quinta-feira, 30 de abril de 2026

Sobre lamber botas, também no primeiro de Maio...

Motivados pela modorra que geralmente não distingue o primeiro dia de Maio de qualquer outro dia sem tourada na ilha Terceira, pela vontade de assinalar a efeméride, pela vontade de chocar quem nos visse com uma demonstração da parvoíce por redução ao absurdo, e sempre pela ridícula motivação romântica da crença de que esse choque pode levantar algumas questões na cabeça de cada um, o Jossy e eu lembrámo-nos, de criar uma instalação com pernas, braços e gargantas, em forma de manifestação popular a favor dos ricos, dos poderosos, da guerra e da miséria. A Marília ajudou-nos aumentando a contagem de pernas, braços e gargantas, dando literalmente o seu corpo ao manifesto. E foi assim que numa tarde límpida, sem nesga de nevoeiro, de 2018, saímos à rua bem vestidos e envergando os mais lindos cartazes que já tive oportunidade de ver em manifestações populares. De resto, nós éramos também os mais lindos manifestantes!

Vem-me isto agora à memória, não apenas por causa do primeiro de Maio que está mesmo aí à porta, mas por causa deste cartaz em específico, criado pelo Jossy, que dizia, e ainda diz, "sim à guerra, é bom p'ra base".

A beleza desse cartaz é que contém em meia dúzia de palavras uma contradição, que apesar de evidente, ninguém parece querer assumir e muito menos trazer às luzes da ribalta. Na ilha Terceira, a base dos americanos é vista como um toucinho do céu, uma coisa que nos aconteceu por motivos muito para lá do nosso controlo, e que nos trouxe um conjunto de benefícios difíceis de mensurar. Este "nos" é um bocado forçado. Eu nasci e vivi a maior parte da minha vida no Porto e vivo na Terceira há pouco mais de dez anos. Para mim a base trouxe-me interrogações muito mais do que chocolates. Mas naturalmente não sou indiferente aos relatos de quem cá vivia há muitas décadas, num tempo em que as comunicações e os transportes não eram tão acessíveis como hoje, em que não só a economia da ilha mas toda a sua sociedade seria mais auto-suficiente, mas também mais fechada. Imagino a grande janela para uma outra realidade que a presença dos americanos na base seria.

Semáforos, ténis, golfe, ténis de mesa, futebol, táxis, transacções de terrenos, alugueres de casas, rádio, gamas, mapas, panas, frizas, culas e alvarozes, música, jazz, emancipação das mulheres, jeans, roupas, luz eléctrica, escolas, máquinas para hospitais, brinquedos, acolhimento de pobres e desalojados dos sismos, coca-cola, ketchup, televisão, língua inglesa, american dream... Os americanos são nossos amigos. Isso tudo, sem ironia, claro que sim!

Todavia, nestes relatos que me foram chegando e que continuam recorrentes nunca se menciona a razão para os americanos alguma vez terem poisado os pés nesta ilha, apesar dessa razão ser evidente e conhecida de todos: a manutenção da paz e da ordem global. Vá... fui propositadamente provocador. "Manutenção de paz" é o que chamamos à guerra feita por nós, os bons. Do mesmo modo que os ministros se chamam "da defesa", porque os bons só defendem, e se atacam é só porque o ataque é a melhor defesa, nunca atiram a primeira pedra e só largam bombas quando são provocados, bombas de democracia.

É a guerra que trouxe e mantém os americanos na ilha Terceira. Chame-se-lhe o que se quiser. Sem guerra, os norte-americanos não teriam sarapintado todo o planeta e também esta ilha com bases militares suas.

As bases militares norte-americanas funcionam quase como embaixadas dos Estados Unidos da América, como extensões do seu território em países terceiros. Embora no papel o território continue a ser português e nele continuem a vigorar as leis portuguesas, de facto os americanos fazem nele o que bem lhes apetece. E há portugueses que gostam disso assim, pois "se eu pago a renda da minha casa, tenho direito a meter e a fazer lá dentro o que me apetece". Mas a passagem a rolo compressor sobre a jurisdição não se extingue aí. Os países que têm no seu território bases militares norte-americanas, não são países soberanos. Não sou eu que o afirmo, sãopessoas com mais competência e conhecimento desses assuntos do que qualquer umde nós. De minha autoria, acrescento que nenhum país é verdadeiramente soberano no mundo actual, com excepção das raras potências que todos estamos fartos de conhecer, as quais manipulam os restantes a seu bel-prazer. De resto, se ainda houver dúvidas, esqueçam-se por um instante os EUA, a Rússia, a China, e lembremo-nos do que nós fizemos à nossa própria soberania dentro da União Europeia, sem sabermos o que estávamos a fazer, porque quem o fez foram os nossos representantes, sem nos consultarem directamente sobre o assunto. Ou será que ainda não repararam que para o Estado português taxar as empresas que fazem lucros tremendos agora com a guerra no Irão tem de pedir licença à União Europeia?

