quarta-feira, 19 de março de 2025

Portugal: mais do mesmo...


Ora então vamos lá tentar identificar o que está mal com este cartaz.

Claro que já reparou no "portuguezes" e talvez se tenha questionado sobre a veracidade dos números apresentados: será que em 2024 uma em cada quatro pessoas que habitam este país é "não portugueza"?

A estatística será o menor dos problemas. Afinal, há estatísticas para todos os gostos. E temos de considerar que os números do cartaz até podem estar correctos para uma determinada região do nosso país que não é explicitada. Ou então, se não forem correctos hoje, podem vir a ser correctos amanhã.

Qual é o problema então?

Como em muitas outras circunstâncias, o maior problema está nos pressupostos que são implicitamente assumidos. Fazer afirmações com pressupostos implícitos é, só por si, uma estratégia retórica agressiva e que todos devíamos aprender a identificar e rejeitar. É o mesmo que começar uma intervenção dizendo "como todos sabemos...", quando o que vem na sequência não é, efectivamente, do conhecimento de todos, porque nem sequer é verdadeiro. Só que os pressupostos implícitos são ainda piores, porque mais dissimulados. Se não estivermos atentos à sua existência, poderemos ser conduzidos a conclusões que nos deixam perplexos sem sermos sequer capazes de identificar onde está o erro.

Vamos lá chegando, então. Comecemos pela frase de baixo: estamos a ser substituídos na nossa própria terra. Estamos? Quem? Nós? Que nós é este? Os portugueses? Então os portugueses estão a ser substituídos na sua própria terra? Estaremos nós a assumir que a terra dos portugueses é Portugal?...

Há muitas pessoas que podemos considerar portuguesas, que vivem em Portugal, e que não têm um só palmo de terra que possam chamar sua. Diremos, à mesma, que Portugal é a sua terra, assim em jeito metafórico, como quem diz que é naquela terra que se fala português e está o estádio do Benfica, tudo coisas com as quais o nosso português de gema se identifica, que o tornam muitíssimo português, mas relativamente às quais ele nunca teve o poder de modificar uma palha que fosse. Entretanto, o empresário, ou deveremos chamá-lo empreendedor?, que vem de lá dos Estados Unidos da América, ou da Alemanha, ou da França, ou de Inglaterra, compra uma enorme quantidade de terra em Portugal, constrói uma vedação a toda a volta, e povoa aquilo com a sua família, praticando nesse território costumes exclusivamente exóticos. Será a esses estrangeiros que este cartaz alude?

Recentremo-nos: esta terra é mesmo nossa? De que forma? E os "não portuguezes" que para cá vêm, eles retiram-nos a propriedade da terra?

Será que o cartaz se refere aos processos de gentrificação dos centros das cidades mais turísticas, onde os mais ricos, portugueses ou não, compram tudo aos mais pobres e os expulsam para as periferias das cidades? Não deve ser, digo eu, porque nesse processo o que vale é o dinheiro, e não a nacionalidade.

Enfim, eu devo ser só um ressabiado, que fala deste modo apenas porque nunca sentiu que esta terra fosse sua, assim a modos de decidir, por exemplo, que seriam eliminados os candeeiros que à noite iluminam mais o céu do que o chão, que as autoestradas dariam lugar a ferrovias, que todas as moradias e hotéis construídos naquilo que em tempos era paisagem natural protegida na península de Tróia seriam demolidas, que só se construiriam mais centros comerciais e estádios de futebol depois de todas as necessidades educativas e de saúde do país estarem supridas... Há gente que decide estas coisas todas, nesta terra que supostamente é nossa. Eu não sou. Será você?

