segunda-feira, 16 de março de 2026

Cuba, o mundo e a escuridão...

 

Cuba está às escuras.

O bloqueio económico dos EUA a Cuba acaba de deixar os seus 11 milhões de habitantes sem energia eléctrica.

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Sinto demasiadas vezes que a capacidade argumentativa de uma generosa fatia da população nunca deixou as cadeiras da escola primária. Isso acontece de diversas maneiras e uma delas é através da resposta que critica não a ideia mas a pessoa que a teve ou que a defende. Outra é através da comparação com o incomparável. E há tantas outras maneiras de argumentar falaciosamente, com ou sem consciência disso. Tudo isto já foi mais do que estudado em filosofia e noutros campos do saber, e para todas estas formas de fugir com o rabo à seringa há nomes pomposos, alguns em latim. Eu prescindo da pomposidade, porque não me parece que forrar as coisas a latim as torne mais verdadeiras e não pretendo convencer usando aquilo que estou a criticar.

Quando dizemos que a Alemanha matou judeus, não precisamos de clarificar que "a Alemanha" não passa de um conceito abstracto e que não tem consciência, porque percebemos que estamos a mencionar as instituições que governavam aquele país num determinado momento, as pessoas que ditavam as orientações dessas instituições e as pessoas que estavam às ordens dessas instituições.

Pelos mesmos motivos, quando dizemos que os EUA são responsáveis pela falta de energia eléctrica em Cuba, não estamos a querer denegrir aquele pedaço de terra do continente americano, nem os seres que lá vivem, em geral. Subentende-se da nossa frase que a crítica visa as instituições e as pessoas que implementam as orientações de política externa dos EUA e, acima de tudo, as pessoas que determinam essas orientações.

Talvez seja bom salientar que quando mencionamos as pessoas que determinam as políticas dos EUA, vem-nos talvez à ideia um senhor com ar de grande miúdo mauzão, parco cabelo louro e cara alaranjada. Todavia, não devemos ser ingénuos ao ponto de acreditar que as políticas dos EUA são determinadas por esse senhor isoladamente. Devemos, isso sim, considerar quais são os poderes que esse senhor representa, poderes esses que permitem, mesmo que não legitimem, que ele faça o que faz.

Isto pode parecer simples verborreia, mas não é. Quando há uns dias me reuni com outros manifestantes à entrada da base das Lajes para deixar claro aos órgãos da comunicação social e a quem nos quisesse ouvir que não estamos de acordo com o uso dessa base para agressões militares, praticamente não se ouviu nem se leu nos cartazes a palavra EUA, em sigla ou por extenso.

Muitos terceirenses têm desde há décadas uma relação estreita com os EUA, e os benefícios económicos da presença da base na ilha ou dos melhores salários dos emigrantes nesse país são naturalmente relevantes. Uma manifestação na conservadora ilha Terceira é por si só uma aberração. Gritar alguma coisa como "abaixo os EUA" seria um convite ao linxamento público. Por isso a nossa manifestação focou em vez disso o protesto no cara alaranjada.

Mas enfim, esse é um caso extremo. No continente português a ligação com esse país não é tão forte. Ainda assim, e mesmo aí, parece tabu criticar os EUA quanto às suas orientações políticas internas ou externas.

Já muitos estudos foram feitos acerca do modo como primeiro nós optamos e depois é que racionalmente construímos as justificações para as nossas opções. Todos nós passamos muito tempo neste jogo. Temos dissonâncias cognitivas, vêmo-nos de um modo e agimos doutro, e quando nos apercebemos disso tentamos reconstruir a nossa integridade encontrando justificações para o que fizemos.

Um destes estudos, relativamente recente, mostra-nos como este efeito existe mesmo em manifestações extremas. O estudo confrontava uma população com algumas proposições consensuais na comunidade científica (tanto quanto é possível falar de consensos nessa comunidade), como por exemplo a concentração crescente de dióxido de carbono na atmosfera estar a contribuir para um aquecimento global do planeta. A população dividia-se em pessoas que concordavam e discordavam com a proposição apresentada. Mas o mais interessante é que as opiniões das pessoas acerca desse assunto tornavam-se mais extremadas quanto mais conhecimento e aptidões gerais as pessoas tivessem. Mais: se as pessoas recebessem formação acerca do assunto, de acordo com os padrões científicos geralmente aceites, em vez das opiniões se aproximarem mais desses padrões, tornavam-se ainda mais extremadas.

