terça-feira, 27 de outubro de 2026

Crise no mercado da habitação?...

 
Uma nota sobre a actual tentativa de endoutrinação acerca do mercado da habitação.
 
Hoje, muitos doutos senhores nos explicam que há uma crise na oferta no mercado da habitação, e que essa crise não é de agora. Muitos desses doutos senhores aprenderam economia na mesma escola que eu, ou noutras similiares, mas não tiveram a capacidade de abrir a pestana para além do calhamaço de microeconomia (acreditando na sua boa-fé...). Nele aprenderam sobre a oferta e a procura, quantificadas e apresentadas como leis. Aprenderam também que os mercados desregulados (eles chamam-lhes "livres" e por isso se dizem "liberais") são imbatíveis no bem-estar que proporcionam à sociedade como um todo. Repararam no "como um todo"?... O importante é estarmos do lado certo, como o lado do pessoal do governo que é dono de sei lá quantas casas.
 
Muitos aprenderam economia. Mas muitos outros, igualmente doutos, nem isso. Nem por isso deixam de nos explicar sobre a crise na oferta da habitação.
 
Quando se passa toda a vida a martelar mercados, todas as cabeças parecem pregos, e todas as variações de preços passam a ser explicadas como um desajuste entre a oferta e a procura.
 
O que, para a liberalidade desses senhores doutos, não deixa de ser espantoso, uma vez que eles também aprenderam, e passaram a ensinar, que os mercados fazem tudo sozinhos e que tudo é melhor do que tentarmos intervir no seu funcionamento. É espantoso, portanto, ouvir alguns deles a falar nos dias que correm em falhas do mercado. Será que estarão dispostos a admitir, finalmente, que nem sempre é bom deixar as coisas funcionarem de forma desregulada, a ver o que dá? Bom, veremos no que dá. Mas não me parece que vá dar em nada. Deve ter sido só um "glitch in the matrix".
 
A endoutrinação é esta de insistir que o problema dos preços altos das habitações é a falta de construção de habitações novas durante os últimos anos. É claro que os pequeninos senhores doutos e económicos, os microeconómicos, não poderiam explicar a subida dos preços de outra forma: para os preços subirem a procura tem de aumentar mais do que a oferta, ou a oferta tem de diminuir mais que a procura. E já está!
 
Ora toda a gente sabe que a procura aumentou imenso, porque toda a gente sabe que há imigrantes a viver em regime de cinco por cada quarto. Toda a gente sabe que o que devia ter sido feito era construir mais casas nas cidades, sobretudo nas zonas dos cinco por quarto. Como isso não aconteceu, os preços subiram!
 
Eu não sei se toda a gente sabe disso, mas se sabe, sabe mal. Sabe mesmo muito mal.
 
Nos últimos anos o parque habitacional português aumentou. Pouco, mas aumentou. Durante o mesmo período, a população portuguesa aumentou. Pouco, mas aumentou. No global, a proporção do número de pessoas por habitação manteve-se quase inalterado. Se não acreditam, informem-se, que estas estatísticas são bem fáceis de encontrar, em vez de emprenharem pelos ouvidos.
 
Portanto, se a procura aumentou, não foi necessariamente ou significativamente por haver mais pessoas à procura de casa para habitar. É certo que o número de pessoas por agregado familiar tem vindo a descer - temos vindo a viver cada vez mais sozinhos - mas a variação nos últimos anos é novamente insignificante. De resto, o número de habitações novas construídas (o que não falta são guindastes nas paisagens) seria plenamente suficiente para suprir essa evolução, se isso alguma vez fosse necessário. Mas nem isso seria necessário, e já que estamos numa de desmontar tretas, desmontemos mais essa treta. Andando pelas ruas das cidades nos últimos anos não seria difícil de encontrar casas devolutas, algumas com pinturas afirmando "tanta casa sem gente e tanta gente sem casa". Ao que eu acrescento: tanta gente com muitas casas. Portanto, em boa verdade, nunca faltaram, nem faltam, casas suficientes para albergar todas as famílias portuguesas. Novamente, se não acreditam, informem-se.
 
