quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
sexta-feira, 9 de dezembro de 2011
Na Gulbenkian...

Os patos andam aqui no cimento,
na entrada do museu da Gulbenkian...
E é bom olhar para as árvores e para eles
e saber que a natureza é indiferente
à qualidade das pessoas que por ela passam.
Às vezes queria ser assim.
Em vez disso fico enojado com isto.
O "povo" no shopping, a "elite" no museu de arte.
Enoja-me o "povo", enoja-me a "elite".
E amo o amor que todos eles têm.
E preciso dele.
Preciso deles.
As "elites" e os "povos" também precisam uns dos outros.
Sem "povos" não haveria "elites".
Sem "elites" não haveria a ralé.
O "povo" quer ser como a "elite",
mas não está disposto a ir ao museu.
A "elite" não quer ser como o "povo",
mas não dispensa ir ao shopping.
Têm em comum a fisiologia
e o estarem-se a cagar.
E eu
entre os dois vou alternando.
Já me enojei aqui,
vou-me enojar no hambúrguer do shopping.
Saltando entre isto e aquilo
na ilusão de ser agulha
e de atrás de mim trazer muita linha.
AWF - 8 Dez 2011
terça-feira, 6 de dezembro de 2011
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
quinta-feira, 17 de novembro de 2011
Je suis les liens que je tisse...
L'autre, femme ou homme, de la même espèce que moi,et pourtant différent, comment le regarder?
Comment me comporter face à lui? Si je vois en lui un ennemi qui me menace, qui me fait peur,
je ne songe qu'à me défendre contre lui, et pour mieux
me défendre, à l'attaquer. C'est cela le racisme.
Si je vois en lui un obstacle qui gêne ma progression,
je ne cherche qu'à le dépasser, à l'éliminer. C'est cela la compétition
qui transforme la vie de chacun en une suite de batailles
parfois gagnées, en guerre toujours perdue.
Pour être réaliste, je dois voir en l'autre une source qui contribuera
à ma propre construction. Car je suis les liens que je tisse;
me priver d'échanges c'est m'appauvrir.
Le comprendre c'est participer à l'Humanitude.
(Prefácio do livro "La cour couleurs", por Albert Jacquard. Com um obrigado ao António Manuel que me conduziu até isto.)
sexta-feira, 11 de novembro de 2011
Brincadeiras muito nossas...
Sem dúvida algo que nos deve transmitir uma sensação de... de... de quê?... Oh!...
Nós, seres humanos, inventamos este sistema de referência. E de cada vez que ele fica bonito achamos que o mundo vai acabar ou algo estranho vai acontecer... Ele há coisas!
Eu trabalho com instrumentos de medida. Tenho um aqui ao meu lado, um paquímetro. Olhem, peguei nele agora. É digital. Mede comprimento com uma resolução de 0,01 mm. Para já marca 0,00 mm. Isto, já de si, é notável! Tantos zeros!... Mas agora vou começar a deslocar a sua parte móvel... Olha, já marca 9,15 mm... e agora marca 11,11 mm!! Uau!!... O que será que vai acontecer quando ele chegar aos 111,11 mm?... Irá explodir?...
Olha, não aconteceu nada! :(
quinta-feira, 10 de novembro de 2011
Ambiguidades evidentes... e prementes...
Hoje ao regressar a casa, senti necessidade de comprar algo num supermercado para o pequeno almoço de amanhã. À entrada do supermercado fui interceptado por uma pessoa que me pediu para lhe comprar um determinado produto.Geralmente não cedo à chantagem emocional da esmolinha, porque quando me pedem algo eu imediatamente penso nos escroques que me chulam até ao tutano, têm muitíssimo mais do que eu, e por causa disso nem frequentam a rua ou os supermercados onde se podem deparar com estas situações.
Mas esta pessoa, o Jorge, foi tão específica no seu pedido - é uma pizza que lá está... custa um euro e noventa... sabe qual é?... eu vou lá consigo, está bem? - que eu acedi. Entrámos no supermercado, fui com ele buscar a pizza e levámo-la para o micro-ondas que lá havia. Era congelada. Demorava mais tempo a aquecer.
Eu fui reunir as coisas que queria e quando já estava pronto fui ter com o Jorge ao micro-ondas. E como aquilo continuava às voltinhas, o que, segundo ele, é o que os micro-ondas fazem, conversei com ele.
Perguntei-lhe: se houvesse trabalho, tu trabalhavas? E ele explicou-me demoradamente (a pizza às voltinhas) que se houvesse um trabalho onde ele se sentisse bem... E não foi nada vago. Referiu horários de trabalho, referiu um trabalho adequado às suas competências, referiu a possibilidade de evoluir dentro do trabalho... Não referiu a remuneração.
