terça-feira, 29 de setembro de 2020
Estamos satisfeitos com o número de mortos...
The Battle Hymn of the Republic, updated...
Escrito em 1900 por Mark Twain, sobre o imperialismo dos EUA, no contexto da guerra entre Filipinas e EUA, mas com alcance que infelizmente ainda perdura.
Mine eyes have seen the orgy of the launching of the Sword;
He is searching out the hoardings where the stranger's wealth is stored;
He hath loosed his fateful lightnings, and with woe and death has scored;
His lust is marching on.
I have seen him in the watch-fires of a hundred circling camps;
They have builded him an altar in the Eastern dews and damps;
I have read his doomful mission by the dim and flaring lamps—
His night is marching on.
I have read his bandit gospel writ in burnished rows of steel:
"As ye deal with my pretensions, so with you my wrath shall deal;
Let the faithless son of Freedom crush the patriot with his heel;
Lo, Greed is marching on!"
We have legalized the strumpet and are guarding her retreat;
Greed is seeking out commercial souls before his judgement seat;
O, be swift, ye clods, to answer him! be jubilant my feet!
Our god is marching on!
In a sordid slime harmonious Greed was born in yonder ditch,
With a longing in his bosom—and for others' goods an itch.
As Christ died to make men holy, let men die to make us rich—
Our god is marching on.
terça-feira, 22 de setembro de 2020
A solução da energia nuclear...
Estamos no ano 2020 e o "aquecimento global" parece finalmente ter-se tornado numa "cena". Escrevo assim, porque verdadeiramente não sei o que isso quer dizer. Talvez a maioria das pessoas que rodeiam o calhau oceânico onde agora vivo saibam que existe algo chamado aquecimento global, que isso é um problema com más consequências e que uma das causas para isso é a queima de combustíveis fósseis. Talvez noutros sítios deste calhau planetário também seja assim. Essa tomada de consciência é boa, embora seja pena que o "ambiente" continue a ser uma coisa mal definida, às vezes (mal) identificada com campos verdinhos (que aqui vêm geralmente acompanhados de vaquinhas a pastar) e que muitos outros problemas ambientais, alguns dos quais mais graves, continuem a ser menosprezados ou mesmo ignorados.
A mensagem propagandeada (e bem) é então de que a queima de combustíveis fósseis liberta dióxido de carbono para a atmosfera, e que o aumento da proporção desse gás na atmosfera acidifica os oceanos e aumenta o efeito de estufa, conduzindo ao aumento da temperatura média à superfície da Terra, o que conduz a uma série de consequências nefastas (degelo das calotes polares, subida dos oceanos, maior frequência e intensidade de incêndios, maior propensão para fenómenos atmosféricos extremos, etc.).
A mensagem implícita é: temos de queimar menos carvão, petróleo e derivados.
Mas toda a actividade económica que sustenta o nosso bem-estar necessita de fontes de energia!
(Central Termoeléctrica de Sines, actualmente em processo de encerramento)
Nas últimas décadas houve grandes avanços tecnológicos que permitiram aumentar muito a eficiência da transformação da energia eólica e da radiação solar em energia eléctrica. Isso lançou a onda das "energias renováveis".
(Aproveitando a boleia dessa onda das energias renováveis, tem-se feito muita campanha (e bem financiada... quiçá com o dinheiro dos nossos impostos) na mobilidade eléctrica, com especial enfoque nos veículos automóveis eléctricos. Seria bom, no entanto, que o trigo fosse separado do joio. Uma coisa é a produção de energia eléctrica a partir de fontes renováveis como o vento, outra coisa é a utilização de carros eléctricos, cuja energia eléctrica pode ser produzida em centrais a carvão, que utilizam baterias de lítio cuja reciclagem é um berbicacho, e que não eliminam de todo os problemas que o sistema rodoviário apresenta (ruído, ocupação dos espaços públicos, segurança rodoviária, etc.). Mas isso é outro assunto.)
Entretanto, muitas pessoas bem informadas acerca dos problemas associados à queima dos combustíveis fósseis começaram a levantar objecções à tentativa de substituição dessa fonte energética pelas fontes renováveis vento e sol. E com bastante razão.
De facto, quando se diz que o vento é uma fonte de energia "limpa", não estamos a ser totalmente correctos. A instalação de turbinas eólicas tem grandes impactos no meio ambiente. Esses impactos não são apenas estéticos, mesmo que isso também seja importante. Para instalar e manter as turbinas é necessário abrir estradas até e ao longo das cristas dos montes (e nunca é demais realçar como as estradas são inimigas dos habitats e dos respectivos residentes). As pás das turbinas são um perigo para muitas aves. O ruído que provocam perturba a vida animal numa área considerável ao seu redor.
Outras objecções podem ser levantadas à transformação da energia da radiação solar em painéis fotovoltaicos. Mas bem para além disso, é preciso sempre considerar que estes equipamentos têm uma vida útil limitada e que, portanto, têm de ser mantidos e eventualmente substituídos. E o fabrico, transporte e instalação destes equipamentos tem impactos significativos no meio ambiente, também através do consumo de energia.
Neste contexto, têm surgido várias vozes a advogar a defesa da energia nuclear, como sendo, pelo menos no imediato, a única fonte de energia capaz de sustentar o crescimento económico, sem contribuir para o aquecimento global, e sem apresentar os inconvenientes associados às eólicas ou aos painéis solares.
Quando vivi em França, em 1995, fui surpreendido como muitas casas e lojas eram aquecidas internamente até mais de vinte graus, enquanto o exterior podia estar a menos vinte. Ao ponto de as pessoas andarem de t-shirt, terem calor, e deixarem as janelas abertas para arrefecer. Ao mesmo tempo que as lojas, para atraírem clientes, mantinham as portas escancaradamente abertas, sem sequer ter uma cortina ou algo que impedisse a saída do ar quente e a entrada do ar frio. Só depois percebi a fonte de tanta despreocupação: toneladas de energia eléctrica barata, vinda directamente de centrais de energia nuclear.
