domingo, 14 de outubro de 2018

Não é o teu beijo...


(the kiss of the sphinx - Franz von Pieces)



não é o teu beijo

são todas as crenças que nele ponho
que quero pôr
mesmo sabendo
que não sei
se saboreio o amor

ou as intensas memórias do sonho
que há tanto tempo sonho
e naquilo que em ti vejo
eu insisto em sobrepor

awf, Angra, 3 de Junho de 2017

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Porque é que as pessoas com gripe não devem ir aos hospitais?



Qualquer pessoa responderá alegre e afirmativamente à questão "acha que é bom aumentar a produtividade?". Logo a seguir responderá afirmativamente e com ainda mais alegria à questão "quer ter mais férias?". Talvez se perguntarmos à pessoa como é que se mede a produtividade a sua alegria comece a diminuir um pouco... E este é um método simples para detectar a presença de ideologias nas cabeças das pessoas, que passam despercebidas aos respectivos hospedeiros.

Aumentar a produtividade é uma batalha sem fim que resulta em mais serviços e produtos (às vezes nem sequer de melhor qualidade) e piores pessoas.

Imaginemos que eu consigo fazer o trabalho de que fui incumbido em 8 horas. Imaginemos que desenvolvo e aplico métodos que me permitem efectuar o mesmo trabalho em 4 horas. O que é que acontece às 4 horas restantes?... Se eu for um trabalhador por conta de outrem (ou um falso recibo verde) a trabalhar no sistema nacional de saúde a resposta é muito simples: as restantes 4 horas serão passadas a produzir mais (e não sabemos se melhor). Isso permite-me ganhar mais dinheiro? Não. Permite-me ter mais tempo livre? Não. Isso faz os meus colegas mais felizes? Não. Isso poderia fazer os utentes do serviço ficar mais felizes... por exemplo através de uma redução dos tempos de espera para consultas. Mas a administração dos hospitais é, por motivos que estão muito longe do acaso, dominada por especialistas em finanças, a mando de gente que aparentemente tem no dinheiro o fim último da sua existência. E portanto, se um trabalhador conseguir reduzir o tempo de execução de um trabalho para metade, o que acontece é que a administração irá rapidamente definir isso mesmo como padrão, irá exigir o mesmo comportamento a todos os trabalhadores, e rapidamente irá arranjar maneira de reduzir o pessoal para metade, fazendo o mesmo trabalho que originalmente, mas gastando metade do dinheiro. Tcharan!

Qual é então o incentivo que alguém que trabalha por conta de outrem tem em aumentar a sua produtividade?... Mas as pessoas são parvas?... Sim, são. Seria parvo não o admitir! Mas são menos parvas quando o assunto em causa mexe no seu bolso...

De qualquer modo, só alguém muito desatento é que ainda não percebeu que os serviços públicos que podem dar lucro quando explorados por privados, todos eles, estão a ser convertidos ao longo de vários anos em serviços mínimos: algo que não mate os pobres, porque afinal são precisos "recursos humanos", e que não nos deixe muito envergonhados nas estatísticas (e nesse aspecto ajuda que os outros países sigam trajectórias semelhantes...), mas que por um lado não exija muitos impostos e por outro deixe a porta aberta ao negócio de quem se pode meter nessas andanças.

E para entender porque é que isto é assim, é preciso abrir os olhos, ao ponto de identificar ideologias em cabeça própria, o que é muito difícil, é preciso abandonar um pouco de ingenuidade, e é preciso aprender um pouco acerca de assuntos um pouco chatos.

Quem se contenta com a ideia simples de que "não há dinheiro" não vai entender nada do que eu vou escrever...

Se acreditarmos que efectivamente não há dinheiro, então acreditamos que o governo, coitadinho, está a fazer o que pode, que as administrações hospitalares estão a "racionalizar" o mais que podem, que os trabalhadores devem ter amor à camisola e dar o litro em prol de tudo o que não tem a ver com eles (em prol dos utentes, das estatísticas do serviço de saúde, da pátria, da família, de Deus), que os utentes devem fazer tudo o que está ao seu alcance, seja lá o que isso for...

Uma coisa que se entende que os utentes patriotas e co-responsáveis na árdua tarefa de pagar a dívida pública (e que ainda não perceberam que ela não é para ser paga, porque é uma maravilhosa galinha de ovos de ouro) devem fazer é passar a ser especialista em auto-diagnóstico. De preferência, os utentes devem tratar-se sozinhos e não necessitar sequer de ir aos hospitais. Os utentes devem compreender que os hospitais funcionam muito melhor sem eles e devem colaborar para não pôr lá os pés!

Mas que raio de país é este onde o ministério da saúde age como um ministério da doença, e em vez de promover a saúde, limita-se a aviar enfermos?

Talvez pudessem fazer o mesmo nas escolas!... É que a wikipedia tem lá tudo, e além disso já se sabe, as más companhias... a ignorância apega-se!... Mais vale as escolas funcionarem só com os pobrezinhos que precisam mesmo de aprender a apertar parafusos para conseguirem um emprego no estaleiro do próximo arranha-céus-com-mil-andares. Os que querem mesmo aprender, já se sabe... que com o conhecimento e a formação e a educação não se brinca... portanto nem que custe mil euros por mês... o melhor é ir para o colégio privado. As escolas públicas especializar-se-iam então nos casos da mais aberrante ignorância, e o ministério da educação passaria a chamar-se ministério da ignorância.

E à semelhança dessa nova invenção que é o internamento de doentes nas suas próprias casas (para não entupirem os corredores dos hospitais), também as escolas funcionariam como dispensadores de curtas sessões de esclarecimento de dúvidas, sendo os estudantes encaminhados para estudar em casa. Ah, e claro que iriam pagar taxas inibidoras... ou moderadoras, para garantir que as escolas, tal como os hospitais, ganham o máximo e gastam o mínimo a aturar chatos que vão lá só para saber qual é o diâmetro da Via Láctea ou para saber que é a resposta ao paradoxo de Zenão.



Bom... deixando a ironia, e passando um pouco para o sério, porque a questão é muito séria mesmo.

Este modelo de gestão do serviço nacional de saúde pode chatear muitos trabalhadores, que podem e devem manifestar o seu descontentamento (porque afinal o dinheiro existe... é só preciso descobrir onde), mas tem consequências muito mais graves do que isso: trata mal os utentes. Trata-os mal, ao ponto de os matar precocemente. E isso não é tema para se brincar.

Sim... é claro que num contexto onde é necessário dar mais atenção aos que estão entre a vida e a morte, é preferível que os que têm gripe não chateiem, mesmo que eles próprios, uma vez por outra, também morram. Este é o pensamento da miséria... É mesmo miserável.

Mas o serviço de saúde deve ser um serviço de saúde, e não um serviço de doença. O serviço de saúde deve existir para dar saúde às pessoas, e não apenas para tratar das suas maleitas mais graves. E, para quem já se esqueceu de algumas relações de causa-efeito fundamentais, muitos dos problemas mais graves começam com problemas mais pequenos. Por exemplo, com problemas suficientemente pequenos para serem menosprezados por quem os atende nos hospitais... Mais taxa moderadora, menos taxa moderadora, mais espera, menos fila, com senha ou com telefonema, exame e relatório, sim senhor doutor, não senhora doutora... o tempo corre, e a saúde vai-se... até a mental.

Ninguém nasce ensinado. E convém, num serviço nacional de seja o que for, que os respectivos funcionários cumpram o seu dever de difusão de informação. Se alguém souber o que é a diabetes, deverá também saber como é difícil fazer com que um diabético entenda o que deve alterar no seu modo de vida. E quem lida com velhotes sabe como é difícil simplesmente fazer com que tomem os medicamentos certos às horas certas... Portanto não é razoável esperar que uma campanha com meia dúzia de cartazes ou publicidades fugazes na rádio ou na televisão produza efeitos miraculosos. E portanto, como me parece razoavelmente evidente, é da competência do serviço nacional de saúde apoiar as pessoas na aquisição do conhecimento e na mudança do comportamento face a um estilo de vida mais saudável. Tal como é da competência do serviço nacional de educação apoiar as pessoas na aquisição do conhecimento e na mudança de comportamento face a um estilo de vida mais consciente, onde as pessoas possam ser mais autónomas na aquisição e no julgamento crítico do conhecimento.

Dando um exemplo simples: consultas de dentistas deviam ser ministradas regular e gratuitamente a toda a gente. E é claro que isso devia acontecer mesmo que as pessoas não apresentassem quaisquer sintomas de doença! Esse é, obviamente, o objectivo a alcançar! Só desse modo se conseguem detectar problemas antes que eles se tornem mais graves.

Mas, mas, mas...

O "mas" usual tem a ver com dinheiro. Mas quem é que paga a esses dentistas todos?... A resposta é sempre a mesma: quem tem dinheiro. Era assim que devia ser. E se assim não é, talvez fosse bom começar a investigar porque é que assim não é. Porque é que o Estado nunca tem dinheiro para nada, mas eu nunca vi tantos carrões e tantos hospitais privados à minha volta. E compreender e actuar sobre isso é urgente e é importante. Portanto eu devia começar a acabar as conversas logo que me colocam um "mas" desse tipo, afirmando liminarmente: instrui-te!

O "mas" seguinte poderá ser algo como: pronto, devia ser diferente... mas não é. E neste momento não há dinheiro e portanto como é que se faz?