E eu podia ter-lhe dito: seu preguiçoso!... O que eu queres é o bem-bom!...
Mas não o fiz. Não porque me sentisse inibido de o fazer. Não o fiz porque concordei completamente com ele. É claro que ele quer o bem-bom! Também eu quero! Todos queremos!
Mas é preciso trabalhar, dir-me-ia alguém potencialmente mais sensato. Pois... ou talvez não, responderia eu um pouco mais informado. E se no mundo de hoje não é necessário que todos trabalhem, também é verdade que é necessário que pelo menos alguns trabalhem. Mas se os ganhos de produtividade nos permitem estar um pouco mais folgados, porque não termos finalmente trabalhos com menor carga horária, mais dignos, mais adequados, mais enriquecedores?
O Jorge tinha toda a razão. E não é por eu trabalhar numa coisa que não gosto e suar as estopinhas para poder pagar o meu jantar e ainda pagar o dele que me vou pôr a discutir com ele se sou eu ou ele quem tem razão. Não... Quem certamente não tem razão é quem nos mantém a ambos em situações indignas.
Mas o Jorge continuou. E disse: eu gostava da escola. E a minha mãe perguntou-me: e o que é que tu queres da escola. E eu respondi: quero saber ler e escrever. Quero saber ler e escrever...
E ficou calado, a olhar para mim, eternos segundos... E eu, a olhá-lo nos olhos, castanhos, a pensar: sim, aprender a ler e a escrever... pois claro... toda a gente... toda a gente?... toda?... bem, de facto... há muita gente que aprende a ler e a escrever e depois não lê e não escreve. Há muita gente que aprendeu a ler e a escrever e nunca chegou a saber ler ou escrever...
E o que não somos capazes de fazer, lendo e escrevendo?...
PS - Ah, o Jorge topou logo que eu sou do Porto!... :)
A quadratura do círculo, ou uma ilusão perigosa... Pormenores no discurso da dívida...
Bagão Félix, no programa "conselho superior" da Antena1, ontem...O homem até percebe como esta coisa da dívida funciona... Agora, para ser cá dos nossos, já só lhe falta perceber que não faz sentido os credores terem mais poder que os políticos e serem mais importantes que a população inteira de países inteiros. Mas isso era se que acreditasse que ele não percebe... O maroto!
quarta-feira, 9 de novembro de 2011
Pela anulação da dívida pública...

CADPP – Comité para a Anulação da Dívida Pública Portuguesa
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O CADPP é um grupo cívico que se propõe promover e apoiar:
- o estudo, debate e divulgação pública do processo de endividamento nacional e suas alternativas;
- uma auditoria cidadã à dívida pública, com suspensão do pagamento da dívida;
- a anulação imediata da dívida ilegal, ilegítima ou odiosa à face do direito nacional e internacional (com salvaguarda dos pequenos investidores individuais);
- a eliminação dos factores de endividamento nacional;
- a solidariedade e a coordenação de esforços com movimentos e grupos afins dentro e fora do país.
O significado de auditoria cidadã
A necessidade da suspensão imediata do pagamento da dívida
O significado da anulação
Princípios e metas
Enquadramento internacional
segunda-feira, 7 de novembro de 2011
The positive thinking will not change things for the better...
(Tinha aqui um vídeo que entretanto ficou indisponível. Portanto substituí-o por dois outros vídeos, cuja mensagem é semelhante, e cuja pertinência continua a ser imensa.)
quarta-feira, 2 de novembro de 2011
sexta-feira, 21 de outubro de 2011
Brecht - 2
Disse Mark Freeman acerca desse conto:
"Tolstoy's book is about many things: the tyranny of bourgeois niceties, the terrible weak spots of the human heart, the primacy and elision of death. But more than anything, I would offer, it is about the consequences of living without meaning, that is, without a true and abiding connection to one's life."
(o negrito é meu)
Mas voltando a Brecht...
Algumas perguntas a um "homem bom"
Bom, mas para quê?
Sim, não és venal, mas o raio
Que sobre a casa cai também
Não é venal.
Nunca renegas o que disseste.
Mas que disseste?
És de boa fé, dás a tua opinião.
Que opinião?
Tens coragem.
Contra quem?
És cheio de sabedoria.
Para quem?
Não olhas aos teus interesses.
Aos de quem olhas?
És um bom amigo.
Sêlo-ás do bom povo?
Escuta pois: nós sabemos
Que és nosso inimigo.
Por isso vamos
Encostar-te ao paredão.