Estudos deste tipo são muito importantes a revelar que, ao contrário do que muitos acreditam, não é qualquer educação, ou simplesmente um maior conhecimento, que isoladamente permite às pessoas ter maior esclarecimento. Pelo contrário, muitas pessoas utilizam essa educação e esse conhecimento para blindarem ainda mais a sua argumentação, para se arreigarem ainda mais nas suas posições, posições essas escolhidas aprioristicamente com base em critérios muito diferentes e que muitas vezes nada têm de racional.

Muitos outros estudos revelam que para os indivíduos é mais importante sentirem-se integrados na sua comunidade do que terem razão, seja lá o que isso for. As possíveis justificações para esse comportamento incluem coisas que parecem evidentes: em muitas circunstâncias a sobrevivência e a qualidade de vida dependem mais dessa integração do que propriamente da validade das crenças.

Isso era assim há milhares de anos, e talvez seja tão ou mais evidente num contexto de emigrantes portugueses nos EUA.

Infelizmente, o corolário do que acabamos de expor é que as tentativas de chamar as pessoas à razão estão quase sempre condenadas à partida. As pessoas já escolheram, por motivos que nada têm a ver com a razão, a sua versão da verdade. Depois, inclusivamente porque não gostam de se sentirem estúpidos, passam anos à procura de todo o tipo de evidências e a construir todo o tipo de conjecturas que permitam sustentar, inclusivamente de forma racional, a versão da verdade que escolheram. Sentem-se integrados e valorizados pela sua comunidade até na medida em que consigam defender esse ponto de vista que não é apenas seu. E finalmente, como acontece com todos nós, reagem fortemente a qualquer pessoa que venha pôr em causa o seu castelo de crenças, sobretudo se essa pessoa acrescentar ao seu discurso que essas posições revelam insensatez, irracionalidade, estupidez ou mesmo malvadez.

O que fazer então?

Os EUA, ou se quiserem de forma explícita, as administrações e as políticas desse país, têm desde há décadas cometido todo as mais horrendas atrocidades.

Os EUA e o genocídio dos indígenas. Os EUA e o racismo. Os EUA e os milhões de mortos na guerra no Vietnam. Os EUA e as bombas nucleares lançadas mesmo no centro de grandes cidades japonesas, obviamente pejadas de civis. Os EUA e as centenas de intervenções mais ou menos dissimuladas para retirar (um eufemismo) dirigentes noutros países e colocar lá outros do seu agrado. Os EUA e a caça às bruxas. Os EUA e a degradação ambiental do planeta. Os EUA e a propaganda, a criação de mitos, a construção de heróis e anti-heróis. Os EUA e os campos de tortura. Os EUA e o desrespeito das leis internacionais. E, enfim, uma extensíssima lista de eteceteras, que incluiría alguns volumes só para nos dedicarmos ao que se tem passado no grande e aparentemente esquecido continente africano, acima e abaixo do deserto do Saara.

Será que os apoiantes indefectíveis dos EUA não conseguem distinguir as políticas do território ou das gentes desse país? Ou será que não têm uma ponta de conhecimento de história?

Os EUA e a Venezuela. Os EUA e Cuba. Os EUA e a Palestina. Os EUA e o Irão. Os EUA e as manipulações que conduziram os governantes europeus a uma histórica sucessão de tiros no pé, que continua neste preciso instante.

Um dos argumentos para justificar o apoio aos EUA é o do mal menor. É, no fundo, um voto (in)útil: porque se não fossem os EUA, os outros ainda seriam piores. Consequentemente, alegam, não se pode ou deve criticar os EUA. Interessantes falácias argumentativas usadas sem o mínimo de pudor... e para prejuízo próprio, consciente ou inconsciente, apesar dos aumentos dos preços de combustíveis na sequência da guerra na Ucrânia e agora da guerra no Irão o tornarem evidente.

