Eu não sei se a história se repete ou não, e parece-me que quem conclui acerca disso está a ver o que quer ver. De qualquer modo, a mim parece-me é que as pessoas continuam a ser pessoas, muito parecidas hoje com aquilo que foram há séculos ou milénios. O dito progresso dá-se sempre mais nos penduricalhos do que dentro das cabeças.
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Ouvido no programa "o fim dos princípios", na Antena 1 Açores, no dia 6 de Abril de 2026.
https://www.rtp.pt/play/p9024/e920263/o-fim-dos-principios
Abrir aspas (mais coisa menos coisa).
1
Enfadados. Estamos todos enfadados. E o demagogo come connosco à mesa e repete a refeição que lhe foi oferecida.
Revoltados. Estamos todos revoltados. E os forros desfeitos das algibeiras assemelham-se a estômagos vazios.
Conformados. Estamos todos conformados. A democracia está a planar e nós a escorregar.
Que esforços estamos hoje a fazer para manter a liberdade conquistada? Que cansaço, que preguiça e que medo nos consome? O regime é o que o povo define.
Enfadado. Revoltado. Conformado. Que se inicie a desordem!
Com ela, a disputa pela liberdade com a mais bela das armas: a razão.
2
Os esforços que fizemos para conquistar a liberdade que hoje temos não bastaram para regenerar as nossas almas do aviltamento em que por muito tempo estiveram. Tinha-nos ficado, como um defeito nativo, a dobra servil. A nossa vocação especial fora por muitos anos sermos vítimas; faltaram-nos repentinamente os algozes, não aprendemos a ser mais nada, e ficámos numa desocupação desconsolada e abatida. A guerra de que nos proveio a Constituição deu-nos apenas uma vitalidade febril e passageira.
Logo que deixámos de discutir os princípios da liberdade que então nos propusemos, não tornámos a fazer mais nada senão servir os interesses pessoais e a ambição dos indivíduos. Do regime que não temos sabido manter consistente e válido, restam-nos apenas hoje os benefícios que ele, depois de corrompido, faculta às mediocridades ambiciosas, ao patronato, à intriga, à pusilanimidade, à baixeza. Temos do constitucionalismo – esgotado – tudo o que ele tinha de mau na lia: a nobilitação dos parvenus, a falsa grandeza, a falsa virtude, o falso talento, o funcionalismo exuberante, a arrogância burguesa, o reinado da usura, a ruína do trabalho, a sofismação dos princípios, a decadência da arte, a depravação do gosto, a queda dos caracteres e dos espíritos para o fútil, para o ordinário, para o reles, para o chinfrim... Vede a Câmara dos Deputados: não é só a precisão na ideia, a firmeza nos princípios e a nobreza na palavra o que a ela lhe falta. Falta-lhe também a dignidade do porte, faltam-lhe as maneiras, falta-lhe a toilette, e é quase tão ridícula pelos seus discursos como pelas suas gravatas. Sente-se a má companhia. Revela-se o mauvais lieu no simples aspecto chulo dos Cíceros pimpões.
Sem os partidos fortes, único motor capaz de imprimir um jogo tão regular às engrenagens do regime constitucional como o que existe na Bélgica e na Inglaterra, achamo-nos quase no estado atomístico de Hegel, na desagregação, em virtude da qual cada molécula social, entregue por sua desgraça à liberdade quase absoluta, volteia às cegas em busca de um novo centro de atracção. É a mesma situação em que há pouco tempo se achava a Espanha e em que está ainda hoje a Itália. Na Itália, porém, a grande obra da unificação deu à vida nacional um forte impulso saudável de energia patriótica.
Portugal não esteve talvez nunca tão perto como hoje da pilha que o há de estremecer e abalar.
3
Querem manter a ordem? Aqui têm um meio bem simples, bem pronto: deixem de manter os abusos. Querem governar bem? Lembrem-se do que dizia Washington: a honestidade é a melhor política. Sejam virtuosos os que não podem ser instruídos.
A inteligência só longamente se cultiva. A virtude penetra-nos de pronto, porque a justiça é um axioma, é uma evidência, não demanda estudos preliminares nem reflexões subsequentes. É o princípio e é o fim de si mesma.