Mas em consideração
Dos teus méritos e das tuas boas qualidades
Escolhemos um bom paredão e vamos fuzilar-te com
Boas balas atiradas por bons fuzis e enterrar-te com
Uma boa pá debaixo da terra boa.
terça-feira, 18 de outubro de 2011
Paz!...
"Ser solidário assim tão longe e perto
No coração de mim por mim aberto
Amando a inquietação que permanece
Pr’além da inquietação que me apetece"
E da que não me apetece...
Paz!
As minhas mensagens na manifestação de 15 de Outubro...

Num dos lados tinha um gráfico do PIB com a evolução desta medida (muito foleira, mas enfim) do dinheiro gerado na economia desde o século XIX até ao presente. Em baixo acrescentava a interrogação "mas quando é que saímos da merda?".
Esta mensagem tem para mim uma relevância fundamental. É que, efectivamente, o PIB cresce, cresce, cresce, mas nós continuamos a ter dificuldade em simplesmente sobreviver.
Toda a política actual do nosso governo, tal como dos governos precedentes, tal como de todos os governos de todos os países do mundo que partilham esta organização económica chamada capitalismo, se baseia na premissa de que o crescimento económico é fundamental para gerar riqueza, riqueza essa que depois será distribuída de modo a garantir a todos, ainda que de forma desigual, uma melhoria na qualidade de vida.
No entanto, o que se observa é que o crescimento económico é, apesar das crises, a regra nestes países capitalistas, e apesar disso as camadas de população com menos rendimentos continuam a ver-se à nora para garantir os bens essenciais (mesmo que a noção de bem essencial tenha evoluído).
Isto acontece porque o resultado positivo do crescimento económico (porque o crescimento económico também tem consequências negativas) é açambarcado por quem tem mais poder. Naturalmente isto faz com que esses que têm mais poder fiquem com ainda mais poder. E a distribuição do rendimento, que sempre nos prometem, estranhamente nunca chega.
Muita gente não se apercebe, mas o PIB português dos últimos cinco anos é, em termos reais, o maior de sempre (sempre quer mesmo dizer desde a origem do universo, desde o tempo em que não havia tempo). Portanto, se fizerem o favor, os poderosos que nos respondam a esta simples questão: que mais vamos nós precisar para finalmente podermos ter mais tranquilidade a pagar a electricidade e a renda e para podermos descansar um pouco?

No outro lado do cartaz estava simplesmente a questão "E se nós trabalhássemos só para nós?". Pode parecer banal, mas esta questão é para mim (e espero que para mais gente) bastante pertinente.
Por um lado, se os menos endinheirados (e que por assim serem se vêem na obrigação de trabalhar para os mais endinheirados para conseguir sobreviver) trabalhassem apenas para si próprios, como é que os mais endinheirados iam fazer o seu dinheiro? Bom, agora o que está na moda é fazer dinheiro emprestando dinheiro e esperando pelos juros... Mas pelo menos os lucros deixariam de existir, e apesar de tudo, pelo menos em épocas normais, esses são os rendimentos que mantêm de pé o capitalismo.
Por outro lado, se nós trabalhássemos só para nós, isto é, nós pagaríamos salários uns aos outros, venderíamos uns aos outros, trocaríamos entre nós, nessa circunstância nós deixaríamos de precisar da moeda (seja ela em notas, moedas, cartões ou o que for) dos endinheirados. Poderíamos então criar uma economia paralela (e, assim como cereja no topo do bolo, como quem troça de quem tem o poder de fazer as leis a seu bel-prazer... se bem que certamente as coisas mudariam com rapidez... precisamente por causa disso), onde a nossa moeda é que valeria e a moeda dos endinheirados deixaria de ter valor. E seria giro perceber, de um dia para o outro, como o dinheiro dos endinheirados lhes permitia fazer empréstimos entre si mas não lhes permitia comprar coisas nos mercados... De um dia para o outro os ricos passariam a ser pobres!
Só que, e esta consequência também é de toda a pertinência, para que alguma coisa parecida (porque nunca poderia ser exactamente como descrevi na versão idílica) acontecesse, nós teríamos de estar dispostos a consumir apenas as coisas que nós produzíssemos. E seremos nós capazes de produzir computadores e automóveis tão bons como o capitalismo?...
Manifesto...
O meu manifesto de 14 de Outubro. Foi escrito no pouco tempo livre que encontrei, e com algum esforço. Tem coisas que podiam e deviam ser melhoradas. Que sirva para nos ajudar a ver as coisas com maior claridade.