Mas a verdade é que há gente a passar fome e o problema da pobreza não pode ser resolvido de hoje para amanhã, portanto como é que se faz?...

Volta-se à ironia! Constrói-se um mega banco alimentar, cujos trabalhadores voluntários e crentes num mundo melhor baseado na caridade, se regozijam todos os anos com o aumento da sua actividade, sem que a direcção sequer perca algum tempo a pensar como é que há-de acabar com a fábrica que cria pobres.

Haja pachorra!...

É claro que se encontrar um homem a morrer à fome e tiver comida eu vou partilhar com ele a minha comida! Mas também é claro que vou tentar saber as razões pelas quais ele não tem comida, e actuar sobre elas para impedir que amanhã tudo volte à estaca zero.

Será que perdemos totalmente este discernimento que me parece rudimentar?...

Se o Estado não tem dinheiro, é claro que temos que nos amanhar com o que há, mas devia ser igualmente clara a necessidade de despender algum do nosso tempo a tentar entender porque é que o Estado não tem dinheiro, e a implementar medidas para que amanhã isso não volte a acontecer!

Entretanto os doentes contagiosos deviam ser fechados num bunker... Pois... Talvez fuzilados e cremados de seguida, não?... Poupavam-se tantos recursos!...

É claro que não!

É claro que os hospitais deviam ser centros de saúde, onde qualquer pessoa, a qualquer instante devia poder recorrer para poder ser ainda mais saudável. E é claro que os doentes contagiosos devem ter um tratamento adequado para minorar o risco de contágio a outras pessoas. E é claro que isso requer pessoas, requer equipamentos, requer tempo e requer dinheiro.

E é claro que só gente que se preocupa mais a diminuir o número de trabalhadores nos hospitais, não investir em equipamentos, consumir todo o tempo dos outros e poupar todo o dinheiro próprio é que poderia fomentar campanhas que pretendem criar no cidadão a ideia de que responsabilidade e dever cívico implicam ir ao hospital só se for mesmo algo de muito grave!

sábado, 28 de abril de 2018

Era uma vez o homem...

O último episódio desta série, produzida em 1978. Na altura a minha família não possuía televisor, pelo que a série me chegou através das revistas que o meu pai ia comprando aos domingos, em Pereiró, Porto. Lembro-me de ler/ver as revistas quando ainda não conseguia sequer interpretar as datas que iam aparecendo aqui e ali...

Este último episódio tem agora 40 anos de idade. A quantidade de coisas que se passaram desde então!... E no entanto, enquanto o ser humano continuar a ser um cro-magnon, este episódio irá continuar actual.


segunda-feira, 16 de abril de 2018

O cão Dom Pantaleão e o outro cão...



Uma música para crianças, de José Barata Moura, que ouvia em criança e me fazia sentir e pensar... As crianças também pensam e também sentem. E apesar da tristeza do outro cão, eu nunca duvidei do caminho que queria seguir. Porquê?...

terça-feira, 3 de abril de 2018

Capitalismo - um sistema neutro?...




O capitalismo não é mau em si mesmo. Ou será?...

Capitalismo é um nome, mais um acabado em "ismo", mas que para variar se refere a algo bastante concreto: o sistema económico em que muitos de nós gastam as suas vidas. Um sistema económico pode ser entendido como um modo que as pessoas têm de se organizar para exercer as actividades que permitem suprir as suas necessidades, e tudo o que está directamente relacionado com isso, incluindo o modo como os recursos são alocados a essas actividades e como o produto dessas actividades é distribuído por todos.

O capitalismo adquire o seu nome de "capital". No linguajar dos economistas, o capital inclui todos os recursos que podem ser utilizados numa actividade produtiva, ou que podem ser transformados nesses recursos, à excepção do trabalho humano. O capital inclui assim os terrenos, os recursos naturais que neles se encontram, as máquinas, os edifícios, os agrafadores e o dinheiro que permite comprar isto tudo, entre outros. O sistema económico chamado capitalismo distingue-se dos demais pelo modo como o capital é repartido pelas pessoas e alocado às actividades produtivas.

Levanta-se então a questão de saber se este sistema é intrinsecamente mau, ou se, a existir maldade, ela é tão somente o resultado da maldade das pessoas que o integram. Tal como um jogo de futebol onde as regras não contemplassem sanções, e onde os jogadores arrancassem os olhos dos adversários... a maldade estaria apenas nos jogadores, ou poderia ser atribuída ao futebol em si?...

Do meu ponto de vista, o capitalismo é intrinsecamente mau. De seguida vou apresentar quatro características essenciais desse sistema económico. Discutivelmente, o capitalismo não poderia existir se qualquer uma dessas características não existisse. E todas elas, cada uma delas, é aos meus olhos intrinsecamente má.


1 - Propriedade privada ilimitada

Um dos grandes medos que algumas pessoas já tiveram, e talvez ainda tenham, do comunismo (outro "ismo", mas desta vez com as raízes na palavra "comum"), é o da abolição da propriedade privada. Isso significaria que cada um de nós deixaria de poder deter seja o que for... Basicamente seríamos expropriados de tudo aquilo que hoje possuímos, a posse de todos os bens passaria para "o colectivo" (seja lá isso o que for), que também seria responsável pela sua gestão. Compreendo que para algumas pessoas este seja um cenário aterrador.

O capitalismo não inspira semelhantes medos, ao permitir que cada um seja dono e senhor dos seus bens (embora se possa argumentar que sem a propriedade privada permitida pelo capitalismo ninguém teria medo de perder o que possui). Quais bens?... Bom, isso é outra questão. Mas a partir do momento em que fica definido que um bem pertence a uma pessoa, todo o sistema está montado para proteger essa relação e garantir que esse bem continuará a pertencer a essa pessoa, aconteça o que acontecer, a menos que ela decida em contrário.

Isso parece aliciante... no entanto, carrega consigo uma série de problemas. Os capitalistas (arrisco-me a dizer "todos nós") apressam-se a possuir tudo aquilo que possa ser valorizado por outro qualquer capitalista. E é assim que os seres humanos nascem para um mundo onde nada lhes pertence, onde tudo já foi tomado. Se tiverem sorte, herdarão um conjunto razoável de possessões. Se tiverem azar, terão de trabalhar a vida toda apenas para sobreviver. Este é apenas um exemplo dos muitos problemas que podem advir da propriedade privada dos bens, e que em geral é menosprezado pelas pessoas. Muito haveria para dizer acerca disso, mas não é isso que aqui me prende.

O capitalismo não apenas permite e protege a propriedade privada. O capitalismo alimenta-se, de uma forma essencial, da procura individual do aumento da propriedade privada. E por isso mesmo, o capitalismo não impõe limites à quantidade de capital que cada um pode possuir.

Quando, neste último parágrafo, disse "por isso mesmo", estava, em boa verdade, a pressupor aquilo que é uma ingenuidade: que o capitalismo necessita da procura individual do capital e que, portanto, não pode impor limites a essa procura. Como se este sistema económico tivesse sido pensado e implementado originalmente numa sociedade de gente toda ela igualmente pobre... Quando a verdade é bem distinta: o capitalismo em que actualmente vivemos é o resultado de sucessivos aperfeiçoamentos ao longo de séculos, defendidos e fomentados sobretudo por quem, em cada instante, faz parte do grupo dos privilegiados. Ou seja, é porque os privilegiados querem manter os seus privilégios que o capitalismo implica a propriedade privada sem limites.

Possuir bens para lá das necessidades de cada um é, aos meus olhos, algo intrinsecamente mau. E um sistema económico que se baseia na procura disso mesmo, e que sem isso não pode funcionar é, aos meus olhos, intrinsecamente mau.

Poderão aqui esgrimir a relatividade do conceito de necessidade: que o que uns consideram uma necessidade, os outros nem por isso, que o dinheiro da reforma do Cavaco Silva mal dá para as suas necessidades, coitadinho, etc. e tal. Não vou perder tempo a debater isso, porque me parece ignóbil.

Há muitas formas de perceber a maldade que acabei de referir. Deixo ao vosso critério o querer e o tentar encontrar essas várias formas, referindo apenas uma pista para uma delas: será justo possuir-se aquilo que não se produziu? será justo possuir-se aquilo que ninguém produziu, como por exemplo a superfície deste planeta?


2 - Rendimentos de capital

A existência da propriedade privada dos recursos, a sua desigual distribuição pelas pessoas, e a necessidade que elas podem ter de aceder a recursos alheios, origina o empréstimo. A procura incessante do aumento da propriedade privada leva ao estabelecimento de uma remuneração para esse empréstimo. E é assim que surgem os rendimentos de capital: o lucro, quando se emprestam recursos a uma empresa para ela os utilizar na sua actividade produtiva ("ela"?... quem é a empresa?... ela trabalha?...); o juro, quando se empresta dinheiro (que resulta da venda de recursos) a qualquer outra entidade; a renda, quando se empresta um terreno, um edifício, ou outro bem afim.

Hoje em dia, na sociedade em que vivemos, com o sistema económico que temos, lucros, rendas e juros são o pão-nosso-de-cada-dia. É comum as pessoas deterem uma ou outra acção de uma empresa, o que lhes pode (ou não) dar direito a dividendos (outro nome para os lucros que são distribuídos), muitas pessoas pagam rendas pelas casas onde habitam e quase todas as pessoas possuem uma conta à ordem ou a prazo ou outra aplicação financeira qualquer que lhe dá algum pequeno juro. Somos todos capitalistas... uns mais, outros menos.

