sexta-feira, 12 de maio de 2023

Não me desculpo!

(Quino)

Bem sei que é uma questão de estilo

permanecer estóico

perante a agressão.

E com olho por olho

ficamos todos cegos.

Mas eu não me desculpo

por me exaltar

contra a violência

e o violador.

Ou o ónus agora recai sobre a vítima?

De explicar ao agressor

a violência do seu acto?

Não peço desculpa

por ser um homem

de sangue quente

e apurado sentido

de dignidade.

Não me desculpo

por lutar por essa dignidade

para mim

e para todos.

(Quino)


Consequências da guerra...

 Caro diário,

Estou muito preocupado. Desde que começou a invasão do Iraque pelos Estados Unidos que o anti-americanismo tem crescido de forma galopante. Ontem mesmo demitiram um professor universitário só porque ele liderava o grupo de estudos norte-americanos da universidade e tinha sugerido a leitura de autores que enalteciam os valores dos Estados Unidos da América!... Têm acontecido várias manifestações em frente à sede da Associação de Amizade Portugal-Estados Unidos e os membros da associação já nem sequer aparecem lá. Na verdade, têm andado como que exilados, com medo de represálias. E com razão!... Tem sido terrível... Nas escolas já não ensinam os autores norte-americanos. Há mesmo quem se insurja contra o ensino do inglês!... Muitos cidadãos dos Estados Unidos foram expatriados... E acontecem coisas semelhantes por todo o mundo! Nem os atletas dos Estados Unidos são agora admitidos em encontros desportivos internacionais!... Não ajuda nada o modo como a comunicação social tem tratado o assunto. Os políticos dos países europeus, em vez de adoptarem uma posição neutra e em vez de fazerem tudo o que está ao seu alcance para sentar as duas partes em conflito à mesa das negociações e, de algum modo, encontrar uma solução para a paz, em vez disso acharam que o melhor a fazer é enviar todo o tipo de armas e apoio ao exército do Iraque. É claro que os Estados Unidos vão considerar isso uma afronta e vão responder com uma intensificação da guerra... não sei como é que as pessoas não vêem isso! E entretanto, entre o líder iraquiano, as bombas dos Estados Unidos da América e as armas dos países europeus, quem mais vai sofrendo é precisamente a população iraquiana... Mas falava-te da comunicação social. A questão é que existe esta onda de estarmos todos do lado iraquiano, porque eles é que foram invadidos, e então ninguém sequer considera ético cobrir a guerra do lado dos Estados Unidos. Todos os jornalistas estão no Iraque e a única coisa que é reportada são os estragos causados pelos Estados Unidos. Lembras-te como as pessoas, embaladas pelo sonho americano, hasteavam bandeiras dos Estados Unidos em mastros nas próprias casas e vestiam roupas com as mesmas bandeiras?... Isso agora é tudo passado. Já ninguém o faz. Todos têm medo das represálias... Até eu tenho medo de escrever isto! Mas, bolas, um país tão grande como os Estados Unidos, com tanta gente, com toda a sua história, com todos os contributos válidos que deu para o mundo... É claro que há lá gente boa e gente má. Mas isso é como em todos os sítios do mundo, como no Iraque, como aqui. Agora esta onda anti-americana, esta censura, esta propaganda... E toda a gente aceita, ninguém se revolta! Estou muito preocupado. Estou consternado. Não sei o que vai ter de acontecer para as pessoas voltarem a ver seres humanos nas outras pessoas...

quinta-feira, 20 de abril de 2023

Excessivamente insuficiente

Amei-te demais.
Quis para ti
terreno fértil
onde florescesses.
Quis de ti
o amor da vida
e de ti.
Mas enalteceste
defeitos próprios
e alheios,
e qualquer terra é fértil
ou infértil
quando se confunde
o florescer.

Amei-te de menos.
Simplesmente não correspondi
e evitei o chão seguro
que me estendeste
para que eu pudesse ser
apenas eu
e tu.

Amei-te demais.
Fiz-te acreditar no futuro.
E eu era só aquilo
e nada mais.

Amei-te de menos.
Quis para ti outro futuro
para além daquilo,
um pouco mais.

Tudo isso,
mais ou menos.


AWF, 24 de Março de 2023, algures a caminho de não sei quê.

terça-feira, 28 de março de 2023

Democracia a jacto

Simultaneamente farto de esperar sentado pelo fim da viagem e acreditando galgar as modernices e o espírito do tempo, proponho o inovador avião sufragista. Cada passageiro terá ao seu dispor um botão que poderá premir assim que sinta que já voou bastante. E para adicionar um elemento de imprevisibilidade à coisa, que assim é que é divertido, uma roleta ditará se a decisão de parar de voar é dependente de maioria simples, maioria qualificada de dois terços ou unanimidade. Assim como uma nave dirigida por quem não faz ideia, mas tem boas intenções e procura a maximização da satisfação instantânea de todos. Lembra-me algo!... Afinal a verdade é relativa e a democracia é a nato, perdão, a jacto!

AWF, 23 de Março de 2023, algures a caminho de sei lá quê.

quarta-feira, 16 de novembro de 2022

Crítica do sentido do míssil...

 

Hoje acordei com o míssil russo, que afinal parece ser ucraniano, caído na Polónia.

https://www.jornaldenegocios.pt/economia/europa/invasao-da-ucrania/detalhe/missil-russo-atinge-polonia-duas-pessoas-morreram

https://sicnoticias.pt/especiais/guerra-russia-ucrania/2022-11-16-Zelensky-insiste-que-missil-que-caiu-na-Polonia-e-russo-80f8d250

A mim não me interessa que seja russo ou ucraniano. O que é que isso significa, afinal? Que foi produzido, transportado, comprado e accionado por pessoas que nasceram ou vivem num determinado território do planeta e falam uma determinada língua? Que diferença me faz que falem ucraniano ou russo, se o míssil não deixa de ser um míssil, e se quem o lança o faz para matar e assim se faz besta? Quem é que tem mísseis e os lança por aí quando está mal disposto? O João? A Maria? Eu? Tu?... Quem é que se lembra de os produzir, para ganhar uma massas ou para quando der jeito? Tu? Eu? A Maria? O João?... Onde está aí a democracia?...

Levam-nos a acreditar que o míssil e o submarino são importantes para a nossa defesa. Nós acreditamos, sem nos lembrarmos que do outro lado, outros farão exactamente o mesmo, e também os ministros da guerra deles, tal como os nossos, se chamarão ministros da defesa. E sim, temos de concordar que são ministros da defesa… mas talvez devamos reflectir um segundo que seja sobre aquilo que estes senhores engravatados estarão realmente a defender. Ou então não acreditamos que os mísseis são importantes para a nossa defesa, mas como nos sentimos impotentes, nada fazemos. E assim, munidos do nosso silêncio ou anuência, os arautos da democracia à moda deles vão-nos aos bolsos, tirar o que amealhámos através do nosso trabalho, e zás, mísseis e submarinos.

E depois um deles, em vez de matar bem matadinhos os matadores inimigos, os maus, vai-se estatelar num tractor num campo qualquer lá para a raia da Polónia! O condutor do tractor certamente também não se deve ter importado muito se ele vinha de Este ou de Oeste ou de qualquer outro ponto cardinal. Caiu-lhe em cima, e ele foi-se, feito dano colateral da defesa da democracia à moda deles, sejam eles os bons ou os maus.

Interessa-me muito, preocupa-me sim, que quer sejam lançados ou não, quer atinjam os maus ou não, existam mísseis, sejam produzidos, sejam vendidos e comprados e utilizados ou simplesmente armazenados por gente engravatada que, não apenas esconde os benefícios próprios que retira desse negócio, mas ainda os mascara e propala como sendo o nosso próprio benefício.

Preocupa-me ainda mais que existam empresas da propaganda, aquelas a que alguns chamam de comunicação social, mesmo que sejam cada vez mais associais e que minem, directa e indirectamente, e cada vez mais, a comunicação, que existam tais empresas a darem-nos uma determinada visão do mundo, despudoradamente enviesada.

Se ninguém souber ao certo a história do míssil, invente-se então que foram os maus. E mesmo que depois se descubra que o míssil era dos bons, afirme-se que a responsabilidade continua a ser dos maus, porque, afinal, sem maus não eram necessários mísseis. Se se sabe ou não se sabe, não interessa. O que interessa é vender uma notícia. E como a notícia não é inócua, logo se faz notícia sobre a reacção dos senhores engravatados à notícia original.

Preocupa-me ainda mais que um banho de informação de qualidade não aferida não signifique, não implique, não gere, públicos de raciocínio lógico, ponderado, consequente. Pelo contrário, públicos de raciocínios ilógicos, imponderados e inconsequentes, ou de consequências negativas, até para si próprios, julgam-se senhores da razão, do conhecimento e do discernimento precisamente porque nadam num oceano de informação. Se a informação é desconexa, isso só a torna mais adequada!

--

Já lá vão meses de guerra. Já chega? Ou será que ainda nos vamos manter agarrados à estratégia naïve, para não dizer mesmo inconsciente, para não dizer mesmo assassina, do “nós temos razão, só terminaremos a guerra quando os outros nos derem a razão, ou quando nos pudermos ver livres deles”?

Montaram para nós, com imensas máquinas de propaganda, as tais empresas da tal comunicação, ideias belas de democracias, mesmo que à moda deles, de princípios que não são implementados a não ser no mundo cor-de-rosa que criámos à sua conta. Incluíram, também para nós, um determinado território e as suas gentes, até então desconsiderados, na geografia da nossa democracia cor-de-rosa. Mostraram-nos como os maus são maus e colocaram isso tudo em causa. Sentimo-nos atingidos nas nossas ideias, na defesa, sempre a defesa, do nosso mundo cor-de-rosa. Armámos logo campanhas de recolha de bens do mesmo modo que fazemos para os animais domésticos abandonados, porque é assim que vemos a nossa participação na democracia à moda deles, que nós julgamos ser à nossa moda. Aceitámos sem pestanejar as sanções impostas contra os maus, primeiro inconscientes do impacto que teriam sobre nós mesmos, depois com orgulho do nosso empenho, do nosso sacrifício, em defesa dos valores proclamados, mesmo que tantas vezes esquecidos, pela nossa democracia. Agora papámos os preços e os juros altos, obra e graça de um sistema monetário maquiavélico supostamente construído para defesa dos nossos interesses económicos, e vemo-nos a braços com dificuldades económicas, mas continuamos a doar parte do nosso trabalho árduo para que o chefe dos bons, lá nessa terra distante, possa comprar mais armas aos outros chefes, que não têm nada a ver com isso, dizem eles, e assim possa mostrar aos maus o quanto eles estão errados. Benditos mísseis!...

