias mais abastadas conquistavam mais alguns privilégios.

E tudo isto Fulaninho via simplesmente porque um dia resolveu dizer não àquela vida ordeira na aldeia de seus pais e viajara de encontro às coisas e às pessoas e às situações e aos problemas. O rei, aquele rei complacente que queria melhorar a vida do seu povo, nem sequer o seu povo conhecia. E apesar de todos os índices, continuava a desconhecer as suas condições de vida. Para ele o tal 'povo' era simplesmente uma amálgama de muitas pessoas que viviam todas mais ou menos bem, que reagiam em uníssono às suas medidas e que ficavam muito felizes e muito agradecidos por elas.

'-O povo vai nu!' - gritou Fulaninho quando percebeu a profundidade do seu próprio pensamento. '-O povo vai nu e ninguém vê!...'

Fulaninho sentiu que sabia mais que todos. Sabia o que os outros não sabiam. Tinha de os avisar. Decidiu que iria expor o caso ao rei. Lavou as suas roupas no rio, tomou banho, pôs azeite no cabelo, e dirigiu-se confiante para o palácio real. À porta explicou que tinha um assunto muito importante a expor ao rei, mas que só a ele o poderia revelar. Quando o porteiro estava pronto a bater a porta no seu nariz, Fulaninho acrescentou apressadamente 'tem a ver com o IB'. A porta abriu-se um pouco e o porteiro disse 'com o IB?... vou ver se o podem receber'.

Fulaninho foi recebido por três conselheiros do rei em pleno repasto. Podia cheirar-se o frango assado com que se lambuzavam.

'-Senta-te. Come. Ao que vens?' - perguntaram a Fulaninho que não resistiu ao convite. E enquanto mastigava o delicioso frango, Fulaninho ia explicando como o IB de nada servia...

'Como? Que dizes? Ousas vir até aqui desrespeitar o meu trabalho e o de todos os meus colegas?'

Fulaninho tentou então explicar tudo aquilo que sabia, tudo o que aqueles longos anos sem tecto lhe haviam ensinado. Mas não estava a ter sucesso. Depois de ouvir o último argumento de Fulaninho um dos conselheiros respondeu-lhe:


'-Jovem. Vieste aqui dizer-nos que o IB não interessa. No entanto, de tudo o que dizes, vejo que percebes bem a relação entre o IB e outras grandezas deste reino. Sabes que o número de sapatos está relacionado com o IB. Sabes que os bens que nos chegam das colónias estão relacionados com o IB. Sabes que o número de talheres de prata está relacionado com o IB. Sabes que os números de mestres e de nobres e de padres estão relacionados com o IB. Sabes que o número de casas senhoriais está relacionado com o IB. Sabes que o produto das colheitas do trigo está relacionado com o IB. Sabes que a gravidade das epidemias está relacionada com o IB. E muito mais pareces saber tu acerca das relações de todas estas coisas com o IB. E apesar disso ousas repetir que o IB não interessa? Como não interessa? Se o IB não interessa, o que é que interessa? O que mais pode interessar do que o vinho que se produz, do que as roupas que se fazem, do que as casas que se constróem? A vida é isto. E o IB traduz isto. Agora acaba de comer esse frango, volta para tua casa, reflecte sobre isto e descansa. Pareces agitado, jovem...'

(continua)

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Ó Brigada!...


("crowdfunding")


A Brigada Víctor Jara comemora este ano 40 anos de existência. Eu comemoraria 41, não fosse o facto de gostar cada vez menos de contabilizar as voltas que cada pessoa dá ao sol... Tal como na história do Papalagui... mas isso são outras histórias.

Um dos discos de vinil que os meus pais tinham lá por casa era o "Tamborileiro", da Brigada Víctor Jara, publicado em 1979. Tantas e tantas vezes ouvi aquele disco... E com ele aprendi sem o saber, apreendi, interiorizei, melodias, instrumentos, ritmos, cantares que não eram os mesmos que usualmente se podiam ouvir na rádio. Eu adorava aquilo. E ainda adoro!... Mas só muito mais tarde é que percebi que afinal as coisas que eu tinha interiorizado eram a maneira de as pessoas que moram neste pedaço de mundo a que se chama Portugal fazerem música. Eram "as maneiras", aliás, porque eram muitas e diferentes entre si, ao contrário daquilo que a tendência "ocidentalizante" que leva tudo à sua frente nos quer fazer acreditar.