Conforme defendeu uma vez o Slavoj Zizek, a existência da URSS tem uma importância vital para o capitalismo e para os EUA. E os apoiantes dos EUA sabem disso e utilizam-no na sua retórica: se alguém critica os EUA é porque defende o contrário, o contrário dos EUA é a URSS e o "comunismo" (entendido como aquilo que se passou nesse país no tempo de Stalin), e isso é nada menos que o inferno na Terra, portanto o diálogo fica:
- Os EUA estão a cometer um genocídio em Cuba.
- Tu deves ser é um comunista cubano com saudades de gulags, ó filho da p#$a!

A estratégia argumentativa não se cinge a esses casos. Basicamente faz-se por ver o mundo a preto e branco, pinta-se um dos lados de preto, e conclui-se que não é possível defender o preto, portanto temos de optar pelo branco. Maniqueísmo?

O caso actual da guerra do Irão é paradigmático. Na reacção à manifestação na base das lajes contra o seu uso na guerra do Irão, algumas pessoas comentaram: entre os EUA e o Irão eu prefiro apoiar os EUA.

Sim, estamos de volta aos bancos da escola primária. Aliás, tal como George Bush Junior nos ensinou: ou estás comigo ou estás contra mim.

Livrem-se as pessoas de terem pensamento próprio! Ou algum laivo de emancipação que lhes permita perceber que não só não existem apenas duas vias, como qualquer via nova pode ser criada a qualquer instante conforme a vontade das pessoas. Afinal, como afirmou David Graeber, que infelizmente morreu recentemente e cedo demais, a derradeira verdade escondida do mundo é que ele é algo que nós fazemos, e que poderíamos com a mesma facilidade fazer de outro modo.

Seria bom ter pessoas mais maduras, mais racionais e mais bondosas neste planeta. E esta afirmação é tanto mais radical quanto os tempos são de obscurantismo, esoterismo, crítica da razão (mas não à moda de Kant), ignorância, infantilidade, individualismo e profundo egoísmo.

Na verdade, podemos e devemos criticar tudo o que quisermos nas políticas de todos os países, incluindo URSS e Rússia (sendo que talvez os mais distraídos não tenham reparado nas diferenças de monta nas políticas destes dois países/conceitos), EUA, China, Brasil, Índia, a autarquia de Cernancelhe de Arroios, seja lá o que for. Não existem intocáveis. Existem, isso sim, argumentações de qualidades variáveis, realidades e capacidades também variáveis de investigar essas realidades.

Mas se vamos criticar as políticas de outros países, talvez devêssemos começar por aqueles que nos são mais próximos, que influenciam mais directamente as nossas políticas, que pertencem às mesmas instituições internacionais a que nós pertencemos, que têm mais poder sobre os outros povos e, já agora, que fazem maiores asneiras.

O objectivo não deve nunca ser o de ridicularizar, menosprezar, achincalhar, agredir. Deve sempre ser o de construir um mundo melhor para todos. Isso vale para as argumentações e para as políticas.

O que temos visto ultimamente por parte dos dirigentes dos EUA é inenarrável em toda a sua extensão.

O que temos visto ultimamente de inação cúmplice por parte dos nosso conterrâneos e conterráqueos é do mais triste que há. Como muito se tem ouvido ultimamente, também eu afirmo que me sinto envergonhado de pertencer a esta (des)humanidade. Mas com maior ou menor vergonha, e enquanto conseguir, hei-de seguir fazendo o que considero mais correcto.

Como muitos antes de mim já expressaram, de Jean-Paul Sartre a Chris Hedges, eu não combato os nazis porque vou ganhar, eu combato-os porque eles são nazis. É isso que é necessário fazer.

terça-feira, 3 de março de 2026

Portugal flambé...

 

 Caiu um pedaço de viaduto da auto-estrada A1. Foi reconstruído em 16 dias. As covas das estradas à volta de minha casa têm anos.