E neste contexto, poucas pessoas se lembram de questionar a legitimidade da existência destes rendimentos. Quem trabalha, obtém um rendimento do seu trabalho. Isso parece justo. Mas o que é que justifica o rendimento de alguém que apenas emprestou o seu dinheiro?...

Este tema tem sido debatido através dos tempos, embora muito menos do que seria necessário. O capitalismo, conforme já atrás mencionei, é um sistema que foi evoluindo ao longo dos séculos, e que actualmente é muito sofisticado. É apenas natural, portanto, que os seus defensores fossem apresentando através dos tempos todo o tipo de potenciais justificações, mais ou menos rebuscadas, para a existência de rendimentos de capitais. Uns dizem que é o prémio que o emprestador recebe pelo risco de não receber de volta o que emprestou. Mas isso é uma falácia. O sistema legislativo, o sistema executivo e o sistema judicial são os garantes do capitalismo. Não poderiam ser também os garantes de quem empresta?... Outros dizem que é uma compensação pelos ganhos que deixam de obter ao emprestarem o que é seu. Mas isso é outra falácia. Se se estão a referir a perdas causadas por uma subida generalizada dos preços, façam todas as contas em termos reais, fixando taxas de rendimento iguais às taxas de inflação, e está o problema resolvido. Se se estão a referir a custos de oportunidade, então estão apenas a dizer que os rendimentos de capitais se justificam porque... existem outros rendimentos de capitais. Outros dizem outras coisas... mas por muito que digam, a realidade é só uma: os rendimentos de capitais existem porque são uma maneira de quem tem mais se aproveitar desse poder para ganhar mais um pouco sobre os outros. Curto e grosso. E isso é objectivamente mau. E, novamente, se não fosse assim, o capitalismo não poderia existir.

Aliás, é até um exercício bastante interessante o de conceber um sistema económico em tudo semelhante ao capitalismo, mas onde não existissem rendimentos de capitais: em termos reais, taxas de lucro e de juro seriam nulas e as rendas não existiriam. Como seria um mundo assim?... Vale a pena pensar...


Quando eu era pequeno, havia ao fundo da rua uma mercearia, daquelas que vendiam tudo aquilo de que as pessoas precisavam. É interessante pensar como uma loja com uma área de vinte metros quadrados era tão boa a satisfazer as necessidades das pessoas nessa altura, como hoje um hipermercado de dez mil metros quadrados!... E como as pessoas de hoje ficariam tão insatisfeitas com as mercearias dessa altura!... Caso para dizer "bom trabalho, capitalistas!"... Bom... nessa mercearia havia um livro onde o merceeiro anotava os montantes que as pessoas ficavam a dever. As pessoas compravam o que necessitavam e diziam "ponha na conta", e o merceeiro punha. No final do mês, o merceeiro adicionava todas as parcelas e determinava quanto é que cada pessoa lá da rua lhe estava a dever. Claramente este merceeiro não era um bom capitalista, porque se o fosse, em vez dessa tecnologia do livrinho, socorrer-se-ia de um cartão em plástico atribuído aos clientes "especiais" da mercearia, e que permitia a esses clientes o acesso a uma linha de crédito para consumo com juros bonificados!...

Imaginemos agora que não existia o livro da(s) conta(s). Os clientes só poderiam comprar pagando a pronto. Seria possível viver assim?...


3 - Plutocracia

Dito de forma breve: um euro, um voto. No capitalismo quem manda não são as pessoas, são os euros.

Metade das pessoas não votam para a eleição de representantes nos órgãos institucionais que os têm, como a assembleia da república (que devia ser grafada com iniciais maiúsculas). Na sua maioria estarão convencidas que não adianta nada votarem. A outra metade poderia regozijar-se por ter o poder de determinar quem são ou não são esses representantes, embora apenas metade dessa metade o faça, uma vez que apenas esses são os vencedores das eleições. Esses acreditam que estão a determinar as futuras decisões políticas, isto é, as decisões sobre aquilo que é comum à sociedade. Mas será mesmo assim?

Antigamente, e em termos de política económica, os governos podiam socorrer-se de diversos instrumentos. Falava-se de política cambial quando um governo tomava medidas que conduziam a uma valorização ou desvalorização da moeda nacional face às restantes moedas. Falava-se de política monetária quando o governo decidia pela emissão de mais ou menos moeda. Falava-se de política orçamental, quando o governo decidia gastar mais ou menos dinheiro, ou quando alterava os destinos dados a esse dinheiro. Falava-se de política alfandegária quando se negociava com os outros países a imposição de taxas à entrada de produtos estrangeiros no país.

Nos nossos dias, a única coisa que se ouve é "tem de ser", "não há alternativa", "tem de ser", "a restrição orçamental", "não há alternativa", "a política de contenção", "a importância da estabilidade", "tem de ser", "não há alternativa"...

A política cambial já era, a política monetária já foi, a política alfandegária onde é que ela já vai!, a política orçamental... tem de ser... contida... A única coisa que resta aos governos de hoje em dia é decidir se vão afectar os fundos mais para aqui ou mais para acolá. Mas como esses fundos são na verdade muito pouco profundos, e toda a gente anda à míngua, os governos desdobram-se em esforços para conseguir evitar a rebelião e manter o status quo.

Quem é que ordenou a cessação dos antigos instrumentos de política económica?... Para benefício de quem?...

A resposta do consenso capicua: fomos todos nós... para bem de todos nós...

Sim, sim... eu lembro-me muito bem da tia Mariquinhas defender com fundamentos sólidos a entrada de Portugal no euro!... Sim, sim... eu lembro-me muito bem do senhor Anacleto Fagundes a dizer que tínhamos de abolir a emissão de moeda pelos bancos centrais nacionais para impedir os surtos de inflação!... E como eu me lembro de ouvir a minha avó a dizer "meu filho, isto sem livre circulação de capitais não vai lá"!

A verdade evidente é que os governos estão, usando os termos da propaganda do PCP, "ao serviço dos grandes interesses económicos", tal e tal... É claro que estão!... E mesmo que acreditemos que os membros do governo são efectivamente autónomos na sua acção, a verdade é que eles actuam num sistema capitalista. E num sistema capitalista, quem tem o poder de pôr as coisas a mexer é quem detém o capital. E portanto, se um governo quer pôr as coisas a mexer, tem de fazer cócegas ao capital. Não há volta a dar-lhe!...

"Menos Estado e melhor Estado", faz parte da lista de chavões que os defensores do capitalismo utilizam para impregnar as pessoas dessa vontade de expurgar o Estado de tudo aquilo onde as empresas podem ir buscar algum dinheiro. Não que alguém defenda a extinção do Estado (e muito menos do capitalismo, claro!), porque sem o Estado um capitalismo nos moldes actuais dificilmente se aguentaria (quem manteria "forças de segurança" capazes de assegurar tamanhas desigualdades económicas? quem canalizaria tanto dinheiro da "classe média" para o financiamento de actividades arriscadas como a "investigação científica"? quem pagaria a criação de infraestruturas para que as empresas singrassem? quem trataria de produzir um tão grande manancial de pessoas já formadas, formatadas, e ávidas de dar o corpo ao manifesto? quem cederia às empresas terrenos ao preço da chuva, juros bonificados, prémios e todo um chorrilho de incentivos à inovação, à modernização, ao investimento tecnológico, à reconversão, ao desenvolvimento e ao mais sei lá o quê?...).

E é neste contexto, de uma economia dominada por empresas, que a plutocracia vinga. Quem é que manda nas empresas?... Numa assembleia de sócios ou de accionistas, não é uma cabeça um voto, é um euro um voto. E é assim que nos gerimos.

Isso estaria bem se inicialmente (seja lá o que o "início" for) todos tivessem os mesmos euros no bolso. Poderíamos então dizer, talvez de uma forma impiedosa, mas pelo menos com o mínimo de fundamento, que a culpa dos que não têm é deles mesmos, pelos erros que cometeram no passado. Mas não existe "início" que nos valha, momento algum do tempo onde todos possuam o mesmo... Em vez disso, todos nascemos para um mundo completamente desigual.

Distribuir desigualmente o poder de decisão sobre o que é colectivo, fazer esse poder depender da sorte, da vigarice e de tantos outros factores completamente arbitrários aos quais a justiça, o respeito e a dignidade são completamente alheios, parece-me algo que é fundamentalmente mau.

Fazer as pessoas acreditar que isso é normal, ou bom, sem sequer as pôr a pensar no assunto, isso parece-me diabólico. E, novamente, o capitalismo não existiria se o poder não dependesse do capital possuído.


4 - Concorrência

Concorrer... Não deixa de ser muito curioso que o tal dicionário que eu consulto indique, como primeiro sinónimo desta palavra "cooperar". Correr em conjunto, contribuir para alcançar um fim comum...

Mas no sistema capitalista a concorrência não significa cooperação, significa o seu oposto: competição. Talvez as pessoas não se sentissem muito satisfeitas se todos os discursos fossem recheados da palavra "competição"... talvez percebessem e sentissem na pele que estão enfiados num sistema que só funciona com competição e que, ao contrário dos jogos de futebol lá da rua, os que perdem perdem mesmo, sem recurso. Mas as pessoas já não se importam tanto de ouvir falar de competências e de competitividades.