Já chega de parvoíce?... Há gente a sofrer e a morrer… Já chega?

Vamos deixar de ser totós? Vamos perceber porque é que há gente a produzir mísseis, a vendê-los, a comprá-los, a armazená-los e a lançá-los? Vamos perceber porque é que existe esta pressão tão grande, de um lado e de outro, para não parar com a guerra? Vamos fazer um esforçozito para deixar de papar o que nos dá diariamente o grande Ministério da Verdade?

Enfim, deixo-vos com o texto do José Goulão, que já é velho de Março deste ano, mas que infelizmente é tão actual.

https://www.abrilabril.pt/internacional/torquemadas-do-pensamento

E um dia, quando esta guerra acabar, vamos fazer um esforçozito para olharmos por nós abaixo e vermos, por entre as instituições do nosso país, e outras em que o nosso país se insere ou com as quais alinha, como as da União Europeia, da ONU, dos Estados Unidos da América, de Israel e outros países, as atrocidades nas quais estivemos e ainda estamos envolvidos? Vamos fazer um esforçozito para perceber quão deficiente é esta democracia que nos venderam? E o quanto do nosso trabalho canalizam esses senhores engravatados na defesa dos interesses que são só deles e não são nossos? Vamos emancipar-nos um bocadito dos oligarcas, seja qual for o território onde eles nasceram ou onde vivem, e seja qual for a língua que falem? Pode ser? Ou será pedir muito?

quinta-feira, 18 de março de 2021

Um parafuso a mais...

 

tenho um sortido

de parafusos contorcidos

apanhados por aí

nos caminhos que percorro

à velocidade que consigo

com um par de rodas

e um par de pernas

a caminho do antigo.


parafusos,

filetes revolvidos,

voltas sulcadas nos fusos

de vidas que dão voltas...

mas são rectilíneas!


encontro-os por aí

caídos no chão duro

que nos ampara a todos.

base firme

sobre a qual ora construímos

as mais frutíferas paixões

ora as desmioladas opiniões

que ornamentam os tolos.


à velocidade que consigo

sigo à margem dos que vão

fugidos daqui

futuros de si

de chaves na mão.


só eu sei que

quando lá chegam

não chegam apenas mais leves

mas também menos conexos.

afinal é para permitir

raciocínios complexos

e dar miolo aos sexos

que se sulcam e aparafusam

pernos de revolvidos filetes.


páro no meu caminho por isso.

pego no pedaço perdido

parafuso sempre contorcido

e levo-o até casa comigo

para o adicionar ao sortido.


tenho-os de todos os tipos

guardados em frascos de vidro

consoante o comprimento.

aparentemente fúteis,

guardo-os com carinho

pois certo chegará o momento

em que se tornarão úteis

a unir peças no caminho.


awf, angra do heroísmo, março 2021


(na parede do hospital Júlio de Matos, Lisboa, 2013)

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Sobre comer animais...

É claro que os seres humanos se comem uns aos outros diariamente e de muitas formas. Mas deixemos isso de lado e concentremo-nos na versão estrita da coisa mais comum: mastigar e engolir bifes de vaca ou filetes de peixe.

Cada cabeça sua sentença. Todos são livres de pensar, de sentir e de opinar sobre este assunto (e todos os outros), mas naturalmente as coisas tornam-se mais difíceis quando se tenta encontrar um padrão que se considere "correcto" para conduzir a nossa vida ou para conduzir a vida de todos.

E talvez a discussão possa então começar precisamente por aí, pela separação entre aquilo que é factual e aquilo que é ético ou moral. Será que existe moral sem sistema nervoso que a pense e sinta?... Para quem acredita na existência de um ou de vários deuses, possivelmente a resposta será afirmativa. No entanto, isso parece-me uma batota, porque nesse caso o deus ou os deuses estão lá precisamente a fazer as vezes de sistema nervoso pensante e senciente.

De facto, é possível sentir um grande alívio de alma quando se observa a natureza, quer nos seus eventos isolados, quer nos seus ciclos, quer no longo prazo, acreditando em algo como "as coisas são como deviam ser" ou "tudo está no seu lugar" ou "a natureza sabe o que faz"... que é tudo o mesmo que dizer que nós mesmos não sentimos necessidade de adicionar à nossa experiência qualquer juízo de valor. Quando a leoa mata o impala, o máximo que podemos dizer é "coitadinho!", mas entendemos que é a natureza, e é mesmo assim...

A moral só surge quando nós pensamos nela e a sentimos, quando fazemos juízos de valor acerca do mundo, quando tentamos separar o que achamos que está correcto daquilo que achamos que está incorrecto.

Logo a seguir surgem os conflitos entre os seres humanos, talvez mais uma das características únicas da nossa espécie, motivados pelas diferentes perspectivas sobre "a moral verdadeira". Nós não guardamos a nossa moral só para nós, nem nos cingimos a querer saber como é a moral do outro. Em vez disso nós queremos que os outros adoptem a nossa própria versão de moral. E isso, em boa verdade, faz todo o sentido. Porque os nossos juízos de valor são sempre conduzidos pela nossa razão e pela nossa emoção, e a sua aplicação, ao jeito de um filtro, àquilo que nos chega através dos sentidos, desperta inevitavelmente em nós mais pensamentos e emoções que nos podem ser agradáveis ou desagradáveis. Posto de um modo simples, se nós consideramos incorrecto atirar um papel para o chão, ser-nos-á difícil aceitar que outra pessoa atire um papel para o chão, só porque o "sistema moral" dessa pessoa é diferente do nosso e já está! Em vez disso, sentimo-nos mal. Não gostamos. Pensamos que está errado. E ou porque sentimos que temos uma mensagem de verdade a transmitir, ou apenas porque queremos evitar o nosso próprio desgosto, sentimo-nos impelidos a evangelizar o outro com a nossa versão da "moral verdadeira".

Com muita consciência pós-moderna de que, afinal, cada um tem direito à sua moral, parece-me que temos cada vez mais a tendência de evitarmos esses ímpetos evangelistas. No entanto, conforme tenho referido muitas vezes em muitos outros contextos, o meu juízo de valor sobre esse assunto diz-me que isso é um erro. Porque no momento em que deixamos de debater com os outros as diferentes versões de moral, permitimos que surjam fossos entre as pessoas, que crescem sem limites, e que fragmentam a sociedade toda. O que vivemos no nosso mundo no dia de hoje, 24 de Janeiro de 2021, talvez não seja tão alheio assim a esse movimento de recuo para uma posição confortável de "cada um é que sabe de si" e de ausência de debate.

Isto tudo para dizer que cada pessoa terá a sua versão sobre se comer outros animais está certo ou está errado, que as tentativas de evangelização podem ser catastróficas, mas que a ausência de discussão também. E, portanto, eu vou tentar dar o meu pequeno contributo para a discussão, sendo que, à partida, não tenho uma opinião bem formada sobre isto, e talvez a própria escrita do texto me ajude a iluminar alguma coisa no meu espírito.

Comecemos então pelo início. No início era o nada. Pronto. Depois veio o verbo?...

A certa altura surgiu a vida. Mas o que é a vida?... Tenho a impressão de que toda a gente sabe o que é a vida, mas que se quisermos ir ao detalhe, na verdade ninguém sabe o que é a vida!

Na escola aprendemos que um ser vivo é um ser que nasce, cresce, vive (!), e morre. Isso parece-me uma definição idiota. Há muitas coisas que nascem, crescem, vivem e morrem, como os edifícios, e não são seres vivos. Podemos então adicionar outros requisitos... Por exemplo, um ser vivo deverá ser capaz de produzir cópias de si próprio. Mas há muitos objectos capazes de produzir réplicas de si próprios que não são seres vivos!...

Sem querer entrar mais a fundo nesta questão, remeto para um texto que escrevi no passado, onde afirmo que a vida, dadas as condições físicas e químicas apropriadas, não é um milagre, antes é inevitável.

À micro-escala, um vírus é um conjunto de átomos que deambula na fronteira daquilo que se pode considerar um ser vivo, sendo que há, por entre os estudiosos, quem considere que os vírus são seres vivos, e quem considere que não são.

Imaginemos agora que uma molécula incorpora outra molécula na sua própria constituição, passando as duas moléculas a ser uma terceira molécula, diferentes das originais. Podemos dizer então que uma molécula comeu a outra?... Ou será que devemos dizer que a outra é que comeu a uma?... Quem é que comeu quem?...

No contexto das moléculas, "comer" é equivalente a uma reacção química. E no contexto da construção de uma moral acerca do que se deve ou não deve comer, creio que ninguém irá emitir juízos de valor acerca do ser correcto ou não ser correcto existir uma reacção química.

Assim, creio que não existirão objecções morais à ingestão de vitaminas na forma de comprimidos (e vamos imaginar que os comprimidos caíram do céu, por um momento).

Um pequeno aparte: se nós somos constituídos de matéria, de átomos organizados em moléculas, e se quando ingerimos vitamina C ela passa a circular no nosso organismo, reagindo aqui e acolá, e desse modo transformando-o, será que somos nós que comemos a vitamina, ou será que é a vitamina que nos come a nós?...

A partir daqui, os dados estão finalmente lançados para a discussão. Porque a partir de moléculas simples, podemos avançar para os vírus. E se ninguém levanta objecções acerca da ingestão de moléculas simples, provavelmente poucos levantarão objecções à ingestão de vírus.

As leveduras são seres vivos. Creio que sobre isso há um consenso. E suspeito que haverá também um consenso acerca da não objecção à ingestão de leveduras, pelo menos tentando olhar ao ponto de vista da levedura, porque se olharmos ao nosso ponto de vista então temos de ter algum cuidado com a levedura que ingerimos, se não queremos arranjar um problema de saúde.