Muito aprendi e cresci com a música que deles me chegou. Deixo-vos aqui um exemplo, precisamente do Tamborileiro:

"Se quereis alguma coisa, rema que rema, lá em terra falaremos...", porque as contas nunca se acertam quando a vida está em risco e não há espaço para fugas... :)

E por isso mesmo só tenho que lhes agradecer. Não lhes agradeço o seu gosto pela música, nem o facto de a fazerem. Agradeço-lhes sempre que o partilham com os outros.
Agradeço sempre as partilhas...

A Brigada adoptou o nome de Víctor Jara. Víctor Jara era uma pessoa que nasceu num sítio deste planeta a que se dá o nome de Chile. E porque defendia abertamente ideias de esquerda, foi morto pelos de direita. A 11 de Setembro de 1973 o comandante do exército chileno, Augusto Pinochet, liderou um golpe de estado que teve o apoio dos EUA e que o viria a sagrar ditador daquela parcela do planeta Terra até 1990. Imediatamente no dia seguinte o exército de Pinochet fez milhares de prisioneiros, entre os quais Víctor Jara, que acabou por ser morto três dias depois, a 15 de Setembro, aos 40 anos de idade... precisamente.

Víctor Jara morreu aos 40 anos de idade, assassinado, o seu corpo deitado aos bichos, porque defendia o direito de viver em paz. Augusto Pinochet morreu aos 91 anos de idade, de edema pulmonar, no hospital e rodeado pela sua família, porque matou muitos milhares de pessoas.


Você não é nada,
nem chicha nem limonada,
se passa a vida a manusear
a sua dignidade...

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

A alegoria do frango assado (4/6)...

(capítulo 1)

Capítulo 4

Fulaninho nunca mais se esqueceu do dia em que viu pela última vez o mensageiro. Veio anunciar a mais recente subida no 'índice de bem-estar' e as medidas para o novo ano: uma nova descida nos impostos e um novo aumento nas rendas. Foi nesse mesmo dia que Fulaninho fez as malas e zarpou.

Ao longo dos últimos mais de dez anos Fulaninho tinha sabido, através do mensageiro, das subidas do IB 'que tão importantes são para o povo da terra de sabe-se lá onde'. No entanto, em casa dele eram todos os anos os mesmos quatro ou cinco frangos. Os pais, agora com dores nos ossos, continuavam a levantar-se com o nascer do sol para trabalhar nas terras que não eram deles. E alguns amigos seus, os mesmos de sempre, continuavam sem frango assado mesmo no Natal.



Fulaninho estava farto daquilo. Arrancou à procura de outra sorte.

Ele não via nem mais nem menos do que viam os seus: que o IB subia, que não se falava noutra coisa senão nas subidas do IB e nas políticas do rei, mas que na realidade tudo continuava na mesma. Na sua aldeia, o velho Falus Baratus :) lá comunicava todos os anos ao rei o consumo de frangos assados. Todos os anos o consumo era maior. Mas Fulaninho sabia quem tinha aumentado o consumo de frangos... Valis Longus e companhia. Para os outros tudo permanecia mais ou menos na mesma.

No entanto Fulaninho era o único inconformado. Quando nesse jantar insistiu com os pais que eles tinham de se manifestar contra o aumento das rendas, e estes lhe disseram que tinha razão, mas que se o fizessem o senhor Longus trataria de arranjar outros inquilinos, Fulaninho percebeu que não podia suportar mais aquela situação.

Fulaninho transformou-se num vagabundo. Era inteligente, e não perdia a oportunidade de encantar alguém com as suas qualidades. Às vezes conseguia comida e abrigo. Outras vezes dormia na rua, ao frio, com o estômago vazio. Durante anos foi essa a sua sorte.