Fala-se de competitividade das empresas... mas no fundo não são as empresas que competem, são as pessoas.

O pensamento dominante na nossa sociedade actual apressa-se a considerar a competição uma coisa boa, desde que respeite alguns limites de decência. Claro está, que esbofetear outros competidores é indecente, mas não partilhar com eles o conhecimento, não os ajudar, e eventualmente lançá-los para uma consequente situação de pobreza, isso já é muito decente! E porquê?... Porque quem não produz, não merece ser recompensado! Segundo este modo de pensar tão impregnado em todos nós, competir é bom porque permite desenvolver as competências que nos permitem vencer na vida e merecer um rendimento elevado.

Quem é hospedeiro de semelhante ideologia já não repara que está a avaliar as pessoas pela quantidade de produtos e serviços que ela é capaz de produzir. Note-se que a palavra "qualidade", neste contexto, já não se refere à distinção, por exemplo, entre a produção de armamento ou de alimentos, refere-se tão somente à homogeneidade das características dos produtos e serviços que são gerados nas linhas de montagem. As pessoas já não são boas por serem verdadeiras, amigas, corajosas ou algum outro valor que aqui se queira considerar, que não o valor do dinheiro. As pessoas são boas se gerarem dinheiro.

E diz-se então, pasme-se!, que as pessoas merecem uma posição mais bem paga quando são capazes de gerar mais dinheiro. Neste sistema, homens e mercadorias confundem-se...

Imbuídas de espírito competitivo, as pessoas esquecem-se que nem todas podem ser ganhadoras. Esquecem-se do outro significado da palavra concorrência. Esquecem-se dos outros valores que não o dinheiro... A concorrência melhora as mercadorias, mas piora os homens. E isso é algo intrinsecamente mau.


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Qualquer sistema é bom se os homens forem bons.
Qualquer sistema é mau se os homens forem maus.

E daqui poderíamos concluir que não é assim tão importante o sistema em que vivemos, não fosse o facto de maldade e bondade coabitarem o interior de cada um de nós. E é por isso que a escolha do sistema económico em que queremos viver é importante. O sistema económico que temos não emana de Deus. O sistema económico liberal e capitalista foi construído a pulso, ao longo dos séculos, por quem dele sempre lucrou, e com recurso às mentes e à propaganda mais bem paga.

Pessoas boas e cultas não deviam nunca aceitar semelhante sistema. E historicamente não aceitaram (analisem-se todos os importantes momentos de luta entre quem possui e quem não possui ao longo da história). O facto de as nossas sociedades serem as mais bem formadas de toda a história, devia dizer-nos algo acerca dessa mesma formação.

Ao menos as pessoas queiram ver...

Dolce far niente...



O cabelo
as rugas
a íris
as pestanas
os lábios
as orelhas
os pêlos
a cor da pele
as unhas
o karalho
o karalho
o karalho...

A roupa interior
o carro
a tatuagem
a carteira
o perfume
o vestido
o telemóvel
os sapatos
os óculos
o tablet
a puta que o pariu!

O salário
as férias
a promoção
o simpósio
a reunião
o meeting, o briefing
o franchising, o downsizing
a chefia
a conferência
croquetes,
croquetes,
croquetes...

FYI:
formação DIY
reunião via Skype
cê vê no LinkedIn
workshop incompetência
mérito ao lucro
OMG à transparência
família em concorrência
afectos WTF
LOL, sexo, batata frita
croquetes vegan
renda e energias

Papel no azul
Plástico no amarelo
Vidro no verde
Dinheiro no banco
Almas no limbo

Eu não vou mudar o mundo
c’os do Armando
A dívida é p’ra s’ir gerindo
c’os do Armindo
gato fedendo
à cabeceira da cama
o Trump e o Obama

O Chopin
o Schopenhauer
o Tchaikovsky
o Chekhov
a Simone de Beauvoir
à mão de semear
prateleiras
ondas
no ar
descarregar
descarregar
descarregar...

Nestlé
Nike
Danone
Yamaha
Windows
I-Phone
encarnado Lamborghini
Nós óptimos Vodafone
uns tremoços e uma mini.

(awf, Angra, Março de 2018)

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Repensar...

(reprodução do artigo publicado aqui, anunciando uma sessão que apresentei no dia 31 de Março de 2012 aqui)


 - trabalhar mais ajuda?
- a segurança social está falida?
- precisamos mais bebés?
- fiz mal em pedir um crédito à habitação?
- podemos ser todos ricos?
- o Estado gasta mais do que tem?
- outro governo faria melhor?
- quem são os mercados?
- quem manda nas agências de rating?
- o que é que eu fiz de errado para merecer isto?
Estas e muitas outras questões às quais é necessário saber responder para não ser levado nas cantigas dos políticos e jornalistas do costume. Venha pensar no que não se ensina na escola.
Sessões abertas para todas as idades e níveis de conhecimento.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

O umbigo do Belmiro...

Obrigado, Diana Dionísio e Pedro Boléo!

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Ali está o rio...



Ali está o rio.
Dois homens na margem estão.
Se um dá um passo, outro hesita,
será um valente, outro não?

Bom negócio faz um deles,
tem o triunfo na mão.
Do outro lado do rio,
só um come o fruto, o outro não.

Ao outro passado perigo
novos castigos virão.
Se ambos venceram o rio,
só um tudo ganha, o outro não.

Na margem já conquistada,
só um venceu a valer.
Perdeu o outro a saúde,
mas nada ganhou p'ra viver.

Quem diz "nós" saiba ver bem
se diz a verdade ou não:
ambos vencemos o rio,
a mim quem me vence é o patrão!

Convém...

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convém tu seres tu e eu ser eu
convém um sol vermelho
por cima do azul do céu

convém sermos os dois uma semente
de alegria e de gente
solidária e consciente


AWF, Lisboa, Janeiro de 2013

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Variações en passant...




Passam vários pavões
com palavrões nos pês...

Passa uma palavra.

Passeia.

Passageiro,
passo pelas palavras,
pelas palavras
que passam.

Até as mais pesadas
pensadas
prensadas
palavras
passam!

Passo por elas,
piso pegadas,
faço papéis...

Papo pastéis!

Passa outra palavra.

Peça a palavra de
pessoa apalavrada.

Personifique
parola peça
e não enfie a carapuça.
...

Passa mais uma palavra,
e mais outra, a espaços.

Passam-me as palavras,
sem que as possa apanhar
pelas pontas dos dedos.
Embaraços...
Empeço nos meus medos,
tropeço nos passos
perdidos à procura
das palavras perfeitas.

Preciso de uma palavra:
uma palavra bem passada,
se faz favor!

Palavras passadas...
Já me estou a passar!...

Palavra do Senhor!

...
(também há-de passar)



(AWF, Angra do Heroísmo, 26 de Outubro de 2017)

Calor...



Estico a chama no espaço
E no extremo do meu braço
Acendo o fogareiro.

Tremo tonto de cansaço...

Tanto tempo...

Conto o frio de Janeiro...

O fogo afasta o frio morto
todo em torno do meu corpo.
Mas não me dá porto, chão ou tecto,
chama que arde contrafeita
na ausência do afecto.

Temo o medo.
Meço o muro.

Metros e metros de enredo
Histórias tantas, tantos erros
enrolando e conspurcando o mundo!

Recolho-me...
Respiro-me...

E então recordo-te o regaço
o trato terno
o tenro traço
o teu rosto
o teu abraço...

Faz-me falta o teu abraço...

(O que faço?
O que desfaço?

Lá fora fecha o nevoeiro...)

Tomo-o.

Cubro-me de ti.

Aqueço-me

finalmente

inteiro.



(AWF, Angra do Heroísmo, 16 de Outubro de 2017)

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Dinheiro...

E pronto, é isto... está tudo dito.

Se eu disser que estou a fazer algo que me exige muito esforço, toda a gente entende se disser que vou ganhar muito dinheiro. Mas se disser que esse esforço é em prol
de um mundo melhor
daquilo que é correcto
de uma amizade
de um sonho
...
nada disso conta.

Se eu disser que vou morar para o sítio X, toda a gente entende, desde que seja para trabalhar na empresa Y e ganhar dinheiro. Mas se eu disser que escolho o lugar
porque o acho bonito
porque nele encontro paz
porque gosto dos abelharucos
porque quero estar longe da confusão
...
nada disso conta.

Tudo neste nosso mundo se pode explicar facilmente: dinheiro!

Porque é que vais almoçar aí?
          Porque tem uma boa relação qualidade-preço.
Porque é que vais comprar essa casa?
          É um bom investimento.
O que te faz andar vestido assim?
          Pareço rico.
E esse carro?
          Dinheiro.
E os amigos?
          Dinheiro.
E o dinheiro?
          Mais dinheiro.

E ainda dizem que esta gente não tem valores?...

sexta-feira, 12 de maio de 2017

SharkTank...


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Só mais um texto...

...que acabei de descobrir, na arrumação forçada da minha secretária, das minhas coisas amontoadas, que viajaram comigo e sem mim por sei lá onde, até virem aqui parar. Não tem data, mas fica seguramente limitado entre 2010 e 2014:

Julgais que é fácil?
Que sou impassível?
Que o faço curto e certeiro,
de olhar fixo,
inacessível?

Talvez vos pareça.

E às vezes queria que fosse.
Mas não.