4
Leitor amigo, se queres sinceramente contribuir nos teus meios para fortalecer a tua pátria, dá-lhe modestamente, na pequena órbita da tua influência, entre os teus parentes e os teus amigos, aquilo que ela mais precisa de ter para a sua defesa dentro da casa de cada cidadão; não se trata da força do teu braço, trata-se da rectidão do teu juízo: sê prudente e justo.
No caminho em que nos puseram aqueles por quem nos temos deixado conduzir, nós não vamos livremente para a escolha da forma de um governo livre; vamos submissamente para a sujeição voluntária dos domínios despóticos. Para que esses poderes nos subjuguem, basta simplesmente que nos invada a anarquia que nos está batendo à porta. Na perturbação geral, no conflito, no perigo da fazenda e da vida, o egoísmo sacrificará sem nenhuma disputa a liberdade. Porque a liberdade, por mais bela que ela seja, é na existência uma circunstância. A ordem é a condição essencial intrínseca da vida, a garantia do trabalho e a segurança do pão. Quem poderá calcular o número de liberdades que nós sacrificaremos à ordem no momento em que a desordem começar a facultar-nos o direito ao governo, com a supressão do direito ao jantar?... É das profundidades demagógicas que saem sempre à periferia social os tiranos. Já Aristóteles dizia que o déspota começa no demagogo. Assim nasceram Pisístrato em Atenas, Dionísio em Siracusa, Teágenes em Mégara.
O nosso profundo mal está na nossa profunda indiferença. Aos que ignoram os perigos desta enfermidade social, lembraremos que quando Napoleão desembarcou no Golfo Juan, não foi a força dos que o defendiam que o reconduziu ao trono, foi a inércia dos que o não atacaram.
Ora, as apatias, querido leitor sensato, curam-se pelos regimes constituintes. Os meios revulsivos agravam a prostração e produzem o desfalecimento e a morte. Quando o princípio vital da autoridade se acha ameaçado sob a sua forma política – no governo –, a primeira obrigação do povo é manter esse princípio sob a sua forma filosófica: na razão.
Fechar aspas.

Notas e comentários meus:
- As passagens são retiradas de "as farpas" de Ramalho Ortigão. Estas crónicas foram escritas ao longo de muitos anos, no final do século XIX e início do século XX. A segunda e quarta passagens são de 1873. As restantes não consegui identificar.
- Demagogo, segundo a IA do Google (que por sua vez se baseia algures...), é "um líder político que manipula as emoções, medos e preconceitos do povo com discursos inflamados e promessas irrealizáveis para conquistar o poder. Esta prática, frequentemente associada ao populismo, prioriza a popularidade imediata sobre soluções consistentes, ameaçando a estabilidade democrática." A Wikipedia define assim: " é um líder que ganha popularidade explorando emoções, preconceitos, e ignorância para despertar o povo comum contra algum inimigo, provocando as paixões da multidão e interrompendo as deliberações fundamentadas. Os demagogos derrubam normas estabelecidas de conduta política, prometem ou ameaçam fazê-lo."
- Parvenus, do francês, semelhante a novos ricos, com ênfase na falta de cultura e na desadequação que isso acarreta face à classe social ou económica onde se pretendem inserir
- Mauvais lieu, do francês, literalmente um lugar mau, usado para designar um lugar ou contexto moralmente corrompido
- Cíceros pimpões é uma forma de designar bons oradores, vaidosos, que tentam mostrar que valem mais que os outros através dos seus discursos, mas que no fundo são apenas presunçosos fanfarrões
- "Sem os partidos fortes...". Neste parágrafo, Ramalho Ortigão manifesta o horror à desordem, à anarquia, entendendo a anarquia como falta de um poder pessoal e/ou institucional claro e manifesto, e uma estrutura de poder emanando a partir daí, que conduza a população no melhor caminho. Este parágrafo revela a crença na necessidade de o povo ter um líder e, no limite, na sua incapacidade de auto-governo. Mais à frente, neste mesmo texto, há uma referência directa à "anarquia" que reforça o que aqui digo. Evidentemente os anarquistas teriam sérias críticas a fazer a este respeito. A título de exemplo, é típico ouvirem-se relatos históricos, à posteriori, sobre processos de descolonização, em que se fala da necessidade de fazer uma transferência de poder. Ou então, em contextos de revolução, quando se fala de uma necessidade de não deixar o poder cair nas ruas. O significado é sempre semelhante, nomeadamente a ideia de que é necessário existir um comando superior, que a população não pode ser dona de si mesma. Quando ao mesmo tempo insistimos em falar sobre democracia e dizer que usufruímos de uma democracia, isso parece talvez paradoxal e devia fazer-nos pensar.