Regressemos ao paradoxo. Há alguns terceirenses que acreditam na narrativa da manutenção da paz e da ordem. Há outros que admitindo a inevitabilidade das guerras, preferem estar do lado dos norte-americanos, sejam eles considerados os bons ou os menos maus. Mas de uma forma ou de outra, se lhes perguntarmos se preferem guerra ou paz, acredito que quase todos responderão que preferem paz e que gostariam que não houvesse guerras no mundo. São contra a guerra, são pela paz, mas não conseguem esquecer os benefícios da base das Lajes, mesmo sabendo que uma coisa está ligada à outra. E, sobre esta contradição: silêncio!

As décadas passaram. Entre o medo infantil do "osrussos vêm aí!" e a euforia infantil do "que bom que os americanos já cá estão!", a guerra deixou de ser tão fria para passar a ser mais electrónica, inteligente e artificial, ainda que nada virtual. A propaganda e o endoutrinamento evoluíram de tal modo que o trabalho de mascarar os propósitos de uma guerra se tornou obsoleto. Chegamos a este ponto em que o presidente do país mais poderoso do mundo em termos bélicos diz abertamente que faz o que lhe apetece em toda a parte, e faz mesmo, e disso não resulta praticamente nada. Todos têm as suas razões para não fazerem nada, começando pela constatação, para eles evidente, de que nada há a ser feito.

A base das Lajes passa assim, com a conivência da hierarquia portuguesa toda de alto a baixo, desde os trabalhadores que lá vão ganhar o seu até ao primeiro-ministro que apoia e ao presidente da república que se cala, a ser ponto de passagem e de reabastecimento de pessoal e equipamento que serve noutras paragens para exterminar populações em genocídios transmitidos em directo e aniquilar civilizações porque algum empreendedor teve uma nova e genial ideia de negócio para aqueles territórios e recursos. Tudo às claras, escancaradamente, sem filtros, sem papas na língua, sem subterfúgios.

No início de Março deste ano alguns manifestantes juntaram-se na entrada da base dos americanos, que afinal é portuguesa, para fazerem uma composição subordinada ao tema "guerra de Trump fora dos Açores", ou vice-versa. Os tempos são tais que eram tantos os jornalistas como os manifestantes. Razões para serem poucos os manifestantes não faltam, começando pelo facto de as manifestações não estarem na moda na ilha Terceira (alguma vez estiveram?), pela descrença nos efeitos práticos que delas possam resultar e pelo facto de ter sido um dia cinzento e molhado. Mas as razões não se ficam por aí.

Continuo a acreditar que a maioria dos terceirenses é contra as guerras, no abstracto. No concreto, porém, alguns são levados na cantiga das guerras cirúrgicas, preventivas, defensivas, dos bons contra os maus, e acabam por ser coniventes com elas, mesmo que não as apoiem explicitamente. Outros há, embora eu queira acreditar que menos, que serão apoiantes do Trump e de tudo o que caprichosa e estapafurdicamente lhe possa ocorrer.


No entanto, uma razão muito importante, não só para o pequeno número de manifestantes contra a guerra de Trump na entrada da base das Lajes, mas da contramanifestação que surgiu como reacção (são assim os reaccionários) nas redes sociais e nos cafés da esquina, incluindo a esquina mesmo ao lado da manifestação, terá sido o sentir aquela manifestação como sendo contra a existência da própria base militar. Ora, atentar contra a base é, na cabeça de muitos terceirenses, atentar contra a tal janela para o mundo, contra uma cultura superior, contra a protecção dos mais poderosos, contra o rendimento que daí vem para os nossos bolsos, contra o nosso imaginário recheado de hambúrgueres, cinema, liberdade, gelados, jazz, penduricalhos, chocolates e Top Gun. Na cabeça de muitos terceirenses, atentar contra os poderosos e bons norte-americanos é equivalente a ser conivente com os maus e perfilar ideologias de autoritarismos, falta de liberdade e campos de concentração.