Podemos então seguir toda uma cadeia imaginária de seres, segundo os nossos padrões, cada vez mais complexos. Juntamos sensores que permitem "tocar" no meio envolvente. E outros que permitem "cheirar". E outros que permitem "ver". E quando estamos perante seres vivos que conseguem "ver" o mundo, aí começamos a pensar que esses seres também precisam de "processar" o mundo. Ou seja, além de o sentirem, também precisam de o pensar.

Mais uns passos à frente e estamos a chegar ao fim da linha, com mamíferos, golfinhos, primatas e nós mesmos: habitualmente, e apesar de sermos capazes de estupidezes impensáveis no reino dos fungos, colocamo-nos sempre no extremo superior da complexidade, da perfeição, da consciência.

Se é então possível estabelecer uma cadeia contínua desde as vitaminas até aos seres humanos, atravessando no seu início essa distinção, mais difusa do que parece à primeira vista, entre seres vivos e seres não vivos... e se não vemos problema algum na ingestão de vitaminas e leveduras, mas vemos problema na ingestão de seres humanos (antropofagia), a questão que logicamente segue será: onde, ao longo dessa escala de complexificação crescente dos seres vivos, é que o nosso julgamento moral nos começa a fazer comichão?

Passemos agora para o extremo supostamente mais complexo. Porque é que quase todos os seres humanos (tanto quanto me apercebo) têm um inequívoco e muito forte sentido moral em relação à antropofagia?

Imaginemos o caso real de sobreviventes de um acidente de aviação que ficam perdidos no topo de uma montanha gelada, que estão rodeados de cadáveres e que não têm mais nada para comer. Será errado comerem carne dos cadáveres?... Bom... isso a mim não me choca muito... mas creio que muitos discordarão de mim. Há o "espírito" dos mortos, há os familiares das vítimas, há sei lá que outras considerações que se juntam num imbróglio complexo no qual não me quero meter agora.

Mas matar outro ser humano para o comer é algo que certamente parecerá a quase todos nós errado. Aqui não está apenas em causa o comer carne humana, mas também o tirar a vida a outro ser humano. No entanto, e novamente, a consideração de que tirar a vida a outro ser humano é errada é, ela própria, um juízo moral, sobre o qual, aliás, e infelizmente (digo eu), não existe consenso. Mas admitamos que sim...

Parece então que o problema não se centra tanto no acto de comer, mas sim no acto de tirar a vida, de matar.

Se consideramos incorrecto matar outros seres humanos, será que consideramos correcto matar macacos. Porque há quem tradicionalmente mate macacos para os comer.

Não sou perito em história, mas parece-me que desde tempos imemoriais os seres humanos se consideraram numa classe à parte dos outros seres vivos. No entanto, pelo menos ao longo dos últimos séculos, fomos percebendo que muitas características que julgávamos únicas em nós, afinal também eram partilhadas por outros seres. E então começou o que sempre me pareceu ser uma corrida na demanda do santo graal, daquela característica única que nos possa separar de todos os outros seres vivos. Uns disseram que era a consciência, outros que era a habilidade manual, outros que era sei lá o quê... E essa busca parece nunca acabar. Do mesmo modo que quando tiram alguma característica diferenciadora a um povo, logo ele se apressa a ir encontrar outra que a possa substituir, nem que seja a sua ascendência celta ou algo do género.

No entanto, aos meus olhos, nós fazemos parte de um contínuo. Entre nós e os outros seres vivos existem diferenças, claro que sim, tal como existem diferenças entre um pardal e um golfinho, mas essas diferenças são mais de grau, ao longo de uma mesma escala, do que propriamente diferenças radicais. Em algumas mitologias, alguns deuses deram aos seres humanos uma coisa especial que não deram a nenhum outro ser vivo. Mas cá em baixo, no mundo real, essa coisa especial sempre foi objecto de muito controvérsia e... se calhar... simplesmente não existe.

Portanto, o mesmo fundamento que podemos aplicar à questão de tirar a vida a um humano, para julgar esse acto como incorrecto, talvez também possamos aplicar à questão de tirar a vida a um orangotango ou a um chimpanzé.

Ou a um cão. Aqui, em Portugal, todos se escandalizam porque os asiáticos comem cães. Mas porquê?... Porque é que isso nos escandaliza?... Porque, culturalmente ou não apenas, estamos habituados a olhar para os cães como "nossos amigos", e fieis companheiros, e seres sensíveis, que pensam, que expressam emoções. Entretanto, nos países asiáticos, talvez as pessoas olhem para os cães como nós olhamos para os porcos. E, no entanto, é possível ter um porco como animal de estimação, tal como se tem um cão. Um porco também sente, também pensa, também expressa emoções. Veja-se por exemplo este documento, todo, ou apenas a página 19.

Portanto, e novamente, os seres vivos podem ser ordenados conforme a sua complexidade, ou consoante outra característica qualquer, sendo que (quase) todas elas variam ao longo de um contínuo. E se num extremo dessa escala nós nos chocamos com o tirar a vida e comer outros animais, e no outro extremo nem por isso, é porque algures pelo meio alguma coisa acontece que faz um clique cá dentro. O que será isso?

Para muitos, incluindo Carl Sagan e eu próprio, essa característica que avaliamos é a semelhança connosco. É a empatia, real ou imaginada, é aquilo que conseguimos reconhecer de nós próprios no outro ser que está à nossa frente.

O "direito à vida" não é, e nunca foi, para nós um direito universal. Nunca nos lembramos de escrever tratados e normas sobre o direito à vida das leveduras. O direito à vida é por nós considerado com maior ou menor gravidade precisamente em função das semelhanças que encontramos entre o outro e nós próprios. É assim quando avaliamos o direito à vida de cães, porcos ou peixes, mas também o é, feliz ou infelizmente, num tribunal dos EUA: se os elementos do juri forem capazes de reconhecer no réu muitas características que conhecem em si próprios, mais dificilmente o irão condenar.

Gostava, neste ponto, de acrescentar mais uma variável ao problema: a questão da alimentação humana enquanto actividade económica.

De facto, lá para trás neste texto, assumi que o saco de vitaminas tinha caído do céu. Mas na verdade, nenhum alimento cai do céu, pelo menos em sentido figurado. Se o nosso juízo moral abarca questões sobre tirar a vida a outros seres vivos, também me parece que devia abranger questões sobre a qualidade da vida de outros seres vivos, a começar pela qualidade de vida dos próprios seres humanos. E isso remete para considerações sobre os modos como as economias se organizam para produzir e comercializar os produtos alimentares. Essa é uma questão muito complexa em si mesma, e portanto vou deixá-la de parte, pelo menos por agora.

Há depois o maior ou menor impacto ecológico que a produção de alimentos tem. Se tudo tem um impacto, nem tudo é igual: uma plantação de vacas causa um impacto diferente de um conjunto de pescadores com cana sentados nas rochas à beira-mar. Novamente, isto também é um assunto em si mesmo...

Há ainda a questão de saber que vida levam os animais até ao momento em que os matamos para os comer: serão vidas livres ou subjugadas? isso far-lhes-á mossa? sentirão dor?...

Finalmente, há as nossas considerações mais antropo e egocêntricas: nós precisamos de comer, sempre fizemos assim, e gostamos.

Portanto, assumindo que queremos fazer aquilo a que estamos habituados, queremos comer aquilo que nos apela mais aos olhos e ao paladar, queremos preservar os equilíbrios ecológicos existentes, queremos respeitar a vida e a morte dos outros seres vivos... claramente temos aqui um enorme conflito de interesses.

Num assunto onde os conflitos de interesses são inerentes a cada um de nós, não deve ser surpresa alguma que não exista sequer uma sombra de consenso global.

O que fazer então?

Bom, certamente antes de começarmos a tentar evangelizar quem quer que seja com o nosso código pessoal de conduta moral, talvez fosse melhor tentarmos resolver os conflitos internos que nós próprios temos. Eu tenho esse conflito de interesses. Eu quero poder existir alterando a vida de todos os seres humanos, mas não alterando a vida de qualquer outro ser vivo!...

O compromisso que tento encontrar inclui o seguinte:

  • diminuir o consumo de animais
  • ordenar os seres vivos pela capacidade que eu lhes reconheço de sentir e pensar (reconhecendo que é um método pouco preciso!), e diminuir mais fortemente o consumo dos animais que considero mais sencientes e pensantes
  • preferir, na medida do possível (o que geralmente é na medida da carteira) os alimentos (animais ou vegetais), cujos processos de fabrico e comercialização impliquem os menores impactos ambientais e os menores sofrimentos para os animais, e também que sejam o mais justos possível em termos económicos (o que basicamente se pode resumir a analisar para onde vai o dinheiro que eu pago na compra dos alimentos: para o bolso de um ricaço ou para os bolsos dos trabalhadores?)
  • como exemplo: prefiro caçar o meu próprio peixe no mar, porque os peixes (pelo menos alguns) estão na minha escala pessoal abaixo das galinhas, porque sei que não há desperdícios no processo, porque o impacto ecológico do que faço é pequeno, porque os peixes vivem livres até ao momento da captura, porque quando os caço tenho o cuidado de os matar o mais rapidamente possível...
  • não aderir a práticas que me parecem completamente alheias às considerações que acabo de tecer, mas...
  • não ser completamente inflexível no sentido de ofender os outros nas suas crenças, nos seus padrões morais, nos seus costumes
  • e nesse sentido, não tentar evangelizar os outros acerca do que considero mais ou menos correcto, sobretudo quando eu me sinto um assassino.

Resolver estas questões de uma forma melhor, que nos deixe mais confortáveis a todos, parece-me que terá de envolver algumas mudanças muito radicais ao nível do funcionamento da economia global e das cabeças das pessoas. Também as novas tecnologias (incluindo as "bio") podem ser chamadas a intervir, embora isso no meu ver seja uma parcela das questões económicas.

Se há alguma coisa neste assunto que eu defendo sem hesitação, é que não podemos nunca ficar agarrados a uma maneira de fazer as coisas, justificando-a por si mesma, porque sim, porque sempre foi assim. Todas as melhorias implicam mudança.