Custa-me sempre tanto quanto pode custar
as emoções atiram-me o coração
contra o peito
tão forte
que o sinto pulsar nas veias
de todo o corpo,
embargam-me a voz
fazem-me ziguezaguear no
discurso que não tenho,
nas ideias misturadas
na mão trémula, suada e
fria que vai de um lado ao outro
tentando fazer do todo
um qualquer sentido.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Os museus militares na era do vazio...



Acabo de regressar a casa, depois de uma visita breve a um museu militar. Estou chocado. Fico sempre chocado quando visito museus militares, mas nem sempre pelos melhores motivos.

Neste caso concreto, tratou-se do museu militar integrado no museu de Angra do Heroísmo. Resulta da colecção particular de um personagem qualquer que aparentemente se divertia a acumular artefactos de guerra. Confesso que nunca na vida vi uma colecção particular, ou antes, um amontoado particular, com tanta variedade e quantidade de artefactos de guerra.

Qual será a diferença entre um amontoado de coisas antigas e um museu?... Num dicionário disponível na Internet pode ler-se, como definição de museu que mais aproxima aquilo que nos interessa: lugar onde se reúnem curiosidades de qualquer espécie ou exemplares científicos, artísticos, etc. Que porcaria de definição!... Entre outros aspectos, desta definição resulta que a diferença entre um museu e um amontoado pode não ser nenhuma!

Na verdade, o museu de onde vim é efectivamente parecido com um simples amontoado.

Tudo na vida depende do sentido que lhe atribuímos. O sentido canaliza a compreensão do mundo, unindo causas e efeitos. Mesmo desconhecendo as causas primordiais e os efeitos finais, e mesmo não sabendo qual é o sentido da vida, tudo na vida é mais fácil quando lhe atribuímos um sentido. A própria vida é mais fácil quando lhe atribuímos um sentido. E é bom que o façamos, antes que outro alguém o faça por nós.

Um museu deve ser um local que reúne exemplares curiosos, ou raros, ou que de alguma forma têm valor, em condições que permitam a sua exibição ao público actual e a sua preservação para o público futuro. Mas, mais importante ainda do que isso (e precisamente porque um museu pode existir, ao contrário do que possa parecer, sem requerer sequer a existência de tais exemplares), é o sentido que o museu atribui a essa colecção. Se quisermos assumir uma posição de superioridade intelectual, podemos imaginar um museu a conduzir o utente até um determinado sentido concreto que nós desejamos que ele atribua aos artigos da colecção. Hoje em dia é politicamente incorrecto admitir que possa sequer existir uma coisa chamada superioridade intelectual. Hoje em dia admite-se, mesmo perante uma horda de analfabrutos, que somos todos iguais... Se não quisermos assumir então essa posição de superioridade, o mínimo que devemos fazer, se formos nós a gerir o museu, é contextualizar as coisas.

Eu vi canhões, por exemplo. Canhões verdadeiros. É claro que não tinham o nome de "canhão". Eram antes obus, morteiro, falconete e mais sei lá o quê. Eram canhões. Mas não eram apenas canhões. Estes canhões foram feitos de aço. Esse aço resultou de um processo de extracção numa qualquer mina ou em várias. Existiu uma fábrica que produzia estes canhões. Quem trabalhava nessa fábrica, e em que circunstâncias? Terá sido a fábrica construída apenas para o "esforço" de alguma guerra específica? Ou, como tantos países mais desenvolvidos ainda hoje fazem, era uma fábrica que se destinava a abastecer qualquer comprador, em qualquer lado, para qualquer fim, pelo simples motivo de que isso rende alguns cobres? E em que guerra foram usados os canhões? E como vieram parar a Angra do Heroísmo? Foram adquiridos? Quanto é que o tal coleccionista teve de pagar por eles? E onde é que ele foi buscar esse dinheiro? E quem é que manteve os artefactos até aos nossos dias?...

Que sentido é que aqueles canhões fazem?... Que sentido alguma vez fizeram?...



Olho para esta enorme quantidade de espadas (que também não são "espadas", são florins e sabres e mais sei lá o quê) e arreios e fardas e canhões e vejo as mãos dos trabalhadores que as construíram... Em que pensariam eles enquanto construíam estas coisas?... "Ah, filhos da puta de inimigos!... Vamos matá-los a todos!"? Ou será que pensavam antes "Que frio!... Nunca mais toca o sino para poder ir embora!"? Ou antes "O que será que a Hermenegilda me pôs na lancheira para o almoço?... Talvez com o dinheiro que aqui ganho consigamos comprar uma casa..."?

O que levaria gente a trabalhar tão arduamente para fazer semelhantes coisas?... Saberiam eles o que estavam a fazer? Ou seria como hoje, em que cada um só produz um determinado tipo de parafuso, e nem sequer fazem ideia de onde é que esses parafusos acabarão por ser utilizados?...

Olho para aquelas coisas todas e penso: tanta gente aqui na ilha Terceira a matar-se para viver, e a viver a matar-se, e este caralho a gastar rios de dinheiro a amontoar objectos que serviam para os mais desgraçados de cada reino se matarem uns aos outros!...

Porque é que hoje não se produzem tantas coisas destas?... Alto! Produzem-se sim senhor! Aliás, produzem-se muito mais coisas destas!... Têm outros aspectos, claro, são muitíssimo mais sofisticadas... e não estão entre nós, estão antes guardadas em quartéis, ou debaixo da terra. Será que antes era mais comum ver espingardas e espadas à mostra por entre as pessoas que deambulam nas ruas?... Talvez... Será que antes havia mais guerras do que há hoje?... Talvez... E se assim for, porque será?... Será que para poder haver uma guerra a este nível é sempre necessário existir uma hierarquia? E será que manter uma hierarquia é difícil e exige um esforço continuado? Será por isso que alguns tinham muito poder e outros tinham menos? Porque será que os territórios controlados por um déspota sanguinário (como o nosso querido Afonso Henriques) foram crescendo e depois minguando através dos tempos? Quantas "deposições" de líderes foram necessárias até a liderança começar a ser partilhada por mais cabeças?... Quantas revoluções foram necessárias até o poder começar a ser assegurado mais pelo dinheiro e pela manha do que pela força bruta?...

Imagino-me a trabalhar num campo e a ver chegar junto a mim um conjunto de militares a cavalo. Imagino-me a mijar-me todo de medo pelas calças abaixo só de os ver a vir na minha direcção... Se eles viessem mesmo para me matar, que poderia eu fazer?... Com que armas combateria? Como me esconderia? Como fugiria?... Como seria viver assim, sem armas e sem poder, sempre sujeito ao apetite dos armados e poderosos? Viveria num medo permanente? Ou aceitaria isso como natural?... Reuniria com os meus amigos e pediria auxílio?... Formaríamos uma milícia?... Fugiríamos em busca de uma qualquer "terra prometida" que não tinha sido prometida por ninguém, que tinha sido prometida apenas por nós a nós mesmos?...

E o sermos todos homens e mulheres?... E o habitarmos todos este minúsculo planeta azul?... E o querermos bem uns aos outros, o darmos amor, o recebermos amor?... E as florestas e o sol? O calor suave?...


Penso nisto tudo...

De tudo isto se fariam muitos sentidos. Dê-se o contexto às pessoas, pelo menos, se não se as quiser guiar num qualquer caminho de descoberta de uma qualquer coisa.

E tudo isto deveria fazer as pessoas pensar. E sentir.

E sentir-se chocadas.

Como eu me senti.

E desejar muito que tudo aquilo nunca sequer tivesse chegado a existir! E desejar muito que nunca volte a existir! E sair dali com vontade de derrubar poderes idiotas, e de exigir o fim da construção de armamento, onde quer que ele ocorra!...

...

Mas o meu choque principal não foi esse. O meu choque maior, como aliás também começa a ser hábito quando vou a museus militares, foi poder experimentar a confrontação de tudo o que poderia, e talvez deveria, ser, com aquilo que é a nossa era, a era do vazio.

O que anima a malta é o divertimento.

Hummm... o que é que irei fazer hoje?... Está a dar o jogo do benfica... eu até adoro o futebol, mas como não joga a minha equipa, não quero saber... Olha, parece que o museu militar está de portas abertas! Bora lá! Pega nos miúdos que eu vou buscar o carro.

Chegados ao museu, é uma grande diversão! A mãe pega na criança mais nova ao colo e vai-lhe mostrar as lindas carroças que eram puxadas a cavalo. As carroças levavam caixas de munições, ou canhões que não eram canhões. E a mãe pergunta ao filho: gostas destas carroças, filho? Qual é a que gostas mais?... Entretanto o pai está com o filho mais velho a verificar os pormenores técnicos dos canhões: vês, quando a arma dispara ela recua, tem o recuo... antigamente as carroças recuavam todas, mas nestes canhões que não são canhões mais modernos existe um mecanismo especialmente desenhado para amparar o recuo!...

Magnífico!... O engenho humano é espantoso!... Que bom que houve tantas guerras no passado para que todas estas coisas pudessem ser desenvolvidas!... Sim, sim! Que se não houvesse guerra nós não teríamos hoje aviões tão seguros, nem as polícias poderiam combater tão eficazmente os terroristas!... Viste, que bom?...