Mas vamos lá desmontar a parvalheira com mais fundamento.
 
Em primeiro lugar: o espaço não é infindo. Os preços, como todos sabemos, subiram e sobem mais nos centros das cidades. Qual é a sugestão então que os homens microeconómicos dão? Transformar Alfama em arranha-céus? Construir na Avenida dos Aliados?... Os fenómenos de gentrificação dos centros das cidades já estão estudados desde há muito, e a sua solução não passa, ao contrário do que defendem os microeconómicos, por encher os centros das cidades de guindastes. A realidade demonstra isso mesmo.
 
Em segundo lugar: o mercado dos imóveis é muitíssimo apetecível para os capitalistas.
 
Tenho de explicar isto com um pouco mais de vagar, porque estou cansado de ver pessoas a usar o termo capitalismo de uma forma vaga para nomear qualquer coisa nas economias de mercado que não funciona bem, a começar pelo coração dos magnatas.
 
Um sistema económico capitalista caracteriza-se por várias coisas, como por exemplo pela preservação da propriedade privada ilimitada, mas também pela existência de rendimentos de capital. A ideia é simples: se eu pretender ganhar dinheiro, ou vou trabalhar, e recebo em troca um salário, ou ponho o dinheiro a render, e recebo um rendimento do dinheiro, ou rendimento de capital. Para além das mais-valias que podem ser feitas comprando e vendendo coisas, podemos investir em empresas, esperando obter lucros, podemos arrendar coisas, recebendo rendas, e podemos emprestar o dinheiro e receber juros.
 
Num sistema capitalista, não existe igualdade de oportunidades. As pessoas partem logo à partida com diferenças nos meios que possuem para conseguir fazer dinheiro. Algumas nasceram em berços de ouro e podem aplicar o dinheiro herdado em vida ou na morte dos pais. Outros não herdaram dinheiro algum e terão de vender o corpo, trabalhando, para conseguirem algum rendimento. Outros não nasceram sequer com um bom físico ou um bom intelecto, e esses serão ostracizados a vida toda.
 
Apesar de isto ter a obrigação de ser evidente para todos nós, as pessoas parece que se recusam a aceitar a realidade como ela é, e preferem acreditar no sonho do homem (ou da mulher... mas mais geralmente do homem) que veio de baixo, e sem nada construiu uma fortuna, com muito trabalho. Esse sonho é uma total estupidez, que também se desmonta em duas penadas (ora façam lá as contas de quanto é que alguém tem de receber de salário para conseguir ficar rico), mas é de tal forma veiculado na propaganda do sistema e com tal pompa que a malta prefere viver nessa ilusão, tal como gosta de ver passar o carro da rainha mesmo quando vive na miséria.
 
O mercado dos imóveis permite comprar e vender imóveis. E, para quem os tem, permite arrendá-los. Assim, este mercado dá origem a dois rendimentos de capital distintos: mais-valias, quando se vende um imóvel por um preço superior ao de compra; e rendas, quando se arrenda.
 
Mas o que é que isso tem de especial? Também o mercado do ouro permite fazer isso. Eu posso comprar e vender colares de ouro, e posso arrendá-los, e no processo vou "pondo o meu dinheiro a trabalhar por mim", que é uma expressão de péssimo gosto, que demonstra como as pessoas aceitam de bom grado a ideia do capitalismo e dos rendimentos de capital fáceis, enquanto outros têm de se matar a trabalhar para conseguir sobreviver.
 