Finalmente, e voltando ao princípio, defendo que estas questões devem ser mais debatidas. Não numa tentativa de encontrar "a moral verdadeira" ou de impor um ponto de vista sobre os outros, mas precisamente numa tentativa de crescimento interior e de coesão social. Já nos bastam os discursos de ódio incentivadores de clivagens!

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

O desperdício alimentício...

Todos os textos que consegui encontrar acerca deste tema partem do princípio de que o desperdício alimentar é mau, e de que o leitor está completamente consciente de que isso é mau e que deve ser combatido.

Por exemplo, no portal de Internet da Comissão Europeia pode ler-se:

"In the EU, around 88 million tonnes of food waste are generated annually with associated costs estimated at 143 billion euros (FUSIONS, 2016).

Wasting food is not only an ethical and economic issue but it also depletes the environment of limited natural resources."

Talvez quem escreve esses textos saiba que, afinal, não é assim tão óbvio que o desperdício alimentar seja uma coisa má. Mas uma coisa é certa: uma mentira repetida até à exaustão torna-se, na cabeça de um público pouco atento, indistinguível de uma verdade. E se isso é assim com uma mentira, com uma meia-verdade é-o ainda mais.

Este assunto é complexo. Portanto a sua análise não será simples nem curta. Quem quiser ler um pequeno artigo que o faça rir, por favor procure "funny cats" no youtube, e boa sorte!

Vamos tentar partir de uma análise mais simples, num contexto que nos é mais familiar: a nossa casa. Na nossa casa, não gostamos de desperdiçar alimentos. Certo? Bem... nem aí a coisa é assim tão evidente.

Precisamos de definir, antes de mais, o que é isso de desperdício alimentar. O conceito usualmente aceite diz-nos que o desperdício alimentar é a classificação e tratamento como lixo de produtos que ainda poderiam ser utilizados na alimentação humana, sem colocar em risco a saúde dos consumidores. Assim, uma banana que está muito madura ainda pode ser comida sem risco para a saúde, portanto deitá-la ao lixo será um desperdício. E assim também com os restos de um jantar.

Mas, o que acontece em nossas casas se ninguém gostar de comer a cabeça do peixe?... No final do jantar a cabeça do peixe está em perfeito estado para consumo, mas ninguém a quer consumir. Portanto deita-se fora. Portanto há um desperdício. Como é que se combate este desperdício? Incentivando as pessoas a comerem aquilo que antes não gostavam?... Talvez com longas campanhas sobre hábitos alimentares... Nada que não esteja previsto.

Mas, quão tristes ficarão os membros da família se a cabeça de peixe, de que ninguém ali gosta, for deitada no lixo?...

Imaginemos que essa família tem um gato, e que deixa para o gato as partes do peixe de que ninguém gosta. Nesse caso não existe desperdício alimentar. Ou existe?... Afinal a nossa definição de "desperdício alimentar" falava de "alimentação humana"... Mas, bolas, se o gato não comer isso, terá de comer outra coisa qualquer!... E de qualquer modo o PAN tudo fará para que as pessoas não sejam discriminadas com base na sua espécie! Portanto, dar-se-á a cabeça de peixe ao gato, não será considerado qualquer desperdício alimentar e todos ficarão mais felizes.

Vejamos a coisa do prisma do alienígena que está sentado na lua a olhar cá para baixo. No primeiro caso, a família não tem gato, entra um peixe em casa, sai uma cabeça para o lixo. No segundo caso, a família tem gato, entra um peixe em casa, não sai lixo. Quem é que ganha com isso?...

Podemos acreditar que neste segundo caso todos ganhamos com isso. Mas vejamos as coisas mais de perto. A matéria de que o peixe é constituído não desaparece, apenas se transforma. Quando o peixe entra em casa, essa matéria acabará por sair dessa casa, sob uma forma ou outra, aconteça o que acontecer. Se o peixe não for comido, a matéria sai pouco alterada em forma de lixo doméstico. Se o peixe for comido, a matéria sai bastante mais alterada, em forma daquilo que os corpos dos animais excretam, fezes e urina, mas incluindo também gases exalados, unhas, cabelos e pele.

Qual é a diferença, em termos de impacto para o ambiente, se o peixe sai de casa em forma de lixo ou em forma de fezes?... Talvez por aqui possamos começar a perceber que as respostas não são assim tão imediatas ou óbvias.

Imaginem que depois de longas análises sobre o tratamento de resíduos domésticos concluímos que tanto dá o peixe sair da casa num formato ou no outro. Nesse caso, talvez possamos afirmar que a situação da casa com gato é melhor, porque o mesmo peixe serviu para mais: não apenas serviu para alimentar a família, mas também serviu para alimentar o gato.

Mas, alimentar o gato é um dos objectivos a atingir na luta contra o desperdício alimentar?...

Não se iludam pelo aspecto idiota das perguntas que coloco, porque elas são muito sérias.

Porque é que alimentar o gato pode ser um dos nossos objectivos?... Será por sentirmos que o mesmo peixe está a alimentar outra vida?...

Bom, imaginemos que as águas residuais, por onde fluem os excrementos da família e do gato, são tratadas numa estação de tratamento que inclui, numa das etapas do tratamento, a digestão da matéria orgânica por algum tipo de microorganismo. Creio que essa é uma situação comum, nos dias que correm. Senão, podem imaginar que a estação de tratamento se chama "oceano" e que as águas residuais no oceano servem de alimento a uma quantidade imensa de algas e outros micro e macroorganismos.

Talvez possamos concluir que, afinal, dê por onde der, o peixe irá sempre alimentar outros organismos, sejam eles quais forem. De facto, a menos que o peixe tenha um fim muitíssimo invulgar, e seja cremado num tanatório ou se transforme em fóssil ou algo do género, ele será sempre alimento para outros seres vivos, mesmo que viva a vida inteira livre e feliz da silva no oceano.

Nesse caso talvez tenhamos vontade de argumentar algo como: mas não vamos comparar a vida das algas com a vida do gato!

Porque não?... Claro que vamos comparar. As famílias que têm um gato dão mais importância à vida do gato do que à vida das algas que se alimentam de excrementos. Porquê?... Talvez porque um gato seja um mamífero, e nele possamos reconhecer comportamentos semelhantes a outros mamíferos e também a nós próprios. Talvez porque o gato é peludo e nós gostamos, por algum motivo misterioso, de coisas peludas. Talvez porque aquele é o "nosso" gato, do qual já conhecemos as manhas, e que também nos conhece.

De qualquer modo, quando comparamos a vida do gato à vida das algas, deve ser claro para todos que não é fácil, filosoficamente, determinar preto no branco que uma vida vale mais do que a outra, pelo menos sem entrar com juízos do tipo de "a vida do ser X vale mais PARA MIM". Dito de outro modo, e resumindo, trata-se no fundo daquilo de que gostamos mais ou menos, do nosso bem estar.

Mas, se é disso que se trata, então não faz sentido que tenhamos agora de aprender a gostar das partes dos alimentos de que antes não gostávamos!... Se as campanhas de luta contra o desperdício da cabeça do peixe nos fazem sentir mal, mais nos vale comprarmos um gato, que assim deixa de haver desperdício de cabeças e todos ficam mais felizes. Portanto, substituamos já a campanha da luta contra o desperdício alimentar, por uma campanha do tipo "um gato em cada casa"!

Ah, é claro que o gato volta e meia sai à noite e mata um pardal ou uma sardanisca, mas o que é que se há-de fazer?... Bom... talvez em vez de um gato possamos optar por um porco. Afinal, os gatos têm pinta de serem muito esquisitos com a comida, e os porcos têm fama de comer as coisas mais incríveis. Ou uma cabra! Adopte já a sua cabra!...

Mas, se o objectivo é apenas o de não sentirmos que a comida vai para o lixo sem antes ter feito alguma coisa que possamos considerar útil... então talvez possamos montar a nossa própria central de tratamento de resíduos orgânicos, da qual possamos extrair calor, gás e outros materiais úteis! Ah, mas se calhar mais vale fazer isso em centrais de tratamento maiores, que são mais eficientes! Mas, se o nosso concelho possuir uma estação de tratamento então, ah!, mais vale deitar as coisas ao lixo!

Espero, com estas minhas histórias parvas, que percebam onde estou a querer chegar: não é fácil estabelecer qual é o problema do desperdício alimentar nas nossas casas, enquanto consumidores, nem determinar qual é o melhor modo de agir.

Será que queremos todos comer as coisas que ainda são alimento mas das quais não gostamos?... É esse o futuro risonho que estamos a delinear para a humanidade?...

Ninguém normal gosta de comer espinhas de peixe. Mas isso não quer dizer que elas não possam ser comidas e que não contenham nutrientes. Há certamente muitos processos físico-químicos capazes de transformar espinhas de peixe em algum tipo de farinha ou papa comestível. Nesse caso, deitar as espinhas de peixe ao lixo pode ser considerado um desperdício alimentar...

Mas continuemos ainda a acompanhar a nossa família, deslocando agora o problema daquilo que se deita fora, para aquilo que se adquire e se consome. Podemos pensar que o ideal seria a nossa família aprender a comer o peixe inteiro, incluindo cabeça, espinhas, escamas e entranhas (os romanos faziam com elas um pitéu, apodrecido ao sol, a que chamavam garum), mesmo no caso do peixe-porco... e assim reduzir as suas necessidades de aquisição de peixes. De facto, um peixe mais pequeno serviria para alimentar toda a família.

Não apenas o peixe poderia ser mais pequeno, mas também os recursos consumidos na sua confecção poderiam ser poupados: menos água, menos energia, menos condimentos, menos tempo.

Começemos com este último: a poupança de tempo.

Neil Postman conta a história verídica de ter feito parte de uma comissão de avaliação do projecto de desenvolvimento de um avião supersónico nos Estados Unidos. Como membro da comissão, ele distribuíu um inquérito por potenciais utilizadores desse avião a perguntar se gostariam de poder viajar mais depressa, tendo a resposta sido um rotundo "sim". A pergunta seguinte era: o que é que faria com o tempo extra. A resposta maioritária a esta questão foi: "veria mais televisão". No final a comissão optou por colocar televisores nos aviões já existentes. Ponto final!