O médico da minha família unipessoal marcou-me exames e uma consulta a seguir aos exames. A consulta foi adiada. Depois voltou a ser adiada, mas desta vez sem data. Não sei bem porque gostaria que essa consulta se realizasse. Quando me queixo da visão, não há oftalmologista. Se me queixo dos dentes, não há dentista. Se me queixo da artrose, não há ortopedista. Se preciso de um exame, não há máquina de ressonância magnética, a máquina de raios x do centro de saúde está avariada, portanto seja lá o que for, sangue e urina, far-se-á no privado, a expensas do público.

Não é estranho que análises ao sangue sejam requisitadas a laboratórios privados quando esse tipo de exame é extremamente comum em todo o tipo de pacientes? As despesas com o sistema público de saúde têm aumentado ao longo dos anos. Não é apenas a inflação. Não é apenas a população a envelhecer. É também a forma como se gasta o dinheiro: não se faz dentro, subcontrata-se; não se contrata pessoal, paga-se a tarefeiros. É o cheque saúde, com ou sem existência formal. Gasta-se mais, o serviço fica igual ou pior, e conclui-se: tudo o que é público é impossível de gerir de forma eficiente. Servirá depois esta conclusão para se entregar ainda mais dinheiro ao negócio privado da saúde.

O sistema nacional de saúde, em boa verdade, é um sistema nacional de doença. Promover a saúde implica uma série de medidas preventivas de análise não apenas do corpo das pessoas, mas dos seus modos de vida, dos seus comportamentos, da qualidade dos ambientes que frequentam. O nosso sistema não existe para que tenhamos vistorias regulares à saúde dentária. Existe para quando temos apendicite. E bem bom, que ainda tem margem para ser pior!

Neste sistema, não temos campanhas para promoção da saúde, mas temos campanhas de educação dos utentes para que não se dirijam ao hospital, para que em vez disso telefonem para um número específico. E as pessoas compreendem, porque afinal o hospital é um sítio onde se apanham doenças. Não é falta de recursos, de instalações, de pessoal, de equipamento. Não. É porque é mesmo assim, já se sabe, é como funciona o sistema nacional de doença.

Preciso de um advogado. É como na saúde. Uma consulta são pelo menos 60 euros. A garantia que tenho de conseguir justiça é proporcional ao tamanho da minha carteira.

Ligo a rádio. O canal público ensina-me de como não faz mal violarmos o direito internacional se formos poderosos. Se não formos poderosos, enfrentaremos algum tipo de tribunal e teremos algum tipo de julgamento. Antes era o tribunal penal internacional. Há pouco tempo, bastava dizer que íamos levar o prisioneiro para o julgarmos num tribunal, qualquer um, no nosso país. Agora basta assassinarmos logo o alvo e assim evitamos a chatice do prisioneiro. O canal público ensina como isso é legítimo, compreensível, desculpável, de como devemos aceitar isso. O canal público escolhe as notícias e os comentadores para nos dar a versão limpa e regrada da realidade que devemos entender. Se quisermos outras versões, talvez consigamos pesquisando outros canais. Mas aquele que é pago com os meus impostos, esse ajuda-me a aceitar a minha realidade como a única possível. Isto é assim há décadas. Os canais cumprem o serviço público de manter tudo como está.

As universidades e os centros de investigação financiados com dinheiros públicos promovem a criação de novo conhecimento e a produção de nova tecnologia em áreas úteis às empresas. O dinheiro do investimento é nosso. O lucro que retorna é das empresas.

As expropriações necessárias à construção da nova auto-estrada são pagas pelo Estado, ou seja, por todos nós. Também nós pagamos a construção da auto-estrada. Dizem-nos que o dinheiro vem da Europa, que devemos ficar felizes por estarmos a executar os planos e a gastar o dinheiro que nos tinha sido atribuído. Depois de estar pronta, a auto-estrada é concessionada a privados, e estes exploram-na e ficam com o lucro.

