terça-feira, 18 de setembro de 2012

Sobe que sobe...

 

Finalmente abandonei a fisioterapia! Quase cinco meses após a ruptura do tendão, estou livre para levar uma vida normal! :) Ainda ando com a meia elástica, ainda vou tendo umas dorzitas, ainda não consigo fazer certos movimentos com a perna, ainda tenho os músculos atrofiados. Mas que diferença desde o tempo em que tinha de ir ao pé coxinho até à casa de banho e tinha de tomar banho sentado no chão com a perna de fora...

Escolhi a clínica de fisioterapia com base na distância à minha casa e na possibilidade de estacionar bem perto, o que no início me fez toda a diferença. Mais recentemente comecei a andar de bicicleta, com todas as vantagens que isso tem. No entanto, isso tinha uma grande desvantagem. É que a clínica fica mesmo na parte mais baixa da Calçada de Carriche e a minha casa fica mais alta que a parte mais alta da calçada!

Todos os dias, durante as últimas semanas, saía da fisioterapia ensopado em suor, já cansado de um dia de trabalho, com fome e sede, e cheio de vontade de chegar a casa, e tinha de empurrar a bicicleta calçada acima, literalmente... E não podia deixar de me sentir um bocado como a Luísa. Ninguém me apalpava as cochas e ninguém se servia de mim... foi o que me valeu! :)

Calçada de Carriche


Luísa sobe,
sobe a calçada,
sobe e não pode
que vai cansada.
Sobe, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe
sobe a calçada.

Saiu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada,
leva a lancheira
desengonçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Luísa é nova,
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam-lhe os peitos
na caminhada.
Anda, Luísa.
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Passam magalas,
rapaziada,
palpam-lhe as coxas
não dá por nada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu a sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.
Anda, Luísa.
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Na manhã débil,
sem alvorada,
salta da cama,
desembestada;
puxa da filha,
dá-lhe a mamada;
veste-se à pressa,
desengonçada;
anda, ciranda,
desaustinada;
range o soalho
a cada passada,
salta para a rua,
corre açodada,
galga o passeio,
desce a calçada,
chega à oficina
à hora marcada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga;
toca a sineta
na hora aprazada,
corre à cantina,
volta à toada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga.
Regressa a casa
é já noite fechada.
Luísa arqueja
pela calçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

António Gedeão

 E aqui, na voz de Carlos Mendes e na música de José Niza.


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