Será a energia nuclear uma solução?
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A energia nuclear é renovável?
As centrais de energia nuclear consomem urânio. O urânio não se renova. Mais tarde ou mais cedo essa fonte irá extinguir-se.
Mas será que existem fontes de energia verdadeiramente renováveis? Essencialmente, chamamos renováveis às fontes de energia que dependem directamente (ou quase) do nosso Sol. Um painel fotovoltaico pode converter a radiação recebida directamente do Sol em energia eléctrica. As diferenças de temperatura originadas pelo Sol à superfície da Terra e na atmosfera geram correntes de ar cuja energia pode ser parcialmente capturada por turbinas eólicas. Essas correntes de ar transportam também humidade e originam o ciclo da água, cuja energia pode ser parcialmente capturada por centrais hidroeléctricas.
Mas um dia o Sol deixará de emitir energia. E nesse dia, as energias a que agora chamamos renováveis, deixarão de ser renovadas.
Assim, ser renovável ou não, depende da escala temporal que queiramos considerar. A vantagem das energias que dependem directamente do Sol é que este irá continuar a brilhar durante muito tempo: uns bons milhares de milhões de anos.
A uma escala temporal bem mais reduzida, os próprios combustíveis fósseis podem ser considerados uma fonte de energia renovável. Afinal o petróleo não é mais do que o resultado do aprisionamento da energia solar em matéria orgânica, posteriormente sujeita a uma metamorfose a alta temperatura e pressão durante alguns milhões de anos.
Mas poderemos reduzir a nossa escala temporal a apenas alguns anos, e mesmo nesse curto período uma árvore consegue utilizar a energia solar para aprisionar carbono, dando-nos madeira que podemos queimar numa salamandra. Portanto, também a lenha pode ser considerada uma fonte de energia renovável, tal como a matéria orgânica utilizada nas centrais de biomassa.
Mas voltemos à energia nuclear. Essa energia não é renovável, numa escala temporal que poderá ir para além da vida do nosso Sol. O urânio é o produto de acontecimentos fora do nosso alcance, como a explosão de estrelas. Talvez no futuro consigamos encontrar uma forma de utilizar a energia solar para produzir urânio a partir de elementos químicos mais leves. No entanto, isso parece muito improvável enquanto possibilidade, e parece muito irracional do ponto de vista de eficiência, uma vez que provavelmente gastar-se-ia muito mais energia a produzir o urânio do que se aproveitaria depois no seu consumo.
Neste momento, os estudos mais optimistas sobre a capacidade de extracção de urânio até da água do mar, conjugados com a maior eficiência possível na sua utilização, indicam que a Terra contém urânio suficiente para suster as necessidades humanas durante alguns milhares de anos.
Se o urânio não é renovável, o máximo que se pode considerar é que ele pode ser uma solução temporária, enquanto não encontramos uma fonte alternativa.
Numa altura em que os gritos de alerta acerca do aquecimento global se tornam cada vez mais altos e frequentes, faz algum sentido que haja proponentes da utilização da energia nuclear, nem que seja apenas como uma solução temporária. Mas, mesmo nesses moldes, convém analisar com um pouco mais de profundidade se esta é ou não uma solução recomendável.
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As centrais de energia nuclear não são limpas nem seguras.
O urânio é radioactivo e os produtos da sua cisão também são radioactivos.
Na verdade, muitos átomos (ou isótopos... formas específicas dos átomos de cada elemento) são instáveis e podem transformar-se noutros elementos emitindo alguma radiação (lista de isótopos radioactivos). Só que alguns elementos levam mais tempo a fazê-lo do que outros. A radioactividade dos elementos pode então medir-se numa escala, e esses elementos serão classificados como mais ou menos radioactivos. Afinal, todos nós estamos sujeitos a alguma radioactividade no nosso dia-a-dia.
A questão é que os elementos envolvidos na operação de uma central de energia nuclear são muito mais radioactivos que os elementos que nos circundam no dia-a-dia.
A radioactividade é perigosa para todos os seres vivos, não apenas para os seres humanos. As partículas ou radiação emitidas por um isótopo radioactivo são altamente energéticas (ver radiação ionizante) e conseguem alterar a estrutura das moléculas que compõem as células dos seres vivos. Esta alteração das moléculas pode implicar a morte da célula ou, com azar, o surgimento de uma mutação cancerígena.
As centrais de energia nuclear utilizam como combustível (embora não se trate de uma reacção de combustão) material radioactivo e produzem resíduos radioactivos.
Os resíduos radioactivos são muito perigosos. Também os resultados de uma combustão normal numa lareira podem ser muito perigosos. Mas a perigosidade dos resíduos das centrais nucleares é diferente. Por um lado, a radiação que emitem atravessa paredes e não é detectada pelos nossos sentidos. Por outro lado, mantêm-se perigosos durante muito tempo. Durante muitíssimo tempo. Durante tanto tempo que nos devem fazer pensar muito bem antes de decidir ir por aí...
De facto, existe uma questão ética importante em todas as questões relacionadas com a preservação do meio ambiente e que tem a ver com o não comprometer as possibilidades dos seres vivos vindouros. Ora os resíduos das centrais nucleares irão manter-se radioactivos durante milhões de anos (ver tempo de meia vida do isótopo de iodo 129). Por mais encapsulados e enviados para as profundezas dos oceanos ou do subsolo que sejam, esses resíduos manterão a sua perigosidade por mais tempo do que qualquer planeamento humano consegue alcançar. E, portanto, a tal questão ética é premente!