Quem diz o mercado do ouro, onde efectivamente os capitalistas também investem, diz outro mercado qualquer. Só que ao contrário do mercado do ouro ou de outro mercado qualquer, o mercado dos imóveis tem algumas particularidades que o tornam especialmente apetecível. Essencialmente, ele é pouco volátil e é garantido. A procura da habitações nunca irá variar muito rapidamente, nem a oferta de habitações. Isso significa que todas as tendências são facilmente antecipadas e o risco torna-se muito pequeno. Mas, para além disso, os imóveis, não apenas os edifícios, mas também os terrenos, são provavelmente as melhores reservas de valor que existem: serão sempre um recurso escasso, serão sempre cobiçados, terão sempre utilidade. Os únicos problemas que os investidores neste mercado têm são os custos de manutenção e um tempo potencialmente longo entre a decisão de venda e a sua concretização. De resto, é só benefícios!
 
Não admira, portanto, que todos os membros do governo possuam muitos imóveis. Não admira, na verdade, que qualquer pessoa com algum dinheiro neste país possua uma data de imóveis. É seguro, e dá dinheiro a rodos!
 
Porque é que isto é importante para compreender o aumento dos preços no mercado da habitação?
 
Nós levamos com a ladainha da oferta e da procura sistematicamente para explicar variações nos preços. Devíamos ter mais juízo do que acreditar nessa ladainha. Veja-se o que aconteceu recentemente com o preço do petróleo ou do gás: ele continua a ser extraído da terra, nós continuamos a consumi-lo, mas o seu preço anda por aí a vaguear. E isso, só por si, já nos devia ter feito pensar que não é só uma questão de oferta e procura, pelo menos não na forma com que aparece na ladainha.
 
Imaginemos que, por algum estranho acaso, nenhum dono de habitação quer vender. Quem quer comprar, não encontra a quem. Neste cenário, os mais dotados de capital, que podem e querem insistir na compra, oferecerão fortunas. Até que há um dono de uma habitação que cede, e vende a casa por uma fortuna. O que acontece é que o preço das casas no mercado, por causa dessa compra, passa a ser uma fortuna. A procura aumentou? A oferta diminuiu? O que é que se quer dizer quando se fala de procura e oferta?
 
Se o mercado dos imóveis é muito apetecível para quem tem dinheiro, é aí que irão investir. E irão querer beneficiar do seu investimento: aumentando posteriormente o preço de venda, ou arrendando ao máximo que conseguirem. O dinheiro que fizerem num lado, irão investi-lo no outro. Cedo o mercado estará pejado de gente que tem muitos imóveis a vender ou arrendar.
 
Se você possuir uma casa, irá perder a oportunidade de fazer dinheiro com ela se essa oportunidade existir?
 
E é neste contexto que surge o que os homens microeconómicos chamariam de "agente": a gente. Nós. Pessoas como nós, que precisam de uma casa para viver, e não a têm. Que precisam de comprar, se houver uma boa oportunidade, ou então precisam de arrendar, se o ordenado permitir.
 
Qual vos parece ser o balanço de poderes entre estes agentes que precisam de casa para viver e a malta endinheirada que investe para conseguir fazer ainda mais? A sério. Digam lá. Acham que o capitalista vai baixar o preço porque percebe que o comprador ou arrendatário precisa mesmo de casa e não pode pagar mais?
 
O que é que vos parece?...
 
Os preços da habitação subiram por causa de uma "crise na oferta"! Sim, sim! Não foi porque os donos das casas quiseram comprar mais casas. Não foi porque os donos das casas quiserem ganhar dinheiro vendendo-as mais caras. Não foi porque quiserem ganhar dinheiro arrendando-as mais caras. Não foi porque os donos das casas podem esperar para vender mais tarde por um preço mais alto. Não foi por eles se estarem a marimbar para as necessidades de quem precisa de casa. É claro que não foi por nada disso! Isso é apenas o mercado! É assim que os mercados funcionam, e este é apenas mais um deles! A culpa é da falta dos guindastes!
 
Os homens microeconómicos só vão ter dificuldade em explicar porque é que o mercado não funcionou, nomeadamente porque é que os magnatas não começaram todos a construir habitação social nos centros das cidades quando o preço das casas subiu. Mas enfim, talvez isso seja fácil de explicar: foi o "socialismo".

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