Para ele tinha valido a pena. O mundo revelara-se-lhe. Era essa a sua recompensa. E não a trocava nem por cem frangos assados! Ao longo das suas deambulações tinha descoberto coisas que nunca poderia ter conhecido lá na sua aldeia. Fulaninho cruzou fronteiras, conheceu a 'terra de cima' e a 'terra de baixo', dormiu com filhas de nobres (inclusive uma vez fez-se passar por um!), aprendeu a fazer sapatos, teve de roubar para comer... Via as diversas facetas da verdade. Viu como era importante para os senhores das terras ter mais poder sobre os seus inquilinos e como ficavam doentes quando estes lhes estragavam os campos ou lhes secavam os poços. Percebeu como esses senhores, as escolas, os mensageiros e o IB nada significavam para quem não tinha onde dormir ou o que comer.

Tinha conhecido pessoas que comiam tanto frango assado como o rei, que tinham o poder de distribuir o frango assado excedentário pelos que lhes prestavam vassalagem. Mas tinha igualmente conhecido quem nunca tivesse provado frango assado. Perto da fronteira com a 'terra de baixo' tinha conhecido uma comunidade de pessoas a quem o frango assado fazia azia. Noutra ocasião conheceu uma família que dizia que frango assado era para os que não conheciam a 'verdadeira cozinha'. Esses comiam pato assado. E na 'terra de cima' percebeu que a religião do povo não permitia a ingestão de aves de qualquer espécie.

Fulaninho confirmou de todas as formas as suas já antigas suspeições. o IB era uma falácia. Era um indicador do bem-estar, sem dúvida, mas só para algumas pessoas.

(capítulo 5)

Dependências involuntárias...

Ou "como as coisas boas estão sempre ligadas a coisas más"... e como é necessário ter força para suportar as más, se queremos também as boas... Temas que já aflorei no passado, por exemplo aqui.

Esta é a gata que me tem feito companhia nos últimos meses em casa do meu pai, durante as obras:
Enquanto trabalhava no exterior da casa, ela apanhava sol aninhada sobre o capô de algum carro. E, tal como na história da raposa do principezinho, foi-se chegando. E agora gosta de dormir no meu colo... logo o meu! que sou alérgico a gatos!...

Um dia eu partirei. Para ela será de repente, e sem explicação. Sentirá a minha falta? Ficará ressentida? Que posso eu fazer?...

Em Valongo, em 2007, escrevi assim:

É difícil o amor

Dei-te tudo o que pude
enquanto pude.

E agora, que estou esgotado,
espero em troca a tristeza
pela fonte que secou.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

A alegoria do frango assado (3/6)...


(capítulo 1)

Capítulo 3


Após os primeiros anos de construção e publicação sistemática do IB os conselheiros do rei começaram a perceber que não existia uma relação directa entre as medidas e as expectativas do rei e a evolução do indicador. Chegou mesmo a acontecer que em anos em que o rei mais apostou na subida do IB, ele desceu, e em anos em que o rei se desleixou, o IB cresceu mais do que o habitual.

Das reflexões que se seguiram acabou por ser constituído um grupo de estudo incumbido de averiguar precisamente qual a relação entre as medidas que o rei tomava e a respectiva evolução do IB. Ao fim de trinta e duas semanas de trabalho árduo o grupo chegou à sua primeira conclusão: não havia aparentemente qualquer relação entre as medidas adoptadas e a evolução do IB! No entanto, o grupo tinha descoberto algo verdadeiramente espantoso: nos anos em que chovia menos, o IB não crescia tanto, chegando mesmo a descer se desse alguma praga nos animais.

Entusiasmados com as suas novas descobertas, o grupo de estudo e os conselheiros do rei logo lhe propuseram a manutenção dos fundos de apoio às suas actividades. E assim surgiu o CEES - Centro de Estudos Económico-Sociais da 'terra do sabe-se lá onde'.

Pouco tempo depois o CEES já tinha constatado a existência de relações entre dezenas de variáveis - a pluviosidade, a taxa de imposto, o número de feriados, as rendas pagas pelas terras, a taxa de natalidade, a saúde dos animais, a emigração, os bens que chegavam das colónias, o número de escravos, o número de moedas de ouro cunhadas, o número de sapatos produzidos, etc. - e a forma como todas estas relações influenciavam as descidas e as subidas do IB.