POR UMA DEMOCRACIA VERDADEIRA JÁ
Hoje, 15 de Outubro, quando por todo o mundo, milhares e milhares de pessoas exigem uma verdadeira democracia, num regime de paz, com justo acesso aos bens produzidos, a Tertúlia Liberdade saúda tod@s os lutad@res que por cá e muitas outras cidades do planeta acendem um farol de esperança, num combate pela liberdade, dignidade, e justiça. Só haverá democracia quando houver livre acesso aos bens essenciais à existência e dignidade humana.
A todos os poderosos do capital e da política proclamamos: Estamos fartos da vossa crise, da miséria em que nos lançam para manter este velho e odiento sistema capitalista através dos nossos sacrifícios!
São vocês, que se arrogam como senhores do mundo, que empobrecem as populações, lançam milhões na miséria, fomentam o empobrecimento e as guerras. São vocês que se opõem pela força e pela propaganda, através do domínio e da opressão, à liberdade das populações, aos caminhos para uma nova vida, baseada no apoio mútuo e não no lucro e na ganância. São vocês que nos querem matar a esperança!
Queremos uma sociedade diferente, em que impere a solidariedade, a livre troca, a cooperação e entreajuda, em que os profissionais do embuste, políticos, capitalistas e seus propagandistas, sejam remetidos para o caixote de lixo da história.
Dizemos não às vossas falsidades e promessas ilusórias. São os capitalistas que precisam de nós, para nos explorar no trabalho e nos iludirem num consumismo ilusório e destruidor das pessoas e da natureza.
Dizemos Não à vossa pretensa democracia, fantasista e irreal. A democracia só será verdadeira quando for uma prática quotidiana em todos os aspectos da nossa vida, nas empresas, na escola e nos nossos bairros! Queremos associar-nos livremente para sermos senhores dos nossos destinos!segunda-feira, 17 de outubro de 2011
Brecht - 1
(Foto sacada da net. "Desliga a TV". Alguns cartazes semelhantes acrescentavam "liga o cérebro". Na praça Humberto Delgado, frente à câmara municipal do Porto, no passado dia 15 de Outubro.)Sequência sobre Bertolt Brecht e os seus poemas. Este é o primeiro. Mais seguirão.
Os tempos modernos
Os tempos modernos não começam de uma vez por todas.
Meu avô já vivia numa época nova.
Meu neto talvez ainda viva na antiga.
A carne nova come-se com velhos garfos.
Época nova não a fizeram os automóveis
Nem os tanques
Nem os aviões sobre os telhados
Nem os bombardeiros.
As novas antenas continuaram a difundir as velhas asneiras.
A sabedoria continuou a passar de boca em boca.
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
Minha missão...
Excerto de...Letra: Paulo César Pinheiro
Música: João Nogueira
Voz: Uxía
mp3 aqui
(...)
Canto para anunciar o dia
Canto para amenizar a noite
Canto pra denunciar o açoite
Canto também contra a tirania
Canto porque numa melodia
Acendo no coração do povo
A esperança de um mundo novo
E a luta para se viver em paz!
(...)
terça-feira, 4 de outubro de 2011
Dos dinheiros bem e mal gastos...

Então vejamos: quando o Estado gasta dinheiro, levanta-se sempre a questão de saber se o está a gastar bem ou mal. Diz-se que o dinheiro é mal gasto se for gasto em carros e motoristas dos políticos e que o dinheiro é bem gasto se for investido em novas e melhores escolas. E isto parece óbvio. E o problema das coisas que parecem óbvias é precisamente que não nos fazem pensar, aliás, quase que nos dizem que se pensarmos acerca disso estamos a cometer uma estupidez.
O dinheiro não desaparece. O dinheiro circula. Imagina uma economia fechada, isto é, sem trocas de pessoas, bens e serviços ou de dinheiro com o estrangeiro (e isto é só para simplificar, porque se quiseres podes sempre imaginar a economia fechada que é a economia mundial, que o raciocínio aplica-se igualmente bem). Pode ser um Portugal imaginário, sem trocas com o exterior. Nesse país há notas e moedas. Assumimos que as notas e moedas não são desfeitas. Portanto, as notas e moedas circulam entre as pessoas.
Nesse contexto, todos os anos o Estado cobra um determinado montante de impostos de uma determinada maneira (pode ser com impostos aos ricos, ou aos pobres, sobre o rendimento, sobre o património, sobre o consumo, tanto faz). E todos os anos o Estado gasta esse montante de impostos, nem mais, nem menos. Nesse caso não há défices (um défice orçamental é a diferença entre o que se tem para gastar e aquilo que efectivamente se gasta, nesse ano, admitindo que se gasta mais do que se tem) e não há dívidas (as dívidas resultam dos défices: para cobrir um défice é preciso um endividamento, dívida essa que pode ser de curto prazo ou de muitos anos, conforme o que for negociado entre o Estado e quem lhe conceder a dívida).