A Europa para nós é sinónimo de paz, de bandeirinhas azuis com estrelinhas amarelas, de pombas brancas, de hinos da alegria, de entendimento entre os povos, de ausência de fronteiras, de moeda única, de objectivos comuns de progresso. É assim porque o nosso próprio dinheiro financiou em tempos extensas campanhas de promoção dessas ideias recorrendo, entre outros, aos canais públicos de televisão e de rádio. Essa propaganda manteve-se mais ou menos intensa até aos dias de hoje. Se a Europa promove mortes em guerras de dinheiro ou directamente com balas, isso para nós não interessa.

Ao mesmo tempo, temos uma ideia muito vaga de como funcionam as instituições dessa Europa, não fazemos ideia de quem sejam os deputados que estão no seu parlamento, nem de onde surge o dinheiro para as suas campanhas, nem de como funciona o Banco Central.

As escolas e universidades, pagas com o nosso dinheiro, não nos ajudam a esclarecer esses assuntos. Não é na escola que discutimos como se paga a escola. Na escola fazemos duas coisas: recursos humanos e estatísticas. Fazemos recursos humanos para as empresas poderem minimizar as suas despesas em formação profissional. Fazemos estatísticas de aproveitamento para ficarmos bem nas fotografias e para nos integrarmos numa Europa de progresso. Só não fazemos é adultos maduros, responsáveis, emancipados, críticos, imaginativos, que sabem amar, que compreendem a sociedade em que vivem, que querem viver melhor em sociedade, que têm o poder de a transformar. Os recursos humanos querem-se eficientes, conhecedores do seu métier, obedientes e confiáveis. E se neles existir uma nesga de criatividade, que seja prontamente encaminhada para inovação, isto é, produção de bens e serviços geradores de lucros.

Só alguns alunos estudam com algum detalhe o que está escrito na constituição da república portuguesa. Esses ficarão a saber que os portugueses têm direito a habitação, a saúde, a educação. Também ficarão a saber que a constituição é uma carta que se respeita mais ou menos conforme as circunstâncias. O sistema policial, o sistema legislativo, o sistema executivo, o sistema judicial, o sistema monetário, todos esses sistemas são públicos. Mas todos sabemos, porque nos foi dito repetidamente em campanhas financiadas com o nosso próprio dinheiro, que não há dinheiro, e portanto não pode haver habitação para todos. De resto, também sabemos, porque também nos é dito recorrentemente, que receber do Estado é ser dependente de subsídios e isso é muito mau. Portanto, se a constituição estabelece o direito à saúde, já sabemos que isso quer dizer que temos de ter dinheiro para podermos usufruir desse direito. Não está escrito na constituição, mas nós já o sabemos, porque aprendemos na escola e na vida a interpretar estas coisas da maneira correcta.

Igualmente sabemos que vivemos em democracia, não porque tenhamos poder para mudar alguma coisa, mas porque podemos votar de tantos em tantos anos. Mesmo que não o façamos.

Os partidos com representação parlamentar têm direito a aparecer regularmente nos canais públicos. É assim que se dá igualdade de oportunidade a todos: os que têm mais, recebem mais, os que têm menos, recebem menos. Também acontece assim com os votos e os deputados no próprio parlamento: se para um partido pequeno é necessário ter bem mais do que 1% dos votos totais para conseguir eleger um deputado, que vale menos de 0,5% dos deputados totais, um partido grande consegue uma maioria absoluta, mais de 50% dos deputados, com apenas 40% dos votos. São as maravilhas do nosso sistema político, baseado em círculos eleitorais, sem compensação. Há inúmeras formas alternativas de representar os eleitores num parlamento, mas nós, o público, que pagamos isto tudo, não fazemos ideia disso, nem nos passa pela cabeça que haja qualquer problema com o actual sistema. Aliás, os políticos que elegemos têm-nos informado, sempre motivados pelo bem da nação e pelo nosso bem, que a estabilidade é fundamental à democracia. Ou seja, nada de partidos pequenos, bastam dois partidos grandes, muito parecidos um com o outro, para fundamentar a lengalenga da alternância democrática, e lá vamos andando.