Mas a radioactividade das centrais nucleares não se resume ao combustível e aos resíduos.
As centrais de energia nuclear transformam a energia libertada na cisão dos átomos em energia eléctrica. Esse processo é mediado por água: a energia que os átomos libertam converte-se em calor, o calor é transmitido à água, e a água aquecida move turbinas que produzem a electricidade. A água utilizada nesse processo fica contaminada, e alguma dela pode escapar para o meio envolvente caso existam fugas, o que infelizmente é mais vulgar do que se pensa.
Existe um outro ciclo de água nas centrais de energia nuclear que se destina exclusivamente a arrefecer e manter termicamente estável o primeiro ciclo anteriormente descrito. Ora este circuito de arrefecimento gera enormes quantidades de água morna que tipicamente é despejada para grandes massas de água existentes perto das centrais (rios, lagos, mares). E isso constitui, só por si, um tipo de poluição com bastante impacto para os seres que vivem nessas massas de água. De resto, este tipo de poluição é comum às centrais de combustíveis fósseis.
Por outro lado, depois de se utilizar uma porção de combustível, o resíduo não é imediatamente manipulável. Primeiro ele tem de ser arrefecido em piscinas durante vários anos. E isso gera mais água contaminada.
Mas não é apenas a água que fica contaminada. Também algumas peças de vestuário dos funcionários e todo o edifício da central fica contaminado.
Ou seja, há uma série de outras fontes de radioactividade envolvidas na operação de uma central nuclear que, embora menos perigosas, também têm de ser consideradas. Ao longo das décadas em que as centrais de energia nuclear têm operado, muitos têm sido os casos de pequenas fugas de água contaminada para o exterior do edifício...
Finalmente, há todo o custo da construção da central e da sua manutenção ou encerramento, e há também todo o custo ambiental da mineração do urânio.
As centrais nucleares não são limpas, mesmo que possam ser consideradas mais limpas que as centrais a carvão, e também não são seguras, mesmo que possam ser consideradas mais seguras que uma central a carvão. Acima de tudo, elas transformam um tipo de problema, noutro tipo de problema, com o enorme fardo de criarem um problema para as gerações vindouras por mais tempo do que a nossa imaginação consegue alcançar.
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E isto tudo é mesmo necessário? Não haverá uma alternativa?
O debate actual pode resumir-se ao seguinte: precisamos de energia, existem estas fontes de energia, todas elas têm vantagens e inconvenientes, qual é a que apresenta mais vantagens e menos inconvenientes?
Esse debate é falacioso, porque parte de uma premissa errada. Infelizmente, imensas discussões económicas, sociais e políticas partem desta mesma premissa errada: a de que a felicidade humana está dependente do crescimento. Crescimento num sentido lato. Acreditamos, sem pestanejar, que a nossa felicidade depende do crescimento da economia, de veículos mais rápidos, de podermos ir mais longe no universo, da utilização de mais energia, de mais viagens de férias, de mais comida, de mais roupa, de mais tecnologia, de mais conhecimento, de mais ciência, de mais sexo, de mais prazer, de mais tudo e mais alguma coisa.
No entanto, parece que não nos ocorre estoutro simples raciocínio: se a nossa felicidade depende de termos mais de tudo, inclusive mais de nós mesmos, então os antigos, coitadinhos, estiveram condenados à infelicidade! Todos eles! Desde o australopiteco! Será isso verdadeiro?...
Não seremos nós capazes de sermos felizes sem esta corrida frenética rumo ao topo de uma montanha que queremos sempre cada vez mais alta?
Às vezes penso que no estádio actual das coisas as pessoas dificilmente conseguiriam imaginar uma sociedade sem "progresso", isto é, em que as pessoas vivem do mesmo modo que os seus avós viveram e em que sabem que os seus netos irão viver do mesmo modo que elas próprias vivem. No entanto, foi assim que viveu a humanidade durante mais de 99% da sua existência. E custa-me a acreditar que isso os tenha condenado à infelicidade.
Infelicidade é sabermos que, no mundo actual, por mais tecnologia e ciência e velocidade e energia que tenhamos, vamos continuar a ter de ir trabalhar num trabalho de que não gostamos e vamos continuar a sujeitar os outros seres vivos à miséria. Mesmo que a humanidade inteira já produza mais penduricalhos do que os que é capaz de consumir!... Será isto mesmo necessário?
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O verdadeiro problema nos debates sobre a energia.
Todas as formas de "produzir" energia têm impacto ambiental. Quando isso é feito à escala em que a humanidade hoje em dia faz as suas coisas, esse impacto é enorme. O mesmo deve ser dito em relação à utilização dessa energia. As nossas casas quentes têm um impacto, os nossos duches quentes, os produtos plastificados que usamos, os aviões em que voamos, todas as formas de "consumir" energia têm o seu impacto.
Acreditamos, porque nos fizeram acreditar, que precisamos de mais energia para sermos felizes. Corremos atrás disso. Mas quando finalmente começamos a perceber que esta corrida não pode continuar, sentimos imensa dificuldade em voltar atrás.
Quando era criança, quase ninguém voava de avião. Só alguns, e só muito de vez em quando. Hoje em dia todos o fazem por dá cá aquela palha. No entanto, se propusermos agora um regresso ao número de viagens que se fazia há 40 anos atrás, muita gente irá ficar revoltada.
O verdadeiro problema relacionado com a energia é a dependência que construímos dela.
De cada vez que surge um problema relacionado com a produção ou o consumo de energia, a humanidade inteira (e nós também!) dedica-se à pesquisa de vias alternativas que nos permita continuar a aumentar a quantidade de energia produzida e consumida, alegando, propositada ou reflexivamente, que isso é indispensável ao nosso bem-estar.