Entretanto, cá entre nós, conta-se a anedota do tipo que foi de férias para um lugar exótico (segundo os seus padrões), onde havia um homem que se sentava todas as tardes a pescar. O tipo meteu conversa. Ao perceber qual era a técnica de pesca utilizada pelo homem, não conseguiu evitar sugerir algumas melhorias. "Para quê?", perguntou o homem. "Bom, assim você pode pescar não apenas o que necessita para comer, mas mais algum peixe, e pode vendê-lo". "Para quê?", insistiu o homem. "Bom, com esse dinheiro você pode comprar um barco, e então já não precisa de pescar aqui sentado, e poderá pescar no mar alto, onde há mais e melhor peixe". "Para quê?". "Bom, assim você terá dinheiro suficiente para fazer a sua empresa de pesca". "Para quê?". "Bom, assim você poderá deixar o trabalho da pesca para os outros e poderá fazer o que bem lhe apetecer". A isto o homem que pescava respondeu simplesmente "eu já faço aquilo que me apetece!".

Portanto, será a campanha contra o desperdício alimentar uma campanha no sentido de utilizarmos menos tempo a cozinhar?... Não me parece. Até porque, creio, se muitas pessoas no planeta tivessem mais tempo livre, passariam mais tempo a cozinhar!

Passemos agora à possibilidade de poupança dos outros recursos. Aqui a coisa torna-se mais interessante.

Parece natural a ideia de que "poupar água" é uma coisa evidentemente boa. Mas será?... Imaginemos que vivemos no topo de uma montanha. Ao lado da nossa casa corre um pequeno fio de água potável, ao qual recorremos sempre que precisamos de água. Um dia, cansados de ir até à água, instalamos um tubo para que a água venha até nós. Neste contexto, não fará sentido ensinar aos nossos filhos "quando lavares os dentes, fecha a torneira, para poupar água!". De facto, não faz sequer sentido ter torneira. Pelo contrário, se instalarmos uma torneira, e quanto mais tempo a mantivermos fechada, pior.

Pensemos na energia. Se a energia que consumimos não for renovável, então talvez fosse bom utilizarmos energia renovável. E, para não cair no mesmo erro dos textos que assumem que existe um problema e que toda a gente sabe qual é e portanto não precisam de o explicar, digo apenas que a utilização de algo que não é renovável obviamente não se pode perpetuar, logo requer uma alternativa. Nesse caso, a campanha contra o desperdício alimentar poderia passar a ser uma campanha pelo uso exclusivo de energia renovável! Além da adopção de um gato, claro!

Mas, se utilizarmos energia renovável, qual é o problema de utilizarmos mais ou menos energia?... O Sol irá aquecer-nos de igual modo. E a água continuará a brotar da fonte de igual modo.

Já irei regressar à questão do uso da água. Por ora, foquemos a nossa atenção no próprio peixe que a família consome. Se, à conta da família consumir o peixe até à última escama, ela puder consumir menos peixe, melhor! Ou será?...

Imaginemos que existe no meio da floresta uma árvore que dá frutos comestíveis. Qualquer coisa... sei lá... dá nozes!

Se ninguém souber da existência dessa árvore, as nozes irão cair ao chão e irão ser comidas pelos seres da floresta. Dito assim, até parece uma coisa mística!... Mas os seres da floresta são todos muito terrenos: esquilos, ratos, fungos, caracóis, etc. Esses seres serão eles próprios consumidos mais tarde por outros seres. Se a floresta existir há muito tempo e nela o homem não colocar o dedo, é provável que existam equilíbrios ecológicos estáveis, mesmo que cíclicos. Em todo o caso, como ninguém sabe da existência da nogueira, a sua produção anual de nozes não será contabilizada como desperdício alimentar.

Porém, se a humanidade souber da existência da árvore, a questão poderá colocar-se: as nozes que caem ao chão devem ou não ser consideradas como "desperdício alimentar"?... Afinal são produtos que podem ser utilizados na alimentação humana!... Assim, de acordo com esta definição, a única forma de evitarmos o desperdício é darmos as nozes a comer a seres humanos ou quase-humanos (gatos), talvez considerando a possibilidade de devolver à floresta as respectivas fezes. Vejam só a diferença que faz o conhecimento ou a ignorância da existência da nogueira!...

Se os humanos retirarem as nozes da nogueira, irão afectar os equilíbrios ecológicos existentes. Isto, colocado sem contexto ou mais explicação no discurso do hoje em dia pode parecer uma tragédia. Mas não é. A natureza evolui, e até os continentes deambulam pela superfície da Terra sem necessidade da intervenção divina ou humana. Isso significa que há constantemente factores que afectam os equilíbrios ecológicos existentes. E nós somos um desses factores.

A verdadeira questão, nisto e em tantas outras coisas, é sabermos que temos o poder para alterar muito os equilíbrios, eventualmente levando-os a ultrapassar pontos de não retorno (talvez o caso mais evidente seja o da extinção de espécies, coisa em que o ser humano conseguiu superar em muito a natureza... talvez com excepção da colisão com outro planeta!), e com esse conhecimento, e também com o conhecimento do nosso desconhecimento, sermos capazes de definir os equilíbrios que pretendemos alcançar.

Que (des)equilíbrios pretendemos alcançar?... Onde é que eles estão delineados na dita "estatégia nacional de combate ao desperdício alimentar" que nos vão enfiar à força pela goela abaixo?... A isso é que é importante responder. E de que maneira!...

Porque não falo apenas nos equilíbrios ecológicos, senão também dos equilíbrios económicos, e com eles os equilíbrios sociais. Afinal qual é a visão de futuro?...

Curioso, que os mentores desta campanha, tão adeptos do instrumental do marketing que não conseguiram evitar espetar uma análise SWOT na dita estratégia nacional, não tenham também recorrido à receita que vem logo à cabeça no cardápio de qualquer empreendedor ou qualquer empreendimento: visão, missão, objectivos...

Afinal, qual é a visão?

Mas voltemos à utilização de menos peixe por parte da família, a ver se a pertinência da questão que acabo de levantar se torna mais clara.

A questão, conforme afirmei, é a de saber que equilíbrios ecológicos pretendemos manter, ou em que nível. Se retirarmos todas as nozes da floresta, podemos afectar irreversivelmente o seu equilíbrio. Mas se retirarmos apenas algumas, talvez se atinja outro equilíbrio. Talvez a população de esquilos diminua um pouco e com isso a população de outros seres aumente ou diminua um pouco... mas tudo encontre uma outra forma de existir.

Retirarmos peixe do mar é como retirarmos nozes desta mítica nogueira que vive isolada no meio da floresta: nós não temos de fazer nada, só temos de esperar, e ir lá buscar. É assim que funciona a pesca no mar.

Durante muito tempo os seres humanos pensaram que os oceanos eram tão grandes que a sua actividade pesqueira não poderia afectar o que quer que fosse. Depois perceberam que não era assim, mas continuaram a pescar. Afinal, os peixes do oceano têm características que os tornam semelhantes aos bens públicos: a captura de qualquer agente individual afecta muito pouco o resultado global e é muito difícil limitar a nível global a quantidade pescada. Ou seja, a humanidade, e sobretudo em determinados sistemas económicos e ideológicos, funciona muito mal quando é necessário agir colectivamente. Talvez o facto de estarmos todos imbuídos de um espírito de individualismo e salve-se quem puder, e sermos pouco educados para o trabalho colectivo na implementação de soluções colectivas para problemas colectivos tenha alguma coisa a ver com isso... Mas isso sou eu a dizer.

O que temos agora na pesca é uma situação em que são fixadas quotas: montantes máximos que se podem pescar. Independentemente de sabermos se as quotas são bem distribuídas pelos pescadores de todo o mundo e de sabermos como poderão ou não ser fiscalizadas, a lógica subjacente é a de que é possível retirar do mar uma determinada quantidade de peixe em cada ano, mantendo ainda assim determinados equilíbrios ecológicos nos oceanos e mares. Se os equilíbrios almejados são ou não "bons" é outra questão, e talvez a questão mais importante.

Voltemos à questão do consumo de água. Nos dias que correm, quase todos nós recorremos a água potável canalizada. Para que esse fornecimento seja possível, é necessário que a água tenha sido retirada àquilo que seriam cursos de água naturais, ou aquíferos naturais. É uma espécie de "desvio" da água para outros fins, equivalente ao desvio das nozes da floresta. Além disso, a água sofre quase sempre um tratamento para garantir que o seu consumo directo não coloca em risco a saúde das pessoas. E esse tratamento implica geralmente a utilização de substâncias químicas, frequentemente com cloro. Toda a "indústria" responsável por isso tem um impacto no meio ambiente.

E, já agora, aproveitemos o balanço para dizer que "impacto no meio ambiente" significa precisamente um impacto nos equilíbrios ecológicos existentes. Não significa, ao contrário da ideia de algumas pessoas, que o ambiente fica danificado porque fica com mau aspecto... Essas são as pessoas que consideram que um campo de golfe é muito melhor para o ambiente do que um matagal com silvas, o que é profundamente errado, mesmo que as silvas sejam invasoras nesse local.

O consumo de sal, de pimenta, de água canalizada, de peixe e de outras matérias primas ou subsidiárias na culinária tem sempre impactos ecológicos. E enquanto nós, seres humanos, existirmos, iremos sempre causar impactos ecológicos.

Não pretendo com este discurso legitimar a máxima cristã (ou católica... não sou especialista dessas matérias) do "crescei e multiplicai-vos" ou da subjugação da natureza à vontade dos seres humanos. Pelo contrário, do meu ponto de vista o ser humano nunca teve legitimidade para extinguir uma única espécie de ser vivo, e portanto já causou, e continua a causar, muito mais impacto do que devia.

O que pretendo dizer é que a existência de seres humanos tem inevitavelmente impactos no meio. Portanto, e regressando à nossa família piscívora, se pretendemos causar menos impacto no meio, então temos de ser sérios. Uma pequenina demonstração de seriedade seria por exemplo transformar o nome da campanha de "luta contra o desperdício alimentar" em "luta contra o impacto ecológico". Um pequenino pormenor que porventura faria toda a diferença!