Nesse contexto, o Estado pode optar, por exemplo, entre gastar muito dinheiro em professores e pouco dinheiro em motoristas, ou gastar muito dinheiro em motoristas e pouco dinheiro em professores, ou gastar pouco dinheiro em ambos. E parece que no nosso contexto actual real toda a gente concorda que um Estado que poupa é o melhor Estado que há, mas que se for a gastar é melhor gastar nos professores. Mas porquê?
Na verdade, se o Estado não gastar dinheiro nem em professores nem em motoristas, as notas e moedas ficam em poder do Estado, há menos pessoas a receber dinheiro do Estado, sejam elas professores ou motoristas, essas pessoas terão de gastar menos dinheiro nas suas compras na mercearia e em tudo o mais, e toda a economia se ressentirá negativamente dessa poupança do Estado. Poupar é, portanto, algo que é mau para a economia (e segundo os moldes em que esta economia funciona, que podem ser criticados), e que só faz sentido numa pequena medida, como forma de conseguir um pé-de-meia para tempos mais difíceis.
Ou seja, a poupança do Estado (isto é, a existência de superavits) pode ser benéfica se aplicada em momentos em que a economia está forte e a crescer bem, e apenas na medida em que isso não for muito prejudicial para a economia, e se os fundos que resultarem dessa poupança puderem ser empregues em momentos em que a economia está mais fraca, a crescer pouco ou a decrescer. A este tipo de medidas de política económica que contrariam o ciclo da economia, retirando-lhe dinheiro quando as coisas estão bem e injectando-lhe dinheiro quando estão mal, dá-se o nome de medidas contra-cíclicas.
Portanto, em momentos em que as economias estão em baixo, é bom que o Estado gaste dinheiro. E em boa medida é indiferente que o Estado gaste dinheiro em motoristas ou em professores, desde que essas pessoas que recebem o dinheiro do Estado a seguir utilizem esse mesmo dinheiro para adquirir outras coisas, isto é, desde que o dinheiro se mexa. Neste contexto, gastar mal o dinheiro é sobretudo, e de um ponto de vista de análise macroeconómica, dá-lo a agentes económicos que a seguir o guardam em vez de o gastarem também. E aqui começamos finalmente a tocar na ponta do iceberg do problema. Mas já lá iremos.
Gastar mais dinheiro em motoristas e menos em professores pode ser considerado mau se acharmos que não temos professores suficientes ou que esses professores são mal pagos, por exemplo. Mas isso é algo que é profundamente distinto de considerarmos apenas estas questões de "é bom para a economia" ou "é mau para a economia". Gastar dinheiro é bom para a economia, seja lá em professores ou em motoristas, isso tanto faz. O problema é saber se o que é bom para a economia também é bom para nós. Porque a economia pode continuar a crescer alegremente e as pessoas serem capazes de ter cada vez mais carros e tudo o resto, mesmo tendo cada vez menos escolas. Sim, é possível, perfeitamente possível, apesar de todos os discursos que nos fazem acreditar que maior educação para todos é bom para a economia e logo é bom para nós.
Levanta-se, portanto, a questão de saber o que é que as pessoas querem. Ou seja, para lá de toda a gente querer uma "boa economia", uma economia em crescimento, mesmo sem pararem um segundo para pensarem o que raio será isso, é necessário saber se as pessoas querem de facto mais e melhores professores, mais e melhores escolas.
Imaginemos agora que as pessoas querem, de facto, mais e melhores professores, mais e melhores escolas. Será então necessário saber se as pessoas querem que essas escolas e esses professores sejam pagos pelo Estado ou se preferem alternativamente que sejam pagos por entidades privadas.
Nós vivemos num período em que a ideologia neo-liberal impera. Em geral as pessoas acreditam que as actividades são melhor geridas (com dinheiros mais "bem gastos") pelos privados. É claro que não se lembram que os privados gastam uma pipa de massa em coisas como campos de golfe, tabaco, perfumes, automóveis xpto, etc. As pessoas simplesmente acreditam que os privados fazem melhor que o Estado. Acreditam sem pensar muito no assunto, como é apanágio de qualquer ideologia bem madura. E esquecem-se de muitos problemas relacionados com este assunto, assunto que merecia, sem qualquer dúvida, uma maior ponderação das pessoas.
Esquecem-se, por exemplo, que num período de recessão, os privados despedem mais facilmente as pessoas. Aliás, as pessoas se calhar nem se esquecem, se calhar pensam que assim é que é bom, porque quando as coisas vão mal há que poupar. Esquecem-se, sem dúvida, do que já dissemos ali em cima, que quando a economia está mal é que é mais necessário gastar dinheiro, contra-ciclicamente, e que o Estado tem essa função. De certo modo até poderíamos dizer: ainda bem que o Estado gasta mal o dinheiro, senão as coisas estariam ainda bem piores!