Temos de saber parar.
Não, a solução não é construir centrais de energia nuclear. Não, a solução não é queimarmos mais carvão. A solução não é enchermos todas as montanhas com turbinas eólicas. A solução não é barrarmos todos os rios. Nem é conduzirmos automóveis eléctricos.
A solução é aprendermos a ser felizes doutros modos. Por exemplo, encontrando formas de extinguir os trabalhos de que não gostamos.
("O burro e o gaiteiro", 2009)
Até lá, tudo aquilo que venha do baú das invenções para nos "ajudar" nesta questão energética, só estará a contribuir para agravar a nossa dependência e, com isso, os problemas de muitos outros seres vivos do nosso calhau.
segunda-feira, 7 de setembro de 2020
David Graeber - reinvenção da felicidade...
No passado dia 2 de Setembro David Graeber deixou-nos. À data em que escrevo isto não tenho conhecimento da causa desse muito infeliz acontecimento. Sei que, pelo menos para mim, foi inesperado, e que certamente foi muito antes do tempo: tinha 59 anos de idade e uma cabeça que debitava modos de ver o mundo próprios. Muitos de nós arrogam-se a genuinidade de um pensamento livre, autónomo, independente, até inovador, até direitos de autor, sem nos darmos conta de que apenas modificamos umas coisitas pequenas a tudo aquilo que fomos apanhando pelo caminho. Mas David Graeber era daquelas pessoas que verdadeiramente parecia pensar nas coisas à sua maneira, quer quando produzia ideias diferentes, quer quando produzia ideias iguais.
Entre outras coisas, deixou-nos dois livros que estão na minha lista de coisas a fazer (sempre adiadas pelas horrorosas e mundanas necessidades...): "Bullshit jobs" e "Debt: the first 5000 years". Portanto, se as coisas correrem bem, voltaremos a isto nos próximos tempos, e por mais que uma vez.
Entretanto fica um pequeno excerto de um dos últimos vídeos públicos, do passado mês de Julho, e o respectivo texto em baixo.
É urgente olhar para a realidade com olhos diferentes. O problema é que já estamos de tal modo formatados, que não acreditamos noutras narrativas... A urgência, no entanto, é objectiva, e permanece.
(vídeo completo aqui)Inglês:
"The period right after the Black Plague was the Golden Age for the working classes in most of Western Europe and I always say that if you wanna see how the class struggle is kinda going in any particular time and place in world history, the easiest way to check is to see how many days people had to work. Well in the 14 hundreds right after the population went way down, wages went way up, there’s a massive distribution, you suddenly get these sanctuary laws saying, you know, it’s illegal for peasants to wear ermine, which they really didn’t need to have a law about before and... all of a sudden like a third to one half the days were saints’ days and holidays of one kind or another. But the interesting thing is that it was all thrown into this collective consumption rather than individual consumption. Capitalism only happened when they broke with that. So if you read like you know these sort of British calendar rituals are usually referring to that period you know which was the heyday when the Lords of Misrule (https://en.wikipedia.org/wiki/Lord_of_Misrule) and Abbotts of Unreason and the Prince of Sots and all these names for these sort of make-believe organizations, forms of government, [where you'd] kind of jump in during holidays... and, you know, they were great! I mean like I remember reading descriptions of this and I was like, okay, on the second Tuesday after Lent, you know, women will form marauding bands and kidnap men and hold them for ransom and on this day they’ll have cheese races and then on that day, you know, and so forth and so on, this endless novel, build dragons and carry on with your dragons and set them on fire and so forth and so on. So I think if there’s something to be learned from post-Plague societies it’s to use our imagination to recreate society in that way. In a way that’s why everybody started running out to meet each other as soon as lockdown ended - seemed like it could turn into that kind of a festive life. We need to reinvent what we think of as happiness because you know we’ve got this dynamic between these sort of solitary hedonistic pleasures and this pure chemical need to do more and more work until you justify it, which is literally killing us. We need to go the other way out/above."
Português (tradução livre):
"O período que se seguiu à Peste Negra (cerca de 1350) foi o período dourado das classes trabalhadoras na maioria da Europa ocidental e eu sempre digo que se queres averiguar como a luta de classes está indo em qualquer situação particular ao longo da história mundial a maneira mais fácil é verificar quantos dias é que as pessoas tinham que trabalhar. No século XV, logo depois de a população ter diminuído muito e os salários terem aumentado muito, há uma grande distribuição [de riqueza] e de repente tens estas leis a dizer que é ilegal os agricultores vestirem arminhos... leis que antes não eram necessárias... e de repente um terço ou metade dos dias eram dias santos ou feriados de um ou outro tipo. Mas o interessante é que fazia tudo parte deste consumo colectivo, em vez de ser contabilizado no consumo individual de cada um. O capitalismo só surgiu quando se deixaram disso. Portanto se leres sobre os rituais do calendário britânico és sempre dirigido para esse período de apogeu da folia em que havia uma data de organizações fictícias (https://en.wikipedia.org/wiki/Lord_of_Misrule) que a sociedade adoptava durante os feriados... e eram óptimas! Lembro-me de ler descrições de... por exemplo, na segunda terça-feira depois da quaresma as mulheres formavam seitas que raptavam os homens, pedindo depois um resgate por eles... noutro dia havia corridas de queijos e noutro outra folia qualquer... sempre nesta novela interminável, construir dragões e andar com eles e depois atear-lhes fogo, etc, etc. Portanto eu penso que se há qualquer coisa a aprender de sociedades pós-pragas, ou pós-pandemias, é usar a nossa imaginação para recriar a sociedade desse modo. De certo modo, foi por isso que as pessoas saíram a correr para se encontrarem umas com as outras quando o confinamento terminou - parecia que se podia tornar nesse tipo de vida festiva. Precisamos de reinventar o nosso modo de pensar a felicidade porque neste momento temos esta dinâmica entre os prazeres hedonísticos solitários e esta necessidade puramente química de trabalhar mais e mais para poder justificar [a sua recompensa] que está literalmente a matar-nos. Nós precisamos de sair disto de outro modo."