Entretanto, noutra secção do museu, discutem-se os pigmentos dos uniformes. Pois, porque eram garridos numa altura em que se combatia mais próximo do inimigo, porque a tecnologia, essa maravilha, não permitia ainda atingir inimigos muito distantes, e além disso a pólvora era tal que produzia muito fumo e passado um bocadito já não se via nada!... Mas depois tudo isso mudou, deixou de haver tanto fumo, as armas ganharam maior alcance... os uniformes passaram a ser de tons esbatidos. E só depois surgiram os camuflados às manchas de tons muitíssimo naturais.

E eu a pensar: pois... eram quase uma saladinha de alface, tão benignos!... Sim, sim... e a tecnologia, essa nossa fiel amiga, evoluiu de tal ordem, o alcance e poder das armas aumentou tanto, que logo os uniformes de guerra puderam passar a ser fato e gravata... Até que hoje o uniforme de guerra pode bem ser uns calções floridos e uma t-shirt a dizer "we do it better!". Who cares?... We are so incredibly good at killing people!... And who is willing to kill people, anyway, when you can simply draw them effortlessly into your command?...

As pessoas interessadas nos materiais, na concepção, no fabrico, na manutenção... todas as questões tecnológicas. As pessoas interessadas na manutenção dos artefactos no museu. As pessoas maravilhadas com o peso, com o poder, com a força, com o tamanho, com o dinheiro... Uma grandessíssima diversão para toda a família!

E por entre o tipo de pigmento da farda e o tipo de rosca esquerda ou direita dos parafusos... poucos vêem através dos seus olhos as perguntas e os horrores que eu vejo através dos meus.

Muitos olhos, aliás, estavam mais focados no ecrã dos seus telemóveis...

E eu choquei-me. E fiquei feliz com isso, porque é sinal que apesar de tudo ainda em mim subsiste alguma sanidade mental...

this land is mine

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Somebody to love...



ao Freddy
ao George
à música
ao amor

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Progresso geométrico...



Claustrofobia ou calor humano?...

Alegremo-nos. Um dia o progresso irá permitir que cada uma destas pessoas compre o seu próprio automóvel.

sábado, 26 de novembro de 2016

Misantropia...



Num dos livros que agora estou a ler, há esta passagem:

"Viajar, para mim, é uma forma risonha de estar só. Viajar - de barco, de avião, até de monótono comboio - tem de ser uma atenção, uma concentração apenas dividida entre o meu possível tempo de vida e o percurso efectivo. Por isso temo e odeio o rosto inesperado, o «olá» de quem nada me diz, a mão estranha esticada contra o meu sonho, a palmada no ombro da minha inocência, forçosamente resignada, o ímpeto ridículo, hipócrita e expansivo desse alguém em que não pensava há tantos anos e que, como um boneco enfadonho ou uma pirraça do demónio, irrompe na viagem e me rouba o prazer de ver a espuma na esteira do barco, a nuvem sob a asa do avião, a velocidade traumatizada da árvore além da janela do comboio."

Só leio meia página por dia, e ainda nem a meio vou, mas posso desde já recomendar: "o medo" de José Martins Garcia.

Misantropia, antropofobia, essa maçada de ter de aturar a humanidade, toda junta ou aos bocadinhos...

E, no entanto, acredito que ninguém gosta verdadeiramente de estar só. Todos querem poder partilhar o que têm dentro. O misantropo talvez tenha perdido a paciência...

Todos somos diferentes. Quanto mais formos nós próprios, quanto mais originais e criativos formos, mais diferentes seremos. A vivência em sociedade é, mesmo que discutivelmente, necessária e desejável.

Como o alemão barbudo dizia, a economia é a infraestrutura na qual assentam todas as superestruturas sociais. A economia molda o homem. Mais do que o homem molda a economia, mesmo que a economia seja simplesmente um produto da humanidade.

A diversificação das mentes humanas acompanha a diversificação das actividades económicas. No tempo em que, por necessidade ou outro motivo, todos eram pastores, agricultores, pescadores, e outros ôres, no tempo em que todos viviam na mesma casa, o entendimento seria porventura mais fácil do que no tempo em que os pais não entendem os cursos, supostamente superiores, que os filhos estão a "tirar".

A tendência será para um crescimento do potencial de desentendimento... Neste contexto, tornam-se cada vez mais importantes as estratégias de empatia...

Se todos somos cada vez mais diferentes, é cada vez mais necessário desenvolver capacidades que nos ajudem a ultrapassar essa diferença no necessário convívio com os outros humanos.

A tolerância é uma coisa horrível, como dizia o Rui Pereira. É horrível porque o conceito nasce de uma relação de ódio, ou pelo menos de desgosto, porque cheira a desigualdade, porque a sua concretização não implica qualquer tentativa de compreensão, de aproximação, de empatia.

Infelizmente, talvez se torne cada vez mais necessária. Como dizia o Zizek, não podemos fazer depender a paz no mundo da compreensão entre os povos e entre as pessoas. Há demasiadas pessoas. Há demasiados povos. As diferenças são demasiado complexas. E todos temos tempo e paciência de menos! Se assim fosse, estaríamos em guerra permanente!... O que se calhar é o caso... O que é necessário é poder garantir a paz, mesmo que não exista qualquer compreensão!

A tolerância será a estratégia mínima para conviver com a diferença. Idealmente quereríamos muito mais. Idealmente quereríamos compreensão mútua. E compreensão, bem o sabemos, não implica aceitação, não implica concordância, não implica reprodução. Apenas compreensão.

E compreensão é uma ferramenta contra a solidão.

Houvesse mais paciência e existiria menos misantropia.

O que nos tira a paciência então?...

O facto de sermos tão diferentes uns dos outros?... Talvez... Isso implica um esforço acrescido de adaptação mental ao José, à Maria, ao Belchior, ao Camelo...

A isso não é alheia a economia em que vivemos. Sempre a infraestrutura!... Ela é cada vez mais incompreensível. E a alienação é crescente. Alienação, de alienar, do latim alienus, que pertence a outro, que por sua vez deriva de alius, que não quer dizer alho, mas quer dizer outro. Alienação é transmissão ao outro. E na análise do alemão barbudo, alienação é o deixar aos outros a compreensão do mundo em que vivemos, é o entregar aos outros a condução da nossa vida, é o transmitir aos outros o sentido da própria existência.

Quando as pessoas passam oito ou mais horas de cada dia a fazer algo que não entendem bem, para fins que não consideram muito necessários, utilizando ferramentas que lhes saem completamente do controlo, para poderem receber um pouco de dinheiro que, em boa verdade, não fazem ideia de onde vem ou para onde vai, é disso mesmo que estamos a falar: de alienação.

Uma economia que fizesse mais sentido aos olhos de cada um permitir-nos-ia ganhar algum controlo sobre as nossas vidas e permitia que nos compreendêssemos melhor uns aos outros. Infelizmente, o próprio progresso tecnológico é aqui parte da equação. Porque é difícil conciliar o progresso tecnológico com uma diminuição da alienação. No entanto, creio que a solução para isso passa pelo questionamento do próprio progresso tecnológico. Talvez descubramos que a alienação nos conduziu a uma situação em que nem sequer somos capazes de explicar bem a necessidade do progresso tecnológico!

Mas o que nos tira a paciência para lidarmos com as diferenças que encontramos nos outros não resulta apenas dessas mesmas diferenças.

Resultará a falta de paciência também da nossa falta de tempo?... Talvez. E nesse caso eu volto a perguntar: quem nos obriga a gastar oito ou mais horas de cada dia a fazer algo que nem sempre percebemos bem para o que serve?

Resultará da nossa ânsia de encontrarmos a felicidade de modos rebuscadíssimos e que nos consomem imensa energia?... Talvez. E nesse caso eu pergunto: o que nos impede de sermos felizes de um modo simples?

De que mais resultará a nossa falta de paciência para aturarmos o nosso "semelhante"?...

Semelhante?...

O vídeo que partilho no início desta mensagem fala-nos, a certa altura, do dilema entre a sinceridade e a adequação ao ambiente em que nos inserimos.

Nunca encontraram alguém que, no início duma conversa com desconhecidos, começa logo por dizer "quem dera que o Benfica ganhe" e "aquele camelo do Passos Coelho"?... Isso é que é sinceridade!... E ao mesmo tempo talvez um pouco de desrespeito pela opinião alheia...

Já tive amigos a acusarem-me de falta de sinceridade. Aqui na Terceira diriam que eu era falso. E com toda a razão!

O meu problema pessoal com essa acusação não é a sua veracidade ou falta dela. O meu problema é que demonstra uma total insensibilidade face à dificílima situação em que se encontram as pessoas que são verdadeiramente diferentes.

Em muitos contextos históricos a exposição da diferença era equivalente a uma sentença imediata de morte. Hoje será talvez apenas uma sentença de ostracismo...