Apoiado pelo produto dos seus mais brilhantes pensadores, o rei sentia-se cada vez mais confiante nas medidas que tomava. E tinha razões para isso: o IB crescia de uma forma cada vez mais consistente (alguns conselheiros diziam que o IB crescia 'sustentadamente'). O rei estava orgulhoso de si. Nesse ano decidiu baixar os impostos e aumentar as rendas - os estudos do CEES demonstravam sem margem para dúvidas que tais medidas fariam subir o IB.

(capítulo 4)

domingo, 18 de janeiro de 2015

Janeiro lento - Celina: take five...

No penúltimo disco da Celina da Piedade, "Em Casa", está incluído o tema "Janeiro lento em Lisboa". Uma vez que o vídeo que se segue foi gravado em 2011, o tema terá sido provavelmente composto em Janeiro desse ano. Janeiro lento, em qualquer parte do mundo:

Celina da Piedade - "Janeiro lento em Lisboa" (quarto) from MPAGDP on Vimeo.

Um tema que já abordei no passado (por exemplo aqui) é o de que o conhecimento só acrescenta à nossa experiência: quanto mais se sabe, mais se gosta. Em relação à música, não tenho dúvida alguma que o ser capaz de ouvir as muitas coisas que nelas há para ouvir só torna a experiência melhor, de diversos pontos de vista. Dissecar os gostos é algo que desgosta muita gente. Mas só assim poderemos compreender porque é que gostamos e desgostamos. Explicar o que se sente, juntando pensamento e sentimento, além de nos tornar mais íntegros, torna-nos mais conhecedores de nós próprios e do mundo.

E agora... vou dissecar!...

O tempo desta música é 5/4. As primeiras notas da melodia soam mais ou menos assim. Ou seja, temos conjuntos de 4 notas, mas a quarta nota de cada conjunto demora o dobro das restantes. Portanto é como se em cada conjunto existissem 5 notas. Se, pelo contrário, a quarta nota demorasse o mesmo que as restantes, a música soaria mais ou menos assim, tendo um tempo de 4/4.

A música que normalmente ouvimos em Portugal (a que se ouve nas rádios e nas televisões, a que se compra nas lojas, a que se ouve nos elevadores e nos supermercados, a que acompanha a publicidade...) é quase toda em compassos binários, ternários ou quaternários. O mesmo se passa com as músicas deste mundo a que resolvemos chamar de "ocidental". Um compasso quíntuplo é, portanto, e para nós, um compasso esquisito, fora do comum, e que como tal classificamos de complexo.

Note-se, porém, que noutros sítios deste planeta, e noutras culturas, uma vez que as culturas não têm propriamente sítio, tempos de 5/4, 5/8, 7/8, 9/8, 11/8 e por aí fora são muito comuns. Por exemplo, se ouvirem as músicas tradicionais búlgaras deste pacote, poderão reparar que muitas músicas são em 7/8. Ou poderão ter dificuldade em reparar nisso, mas certamente constatarão que não se enquadram nos nossos conhecidos compassos binário, ternário ou quaternário.

(Já agora, a Celina também lá põe no mesmo cd duas valsa a 8 tempos e outra música cuja batida também é no conjunto 3+3+2, mais uma coisa esquisita. Ide lá investigar)

Se atentarmos agora às notas mais graves (tocadas pela mão esquerda) notaremos que os acentos são colocados mais ou menos assim ou, se quisermos, assim. Isto significa que cada conjunto de 5 notas pode ser agrupado em 3+2. Outra forma de reparar nisso é atentar à linguagem corporal da Celina: toda ela é movimento 3+2! É uma maneira de o fazer, mas naturalmente poderia ser de muitas outras maneiras. No final haverá um exemplo alternativo.

O modo como este tempo 3+2 é bem marcado ao longo de toda a música faz dela uma óptima música para dança... digo eu!

Ainda numa análise objectiva, a escala adoptada começa em Lá e é uma escala menor natural (a que pelos vistos também se dá o nome de modo eólio). Soa assim. Se fosse uma escala maior em Lá soaria antes assim. O efeito que tem sobre nós uma escala menor já é algo mais subjectivo e até certo ponto culturalmente determinado.