Angra do Heroísmo, 7 de Setembro de 2020
sábado, 22 de agosto de 2020
Progresso no campismo...
Progresso no campismo significa extinção de campismo. Afinal, quem é que quer dormir junto ao chão quando se tem a possibilidade de dormir no vigésimo andar de um hotel?
No centro da imagem o que resta do antigo parque de campismo de Vale da Telha, Aljezur, agora rodeado de casas com piscina. Terei acampado lá pela primeira vez nos finais da década de 80 ou princípios da década de 90, com os meus tios.
Tenho dormido em tendas desde que nasci. E continuo. Claramente estou parado no tempo!...
A maioria das pessoas com quem convivi ao longo da vida e que acampavam, faziam-no sobretudo por ser uma solução barata. Claramente, se tivessem mais dinheiro, não iriam acampar.
Não será de estranhar, então, que à medida que o nível de vida de algumas pessoas foi subindo, a clientela dos parques de campismo foi diminuindo, e em diversos casos isso acabou por conduzir ao encerramento desses parques. Outros parques, muitos, transformaram-se em repositórios de caravanas e grandes tendas equipadas com todos os electrodomésticos, as segundas casas dos que ainda vão a caminho da sonhada casa de férias.
Entretanto, muitos já chegaram a esse estágio da casa de férias que se constrói e mantém para poder lá passar duas semanas em cada ano. Maravilhas do progresso! E não são casas quaisquer!...
Entretanto, um pouco mais ao lado, cresceram como cogumelos as casas com piscina.
Um fenómeno que também merece alguma análise é a predominância das piscinas particulares precisamente nas zonas do país onde são menos necessárias, não por causa do clima, mas simplesmente pela proximidade de óptimas zonas de banhos naturais como oceanos, rios e lagos.
Moledo.
A construção destas segundas casas com intuitos de recreação é aos meus olhos bastante condenável. Comecemos pelo que menos importa: o dinheiro. Construir e manter uma segunda casa grande, com jardim e piscina, é muito caro. E uma vez que na grande maioria dos casos estas casas ficam desocupadas durante a maior parte do ano, parece-me que faz mais sentido simplesmente alugar uma casa qualquer. E, seguindo essa linha de pensamento, podemos já referir uma segunda desvantagem: as segundas casas obrigam as pessoas a ir sempre para os mesmos locais. As rotinas têm as suas vantagens e desvantagens. Mas se se trata de férias, esse é precisamente o momento que temos disponível para quebrar as rotinas, para vermos coisas diferentes, para nos expormos a novas experiências, para não atrofiarmos, para crescermos.
Mas o que para mim é mais gravoso é o impacto ambiental que estas casas têm. Muitas delas são construídas em zonas preciosas para os outros seres vivos, na transição entre massas de água e zonas mais secas. Além disso, as piscinas particulares implicam um grande esbanjamento de água e uma utilização intensiva de cloro e outras bodegas. O mesmo pode ser dito dos relvados. Depois há toda a energia dispendida na construção em si. Mais a energia das deslocações de centenas de quilómetros entre a casa principal e a secundária. Mais a energia eléctrica para colocar tudo em marcha...
Isto tudo para poder dormir numa cama tão confortável quanto a de casa, para poder tomar um duche tão bom como o de casa, para poder ver televisão tão bem como em casa, para poder ficar isolado do mundo e de todos tão bem como em casa.
Desde a origem, mesmo nos tempos em que a falta de verbas desta malta a obrigava a acampar, ficou por apreender aquilo que é a grande vantagem do campismo: a exposição ao meio. No campismo somos nós os invasores, não são as formigas. No momento em que retiramos o colchão ou que desmontamos a tenda, percebemos como afectamos o solo do local onde dormimos, e todos os seres vivos que o utilizavam. O nosso impacto torna-se evidente quando tomamos banho ou quando lavamos louça. Todo o ruído que fazemos viaja livremente até todos os que nos rodeiam, humanos e não humanos, ao mesmo tempo que podemos ouvir tudo o que se passa à nossa volta. Sentimos a chuva, o calor do sol e o frio da noite. As folhas das árvores entram-nos pela casa adentro e aprendemos a diferenciá-las. Tal como aprendemos a diferenciar e a lidar com os estranhos que nos rodeiam, tornando-os em familiares.
Efeito de apenas uma pernoita sobre o manto de folhas de carvalho negral - Pitões das Júnias, 2007.
Paradoxal, entretanto, é sempre verificar, e não apenas neste contexto, como o comodismo geralmente anda associado ao tédio. Enfim, apenas mais uma marca do dito progresso que eu tanto tento evitar.
quinta-feira, 6 de agosto de 2020
Trazer pessoas para a rua...
Com o advento do automóvel, e através das décadas, as ruas foram sendo transformadas em canais para o transporte de veículos, uma espécie de tubos onde se entra para se sair do outro lado, na casa de alguém ou no shopping. Em consequência as ruas foram progressivamente desprovidas de uma série de outras valências. Os passeios foram estreitados, as árvores removidas e as faixas de circulação multiplicaram-se. As ruas deixaram de ser o ponto de encontro entre as pessoas, o sítio onde podemos conhecer e reconhecer os nossos vizinhos e nós mesmos.