Voltemos ao nosso cenário em que as pessoas querem, de facto, mais e melhores professores e mais e melhores escolas. Imaginemos que as pessoas confiam essa função ao Estado. Será então necessário que o Estado deixe de gastar dinheiro em motoristas para poder gastar dinheiro em professores?
A resposta é negativa. O Estado pode simplesmente arrecadar mais dinheiro, aumentando os impostos. As pessoas também pensam que é mau pagar impostos. Também faz parte da ideologia. Mas, para quem não sabe, e só como curiosidade, isto não é assim em todo o lado. As pessoas pensam que é mau pagar impostos porque ficam com menos dinheiro. O que é importante é perceber, novamente, que o dinheiro não desaparece, o dinheiro circula. Se algumas pessoas ficam com menos dinheiro para pagar impostos, é porque outras pessoas irão ficar com ele (por exemplo os professores) como pagamento por actividades de que os outros poderão beneficiar, e que esse dinheiro que irá parar às mãos de outros pode também ser gasto noutras coisas na economia.
Em períodos de recessão o número de desempregados aumenta. O Estado pode, se as pessoas assim entenderem, gastar dinheiro com os desempregados. Será dinheiro mal gasto? As pessoas pensam que gastar dinheiro com "preguiçosos" é gastar mal o dinheiro. Pelo contrário, o melhor será talvez gastar esse dinheiro com os ricos, porque esses já provaram que sabem utilizar bem o dinheiro. O dinheiro que o desempregado recebe é mal gasto pelo Estado, porque essas pessoas não merecem receber sem se esforçar (porque, já agora, se acredita que as pessoas têm que trabalhar, seja em que condições for, e se não houver trabalhos com condições então terão de trabalhar nos trabalhos que houver) e depois é mal gasto pelo desempregado, por exemplo a comprar vinho. O dinheiro que o empresário rico recebe é bem gasto pelo Estado, porque está a dá-lo a quem se esforçou e teve resultados (a lógica da meritocracia, coisa que também merecia uma ponderação um bocadito maior pelas pessoas) e depois é bem gasto pelo empresário a "gerar riqueza", por exemplo na produção de vinho.
Estas noções de dinheiro bem ou mal gasto não fazem grande sentido e precisam de uma séria ponderação. O desempregado em geral precisa do dinheiro para a sua subsistência. Mal ou bem o desempregado irá gastar muito rapidamente todo o dinheiro que receber, entregando-o a quem lhe vende as coisas que adquire. Mal ou bem o empresário rico irá gastar o dinheiro que receber, quem sabe se apenas uma parte dele, num período de tempo que será certamente mais longo, entregando-o às pinguinhas a quem para ele trabalha (pagar pouco aos trabalhadores pode ter muitos nomes...). Qual destas duas formas de gastar o dinheiro será melhor para a economia, sabendo ainda para mais que o vinho que o empresário vende é o vinho que o desempregado compra?
Vejamos agora o que acontece se num determinado ano o Estado gastar mais do que o que tem. Bom, logo à partida isso só é possível se ele pedir esse algo em excesso a alguém que o empreste. Imaginemos que eu tenho um amigo que gasta todo o salário em álcool e tabaco. Num determinado mês ele excede-se e o dinheiro acaba-se antes de receber o salário seguinte. Ele vem pedir-me dinheiro emprestado. O que é que eu faço? Bom, eu posso fazer muitas coisas:
- posso recusar emprestar-lhe dinheiro sem mais justificações
- posso explicar-lhe que sei como ele "gasta mal" o dinheiro e portanto não lho vou emprestar
- posso recusar-lhe o empréstimo com base no medo que tenho de nunca mais ver o dinheiro
- posso recusar-lhe o empréstimo, mas aceder a dar-lhe uma ajuda em bens alimentares até ao fim do mês
- posso emprestar-lhe o dinheiro sem juros e sem garantias
- posso emprestar-lhe o dinheiro com um juro igual à taxa de inflação
- etc.
O que tem acontecido com os Estados que se endividaram, porque gastaram mais dinheiro do que tinham para gastar, tem sido razoavelmente semelhante. Quem empresta podia fazê-lo de muitas formas, mas calha de o fazer apenas da forma que lhe é mais proveitosa e que é simultaneamente mais ruinosa para os Estados, e ainda lhe põe o nome de ajuda.