Finalmente, a Celina enfia-nos uma pequena surpresa a meio da melodia, que é a introdução da nota Si bemol no primeiro vaivém às notas altas, e que perdura até ao final dessa frase melódica. Estou-me a referir a esta nota aqui. Mesmo não estando muito atento, nota-se que há uma variação, alguma coisa que muda... e isso enriquece a música.

A minha análise subjectiva desta música é que ela é ao mesmo tempo alegre e triste, ou uma mistura dos dois. As voltinhas das notas mais agudas a irem para cima e para baixo são como que os altos e baixos, as alegrias e as tristezas que vão ocorrendo ao longo do tempo, que passa sempre sem parar... conforme as notas mais graves nos transmitem. A cadência e as repetições da música acentuam esse efeito, tal como a repetição com que ela termina... Como se o tempo fosse um comboio que não pára nunca... e afinal o que é lento não é Janeiro, nem é Lisboa, mas somos nós, é a nossa vida!

Provavelmente é obra do acaso, mas a mão esquerda é a que está mais iluminada e visível, e é também dela que gosto mais nesta música...

Uma música bonita. Celina: take five!



(que é uma maneira de acabar com outra música em 5/4, mas desta vez as notas agrupam-se em 2+1+2. uma forma de o sentirmos é tentarmos dançá-la, notando que se dança bem com um passo lento, depois um rápido, depois outro lento, e voltando ao início)

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

A alegoria do frango assado (2/6)...

(capítulo 1)

Capítulo 2



Fulaninho da Silva veio ao mundo senhor de alguns cabelos na careca e um vozeirão capaz de irritar mesmo as mães mais babosas. Nada mais lhe pertencia. Nada mais seus pais lhe puderam dar.

Seus pais trabalhavam a terra que não era deles. O pai lá ficava nos campos, de sol a sol. A mãe só lá trabalhava durante as manhãs. De tarde voltava para casa e fazia os restantes trabalhos domésticos. Fazia questão de ter a casa sempre limpa. Além disso guardava sempre 'um pouco do melhor' para quando lá fossem visitas: alguns frutos secos, algum vinho. Só não tinha era frango assado. Não que ela não quisesse. Não que não estivesse disposta a suportar o seu custo só para agradar aos convidados. Mas o frango estragava-se...

Fulaninho cresceu. Quando fez seis anos os seus pais decidiram mandá-lo para a escola. Faziam questão que o seu filho não tivesse a mesma vida que eles, custasse o que custasse. Fulaninho era uma criança irrequieta e curiosa, cheia de vida. Queria saber tudo. Perguntava tudo aos pais. E os pais, mesmo que não soubessem responder, lá lhe contavam a sua versão das coisas, só para não darem parte de fracos. Fulaninho tinha muita confiança e muito orgulho nos seus pais.

Certo dia, já tinha Fulaninho dez anos de idade, chegou à aldeia onde morava um senhor a cavalo, muito bem vestido. Parou na adro do pelourinho e tocou uma corneta muito barulhenta. Quando se certificou que tinha captado a atenção dos habitantes, sacou de um papel que trazia enrolado, e à medida que o desenrolava ia dizendo em voz alta: que o rei tinha morrido, que o novo rei era tal e tal...

Fulaninho perguntou aos seus pais se isso era bom. Os pais não sabiam... Disseram-lhe que era assim... que para eles pouca diferença fazia... que as coisas só podiam melhorar...

Poucos meses depois o senhor do cavalo e das vestimentas voltou para anunciar as medidas que o novo rei tinha tomado. Explicou como se havia de eleger um representante para comunicar anualmente ao rei o número de frangos assados consumidos naquela aldeia. É claro que Fulaninho ficou intrigado.

'-Ó pai, para que é que o rei quer saber quantos frangos assados comemos?'

Lentamente Fulaninho começou a perceber que os pais afinal não sabiam tudo. E também não era na escola que saciava a sua curiosidade. Mas Fulaninho não desistia... queria saber, tinha de saber. E lentamente começou a construir o seu próprio rumo, por onde acabaria por ir sozinho.