A minha conduta sincera seria então a de admitir perante todos que:
  • o futebol profissional é uma forma de umas pessoas ganharem dinheiro à custa de outras, que envolve doses de violência verdadeiramente brutais, e que se alimenta de um tribalismo primitivo do seu público;
  • o conteúdo dos canais de televisão resulta apenas doutra forma de umas pessoas ganharem dinheiro à custa de outras, mesmo o conteúdo dos noticiários (ou sobretudo), que envolve doses de violência ainda maiores, e que se alimenta do voyeurismo, do sentimentalismo bacôco, das nossas emoções mais límbicas;
  • quase todas as profissões à nossa volta são apenas formas de umas pessoas ganharem dinheiro à custa de outras, e que todas as pessoas que não se revoltam contra isso estão, voluntária ou involuntariamente, a ser coniventes com essa situação;
  • o modo como as pessoas estão constantemente a tentar afirmar-se através do seu currículo profissional, através do seu penteado e da sua roupa, através do seu automóvel e das férias que tiveram num lugar exótico, através da sua página de facebook e das fotos que lá colocam, são apenas demonstrações de carências afectivas, narcisismos ou arrogâncias patológicas;
  • as músicas que eles ouvem são uma merda.
A minha conduta sincera incluiria isso e muito mais, desde a decoração do interior das casas das pessoas, passando pelas próprias casas das pessoas, até à moeda única e à colocação de satélites em órbita... Até à necessidade de fundir todo o cobre gasto em estúpidas estátuas representativas de seres sanguinários que ao longo da história fizeram questão de afirmar diferenças precisamente onde elas eram menos relevantes!

O que resultaria de tamanha sinceridade?...

Enfim...

Eu tenho piedade, porque às vezes a malta não tem mesmo a mínima ideia do que faz!...

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Não entrego a alma...


quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Um lugar para se estar de pé!...


um lugar para caminhar lentamente
amplo e morno
com murmúrios de pessoas a viver
tranquilamente
onde a confiança deixa as portas abertas
e as árvores deixam algumas folhas cair ao chão
e o chão tem espaço e tempo para tudo

um lugar onde se podem abrir os braços
e cantar ao céu
onde nenhuma combinação de cores
é suficientemente exuberante
onde o medo não reina
mas sim a vida...
e as pessoas...
murmurando

um lugar onde se pode ver ao longe
e ao longe se pode ver diferente
em cada direcção
e em cada canto
há comunhão de interesses
há curiosidade, há procura
há entrega

um lugar onde se pode dizer
e se diz
eu sou assim

agora...


domingo, 25 de setembro de 2016

Progressão...

(no Ilhéu das Cabras)


"E se soubermos ver nos sonhos o processo
os passos para trás não são um retrocesso."
José Mário Branco, in A Noite


Progressão

Locomoção flutuante
ondulante
vagarosa.

Persistente
rotação repetente
articulação pendente
ou içada
alternadamente.

Vou.
Voo.
Fluo como flui o mundo
à minha volta:
ordenadamente, uma
componente cíclica
e outra única
rectilínea,
em frente.

Respiro.
Sustenho.
Insisto.
Vou e venho,
vou e venho...

Pairo
sobre um chão inundado
que lá no fundo sustenta
um oceano
profundo e pesado...
E que nem por isso
parece cansado!

Vermes do fogo vagueiam
pelos pepinos do mar.
Poliquetas esvoaçantes filtram
o que apanham no ar.
Sargos, peixes-porco, salmonetes,
alfaces, águas-vivas, rabanetes,
todos dançando abrem alas
para me deixar passar.

Insistente
rodo lentamente
o membro de trás
e retraio
o membro da frente.

Respiro.
Sustenho.
Insisto.
Vou e venho,
vou e venho...

Mas eis que estaco!

O fluxo sempre no braço
o movimento através do espaço
os fluidos
os sais
o calor
a troca
o mar
este longo abraço...

São novos os peixes
as algas, os corais,
mas lá no fundo
aquele chão
não mudou mais.

Percebo então
a onda
que se faz anunciar:
antes de levar atrai
atrasa ou faz parar.
A tal etapa que complementa
o movimento pendular.

Respiro.
Sustenho.
Insisto.
E apenas venho...

Há anos que ando nisto,
pairando este mesmo mar
sempre o mesmo fundo
o mesmo braço a rodar,
e a onda que se anuncia
e este anseio infecundo
de voltar a voar...

Deve ser gigantesca!...
E quando vier
não faço ideia
para onde me irá levar!

AWF, Angra do Heroísmo, 24 de Setembro de 2016

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Era uma vez um país...

Em 2013, em Almada, acompanhado da minha mãezinha, tive felicidade de poder assistir a isto:



De Miguel Calhaz,

Era uma vez um país

Lá num canto desta velha Europa
era uma vez um país

vivia à beira do mal “prantado”
mas apodrecia na raiz


Reza a história que foi saqueado
mesmo por debaixo do nariz

Triste sina, oh! Que triste fado!
Era uma vez um país


E os mandantes que por lá passavam
eram só ares de “bon vivant”

Viviam à grande e à francesa
como se não houvesse amanhã

E havia quem avisasse o povo
p'ra não dar cavaco a imbecis

Mas caíram na asneira de novo
era uma vez um país

E esta fábula do imaginário
tão próxima do que é real

Canção de maledicente escárnio
à república do bananal


Que se encontrava em tão mau estado
andava a gente tão infeliz

E o polvo já tão infiltrado
era uma vez um país


E lá se vão sucedendo os casos
grita o povo: “agarra que é ladrão!”

Mas passam belos dias à sombra do loureiro

Enquanto o Duarte lima as grades da prisão

E nunca se esgotam os personagens
neste faz de conta que é assim

Raposas com passos de coelho no mato

e até um corta relvas de madeira no jardim


Entre campeões de assalto à vara
e filósofos de pacotilha

Entram nas portas dos submarinos
azeiteiros de oliveira às costas

com o ouro da nação p'ra pôr nas ilhas
Caimão, cai pé, baixa os braços e as calças
e a cabeça e o nariz,

aqui finda esta história
que não tem final feliz
pois
era uma vez um país.

Porreiro, pá!...

domingo, 11 de setembro de 2016

Medo...



Obrigado Liliana.

O medo é parte integrante de nós.
Um brinde então, à outra parte de nós, que abraça e envolve o nosso sistema límbico, e nos permite reflectir, analisar e ultrapassar... e de que maneira!... o medo.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Matéria nobre...

A propósito disto:


o poema de Eugénio de Andrade, a dizer-nos que o segredo é a paixão. A paixão daquilo que se faz apaixonadamente, acrescento eu, para que não fiquemos pelas paixões mais ou menos românticas ou carnais, que são mais ou menos passageiras. A paixão, por exemplo, com que aqui escrevo.


MATÉRIA NOBRE

Pode ouvir-se ainda o seu
bater contra o peito.
Há tantos, tantos anos exposto
à violência da luz do meio
dia. Quase amargo, quase
doce. Só a paixão o rouba
à morte, o impede de ser
panela esburacada
onde o vento assobia.
Ou pior: coisa viscosa, mole,
inerme. Coração,
matéria nobre.

Parece mentira...


Parece mentira que não se fale do tema... Pois parece.
E eu bem que tenho tentado... A economia, que o alemão barbudo chamava de infra-estrutura, por bons motivos...

Mas parece que vinga mais o "o meu é para mim, que se foda o mundo",
e toca a privatizar mais um hospital!...

Ainda na onda da música ska-punk, uma canção do grupo "La Raíz" de Gandía, uma cidade da Comunidade Valenciana. Esta canção integra o álbum "Así en el cielo como en la selva" que está integral e gratuitamente disponível no site do grupo. Aplaudo a atitude. Aplaudo as ganas e as mensagens, mesmo que sinta que por vezes não estão muito de acordo com o estilo musical.





PARECE MENTIRA

Quién es ese que carga contra la gente,
vengo a decirle que con palabras también se entiende
la lucha por el poder, las mismas caras de siempre,
su sucia plata, su sucia ley, el pueblo sabe muy bien.

Parece mentira que la mano invisible lo vea y no sepa actuar,
Parece mentira, nos dijeron, la ley del mercado no puede fallar,
Parece mentira que no se hable del tema,
Parece mentira que no den solución al problema, solución al problema.

Si mi boca disparara las palabras necesarias,
para despertar a tantas almas errantes, bellas durmientes.
Un silencio suyo, es como un murmullo,
lo mío es para mí, y que se joda el mundo.

Parece mentira que la mano invisible lo vea y no sepa actuar,
Parece mentira nos dijeron la ley del mercado no puede fallar
Parece mentira que no se hable del tema,
Parece mentira, que no den solución al problema, solución al problema.

Hoy despidieron a 14 del almacén,
hoy bajó la esperanza y subió el pan,
hoy el jefe compró un chalet en B,
y no nos puede pagar.

Hoy derruyeron el colegio donde estudié,
hay un proyecto de un centro comercial,
mañana niños que hoy no saben leer,
tampoco podrán comprar.

Hoy no cobró su subsidio el pobre Manuel,
privatizaron ese nuevo hospital,
hoy enfermó la abuela del 5. B,
mañana... dios dirá.

sábado, 2 de maio de 2015

Quiero amor...



La gran orquesta republicana
Quiero amor

No quiero un sistema podrido y militar,
no quiero vuestras guerras ni energía nuclear
no quiero un gobierno de políticos corruptos,
en realidad no quiero no quiero gobierno.

No quiero el ejercito,
no quiero monarquía,
no quiero la república si nada va a cambiar
No quiero vuestra patria,
no quiero la bandera
que no, que no, que no me representa.


Pero si alguien pregunta: yo lo que quiero es amor.
Aquí tienes mi respuesta: yo lo que quiero es amor.
En realidad lo que quiero es amor.
En realidad lo que quiero es amor.
En realidad lo que quiero es amor.
En realidad lo que quiero es amor.