No fundo, continuamos a ser tão pequeninos como era o povo medieval relativamente aos senhores feudais, às ordens religiosas, às ordens militares e aos reis: escolhemos ser recursos (mais ou menos humanos) de uns e não de outros, preferindo a vassalagem a uns e esperando deles a sua protecção contra os outros. Mentira! Somos bem mais pequenos: porque o povo medieval não tinha as alternativas que nós agora temos! Contudo, não mordemos a mão que nos dá de comer, não cuspimos no prato em que comemos, aceitamos o castigo de quem nos dá o pão, não olhamos o dente ao cavalo que nos dão, nem que seja só na tela, a passo lento rumo ao pôr-do-sol, cowboy, chapéu e cigarro no canto da boca... Somos bem comportados. E esses manifestantes deviam era ir para casa deles tratar dos seus problemas, em vez de virem para a rua colocar em causa a ordem estabelecida, que tanto custou a criar!


Vivemos assim, muitos de nós. Tantos! Vergamos os nossos princípios todos, perdemo-los todos pelo caminho, construímos outros depois para justificar o caminho que acabámos por escolher ou que acabou por nos acontecer. Vendemo-nos. Tanto! E justificamo-nos tanto ou ainda mais. Somos coniventes com os nossos chefes na medida em que julgamos que os chefes alternativos são piores. E se recebermos no Natal uma garrafa de vinho, então até nos esticamos no chão para que limpem os sapatos no nosso lombo. E ensinamos aos nossos filhos que assim é que é, porque assim poderemos receber garrafas de vinho no Natal.

Depois, quando surgem sindicatos a defender os interesses dos trabalhadores, olhamos para esses sindicatos como arruaceiros, gente que morde a mão que lhe dá de comer, que não quer trabalhar... e olhamos para os respectivos trabalhadores como privilegiados, que deviam vir trabalhar nas mesmas condições degradantes em que nós trabalhamos, para verem o que é bom, e para deixarem de estar sempre a fazer queixa e a reivindicar mais benefícios.

Depois, quando surgem partidos políticos que denunciam os verdadeiramente privilegiados, aqueles que recebem milhões sem sequer colocarem os pés nas empresas, que têm o poder de influenciar as políticas económicas dos países, acusam-nos de serem a favor dos russos, como quem os acusa de serem a favor dos tais autoritarismos que minam as liberdades individuais, porque nas suas cabeças o mundo só contém dois lados, e o lado dos outros, dos maus, ficou congelado antes da queda do muro de Berlim, sem sequer terem reparado que afinal os outros agora são iguais a nós.

Depois, quando surgem negociações sobre leis laborais, que existem para limitar o evidente poderio dos empregadores sobre os empregados, negociações essas que ameaçam dar ainda mais poder a quem já o tem, dando ainda menos aos trabalhadores, os trabalhadores ficam calados, porque se sentem entalados entre a escolha do senhor feudal que os há-de proteger, o não morder a mão que lhes dá de comer, o não apoiar os maus que querem nacionalizar tudo, e o serem enrabados sem lubrificante.

Entretanto, é quase certo que durante toda a sua vida beneficiaram, directa ou indirectamente, de subsídios de doença, de invalidez, de reformas, de folgas semanais, de um máximo de oito horas de trabalho por dia, de férias, de subsídio de férias e de Natal, de licenças de maternidade e paternidade, de formação contínua. Coisas que alguns manifestantes, mordendo a mão que lhes dá de comer, e pagando às vezes com a própria vida, foram para a rua reivindicar há muito tempo atrás. Quem sabe em dias de chuva?

O feriado do primeiro de Maio devia, na cabeça desses que gostam de fazer divisões entre o nós e os outros, entre os trabalhadores que tal como eles são amigos do patrão e os restantes, ser o dia em que se presta homenagem àquelas e àqueles que lutaram para conseguir uma distribuição mais equitativa do produto da actividade económica entre quem o produz e quem tem a propriedade, mesmo que não produza. Excluídos da homenagem deviam ficar os que não fizeram por isso, os que se acagaçaram, os que eram a favor da ordem instituída.

Mas não. O dia do trabalhador é uma homenagem a todos os trabalhadores, sem excepção. Os que se chegaram à frente deram de si para todos os outros.

Também os que querem Trump e a sua guerra fora dos Açores e do planeta, querem a paz não apenas para si, mas para todos.


E isto devia fazer pensar e encher muitas pessoas de vergonha.

Deixo-vos mais alguns cartazes dessa manifestação/instalação artística ambulante do primeiro de Maio de 2018 em Angra do Heroísmo.






 

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