Esta rua durante um mês quase só teve pessoas, zero carros. Resultados incríveis! Em Suwon, Coreia do Sul
É urgente inverter esta tendência!
Algum trabalho tem sido feito nos últimos anos nesse sentido, mas muito incipiente. A dificuldade geralmente prende-se com o conflito entre a mobilidade automóvel e as restantes potenciais utilizações desse espaço público que são as ruas.
Se não existissem automóveis…
Em Sydney, Paris, Londres e Nova Iorque, e muito provavelmente também nas nossas cidades e no Porto, a proporção da área da cidade ocupada pelas ruas é superior a 20 por cento. Se não existissem automóveis, o que se poderia fazer com esse espaço?…
É certo que abandonar o uso dos automóveis, mesmo podendo ser um objectivo desejável, não será fácil ou rapidamente alcançável. Mas é preciso trabalhar nesse sentido, uma vez que os custos do transporte automóvel são simplesmente demasiados: não apenas o problema energético, que não se extingue com o uso de veículos eléctricos, mas também o ruído, a indústria de produção associada, a construção das vias, o aparelhamento com sinais de trânsito, a fiscalização, a segurança de quem conduz, mas sobretudo dos peões e, claro, a ocupação de espaço, quer quando estão em circulação, quer quando estão parados.
A reafectação do espaço público que são as ruas, devolvendo-as às pessoas, não passará contudo apenas pela diminuição do uso dos automóveis.
Para que servem as ruas?
Quando um portuense sai à rua fá-lo como um meio para atingir um fim, e não como um fim em si mesmo. A rua está lá para se levar o cão a passear, mas sobretudo, lá está, como canal por onde se circula para poder chegar ao outro lado.
É preciso aproximar esse «outro lado» da casa de cada um. O shopping deve ser diluído pelas ruas. O parque deve ser diluído pelas ruas. E seria positivo que os amigos pudessem viver mais próximo de nós – não que seja de promover uma reafectação das casas pelas famílias, antes será de promover uma convivência de maior qualidade com os nossos vizinhos.
A rua deve passar a ser o fim em si. Deve ser o parque. Deve ser a loja. Deve ser o café. Deve ser o convívio, o exercício, o descanso, o livro que se lê, que se vê e que se vive.
Nisto, como em tudo o mais, as coisas andam de mãos dadas: na medida em que a rua e o mais próximo se transformar no fim em si, também a necessidade de transportes rápidos e constantes para todo o lado diminui.
Tantas medidas a abordar!
Que medidas políticas podem contribuir nesse sentido? Tantas!… As políticas de penalização do uso de transporte automóvel pessoal são certamente abordadas em inúmeros documentos. Muitos outros abordarão o uso de transportes alternativos, entre os quais os transportes públicos colectivos, os transportes públicos individuais, as bicicletas, as trotinetas, os patins e o que seja.
Haveria que juntar a isso as políticas de reordenamento do espaço das ruas, planeando para o silêncio, integrando o arvoredo, promovendo a instalação de bancos e espaços de convívio, incluíndo espaços de jogos colectivos e zonas preparadas para o dizer, o tocar, o cantar, instalando equipamento desportivo, subsidiando eventos culturais ao ar livre… e, claro está, impedindo a proliferação dos grandes centros comerciais e apoiando, ao invés, o pequeno comércio local.
É urgente trazer pessoas para a rua e, já agora, que não apenas em calções e com máquina fotográfica.
sábado, 4 de julho de 2020
Diário de um privilegiado...
terça-feira, 16 de junho de 2020
De que é feito o nosso ânimo?...
à palavra alento.
Entre as respirações, os pensamentos, os sentimentos, o calor e os movimentos do nosso corpo... o que é que nos move?
Não sei o que nos move. Cada um terá porventura os seus motivos, e talvez nem sequer deles tenha total consciência.
Mas tenho fé que a fé, tal como as utopias, serve para caminhar. Há quem diga que move montanhas... mas se servir para nos levantar do sofá, já será bem bom!
Um conjunto articulado de crenças pode ser uma boa receita para nos pôr a mexer: quando sentimos que algo não está bem, ou que poderia estar melhor de outro modo, e acreditamos que existe esse outro modo, e acreditamos que conseguimos lá chegar se fizermos isto ou aquilo.
Infelizmente, a maioria das pessoas que encontro na vida mexe-se pouco. Quando o martelo lhes acerta nos dedos, dão imediatamente um energético salto. Mas na ausência do martelo, ou dos dedos, ou de órgãos sensitivos aprumados... o marasmo.
Que bom é, portanto, quando encontro, quando encontramos, alguém que tem energia e faz e acontece, com alegria, porque acredita!
Mas... e quando aquilo em que se acredita é afinal uma grande treta?...
São as pessoas que acreditam que vão recuperar daquela doença de que ninguém recupera, o pequeno empresário que acredita que vai ficar rico (ainda que isso não me pareça um objectivo muito belo), o atleta que acredita que vai vencer os jogos olímpicos, e tantos tantos outros.
É claro que os filmes de Hollywood retratam precisamete o herói, aquele que acreditava num oceano inteiro de descrença, e que no final, quando já nem os espectadores acreditam, lá surge dos escombros físicos ou emocionais de alguma coisa para garantir o seu sonho primordial. É claro que nós próprios gostamos de ficar agarrados à história do tipo que conseguiu... mesmo que tenhamos de esquecer a lista infindável dos que não conseguiram, mesmo acreditando até ao fim.
Acima de tudo, há aquelas pessoas lindas que acreditam num mundo melhor, e as que acreditam que o mundo muda com cada pequeno gesto. Digo "lindas" com uma grande dose de narcisismo, porque me incluo nesse grupo, ou talvez apenas porque considero que isso e essas pessoas são mesmo lindas.