Quatro anos passaram. Por essa altura, no início de cada ano, o mesmo senhor do cavalo já era aguardado com expectativa por todos. Vinha comunicar a variação no IB e as novas medidas adoptadas pelo rei. Na escola os colegas mais novos de Fulaninho já aprendiam o que era o IB. Na aldeia já todos compreendiam o que era o IB e sabiam como era importante que o IB aumentasse. Assim, se o mensageiro anunciava uma descida no IB, todos ficavam deprimidos, ansiosos, expectantes, todos tratavam de poupar e gerir melhor os seus haveres. Se fosse anunciada uma subida, todos reforçavam as suas impressões de uma melhoria nas suas vidas e logo os homens iam comemorar para a tasca.

Na família de Fulaninho comia-se frango assado nas ocasiões especiais: no Natal e nos aniversários do pai. Eventualmente, se a dignidade de algum convidado justificasse, lá se comeria um frango assado extra. Fulaninho dava-se por satisfeito. Sabia que nem todos os seus colegas de escola tinham a mesma sorte. Alguns nunca comiam frango assado. No entanto, sabia também, porque volta e meia se falava disso, que o filho do pároco comia para aí uns cinco ou seis frangos por ano! E não era o único: também havia o filho do senhor doutor e os filhos do Valis Longus, o senhorio dos pais e de todos os vizinhos.

Fulaninho cresceu, trilhando solitário o seu próprio rumo. Foi descobrindo que algumas das coisas que se falavam na escola não eram verdadeiras. Mas foi percebendo também que as desigualdades eram muito mais relevantes e consequentes do que havia julgado. Nem todos na aldeia comiam o mesmo número de frangos. E quando as coisas melhoravam, não melhoravam de igual forma para todos. E por muito que os pais trabalhassem, com as costas cada vez mais vergadas e as rugas cada vez mais sulcadas, lá em casa nunca se comiam mais de quatro ou cinco frangos por ano.

(capítulo 3)

sábado, 10 de janeiro de 2015

A alegoria do frango assado (1/6)...

Uma história, ou estória se quiserem ser mais chiques, que escrevi há exactamente dez anos atrás (como o tempo voa!...). Tem seis capítulos. Aí vai o primeiro:


Capítulo 1

Era uma vez um reino perdido nas montanhas da 'terra do sabe-se lá onde'. Depois de uma série de reinados despóticos, chegou ao trono um rei complacente que elegeu como prioridade do reino a melhoria das condições de vida do seu povo.

Mas, na realidade, o rei não fazia sequer ideia de como vivia o seu povo: se vivia bem ou mal e quais as suas carências. Depois de pensar um pouco sobre isso (não muito, que os reis cansam-se depressa), e considerando que o reino de cem quilómetros quadrados era demasiado vasto para ser pessoalmente percorrido de lés a lés (uma vez que, como disse, os reis cansam-se depressa), o rei decidiu reunir os seus conselheiros e debater a questão.

Os conselheiros reuniram então com o seu rei. O objectivo era arranjar um modo de aferir sobre as condições de vida da população. Muitas ideias foram lançadas para o debate (naquilo que hoje se chamaria um 'brainstorming' ou, se quiserem, uma 'tempestade cerebral'): seria permitido às pessoas enviarem cartas directamente para o rei a exporem os seus problemas, seria eleito um representante em cada aldeia que faria anualmente uma exposição das carências aí verificadas... Até que um dos conselheiros disse que não concordava com nada daquilo.

Segundo Numerus Clausus (era este o nome do conselheiro), não se deveria determinar o estado em que a população vivia através dos relatos das diversas pessoas. Não se deveria confiar de todo nesses relatos, dizia. Clausus era a pessoa certa para fazer tal afirmação. Lá na corte era o elemento mais introvertido e misantropo. Ficava dias e dias encarcerado na sua cela, profundamente mergulhado nas suas tábuas de 'números cósmicos', que segundo ele podiam explicar todos os fenómenos observáveis.

Clausus defendia que deveria haver um processo mais objectivo para determinar as condições de vida da população. Um conselheiro sugeriu então que se contassem os bens que cada pessoa possuia. Mas claramente, retorquiu logo outro, não faria sentido atribuir o mesmo significado a uma batata ou a uma casa. Foi então que o rei se lembrou de que no seu reino era usual comer-se frango assado. E uma vez que os frangos assados não eram tão baratos como as batatas, nem tão caros como as casas, podia-se contar o número de frangos assados que cada pessoa comia - esse número daria uma ideia de como as pessoas viviam.