Dantes ia-se de comboio até Bragança. E até muitos outros sítios. Mas muitas linhas, ramais, estações e apeadeiros foram fechados até aos dias de hoje. Talvez não seja coincidência que o campeão dos fechos de linhas tenha sido também o campeão da construção de auto-estradas. Esse mesmo, que quando deixou de ser primeiro-ministro já ninguém o queria, mas que uns anos mais tarde voltou para ser presidente da república. É o que dá a memória curta e a psicologia do familiar...

O fecho de linhas, nessa altura tal como hoje, justifica-se com a racionalidade. Não é racional manter uma linha que transporta apenas a senhora Ludemilda e o seu gato, portanto fecha-se. É claro que quando se toma a decisão de construir uma auto-estrada, nem sequer a senhora Ludemilda por ela circula. Mas isso não impede os decisores de imaginarem um futuro cheio de automóveis e racionalidade quanto baste para justificar essa construção. Solta-se a rédea da iniciativa privada para nos incutir a necessidade do automóvel, dá-se liberdade às instituições financeiras para difundirem crédito ao consumo com juros generosos, libertam-se dinheiros públicos para construir estradas, pontes, túneis, parques de estacionamento, para equipar isso tudo com sinalização, semáforos, polícias, portagens, iluminação e tudo o mais, leva-se o sistema à porta de cada pessoa. Ao mesmo tempo aniquilam-se os meios de transporte alternativos. Resultado? As pessoas compram automóveis e a racionalidade do fecho das linhas de comboios e da construção das auto-estradas comprova-se. Basta sair à rua! Tudo corre conforme o plano.

Essa racionalidade que deixou ao abandono centenas de quilómetros de vias férreas e de estações é a mesma que mais recentemente se explica a todos nós para que possamos aceitar como inevitável o encerramento de hospitais, para supostamente sermos melhor atendidos no hospital central da metrópole, o encerramento de escolas, para os alunos serem melhor formados em turmas maiores na cidade mais próxima, o encerramento de tudo o que é público e não gera lucros.

A Caixa Geral de Depósitos é um banco público. A racionalidade também justificou o encerramento de balcões por todo o país. As contas são simples: empregar pessoas para servir outras pessoas só faz sentido se der lucro. Não está na constituição, mas é mesmo assim.

Felizmente para este banco público que há muitos portugueses que precisam de casa e não a têm, ao contrário do que estabelece a constituição, e acabam a pedir crédito bancário. O banco público não está lá para facilitar a vida a quem precisa de casa, mas sim para pôr em prática a mais calculista racionalidade económica. Os juros serão ditados pelo mercado interbancário e pelo spread do próprio banco, que por sua vez é ditado pela racionalidade da sua estratégia comercial. No final, o banco público, que supostamente nos pertence, faz-nos pagar pelo crédito, pelo atendimento, pelos cartões ou simplesmente por termos lá uma conta bancária, e arrecada num só ano mais de mil milhões de euros de lucro.

Veio de lá um furacão, seguido de uma ou várias cheias. Os estragos são incalculáveis, como nos dizem os canais de notícias públicos, apesar de logo a seguir nos apresentarem o cálculo do seu valor. O governo e as instituições na sua directa dependência assistiram de braços cruzados e assobiando para o lado à criação de mercados para os bancos e para as seguradoras. Agora, depois dos estragos, vêm gastar o nosso dinheiro público em campanhas nas quais nos explicam que temos ao nosso dispor linhas de crédito, com juros bonificados, para repor uma parte das perdas, e que no futuro devemos considerar fortemente a compra de seguros, porque as empresas seguradoras são nossas amigas, e estão lá precisamente para nos ajudar neste tipo de situação. Explicam-nos isso ao mesmo tempo que, aqui e acolá, nos explicam que o Estado não pode fazer mais, porque já pôs em funcionamento todos os meios, que todos sabemos que são poucos, porque todos sabemos que não há dinheiro nem alternativa.

O estado da nação é um estado de merda!