Mas... e se a fé num mundo melhor não passar de uma enorme treta?...
(Bom, se acreditarmos que um mundo melhor é um computador em cada secretária, como o Bill Gaitas, então voilá, ele está a concretizar-se a cada dia que passa! E também se acreditarmos que um mundo melhor é um volante nas mãos de cada um ou uma piscina em cada quintal.)
A mim, o que me deu ânimo para escrever este artigo, foi a conjugação de duas coisas. A primeira é o fenómeno mundial do abrandamento económico em resultado da pandemia do coronavírus. Este abrandamento, entre muitos efeitos que produziu, teve enormes benefícios "ambientais". Coloco a palavra ambientais entre aspas porque estou a copiar o termo que muitos usam, mesmo que não saiba bem ao que se refere. Entre ambientalistas que promovem relvados verdinhos e ambientadores que deixam tudo a cheirar a limpo... acho que a natureza e a vida vão sempre sofrer!
O ar de muitas cidades tornou-se mais limpo, queimou-se menos combustíveis fósseis, consumiram-se menos recursos naturais, produziu-se e consumiu-se menos plástico, fez-se menos ruído, etc. E talvez, com todo este processo, algumas pessoas tenham percebido que afinal nem sempre mais é melhor. Pelo menos eu tenho fé que assim seja!
Muitas pessoas que se preocupam com esta amálgama de questões chamada "ambiente" ou "natureza" adquiriram então uma tremenda fé numa melhoria significativa da situação à escala planetária, em resultado do dito abrandamento económico.
Infelizmente, a inércia de um super-petroleiro não se altera facilmente. As espécies de seres vivos que foram extintas não ressuscitam, as florestas ardidas ou desmatadas não voltam a albergar a mesma diversidade, o gelo nas regiões polares não aumenta, o dióxido de carbono na atmosfera não diminui, só porque a economia abrandou durante uns meses. Os dados estão aí para prová-lo, e podem ir à procura deles, se quiserem ficar deprimidos.
O mesmo pode ser dito acerca das questões sociais, políticas e económicas. Muitas pessoas viram na pandemia uma oportunidade para acordar, para identificar melhor os verdadeiros problemas, para tornar possível a crença na mudança e na solidariedade... E, no entanto, também os factos nos indicam que iremos sair desta crise com mais capitalismo, mais dívida, mais individualismo, mais medo.
E isso conduz-me à segunda causa que me motivou a escrever este artigo: um conjunto de afirmações recentemente proferidas por Yanis Varoufakis, uma pessoa cujas ideias económicas e políticas me parecem valiosas. Dizia ele (aqui):
"
"momentos de verdade" são uma ficção. A verdade cresce de forma orgânica. Epifanias são uma ilusão. Uma ilusão que as nossas mentes fabricam para explicar a nossa falha, ao não sermos capazes de reconhecer o óbvio um pouco mais cedo.
Como as epifanias, a teoria acerca da bifurcação na estrada [que nos faz acreditar que a nossa situação actual foi determinada pela opção tomada nesse único instante] é uma mentira conveniente. A verdade é que nós enfrentamos bifurcações na estrada todos os dias das nossas vidas. Todos os dias nós desperdiçamos oportunidades para alterar o curso da história... e depois sabes o que fazemos para nos consolarmos? Nós procuramos no passado um desses momentos fulcrais e tentamos minimizar a nossa culpa dizendo "ah, foi nesse momento que errámos!" Não, pessoal, nós não aproveitámos oportunidades todos os dias, todas as horas, a todos os instantes!
Portanto não vamos desperdiçar o "momento de verdade" de hoje, de amanhã e do dia seguinte.
"
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Toda esta questão, sobre aquilo em que acreditamos e o modo como isso nos dá força ou não para agir em prol de algo melhor, e sobre a ingenuidade de muitas das nossas crenças e o desânimo que resulta quando o descobrimos, pode ser resolvida, no meu entender, com moral. Se não gostam de moral e preferem ética, então chamem-lhe o que quiserem.
Fiz uma apologia da fé, agora faço uma apologia da moral... acho que não consigo ser muito mais espiritual do que isto!
Como eu vejo as coisas, o modo habitual como as crenças conduzem a acção é através do incentivo de atingir um benefício futuro. Investimos hoje para recuperarmos amanhã. Semeamos para depois colhermos, e todas as analogias do género.
E há uma diferença profunda e essencial entre agir com a expectativa de um ganho futuro e agir com a crença de que é a acção correcta. Mudar de um móbil para o outro é abandonar uma perspectiva utilitarista, pragmática, calculista e até maquiavélica do mundo, e abraçar uma perspectiva integrada, equilibrada, justa.
Além disso, é não fazer depender a nossa motivação das nossas crenças e de um futuro incerto, mas tão somente dos nossos juízos de valor.
Não deixamos de atirar papéis para o chão porque acreditamos que vamos atingir um mundo sem papéis no chão, e não deixamos de esmurrar a pessoa que nos irrita porque acreditamos que vamos atingir um mundo sem murros. Não deitamos papéis para o chão porque é o que achamos mais correcto. Não esmurramos as pessoas que nos irritam porque é o que achamos mais correcto.
Como alguém dizia, eu combato os nazis não porque vou conseguir vencê-los, mas porque eles são nazis.
Colocando as coisas nestes termos evidenciamos um pouco um outro aspecto desta motivação moral: é que ela deixa de se basear numa "racionalidade", entendida à maneira dos economistas, ou seja, numa expectativa de um ganho, e pode até conduzir-nos a situações de perda inexorável, como quem luta contra a maré. No entanto, isto que acabei de dizer não é válido, uma vez que corresponde à tentativa de analisar a vantagem pessoal de uma conduta com base num padrão de referência que não é o dessa pessoa. Dito doutro modo, a vantagem de quem luta contra os nazis porque eles são nazis não é a de que irá conseguir vencê-los (isso pode acontecer ou não), a vantagem é que já está a combatê-los. Tão somente.