Bom, assim seja. Num determinado ano o Estado gastou mais do que o que tinha, por exemplo porque houve uma recessão que o Estado não estava a prever, ou porque a recessão se prolongou mais do que tinha sido previsto, para lá das reservas que o Estado tinha constituído em anos anteriores. O Estado endividou-se junto de algum ou alguns agentes económicos do seu país (lembremo-nos que estamos a considerar uma economia fechada, mas que o raciocínio se pode estender à economia mundial). Esse endividamento criou uma rubrica nova nos gastos do Estado no ano seguinte: qualquer coisa do tipo de "encargos com o serviço da dívida". Ora, esses juros que o Estado pagará pelo empréstimo, serão eles dinheiro bem gasto ou mal gasto?
Também faz parte da ideologia madura dos nossos tempos acreditar que o dinheiro que o Estado gasta com os juros da dívida é dinheiro que é bem gasto, ou pelo menos que não é mal gasto, uma vez que é dinheiro que tem de ser pago, aconteça o que acontecer. Considera-se que é imoral pensar sequer na possibilidade de o Estado não pagar os juros da dívida que lhe são exigidos. Mas não se pensa se a atitude de quem lhe emprestou o dinheiro, uma atitude de entre mil e uma possíveis como ali em cima vimos, é também ilegítima ou imoral.
O certo é que, bem ou mal, o dinheiro é gasto em juros da dívida. O que acontece a esse dinheiro? Desaparece? Não. Esse é dinheiro que é arrecadado através de impostos, tal como todo o dinheiro que o Estado sempre arrecadou ao longo dos anos, só que em vez de ser gasto em professores ou motoristas, é gasto em "emprestadores", a que eu me darei a permissão de chamar agiotas. Novamente toda a questão de saber se o dinheiro é mais bem gasto em professores, motoristas ou agiotas se coloca. Certo certo é que o dinheiro não desaparece e não sai da nossa economia, e se não vai parar aos bolsos de uns, vai parar aos bolsos de outros.
É, estas coisas não são assim tão simples quando se pensa bem nelas.
Mas eu vou fazer um esforço por simplificar as coisas, agora em torno daquilo que é o meu ponto de vista. O dinheiro não desaparece, o dinheiro circula. E na circulação que o dinheiro faz, enquanto o tempo vai correndo, as nossas vidas vão passando. E então o que é que verdadeiramente interessa?
O que interessa verdadeiramente é saber se as pessoas passam a vida a invejar a ostentação e o poder dos outros, se as pessoas têm menos cuidados de saúde porque têm menos dinheiro, se comem pior por causa disso, se promovemos a cultura, o conhecimento, a sensibilidade, a inteligência, a indagação, o espírito crítico e construtivo nas pessoas, se damos condições aos nossos filhos para que tenham vidas melhores que as nossas, se as pessoas têm ou não tempo para usufruirem da sua vida e para a partilharem com os outros, se as pessoas se sentem bem consigo, se se sentem livres, se se sentem independentes e capazes, é a disponibilidade para amar, é o não ter medo do dia que aí vem e da conta da electricidade e do frigorífico vazio, são os desastres nas estradas e o ar que respiramos... O que conta é a felicidade das pessoas, de todas as pessoas.
E não se pense que isto são coisas vagas. Muito concretamente, da forma como o dinheiro circula nos dias que correm, resultam duas coisas que considero muito más e nas quais gostaria que as pessoas pensassem mais:
- o dinheiro concentra-se cada vez mais
- o presente e o futuro dos que têm menos está cada vez mais comprometido
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
Da cotação do voluntariado...
sexta-feira, 9 de setembro de 2011
Muita música...
"Toma lá disco", era assim que se chamava a editora de muitos discos de vinil com que fui crescendo. Agora, toma lá cêdês. Muitos, de muito boa música, portuguesa e não só. Para saber mais vejam o site "Crónicas da Terra", magnífico trabalho de Luís Rei que desde há anos divulga boa música, com especial atenção à música portuguesa. O site divulga, a partir de agora e todos os meses, uma lista de 10 trabalhos portugueses, 10 trabalhos europeus e 10 trabalhos do resto do mundo que considera merecerem destaque. De falta de música boa nunca morreremos! :)
quinta-feira, 1 de setembro de 2011
A educação do ministro da educação...
Nuno Crato, o ministro da educação, na Universidade de Verão do PSD que, caso não saibam, está pejada de idealistas, a dizer que estudar é bom para ganhar mais dinheiro. Vem mesmo a calhar para fazer a ponte com as minhas duas últimas entradas.
Leiam tudo no artigo do Público. Pela educação é que vamos... sei lá onde vamos... Eu abstenho-me de mais comentários.
segunda-feira, 29 de agosto de 2011
O que todos querem é dinheiro...