Portanto, e fazendo um resumo excessivo do que ficou dito até aqui, fundamentar a necessidade de combate ao desperdício alimentar com base no destino dado aos alimentos não consumidos é enganador. Muito enganador, aliás... mas já voltaremos a este assunto. Por outro lado, fundamentar a necessidade de combate ao desperdício alimentar com base nos recursos consumidos só faz sentido se lhe estiverem subjacentes preocupações com os equilíbrios ecológicos existentes.

Mas a actividade económica, toda ela, tem impactos nos equilíbrios ecológicos existentes. Serão os defensores do combate ao desperdício alimentar também combatentes da lógica do crescimento económico?... A julgar pelo número de pessoas que espontaneamente concordam com a luta contra o desperdício alimentar, e pelo número de adeptos das correntes de decrescimento económico, isso não parece provável.

Mas deixemos os "adeptos" de parte e foquemo-nos nos responsáveis, nos impulsionadores desta tão grande e tão justa campanha. Lembremo-nos que nós, enquanto cidadãos, se quisermos aprovar uma qualquer norma legal sobre o mais mixuruco assunto, teremos de suar as estopinhas. Mas os promotores desta campanha não suaram muito para terem do seu lado os organismos da União Europeia, as Nações Unidas, os governos de muitos países, e para aprovarem legislação adequada (como a "Estratégia Nacional para o Combate ao Desperdício Alimentar") com a respectiva dose adequada de verbas.

Ou seja, perdoem-me se tenho de expor esta pequenina hipocrisia, mas são as instituições que gerem dinheiros públicos (ou privados) que ao mesmo tempo são os maiores promotores das políticas do crescimento económico, responsáveis pelos problemas ecológicos que enfrentamos hoje e teremos de enfrentar amanhã, e que canalizam verbas e boas intenções da população toda em geral para o combate ao desperdício alimentar, alegando o seu impacto sobre o meio ambiente!

Sejamos sérios!...

Voltemos ao peixe!

A família está farta de ter de tratar destes assuntos por sua conta, do gato, das fezes e do cheiro a peixe na roupa e no cabelo, e opta agora por ir comer peixe ao restaurante. Dependendo do restaurante, alguns servirão doses muito nouvelle cuisine que darão para a cova de meio dente, e outros tentarão seduzir a sua clientela pela estratégia da quantidade. Para estes, não é do seu interesse reduzir a dose em cada prato ao estritamente necessário. Note-se que o estritamente necessário, conforme recomendações de peritos na matéria, é quase sempre menos do que aquilo que nós estamos dispostos a comer. Mais do que isso é gula. E essa é precisamente a arma de muitíssimos restaurantes!

Portanto... será que a estratégia de combate ao desperdício alimentar é também uma campanha para lavagem cerebral dos donos de restaurantes, no sentido de os conduzirem todos para o lado bom da força, ou seja, aquele que nos dá apenas aquilo que nos faz bem?... Não me parece. Isso certamente iria reduzir em muito o negócio da restauração...

Mas optemos pelo caminho intermédio: o restaurante serve quantidades generosas, mas tem o cuidado de embalar o que não for comido para que o cliente leve consigo para casa, mesmo que por trauma de passado pobre ele não tenha a lata de pedir isso mesmo. Ora essa opção, num contexto em que as pessoas optem pelos restaurantes com elevada frequência, tem o mesmo efeito: ameaça o negócio!

Portanto, novamente enfrentamos o antagonismo entre o impacto ecológico da nossa actividade e o seu benefício económico. Há que decidir!

Imaginemos, por completo desvario, que os promotores da Estratégia Nacional Contra o Desperdício Alimentar defendem efectivamente a redução das quantidades vendidas nos restaurantes, e com isso a sua actividade, porque estão efectivamente preocupados com os desequilíbrios que a actividade dos seres humanos causa na natureza. Na mesma linha, eles promovem uma campanha de sensibilização de toda a população para consumir apenas o indispensável. Toda a actividade económica diminui, e com ela o respectivo impacto ambiental. Reduz-se a necessidade de produção de alimentos e reduz-se a necessidade de utilização de recursos como a água, os pesticidas, os gasóleos agrícolas, a própria terra.

Seria bom que esta luta contra o desperdício alimentar incluísse, na sua visão de um mundo futuro, alguma coisa nesses termos. Mas, se assim fosse, e se tivesse sucesso, parte dos terrenos que agora são utilizados na agricultura e na pastorícia deixariam de ser afectos a esses fins.

Nessa circunstância, qual é então a dita "estratégia" relativamente aos terrenos que se iriam tornar devolutos?

Isso não está clarificado nos textos que abordam este assunto, mas devia. É, efectivamente, uma questão da maior importância. Porque mais importante do que saber o que fazer com terrenos devolutos (não será difícil encontrar ocupação alternativa) é evidenciar ao que vimos nós afinal!

Se efectivamente esses maiorais fossem sérios, e se as suas intenções fossem efectivamente as de preservar alguns equilíbrios ecológicos existentes, ou de reestabelecer alguns que já se perderam, então os terrenos devolutos deviam ser restituídos à natureza.

Infelizmente, restituir terrenos à natureza é algo tão excepcional nas políticas públicas que, se isso não estiver tão riscado em forma legal como o esforço que irá ser feito para não se deitar cabeças de peixe ao lixo, é praticamente garantido que não será feito. Muito mais provável é que esses terrenos passem a ser utilizados noutras actividades económicas com tanto ou maior impacto no meio ambiente, como a silvicultura, a mineração, a construção de barragens ou simplesmente de mais centros comerciais.

Todavia, convém não continuar no desvario das boas intenções colocadas à força em instituições com histórias que deviam falar por si. Se tais compromissos não estão nos documentos legais ou expressos nas missões e visões de documentos marketinguianos tão bem elaborados, certamente não será por acaso.

Mais provável é que não se pretenda reduzir a actividade agrícola, pecuária ou piscatória. Mais provável é que com isto tudo se consiga simplesmente aumentar aquilo que é conhecido no jargão dos entendidos como "capacidade de carga" do planeta Terra, ou seja, a quantidade de pessoas que se considera que a possam habitar, num determinado momento, de forma sustentável.

Talvez o objectivo seja então o de, mantendo o impacto ecológico actual, mitigar as necessidades alimentares não satisfeitas na população (poderíamos dizer que seria uma troca de gatos por pobres famintos). Afinal, é do senso comum que não se deve deitar comida ao lixo porque há crianças a morrer à fome em África!... Abordemos então esse assunto.

O assunto das criancinhas a morrer à fome em África é, só por si, suficiente para encher umas quantas páginas. Vou tentar resumir algumas ideias. A primeira é a de que a ideia de que as pessoas morrem à fome por falta de comida é, em grandessíssima medida, falsa. No mundo em que vivemos, dominado pelo sistema e pela ideologia capitalista, tudo se compra e tudo se vende. Se as pessoas morrem à fome é porque não têm dinheiro para comprar alimentos. Duvidam?... Se sim, então juntem-se a mim na "Estratégia Nacional para Dar Dinheiro A Quem Não O Tem". Vamos encher os bolsos dos etíopes de dinheiro e vamos ver o que acontece a seguir!... Até já consigo ver os McDonalds a surgirem nas savanas!...

Poderemos pensar que a quantidade de alimentos existente no planeta é limitada, e portanto se for muita comida, via McDonalds ou não, para a Etiópia, é possível que falte comida na Europa. Mas embora isso excepcionalmente possa ser verdade, quase sempre não o é. A quantidade de alimentos existente no planeta não é fixa. Agora faça a seguinte experiência: saia à rua. Dirija-se a uma zona não urbana. Será que consegue encontrar algum pedaço de terra que não esteja a ser utilizado na agricultura e que o possa ser?... O mais provável é que responda: sim. Mas se não for esse o caso, pense melhor. Repare que onde há vontade, o ser humano faz milagres! Os israelitas conseguiram elevadas produtividades em terreno da pior qualidade. E se os preços dos produtos alimentares aumentarem o suficiente, até eu tratarei de conquistar terreno ao mar para lá cultivar alfaces!

Finalmente, é necessário ser adepto de um sistema económico mundial com profundos impactos no ambiente para se defender que o peixe que não é consumido em Portugal seja enviado para a Etiópia. Para já não referir a questão ética de matar a fome aos pobres com os desperdícios dos ricos... que, isso sim, será tema para outro texto.

O corolário destes últimos parágrafos é simples: se queremos diminuir as necessidades alimentares não satisfeitas das populações mundiais, temos de apostar fortemente na alteração do sistema económico mundial. Combatermos o desperdício alimentar irá ter pouco ou nenhum resultado a esse nível.

E, novamente, acerca deste assunto, já sabemos o que os promotores desta luta contra o desperdício alimentar defendem: mais capitalismo. E, portanto, mais hipocrisia.

Reparem, como um bónus a este texto, que se dermos dinheiro às pessoas para elas poderem comprar alimentos, mas se não dermos muito dinheiro, apenas o indispensável, elas irão quase garantidamente trocá-lo pelos alimentos que forneçam o maior número de calorias por euro. Ou seja, irão matar a fome, sem dúvida, mas muito dificilmente irão promover hábitos de alimentação saudável. É assim que, actualmente, e a nível global, a obesidade é um problema dos países (ou comunidades) "em vias de desenvolvimento" e não tanto um problema dos países (ou comunidades) mais ricos.

E a própria obesidade devia ser chamada a depor neste julgamento que aqui faço. Porque a máxima do "come tudo porque há crianças a morrer à fome em África" certamente já levou muito boa gente a comer mais do que precisava, simplesmente para não deixar ficar no prato. Comer mais do que é necessário é uma forma de combater o desperdício alimentar?... Se não, então será que podemos dizer que nas comunidades onde há mais obesidade há desperdício alimentar, pois as pessoas comem mais do que necessitam?... Se sim, será que o combate ao desperdício alimentar não se devia converter em combate à obesidade?... E, conforme já afirmei, para combater a obesidade não basta lavar o cérebro das pessoas sobre os alimentos mais saudáveis - é também necessário dar-lhes o dinheiro necessário para os poder adquirir! Vale a pena pensar nisso.

Esta campanha mistura tudo...

Apelo novamente à seriedade.