Ou, como dizia Sophia,
"porque os outros calculam mas tu não"
(do seu poema "porque")
sábado, 23 de maio de 2020
Everybody's fool...
By Evanescence
Perfect by nature
Icons of self indulgence
Just what we all need
More lies about a world that
Never was and never will be
Have you no shame don't you see me
You know you've got everybody fooled
Look here she comes now
Bow down and stare in wonder
Oh how we love you
No flaws when you're pretending
But now I know she
Never was and never will be
You don't know how you've betrayed me
And somehow you've got everybody fooled
Without the mask where will you hide
Can't find yourself lost in your lie
I know the truth now
I know who you are
And I don't love you anymore
Never was and never will be
You don't know how you've betrayed me
And somehow you have everybody fooled
It never was and never will be
You're not real and you can't save me
Somehow now you're everybody's fool
Economia ou saúde?...
No contexto de pandemia, a aparente necessidade de opção entre reabrir a economia ou proteger a nossa saúde só existe porque a nossa sociedade está estruturada de uma determinada forma.
Porque é justo, pela protecção do meio ambiente, e com a felicidade do maior número de pessoas em vista, devemos pugnar por uma sociedade diferente. Nomeadamente, devemos questionar (1) se mais de tudo é melhor para o nosso bem-estar, (2) se o modo como medimos a actividade económica é apropriado, (3) se a nossa felicidade depende mesmo do consumo de um fluxo constante de inovadores penduricalhos, (4) como é repartida a mais-valia gerada na actividade produtiva, (5) como os ganhos de produtividade das últimas décadas ou séculos são ou não repartidos por todos, (6) como o crédito, e consequentemente a geração de dívida, tem sido apresentado como remédio para todos os males, (7) como esta sociedade insiste em querer dar-nos penduricalhos, mas ao mesmo tempo em privar-nos de tempo, de espaço, de afecto, de cooperação e de auto-realização.
Numa sociedade alternativa, os ganhos de produtividade estão associados a políticas de repartição dos ganhos por todos, as nossas vidas não são medidas em dinheiro, mas sim no modo como contribuem para cuidar de todos nós, e os meios de pagamento que ficam ao dispor de todos não implicam a geração de dívida.
Se houver justiça, não teremos de optar entre economia ou saúde, porque poderemos ter as duas coisas em simultâneo.
Nota: a qualidade do vídeo é o produto do meu conhecimento técnico nesta área e do tempo disponível. Desculpem qualquer coisinha.
terça-feira, 19 de maio de 2020
One billion people can't be wrong!...
A bomba libertou.
A mineração escancarou
a solução radioactiva.
A população cresceu.
Não há alternativa.
Portanto fez-se uma guerra.
E outra e mais outra
e continuam a fazer-se mais
Generais da defesa
prémios nobeis da paz.
Mede-se tudo em dinheiro
que ninguém sabe de onde vem
e a população cresce.
O senso comum estabeleceu
a falsidade de Marx
a veracidade dos telejornais
a genialidade de André Rieu
e a integridade de Salazar.
Os ministros das florestas
dedicaram-se às plantações de eucaliptos
e a amazónia abasteceu o fast-food.
A felicidade é viajar
e compensar a pegada de carbono
com caridade.
Os automóveis tornaram-se mais sofisticados
e multiplicaram-se.
Tal como as pessoas
e as estradas.
O planeta aquece
o gelo derrete
o oceano acidifica
e tudo se plastifica.
Cada um tem direito à sua opinião
que vale tanto como qualquer outra
porque afinal a verdade não existe
e eu vi isso no youtube.
Mas
A verdade e a justiça
feliz ou infelizmente
não se estabelecem por votação.
E os argumentos estúpidos
só perpetuam a estupidez.
O egoísmo e o comodismo permitem caminhar
com arrogância e altivez
sobre a estupidez.
Até ao dia em que ela se torna demasiada.
sexta-feira, 15 de maio de 2020
Sangue impetuoso...
Sangue impetuoso,
não te submetas nunca!
Ri-te das estreitezas capilares
ou de qualquer compressa para te reter.
Não cedas nunca!
Caminha, corre, salta!
Salta as barreiras por maiores que sejam.
Caminha por mais ásperos que sejam os caminhos.
Corre, salta!
És a vida.
A vida está na tua marcha invulnerável,
na tua rota sem tréguas, nem limites, nem curvas, nem paragens,
na tua cavalgada de horizontes rasgados,
em teu grito selvagem.
Corre, salta!
E se não te cumprires em mim,
não pares ainda, não cedas: corre!
Rasga à punhada as paredes de treva.
Salta e estilhaça os diques, as montanhas!
Salta nas veias dos meus filhos ou meus netos,
mas segue:
por maiores que sejam as barreiras,
por mais ásperos que sejam os caminhos.
Caminha, corre, salta,
- rebeldemente, impetuosamente!
quinta-feira, 30 de abril de 2020
Crítica literária...
métricas, ritmos e rimas,
palavras certas
mas de diversos sentidos,
simultaneamente concisas e ambíguas,
são ferramentas.
Mas a essência da poesia
é outra coisa.
E nunca a vi
em escaparates de ferramentas.
awf
Angra do Heroísmo
30/04/2020
Síndrome de domingo...
awf
Angra do Heroísmo
30/04/2020


