No quiero las prisiones, no quiero las fronteras
No quiero que la historia este llena de mentiras.
No quiero ver negocio en hospitales y en escuelas
No quiero que la iglesia se meta con mi vida.

No quiero los transgenicos ni plantas patentadas,
no quiero pesticidad que evenenen la comida,
maltrato de animales, politicos en venta,
que no, que no, que no me representan

Pero si alguien pregunta: yo lo que quiero es amor.
Aquí tienes mi respuesta: yo lo que quiero es amor.
En realidad lo que quiero es amor.
En realidad lo que quiero es amor.
En realidad lo que quiero es amor.
En realidad lo que quiero es amor.

O medo...



Mia Couto, num discurso proferido em 2011 nessa coisa chamada "Estoril Conferences", um encontro chique, como há muitos, para abordar "problemas globais", numa tentativa de tornar a globalização numa coisa mais linda (tenho vontade de vomitar...).

Eduardo Galeano, em três pequenos textos que seleccionei.

Tudo para pensar muito e devagar.

O medo é natural. Tal como a fome. O modo como agimos, apesar dessas sensações primitivas, é a parte que nos compete.

Mia Couto


Murar o Medo


(link)

O medo foi um dos meus primeiros mestres.

Antes de ganhar confiança em celestiais criaturas aprendi a temer monstros, fantasmas e demónios. Os anjos, quando chegaram, já era para me guardarem. Os anjos actuavam como uma espécie de agentes de segurança privada das almas.

Nem sempre os que me protegiam sabiam da diferença entre sentimento e realidade. Isso acontecia, por exemplo, quando me ensinaram a recear os desconhecidos. Na realidade a maior parte da violência contra as crianças sempre foi praticada, não por estranhos, mas por parentes e conhecidos.

Os fantasmas que serviam na minha infância reproduziam esse velho engano de que estamos mais seguros em ambiente que reconhecemos.

Os meus anjos da guarda tinham a ingenuidade de acreditar que eu estaria mais protegido apenas por não me aventurar para além da fronteira da minha língua, da minha cultura, do meu território.

O medo foi afinal o mestre que mais me fez desaprender.

Quando deixei a minha casa natal, uma invisível mão roubava-me a coragem de viver e a audácia de ser eu mesmo. No horizonte vislumbravam-se mais muros do que estradas. Nessa altura algo me sugeria o seguinte: que há neste mundo mais medo de coisas más do que coisas más propriamente ditas.

No Moçambique colonial em que nasci e cresci, a narrativa do medo tinha um invejável casting internacional: os chineses que comiam crianças, os chamados terroristas que lutavam pela independência e um ateu barbudo com um nome alemão.

Esses fantasmas tiveram o fim de todos os fantasmas: morreram quando morreu o medo. Os chineses abriram restaurantes à nossa porta, os ditos terroristas são hoje governantes respeitáveis e Karl Marx, o ateu barbudo, é um simpático avô que não deixou descendência.

O preço dessa construção de terror foi, no entanto, trágico para o continente africano. Em nome da luta contra o comunismo cometeram-se as mais indizíveis barbaridades. Em nome da segurança mundial foram colocados e conservados no poder alguns dos ditadores mais sanguinários de toda a história. A mais grave desta longa herança de intervenção externa, é a facilidade com que as elites africanas continuam a culpar os outros pelos seus próprios fracassos.

A guerra fria esfriou, mas o maniqueísmo que a sustinha não desarmou, inventando rapidamente outras geografias do medo a oriente e a ocidente e, porque se trata de entidades demoníacas, não bastam os seculares meios de governação, precisamos de intervenção com legitimidade divina.

O que era ideologia passou a ser crença. O que era política tornou-se religião. O que era religião passou a ser estratégia de poder. Para fabricar armas é preciso fabricar inimigos. Para produzir inimigos é imperioso sustentar fantasmas.

A manutenção desse alvoroço requer um dispendioso aparato e um batalhão de especialistas que, em segredo, tomam decisões em nosso nome.

Eis o que nos dizem: para superarmos as ameaças domésticas precisamos de mais polícia, mais prisões, mais segurança privada e menos privacidade; para enfrentarmos as ameaças globais precisamos de mais exércitos, mais serviços secretos e a suspensão temporária da nossa cidadania.

Todos sabemos que o caminho verdadeiro tem que ser outro. Todos sabemos que esse outro caminho poderia começar, por exemplo, pelo desejo de conhecermos melhor esses que, de um e de outro lado, aprendemos a chamar de “eles”.

Aos adversários políticos e militares juntam-se agora o clima, a demografia e as epidemias. O sentimento que se criou é o seguinte: a realidade é perigosa, a natureza é traiçoeira e a humanidade imprevisível.

Vivemos como cidadãos e como espécie em permanente situação de emergência. Como em qualquer outro estado de sítio as liberdades individuais devem ser contidas, a privacidade pode ser invadida e a racionalidade deve ser suspensa.

Todas essas restrições servem para que não sejam feitas perguntas, como por exemplo estas:
Por que motivo a crise financeira não atingiu a indústria do armamento?
Por que motivo se gastou, apenas no ano passado, um trilião e meio de dólares em armamento militar?
Por que razão os que hoje tentam proteger os civis na Líbia são exactamente os que mais armas venderam ao regime do coronel Gaddafi?
Por que motivo se realizam mais seminários sobre segurança do que sobre justiça?

Se queremos resolver e não apenas discutir a segurança mundial, teremos que enfrentar ameaças bem reais e urgentes. Há uma arma de destruição massiva que está sendo usada todos os dias, em todo o mundo, sem que seja preciso o pretexto da guerra: essa arma chama-se fome!

Em pleno século XXI, um em cada seis seres humanos passa fome. O custo para superar a fome mundial seria uma fracção muito pequena do que se gasta em armamento. A fome será, sem dúvida, a maior causa de insegurança do nosso tempo.

Mencionarei ainda uma outra silenciada violência. Em todo o mundo uma em cada três mulheres, foi ou será, vítima de violência física ou sexual durante o seu tempo de vida. É verdade que sobre uma grande parte do nosso planeta pesa uma condenação antecipada pelo facto simples de serem mulheres.

A nossa indignação porém é bem menor que o medo!

Sem darmos conta fomos convertidos em soldados de um exército sem nome e, como militares sem farda, deixamos de questionar. Deixamos de fazer perguntas e discutir razões. As questões de ética são esquecidas, porque está provada a barbaridade dos outros. E, porque estamos em guerra, não temos que fazer prova de coerência, nem de ética nem de legalidade.

É sintomático que a única construção humana que pode ser vista do espaço seja uma muralha, a Grande Muralha, que foi erguida para proteger a China das guerras e das invasões. A Muralha não evitou conflitos nem parou os invasores. Possivelmente morreram mais chineses construindo a muralha do que vítimas das invasões que realmente aconteceram. Diz-se que alguns trabalhadores que morreram foram emparedados na sua própria construção. Esses corpos convertidos em muro e pedra, são uma metáfora do quanto o medo nos pode aprisionar.

Há muros que separam nações, há muros que dividem pobres e ricos mas não há hoje no mundo um muro que separe os que têm medo dos que não têm medo.

Sob as mesmas nuvens cinzentas vivemos todos nós, do sul e do norte, do ocidente e do oriente.

Citarei Eduardo Galiano acerca disto, que é o medo global, e dizer:
Os que trabalham têm medo de perder o trabalho; os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho; quando não têm medo da fome têm medo da comida; os civis têm medo dos militares; os militares têm medo da falta de armas e as armas têm medo da falta de guerras.

E, se calhar, acrescento eu agora, há quem tenha medo que o medo acabe.



Eduardo Galeano

El miedo

Una mañana, nos regalaron un conejo de indias.
Llegó a casa enjaulado.
Al mediodía, le abrí la puerta de la jaula.
Volví a casa al anochecer
y lo encontré como lo había dejado:
jaula adentro,
pegado a los barrotes,
temblando del susto de la libertad.


 
El miedo global
Los que trabajan tienen miedo de perder el trabajo.
Los que no trabajan tienen miedo de no encontrar nunca trabajo.
Quien no tiene miedo al hambre, tiene miedo a la comida.
Los automovilistas tienen miedo de caminar
y los peatones tienen miedo de ser atropellados.
La democracia tiene miedo de recordar
y el lenguaje tiene miedo de decir.
Los civiles tienen miedo a los militares,
los militares tienen miedo a la falta de guerras.

Es el tiempo del miedo.

Miedo de la mujer a la violencia del hombre
y miedo del hombre a la mujer sin miedo.
Miedo a los ladrones, miedo a la policía.
Miedo a la puerta sin cerradura,
al tiempo sin relojes,
al niño sin televisión,
miedo a la noche sin pastillas para dormir
y miedo al día sin pastillas para despertar.
Miedo a la multitud,
miedo a la soledad,
miedo a lo que fue
y a lo que puede ser,
miedo de morir,
miedo de vivir...

 
Ventana sobre el miedo

El hambre desayuna miedo.
El miedo al silencio aturde las calles.
El miedo amenaza:
Si usted ama, tendrá sida.
Si fuma, tendrá cáncer.
Si respira, tendrá contaminación.
Si bebe, tendrá accidentes.
Si come, tendrá colesterol.
Si habla, tendrá desempleo.
Si camina, tendrá violencia.
Si piensa, tendrá angustia.
Si duda, tendrá locura.
Si siente, tendrá soledad.