A campanha contra o desperdício alimentar parte do princípio de que toda a gente entende que o desperdício alimentar é mau. Serve-se disso para não referir explicitamente quais os problemas que se tenta resolver quando se combate o desperdício alimentar. As referências à carência alimentar de algumas pessoas são uma tentativa de relacionar dois assuntos que, na sua génese e na sua resolução, não estão relacionados. E as referências ao impacto ambiental causado pela produção, transporte, armazenamento, transformação, confecção e comércio de produtos alimentares, bem como à recolha de resíduos e respectivo tratamento, são hipócritas e desonestas.

Eu sou um combatente acérrimo dos desperdícios. Quem me conhece sabe bem que como comida feita há uma semana só para não a deitar fora, uso roupa até estar esburacada, conserto todos os objectos até ao inconsertável antes de os deitar fora. Faço-o por vários motivos, mas também pela consciência plena de que tudo aquilo que fazemos tem um impacto raramente negligenciável (ao contrário de quem acredita que a sua presença é insignificante no mundo, ou dos amantes da natureza que mudam de guarda-roupa a cada estação).

Mas se quero ser sério, e se seriamente me preocupa o impacto ambiental das minhas acções, então não me posso ficar pelo combate, dentro e fora da minha porta, ao desperdício alimentar. Tenho também (a consciência obriga) de defender, e se possível de uma forma integrada, a implementação de políticas de decrescimento económico, políticas de literacia funcional de todas as populações, políticas economicamente mais equitativas, a implementação de técnicas de agricultura, pastorícia e de pesca com menos impacto no ambiente, o consumo de produtos locais, a diminuição das viagens para todo o lado por puro divertimento, políticas de redução de natalidade para estancar o crescimento populacional a nível mundial, etc.

A Estratégia de Combate ao Desperdício Alimentar não é uma política que tenha sido exigida pela população. Antes, e curiosamente, foi-nos imposta num ápice de cima para baixo. E em relação ao que acabei de referir no parágrafo anterior, as instituições que a fundamentam parecem estranhamente (ou não) silenciosas. E isto devia no mínimo deixar-nos desconfiados.

Fica o grito de alerta!

sábado, 2 de janeiro de 2021

Carlos do Carmo...

 

Morreu ontem, dia 1 de Janeiro de 2021. Tenho pena. Dele queria sempre mais. Não só isso. Já fazia parte de mim. Fico com medo que essa parte de mim também morra. Ouço-o e sinto saudades de nem sei bem o quê... mas fico feliz de o sentir vivo ainda. E então sinto gratidão.

Tinha uma voz deliciosa, afinada, certeira, um timbre doce, macio. Sobretudo, aquele exercício que o José Mário Branco exigia de si e dos outros, de construir um contexto verosímil para transmitir uma determinada mensagem carregada de significado e sentimento (ao invés de se cantar o Barco Negro como se fosse trálálá uma grande alegria), esse exercício sempre pareceu natural no Carlos do Carmo. Parecia que cantava sempre com o coração e com a cabeça, em uníssono.

Aprendi a gostar de Carlos do Carmo com os vinis que os meus pais tinham lá por casa: "um homem na cidade", de 1977, e "dez fados vividos", de 1978. Senti-lhe o cheiro das castanhas assadas, o barulho do eléctrico, o movimento do cacilheiro, e isso e o próprio Carlos do Carmo transformaram-se para mim, e para sempre, num pedaço de Lisboa. Não sabia se era fado o que ouvia. Pouco me importava, e pouco me importa ainda hoje, mesmo depois de o fado ter sido classificado como "património cultural imaterial da humanidade" por alguns iluminados. Assumir que uma coisa tem valor porque alguém diz que sim sempre me pareceu um atestado de incompetência que passamos a nós mesmos, para dizer o mínimo... mas isso é assunto para outro texto.

Ouvi da boca do Carlos do Carmo as mais belas interpretações de uma série de poetas e compositores. Eis algumas:

E como estas já têm quarenta anos, para quem acredita que o modernaço é que é (ao mesmo tempo que acredita que a medicina antiga é que é), ficam aqui mais algumas:

 Estas e muitas outras... já cá cantam, e cantarão!



segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

Marés...

Um vídeo que há tempos queria fazer sobre o funcionamento das marés. A motivação para isso é a quantidade de explicações foleiras que abundam na Internet. A minha explicação, contudo, está muito longe de perfeita. Seja como for, tinha de o fazer, e está feito. Bom proveito!



segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

Insulamento...

 

Até uma idade muito razoável, a palavra isolamento significou para mim o envolvimento de um objecto numa camada protectora de outro material. O objecto deixava de contactar directamente com o exterior porque estava envolvido por uma barreira de impossível ou difícil transposição.

Nessa minha acepção, um grão de milho que se colocasse à margem da pilha dos outros grãos, não estava isolado, pois não havia a tal camada protectora: o grão de milho que estava apartado podia muito facilmente (quem sabe pelos próprios meios!) deslocar-se novamente para junto dos outros grãos.

Às vezes tinha dificuldade em compreender como as outras pessoas utilizavam esse termo... Só bastante mais tarde é que percebi que a raiz do desentendimento estava na minha (de)formação de base. Eu aprendi a palavra isolamento no contexto da electricidade. E, nesse contexto, sempre que alguém falava em isolamento, referia-se à existência da tal camada protectora, em torno de um elemento condutor, que impedia que os electrões passeassem para lá daquilo que pretendíamos. O isolamento não era a condição do condutor, o isolamento era a própria camada protectora!

Por analogia, uma pessoa numa ilha estaria isolada porque rodeada do respectivo isolamento: o mar.

Suspeito que em todos nós a grande maioria das palavras adquire um significado através de um processo mental que é só nosso, de identificação do padrão escondido no meio do caos. O significado de algumas palavras é-nos ensinado directamente por terceiros, ou pela nossa própria consulta de um qualquer dicionário, o que acaba por ir dar ao mesmo (os dicionários não são como as tábuas dos mandamentos caídas dos céus). Mas para todas as outras palavras, e certamente para quase todas as palavras que aprendemos antes de sabermos consultar dicionários, o significado somos nós que lhes atribuímos. Ouvimos a nossa mãe a dizer "vou fechar a porta" e vemos ela a fechar a porta, e logo associamos "fechar" e "porta" a uma e outra coisa.

Quando o nosso pai diz "vou embora", pode ser-nos difícil, no início, entender o que é que significa este "embora". Lembro-me de estar sentado no chão de alcatifa verde do meu quarto, na Rua Campos Monteiro, 48, 1º, 4100 Porto, e a minha mãe, de cabelos longos, orientados por uma banda na cabeça e pendentes nas costas, de vestido sem mangas, a consolar o meu choro intenso, depois de o meu pai ter dito "vou embora". Eu pensei e senti que ele ia embora para sempre!... Ainda me lembro da sensação... eu devia ter uns 3 anos de idade.

Agora, muitos anos depois, quando alguém me diz "vou embora", nem sempre me é completamente claro o que isso significa... às vezes há uma dúvida que persiste.

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Quando vim morar, e supostamente viver, para os Açores, passei a ouvir, volta e meia, a palavra insularidade. Não fui suficientemente empenhado para consultar o dicionário ou para perguntar às pessoas o que isso significaria. Portanto, fui formando um significado próprio para a palavra, com o pouco que me ia chegando.

O que me ia chegando era, de facto, pouco. As pessoas não falam frequentemente de insularidade. Aparentemente a palavra surge mais associada a discursos de análise da sociedade açoriana como um todo, ou de alguma comunidade em particular, ou então em narrativas ficcionais ou textos poéticos.

Oh, a insularidade... oh!...

Portanto, não me tem sido fácil cimentar a minha versão do significado da palavra. Até mais ver, parece-me poder significar duas coisas. Uma é o modo de vida, em geral, das pessoas que vivem nos Açores, salientando os traços que possam distinguir esse modo de vida do das pessoas que vivem noutros territórios: o aceitar o destino, o saber esperar, o não ter grandes expectativas, o misto de medo e adoração do mar e da montanha, a necessidade da crença estruturante, o ouvir as histórias dos que vêm, o sentir saudades dos que partem. Ou então, naquele tom poético, o ter o basalto nas veias e a mesa posta... enfim, palavras que servem mais para me confundir do que elucidar.

O outro significado que considero possível para a palavra insularidade é simplesmente: isolamento. O fecharmo-nos em nós próprios, cá dentro, na medida do possível, por vontade própria ou necessidade.

Esse isolamento das pessoas, todavia, pouco tem a ver com a insularidade na primeira acepção que considerei. Da minha vivência, não me parece que as pessoas vivam mais isoladas, mais fechadas em si próprias, nas ilhas do que noutro qualquer território. De resto, isso do nosso isolamento é algo que é muitíssimo elusivo: não é evidente que as pessoas caladas que moram nas zonas rurais da Estónia, em casas rodeadas de árvores que distam centenas de metros do vizinho mais próximo, estejam mais isoladas que o português que bebe minis e discute futebol diariamente no café da esquina. Pode ser... mas também pode não ser.

Há muitas formas de nos isolarmos. Há até muitas formas de nos isolarmos de nós mesmos, de isolarmos pensamentos e sentimentos, de nos fragmentarmos a nós próprios cá por dentro, curiosamente na esperança de conseguirmos melhor manter os cacos juntos.

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Nesta minha reflexão, que convosco partilho, gostava de abordar especificamente dois tipos de isolamento: o que diz respeito à forma como colectivamente (ainda!) nos organizamos para respondermos às nossas necessidades, desde as mais básicas às menos imediatas; e o que concerne à nossa vida afectiva e emocional. A linha condutora da reflexão é o modo como estes dois tipos de isolamento se interligam e ajudam a construir
sociedades e indivíduos mais frágeis.

Vou chamar ao primeiro tipo de isolamento o isolamento económico. Confesso que eu próprio já começo a ficar farto de estar sempre a falar de economia... No entanto, isso é o reflexo da realidade: as actividades que nós desenvolvemos diariamente para produzir bens e serviços que satisfaçam as nossas necessidades, a forma como nos organizamos e o modo como distribuímos o resultado dessas actividades, ocupa a maior parte da vida da maior parte da população. Não há volta a dar-lhe!