Miguel Gonçalves - Prós e Contras (20-06-2011)
sábado, 27 de agosto de 2011
Eu não sou rico!...
Américo Amorim, acerca do exemplo de algumas pessoas abastadas noutros países que se disponibizaram para contribuir para o equilíbrio das contas públicas dos seus países, disse há dois ou três dias atrás "não me considero rico, sou um trabalhador".
Só por curiosidade, se o Amorim contasse já 50 anos de trabalho ininterrupto, o que não é verdade, e se a sua fortuna resultasse exclusivamente do trabalho, o que também não é verdade, ele teria de ter poupado (poupado, não é ganho!) 6.000.000 € por mês. De facto, ele não é rico, é um trabalhador...
Só por curiosidade, Belmiro de Azevedo, o nosso deus-banqueiro, nas mesmas condições teria de ter poupado 2.000.000 € por mês. Outro trabalhador, que enquanto trabalhador, não pode ser rico.
E é esta escumalha, que com tamanha fortuna e tanta coisa para ser feita neste nosso país e neste nosso mundo (meu deus! tanto por fazer!), a única coisa de que é capaz é apostar em negócios que lhe possam dar ainda mais dinheiro.
Que valores são os desta gente?
E as pessoas que idolatram gente assim, que valores são os seus?
Que valores são estes, que só vêem dinheiro à frente?
Que porra de valores são estes?...
E depois ainda vêm dizer, com ar surpreendido e chocado, que os jovens comportam-se mal porque têm uma "crise de valores"?... Mas que porra de hipocrisia é esta?...
Vergonha...
Enfim, recomendo-vos a leitura deste artigo do jornal "i", que não fui eu que escrevi, e que poderão aferir se está bem ou mal escrito.
Dona Abastança
(Manuel da Fonseca)
«A caridade é amor»
Proclama dona Abastança
Esposa do comendador
Senhor da alta finança.
Família necessitada
A boa senhora acode
Pouco a uns a outros nada
«Dar a todos não se pode.»
Já se deixa ver
Que não pode ser
Quem
O que tem
Dá a pedir vem.
O bem da bolsa lhes sai
E sai caro fazer o bem
Ela dá ele subtrai
Fazem como lhes convém
Ela aos pobres dá uns cobres
Ele incansável lá vai
Com o que tira a quem não tem
Fazendo mais e mais pobres.
Já se deixa ver
Que não pode ser
Dar
Sem ter
E ter sem tirar.
Todo o que milhões furtou
Sempre ao bem-fazer foi dado
Pouco custa a quem roubou
Dar pouco a quem foi roubado.
Oh engano sempre novo
De tão estranha caridade
Feita com dinheiro do povo
Ao povo desta cidade.
Julgam que é brincadeira?... Vejam lá isto:
http://www.ehow.com/how_2272212_organize-charity-gala.html
Só Ouve o Brado da Terra
(José Afonso)
Só ouve o brado da terra
Quem dentro dela
Veio a nascer
Agora é que pinta o bago
Agora é qu'isto vai aquecer
Cala-te ó clarim da morte
Que a tua sorte
Não hei-de eu querer
Mal haja a noite assassina
E quem domina
Sem nos vencer
Cobrem-se os campos de gelo
Já não se ouve
O galo cantor
Andam os lobos à solta
Pega no teu
Cajado, pastor
Homem de costas vergadas
De unhas cravadas
Na pele a arder
É minha a tua canseira
Mas há quem queira
Ver-te sofrer
Anda ver o Deus banqueiro
Que engana à hora e que rouba ao mês
Há milhões no mundo inteiro
O galinheiro é de dois ou três
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
Dos penduricalhos...
segunda-feira, 22 de agosto de 2011
Do capitalismo e da necessidade de mudança...
segunda-feira, 1 de agosto de 2011
Quando o cinto aperta...
Sim, eu sei: só o homem feliz
É querido. Sua voz
É ouvida com prazer. Seu rosto é belo.
A árvore aleijada no quintal
Indica o solo pobre, mas
Os passantes a maltratam por ser um aleijão
E estão certos.
Os barcos verdes e as velas alegres da baía
Eu não enxergo. De tudo
Vejo apenas a rede partida dos pescadores.
Por que falo apenas
Da camponesa de quarenta anos que anda curvada?
Os seios das meninas
São quentes como sempre.
Em minha canção uma rima
Me pareceria quase uma insolência.
Em mim lutam
O entusiasmo pela macieira que floresce
E o horror pelos discursos do pintor.
Mas apenas o segundo
Me conduz à escrivaninha.
(Brecht; poemas – 1913-1956. Trad. Paulo Cesar Souza. Brasiliense, 1986. p. 229.)