Claro que ele, o rei, comia frango assado dia sim dia não, e só não comia mais porque se aborrecia de estar sempre a comer a mesma coisa. À sua volta os elementos da corte comiam bastante frango assado, embora não tanto como o rei. No entanto, o rei não conhecia ninguém que não comesse, pelo menos de vez em quando, frango assado.

Depois de se limarem uma data de arestas, o rei e os seus conselheiros chegaram à seguinte conclusão: seria construído um 'índice de bem-estar da população'. Para esse efeito, todos os anos, numa data precisa, os representantes de cada comunidade comunicariam ao rei o número de frangos assados comidos durante o ano. Os conselheiros do rei calculariam então uma média ponderada pelo número de homens de cada comunidade (as mulheres e as crianças só mais tarde é que foram consideradas).

O rei ficou feliz com a sua decisão. No primeiro ano o número médio de frangos assados consumidos por pessoa foi de três. O rei não fazia ideia se isto era bom ou mau. À primeira vista pareceu-lhe péssimo, uma vez que ele próprio consumia anualmente mais de cem frangos assados. Mas depois pensou que o seu povo não podia viver assim tão mal... ele é que vivia muito bem, pois claro! E como não tinha termo de comparação, o entretanto baptizado IB - índice de bem-estar - assumiu nesse primeiro ano o valor de 100.

Ora, pensou o rei, se o objectivo é melhorar as condições de vida das pessoas, só tenho que fazer com que o IB cresça. Nem o rei nem os conselheiros sabiam quanto é que o IB devia crescer, mas rapidamente se habituaram à ideia de que o IB devia crescer... e isso era tudo!

Os anos passaram. O rei, sempre complacente, assinou acordos de paz com os seus vizinhos e tomou algumas medidas que lhe pareciam poder beneficiar o seu povo. O IB lá foi crescendo, paulatinamente. Na corte, todos os anos, já se ansiava pela divulgação do novo valor do IB. E quando a conversa era sobre o reino, o IB vinha sempre à baila: porque o IB sobe, porque o IB desce, não se pode fazer isso por causa do IB, o IB para aqui e o IB para ali.

(capítulo 2)

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

O detector de tretas - complemento...

Aqui está um curto vídeo (como aparentemente todos os vídeos hoje em dia têm de ser se os seus autores querem ter alguma audiência) que explora uma questão que levantei no meu artigo sobre o detector de tretas e que é: como é que podemos saber as coisas que sabemos?...



Conforme afirmei, sejamos nós crentes ingénuos ou cientistas cépticos, aquilo que aceitamos como realidade é sempre uma questão de fé. Sempre.

Isso não quer dizer, contudo, que é indiferente para nós acreditarmos numa ou noutra versão distinta das coisas. Acredito eu! Há consequências sérias de acreditar em coisas que não se ajustam bem à realidade. Acredito eu!... E nunca poderemos saber se esta minha crença é verdadeira ou não, mas se continuarem a acreditar que o Passos Coelho é um porreiraço e voltarem a votar nele, eu aposto que continuarão a ter as dificuldades económicas que agora têm... É uma maneira de testar!

E testar é importantíssimo para construirmos um bom detector de tretas.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

TV Rural - a dar-nos música pela barba...

É bom saber que há música a surgir à nossa volta em todos os sabores...


Estes sabores, para mim diferentes dos que a música portuguesa costuma ter, e bons, podem ser lidos e ouvidos com mais extensão e intenção neste site:

http://tvrural.bandcamp.com/

querias viver a vida a dormir
...
sem o ruído da razão
a moldar-te a percepção
...
e ainda dizes que nada disto te é sentido.
olha que bem!
...
nunca me fez tanto sentido
cantar canções de intervenção,
basta olhar à volta
...
e não aceitar
que a voz se apague pelo cansaço
...
mas olha, não te vás embora,
junta-te a mim!
mas olha, não te vás embora,
junta-te a mim!
...