Mas, afinal, o que é isso de ser português? Será, como disse o Marcelo, uma habilidade especial para comer caldo verde?... Quem gosta deste tipo de classificações, e de zelar pela pureza da raça, necessita quase sempre de símbolos que possam congregar a população em seu redor. Muitos recuam até ao rei Afonso, o que bateu na mãe. Mas porquê parar aí? Podemos recuar até Viriato. Mas podemos recuar bastante mais, até aos construtores das antas que hoje são demolidas por escavadoras no Alentejo, dando lugar a plantações robóticas de oliveiras periodicamente chocalhadas para untar as bocas e os corpos de toda a gente que tenha dinheiro para comprar, "portuguezes" ou "não portuguezes". Um pouco antes desses, este território a que hoje chamamos Portugal continental, estaria deserto de seres humanos. Até onde iremos nós querer recuar à procura da nossa identidade comum? Até à Lucy, essa hominídea que passeava nas savanas africanas e que foi avó de todos quantos hoje habitam a face deste planeta?

Se pusermos o relógio outra vez a andar para a frente, mesmo que não se saiba ao certo para que lado isso é, iremos assistir ao povoamento da Península Ibérica pelos primeiros colonos. E depois pelos segundos, e depois pelos terceiros, e pelos quartos e quintos e sextos e tantos e tantos!... Misturaram-se, guerrearam-se, fundiram-se, evoluíram. E sempre foi assim ao longo de toda a história.

Quem são hoje os portugueses? Temo-los de todos os tipos, cores de pele, contas bancárias, profissões, cortes de cabelo, idades, gostos musicais, índices de massa corporal, proficiência na cozinha e no uso do telemóvel, sentido de humor, posicionamento político ou capacidade de parar para conversar imediatamente após passar qualquer porta de saída seja do que for. Em jargão estatístico, podemos afirmar que os portugueses, enquanto grupo, têm uma grande variabilidade intra-específica. Por outro lado, se determinarmos aquilo que deve ser um português médio, e o compararmos com aquilo que deve ser um espanhol médio ou um francês médio, poderemos calcular a variabilidade interespecífica. E esta, muito provavelmente, será menor do que aquela. Ou seja, se compararmos um português médio com um espanhol médio vamos muito provavelmente encontrar menos diferenças do que entre dois portugueses escolhidos à sorte. Neste caso, talvez a diferença mais evidente seja a língua que se fala. De resto, aposto que ambos apresentarão um grau de dependência elevado do seu telemóvel e um grau preocupante de ignorância acerca do modo como o capitalismo molda a sua vida.

E assim chegamos finalmente a um dos pressupostos implícitos deste cartaz: o de que existe uma diferença fundamental, evidente, marcante, entre nós, os portugueses, e os outros, os não portugueses.

Esse pressuposto é falso. Essa diferença fundamental não existe. Os portugueses não se definem pela língua que falam. Desse modo todos os falantes de português seriam portugueses, incluindo os brasileiros, os angolanos, os norte-americanos que frequentaram uma escola de português, etc. Os portugueses também não se definem pelo modo como comem caldo verde. Desse modo, muitos turistas seriam portugueses, assim como muitos estrangeiros que nas suas terras gostam de comidas exóticas, ou para quem é normal comer água quente com batatas, couve e chouriço.

Os portugueses definem-se, para efeitos estatísticos e da construção de cartazes como este, pela nacionalidade que detêm e que lhes é conferida pela autoridade oficial (vénias muitíssimo reverenciais) de Portugal. O que, para todos os efeitos, equivale a dizer que os maiorais cá desta terra, que aparentemente é nossa, se juntam para definir regras sobre quem irá ser galardoado com o selo de português. Essas regras serão algo do tipo: saber dizer "muito obrigado" no final de cada frase, fazer o pino, ter familiares que já têm o selo, ser especialmente habilitado para todo o tipo de trabalhos de que os portugueses precisem mas não gostem. Claro está que todo este processo de aferição da "portuguezidade" pode ser sumariamente ultrapassado caso o candidato apresente uma conta bancária recheada ou compre uma moradia de pelo menos 500 mil euros.