- Estado atomístico de Hegel. Na verdade, Hegel critica precisamente a ideia de que o todo é apenas a soma das partes, que a sociedade pode ser vista como uma soma de indivíduos, que o Estado é apenas a expressão dessa soma. Ele critica esse estado atomístico. Alternativamente ele propõe que o colectivo é mais do que a soma das partes, que a sua existência não depende apenas dos indivíduos, que os próprios indivíduos dependem do colectivo.
- "Quem poderá calcular o número de liberdades que nós sacrificaremos à ordem no momento em que a desordem começar a facultar-nos o direito ao governo, com a supressão do direito ao jantar ". Esta frase contém alguma ambiguidade e permite várias interpretações, sobretudo devido à inclusão de "a desordem começar a facultar-nos o direito ao governo". Sem essa proposição, a frase parece de interpretação inequívoca: se nos faltar a comida, ficaremos dispostos a restringir a liberdade para podermos ter de novo ordem e com ela o acesso à comida. Em termos históricos há muitas evidências de que nos períodos de maior aperto económico as populações ficam mais permeáveis aos demagogos que identificam inimigos comuns e avançam com políticas que restringem a liberdade de todos. Parece que neste preciso momento estamos a caminhar para algo semelhante. Resta saber de que forma é que a desordem nos pode facultar o direito ao governo. Deixo à interpretação de cada um.
- Pisístrato (séc. VI a.C.) feriu-se a si próprio e fingiu ter sido atacado pelos seus inimigos políticos e tomou outras medidas com o objectivo de elevar a sua popularidade. No entanto, o seu governo é visto pelos historiadores actuais como benéfico para a maioria da população, pelo que Ortigão poderá ter interpretado mal a história, talvez pela classificação de Pisístrato como um tirano. Aparentemente, essa classificação dizia antigamente respeito a alguém que toma o poder de forma considerada ilegítima, e não a alguém que exerce um poder que oprime o povo.
- Dionísio (séc. IV a.C.) "ganhou apoio popular ao acusar os generais e os ricos de incompetência e traição durante as guerras púnicas, apresentando-se como o único defensor capaz de salvar a Sicília dos cartagineses" (enciclopédia Britânica). Ele também conquistou o poder de forma considerada ilegítima, e desse modo foi classificado de tirano, mas aparentemente ele foi efectivamente um déspota e um tirano no sentido actual do termo.
- Teágenes (séc. VII a.C.) foi um demagogo que conquistou o apoio dos pobres e camponeses com medidas arbitrárias e simbólicas contra os ricos e foi um tirano, no sentido antigo do termo, uma vez que ascendeu ao poder através de um golpe de Estado. No entanto, é aparentemente difícil de avaliar quão bom ou mau foi o seu governo para a população.
- Napoleão Bonaparte desembarcou na baía Golfe-Juan, perto de Cannes, no sul da França, em 1815, fugido do exílio na ilha mediterrânica de Elba, tendo então iniciado uma marcha até Paris, onde acabou por reconquistar o poder, embora por apenas alguns meses.
- A última frase aqui apresentada mostra novamente a importância que Ramalho Ortigão atribui à autoridade. No entanto, perante eventuais situações de perda de autoridade pelo poder político, ele afirma que a autoridade deve permanecer na razão, e que essa autoridade e essa razão devem ser asseguradas pelo povo. Interessante, e porventura polémico. Mas de qualquer modo, potencialmente útil nos dias que correm, uma vez que o povo parece nunca ter deixado de se influenciar mais por crenças mal fundamentadas e sensações primárias ou viscerais do que pela razão esclarecida. As lanternas do iluminismo têm podido bem pouco contra os oceanos do obscurantismo.