Há décadas que nós pagamos para nos limparem a cabeça e nos fazerem aceitar que isto é mesmo assim. Há décadas que alternamos os mesmos dois centrões no poder, e há décadas que ambos seguem a mesma estratégia de desmantelar tudo o que é público, justificando com o facto de toda a gente saber que o que é público é mal gerido, que os funcionários públicos são preguiçosos, que é preciso racionalidade económica, que não há dinheiro, que o Estado é um monstro sorvedouro de dinheiros e que restringe a sacrossanta iniciativa privada, que não há alternativa.

Viemos neste caminho há décadas. Não devia ser surpresa alguma que aqui chegámos, porque foi sempre nesta direcção que viajámos. À medida que desmantelamos o que é público e damos oportunidade aos privados, verificamos que o que é público funciona mal, pudera!, e usamos isso para apoiar ainda mais os privados, mesmo com dinheiros públicos.

Mas não vale a pena pensar em mudar de caminho. É que ainda há caminho a percorrer. Ainda os bombeiros podem ser substituídos por grupos privados de securitas, os militares podem ser substituídos por mercenários privados, os comboios podem ser substituídos por altas velocidades que unem apenas as grandes cidades e são privados, mesmo que construídos com dinheiros públicos, o parlamento pode reduzir o número de deputados para cem, depois pode usar círculos uninominais, e depois pode usar apenas um círculo nacional, e de repente temos o poder todo centrado numa só pessoa. Ah! Que grande alívio isso seria para acabar com a mama dos políticos! A electricidade já é privada, os correios também, o petróleo também, a cultura pública está em vias de extinção, mas ainda falta fechar as escolas, privatizar as águas, entregar os aeroportos, os aviões, os comboios, fechar o banco público, os canais de rádio e televisão e vender todos os imóveis que antigamente eram usados pelo Estado para as funções mais irracionais, como por exemplo gerir as florestas.

Quando percebermos que a coisa está a ir pelo mau caminho, ou seja, quando finalmente percebermos que o caminho de sempre afinal é mau, adoptaremos a legião do salvador e culparemos os outros pelo estado disto tudo: os imigrantes, os preguiçosos, os pobres, os ciganos, os africanos, os seja quem for que não nós, portuguesinhos de gema.

Depois é só polvilhar com pinheiro e eucalipto e deixar arder bem.

Serve-se regado com lágrimas de crocodilo.

 

AWF, Angra do Heroísmo, 3 de Março de 2026

 

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Ressabiadas...

 

Talvez lá no fundo
acredite
que os seres humanos são todos
sensivelmente os mesmos
em toda a parte

Mas então necessariamente
as mulheres são mais

Costumes que frequentamos:
o arame da loiça
os panos dos pratos
os ganchos e a linha do estendal
a vinha de alhos
o fogão
o alguidar
guardamos os restos
torcemos os trapos
os nossos recados
os nossos sacos
os nossos ovos

Certamente que eles
em grande maioria
escanhoam os queixos
e gostam de arejar
Mas são médicos
polícias, engraxadores,
economistas
e os vários naipes
da banda filarmónica

Nós somos todas domésticas
Mesmo assim não nos entendemos
E nem serve escrever isto
que o maniqueísmo em traços largos
resvala na aldrabice
E a poesia vem dos anjos
já se sabe
carecidos de sexo
E aliás, que me rala a mim?
Levo a minha vida
e tenho o amor de que não

desconfio
E se consolo o cio e a fome,
decerto falo de cor
Nem é por isso que me doem os

calos
mas por causa dos bicos
dos vossos saltos
no desnível dos soalhos
refinadas galdérias
que se tomam a sério
Pestanas certeiras
e beiços que brilham
línguas que estalam
e mamas que chispam
corada invoco
a imagem mal tirada
da fêmea recortada
ao macho que a conforma

Sei que desminto
qualquer laço comunal
e seja como for
ninguém pediu o meu palpite
Pelo que não me habilito
e me desquito
Assim te mudo
Era eu quem estava mal.

 

Margarida Vale de Gato, in Mulher ao mar

A ilha em nós...

 

Não,

não ecoa a ilha em nós.

Ilha É cada um de nós.

Porquê então a ilha a dar-nos nós,

se atamos nós os nossos próprios nós?


AWF, Angra do Heroísmo, 2026