Estaremos, nós, "portuguezes" e "portuguezas", a ser substituídos na nossa própria terra? O que significa isso de ser substituído? Será que por cada "não portuguêz" que entra há um "portuguêz" que sai, expulso pelo primeiro?...

E o que acontecerá aos nossos compatriotas que decidem ir viver para outros países?...

Mas avancemos em direcção ao pressuposto mais fundamental e mais profundamente errado que subjaz à elaboração de propaganda como esta. Imaginemos, nesse sentido, que os portugueses são, de facto uma classe de seres humanos à parte, identificável à distância por inúmeras características distintivas, a começar pelo cheiro a rosas, passando pela belíssima genética e terminando na eloquência do caldo verde. Imaginemos, consequentemente, que os tais outros, os "não portuguezes", fazem parte doutra classe. Se essa fosse a realidade, o pressuposto implícito neste cartaz é que cada classe deveria ser isolada da outra. Porquê?

Qual seria a situação ideal então? Seria um gráfico onde se pudesse apresentar, orgulhosamente, uma rodela preenchida a 100% com "portuguezes"? Bom, para isso há uma solução muito simples: dar um visto gold a cada não português, naturalizando-o nesse mesmo instante por via administrativa! Ah... mas não pode ser?... Pois claro, temos de manter a pureza da raça, conforme a hipótese avançada no parágrafo anterior... claro que sim... muito obrigado!

Que ideia é esta que pretende que a situação ideal para qualquer comunidade relativamente homogénea de pessoas (que não é o caso dos portugueses) é isolar-se das demais pessoas? Serão os "outros" assim tão maus?... Porquê?...

O pressuposto implícito mais hediondo deste cartaz é precisamente esse: a crença de que o outro, seja ele quem for, é alguém mau, que vem para nos fazer mal. O outro faz-nos mal porque é criminoso, delinquente, pobre, preguiçoso, porque se quer aproveitar das coisas boas que temos, usufruindo delas sem legitimidade ou até roubando-as. O outro rouba-nos o emprego, estraga a nossa língua... até nos enche a atmosfera com cheiro de especiarias!... o que estaria muito bem se elas tivessem cá chegado em caravelas portuguesas e fossem servidas em restaurantes gourmet...

Imagine-se só se a beleza física dos e das jovens "não portuguezas" começa a aliciar os nossos?...

Todos os estudos e todas as estatísticas nos provam, uma e outra vez, que esses medos não têm fundamento. De resto, se alguém passar à nossa frente no concurso para um trabalho, ou nos atrasar na estrada, ou roubar a nossa casa... e ainda mais se alguém nos roubar à grande em negociatas patrocinadas por um qualquer governo, a probabilidade é que o autor do problema seja um português.

Não deviam ser sequer necessários quaisquer estudos. Deveria bastar sermos humanos e reconhecermos essa mesma humanidade em qualquer outra pessoa. Todos os seres humanos desejam ser felizes. E embora existam comportamentos desviantes, que geralmente são distribuídos de forma igualitária por todas as populações, a grande maioria dos seres humanos não deseja o mal dos outros, pelo contrário, deseja tratar os outros bem. A nossa espécie evoluiu em comunidades cooperantes e não num ambiente fictício que tantas vezes nos tentam vender como natural, em que é cada um por si, todos contra todos e salve-se quem puder, assim ao jeito do capitalismo.

Os portugueses de gema afirmam-se, na sua maioria, como católicos. Ora nessa, como em muitas outras religiões, apregoa-se o amor ao próximo.

É muito triste verificar que este tipo de propaganda parte do medo e do ódio ao outro. Ao menos que sejamos capazes de o identificar com toda a clareza, que sejamos capazes de limpar esse medo e esse ódio do nosso modo de pensar, de sentir e de agir. Se alguém considera que Portugal precisa de uma limpeza, talvez fosse bom começar por aí, cá por dentro.

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