quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Brecht - 4

Um poema de que tive conhecimento numa Festa do Avante de há poucos anos e que me acertou em cheio. Isto de se ser carrancudo tem que se lhe diga. E ainda muito mais tem a atitude das pessoas que, perante a carranca, dizem "deixa lá isso" ou "é tão fácil ser feliz" ou sentem náusea ou simplesmente a evitam.


(foto tirada sem licença daqui)

Maus tempos para o lirismo

Bem o sei: só o homem feliz
é amado. Dá gosto ouvir
a sua voz. E o seu rosto é belo.

A árvore estiolada do pátio
Denuncia a terra má mas
Os que passam só o aborto vêem
- E têm razão.

As verdes barcas e as belas velas dos estreitos
Não as vejo - vejo apenas
A rota rede dos que pescam.
Por que será que só falo
Da já caquética (!) quarentona desta casa?
Os seios das raparigas
Têm o calor de sempre.

Uma rima no meu poema
Seria quase uma insolência.

Dentro de mim se enfrentam
A exaltação da beleza da macieira em flor
E a náusea dos discursos do pintor.*
Mas só a náusea
Me faz escrever.



* O texto alemão nesta e noutras passagens diz "pintor" com ironia, isto é, "pintor de paredes". Como se sabe, antes até de se dedicar a outras artes, e aí com o sucesso que conhecemos, Hitler quis fazer carreira na pintura. (Nota do Tradutor)

Tradução de Arnaldo Saraiva



Para uma tradução alternativa ver por exemplo aqui.

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