Para explicar o meu conceito de isolamento económico vou recorrer ao exemplo instrumental de uma aldeia que vive isolada do mundo exterior. Nessa aldeia, os aldeãos produzem todos os bens e serviços de que necessitam para sobreviver. Nesse contexto, embora a aldeia como um todo possa considerar-se autónoma, a autonomia de cada pessoa é muito reduzida. Cada aldeão necessita da ajuda dos demais para construir a sua casa, para conseguir alimento, para quase tudo o que é essencial à vida. Para o bem e para o mal, a vida do aldeão está intimamente ligada à vida dos demais.

Nos nossos dias, ao contrário do que se pode pensar, a capacidade das pessoas levarem as suas vidas sozinhas é ainda menor. De facto, enquanto na aldeia que imaginei os aldeãos aprendiam várias técnicas que podiam pôr em prática, mesmo que com dificuldade, para se desenrascarem numa situação de aflição, nos dias que correm as pessoas enchem a cabeça com diplomas universitários mas não são capazes de identificar uma planta selvagem comestível.

No entanto, e para lá disso, há vários outros aspectos que são diferentes na organização económica das nossas vidas nos dias de hoje. Entre eles está o facto de a nossa dependência dos outros ser mediada pelo dinheiro. De acordo com as regras que alguém inventou, quem vende não pode recusar a venda a quem lhe apresente um meio de pagamento válido, como dinheiro. Consequentemente, quem tem dinheiro tem automaticamente acesso aos bens e serviços de que necessita (a menos que, por algum motivo, não consiga contactar com os vendedores).

Isso significa que, nos dias de hoje, e apesar de continuarmos a depender todos uns dos outros para a nossa sobrevivência, nós não precisamos sequer de conhecer esses outros, e ainda menos precisamos da sua simpatia ou colaboração no que quer que seja. Basta que tenhamos dinheiro!

O dinheiro confere poder. E como sempre fomos muito dados ao poder e muito atreitos à necessidade de sermos simpáticos com os outros, fomos lentamente optando pelo poder do dinheiro e pelo desligamento, ou isolamento, dos outros.

Ao mesmo tempo que a economia de troca directa da aldeia autosuficiente se foi transformando na economia monetarizada da aldeia global, também a ciência se foi transformando de uma actividade de procura do conhecimento para uma actividade de invenção de novos penduricalhos.

A evolução tecnológica disponibilizou-nos, ao alcance de um qualquer dedo, uma barreira protectora de todo o tipo de electrodomésticos. Finalmente, dotou-os da capacidade de transmissão e recepção de informação via ondas electromagnéticas. Finalmente, tornou-se possível receber notícias e comunicar com quem queremos, quando queremos, com o mínimo esforço.

As autoestradas da comunicação atalharam o nosso caminho rumo às nossas próprias opiniões. Sem a necessidade de aturar opiniões com as quais não concordamos, encontramos muito rapidamente hordas de gente com quem partilhar o gosto por fotografias de praias exóticas, o gosto pelo clube de futebol que emprega os jogadores mais bem pagos, o gosto pelo ódio aos que são contra as vacinas.

Comunidade deixou de designar o conjunto dos aldeãos que tratavam das suas necessidades, e passou a designar o conjunto de pessoas que partilham, a uma distância de segurança, o gosto por um aspecto isolado do todo que é a experiência da vida.

A isto tudo chamamos liberdade: em bom português, pegamos em nós e zarpamos para onde quer que seja, em qualquer momento, sem termos de dar satisfações a ninguém! Onde quer que nos encontremos, sabemos que o dinheiro e a tecnologia nos irão garantir o acesso a tudo e mais alguma coisa e que as comunidades em que estamos momentaneamente inscritos estarão lá para validar as nossas opções. E assim sentimo-nos livres!

Esquecemo-nos, claro, que o meio pelo qual conseguimos obter dinheiro é precisamente aquilo que, desde sempre, nos retira a liberdade. Esquecemo-nos que a relação que temos com a mágica tecnologia é muito mais de dependência do que de simples usufruto. Esquecemo-nos que a liberdade que temos de descartar as comunidades em que estamos inscritos é a mesma liberdade com que nos descartarão assim que deixarem de nos poder utilizar para seu proveito.

O que fizemos, em boa verdade, não foi necessariamente tornarmo-nos mais livres. O que fizemos foi trocar uma prisão por outra. Ou, se quisermos, trocámos um tipo de liberdade por outro tipo de liberdade.

Isto pode não ser evidente, e pode até parecer falso. No entanto, os factos estão aí para os analisarmos, se assim quisermos.

Lembro-me agora, e apenas a título de exemplo, da passagem que o Yuval faz no início do seu livro "Sapiens", a propósito da revolução agrícola. Segundo ele, não fomos nós que domesticámos o trigo, foi o trigo que nos domesticou. E o balanço, na sua opinião, foi claramente desfavorável em termos de liberdade: antes da revolução agrícola as pessoas eram mais livres.

Outro exemplo que agora me surge: a questão da propriedade da terra e de tudo o que nela se constrói. Enquanto antes a maioria do terreno não era propriedade de ninguém, e o terreno da aldeia era propriedade colectiva de toda a aldeia, hoje quase todo o terreno está tomado. E, no entanto, continuamos a acreditar que somos mais livres agora do que éramos no passado.

Um exemplo final: a máquina de vending que nos diz "é livre quem vive de acordo com as suas opções". Sobre isso já tive oportunidade de escrever no passado. Essa frase é claramente uma falácia. No cadafalso, imediatamente antes da execução, é concedido ao condenado um último desejo. Será ele livre?... Na ignorância de cada um, e em cada eleição, joga-se o jogo do partido da esquerda contra o partido da direita. Serão as pessoas assim tão livres?... Mesmo vivendo conforme as suas opções, a liberdade é uma coisa um pouco mais complexa.

Dê por onde der, mais livres ou menos, a verdade é que acreditamos que somos mais livres por não precisarmos de sorrir para ninguém e mesmo assim conseguirmos ter o que comer ao fim de cada dia.

Mas porque é que não queremos sorrir para os outros?... Claramente isso é um esforço que muitos tentam dominar para poderem obter dos outros o que desejam, mesmo que o seu sorriso nunca deixe de ser amarelo, e bastante diferente de um genuíno. Mas porque é que sorrir é um esforço?...

Sorrir é aqui apenas uma analogia para a construção de pontes através das barreiras que nos separam dos outros. Que barreiras são essas?...

Claramente os outros não têm os mesmos gostos que nós. É claro que existem muitas pessoas que partilham connosco o gosto da manteiga na torrada, o gosto da "música de restaurante", o gosto por roupa brilhante, o gosto por golfe, o gosto por livros do Tolkien ou por filmes do Manoel de Oliveira. Só que cada pessoa só partilha connosco um desses gostos! Por isso mesmo somos adeptos das comunidades "online", onde em cada uma apenas se partilha um gosto. De outro modo, sabemos que iremos correr o risco de, a meio do pequeno almoço com torradas e manteiga, a outra pessoa tentar convencer-nos que afinal os filmes do Tarantino é que são bons!

Alguém disse uma vez que nascemos todos iguais, a educação é que nos torna diferentes. Muito haveria a dizer acerca desta frase e acerca da educação a que se refere. No entanto, a ideia geral transparece: é ao longo da vida que vamos adquirindo os traços que acabam por nos separar dos outros.

Os gostos dos outros, para além de serem o inferno, são na verdade a manifestação de coisas mais profundas como a mundivisão, isto é, o modo como entendemos o mundo e nos entendemos a nós mesmos enquanto parte desse mundo.

Os aldeãos do antigamente teriam provavelmente mundivisões muito próximas. O mundo em que vivemos hoje parece-nos, e é, mais complexo. As nossas capacidades e disponibilidades não nos permitem abarcar toda a sua complexidade. Especializamo-nos. E no processo, apesar de adquirirmos mais conhecimento que os aldeãos, tornamo-nos relativamente mais ignorantes. E quando a nossa própria ignorância se torna difícil de digerir, começamos a simplificar. Aderimos então às estratégias de simplificação do caos: aceitamos nomes sonantes como sinais de autoridade nas mais diversas áreas do conhecimento e das artes, acreditamos nas opiniões do senhor engravatado, aderimos ao clube dos triangulares, etc. Segmentamos tudo, o mundo e as ideias, e escolhemos os segmentos onde nos sentimos mais confortáveis.

A menos que consciente e colectivamente façamos algo para o inverter, o processo parece-me inexorável: a complexificação do mundo obriga-nos à sua segmentação, a segmentação do mundo, das pessoas e das suas cabeças leva à complexificação do mundo.

Em perigo iminente de afogamento na complexidade do mundo que nós próprios ajudamos a criar, fragmentamos tudo, multiplicamos as mundivisões, e socorremo-nos das tecnologias e do dinheiro para embarcar nessa aventura solitária de tentar encontrar outros fragmentos que sejam compatíveis com os nossos, utilizando quem nos apareça pelo caminho.

Deixamos de aturar os outros. Sentimos que não precisamos, e não devemos, aturar os outros. Entoamos hinos à liberdade, que confundimos com a nossa versão pessoal de hedonismo bacôco. E atrofiamos os músculos que nos permitem dialogar, que nos permitem expressar o que pensamos e o que sentimos, que nos permitem entender as razões subjacentes aos comportamentos e discursos alheios. Ficamos rudes, agrestes, agressivos até. Perdemos a pachorra. Queremos a nossa casa só para nós, deixamos de acreditar na educação das crianças, indagamos se seremos os únicos a ser assim...

E, no entanto, ficamos felizes quando temos gente em casa que nos faz sentir menos sós, quando ensinamos algo a uma criança genuinamente curiosa, quando lemos num livro uma descrição de um personagem que nos parece o nosso sósia. Não apenas ficamos felizes, mas aquecemos o coração, numa tradução desse adjectivo inglês que me parece muito feliz: heartwarming.

O isolamento afectivo congela-nos. Coração negro... de basalto duro.

Podemos até alegar que nos preferimos assim. Contudo, para lá dessa questão subjectiva, objectivamente o isolamento corrói-nos a capacidade de pensar e de agir colectivamente na resolução dos problemas que também são colectivos.

Entre a objectividade da satisfação das necessidades económicas e a subjectividade do querermos ou não partilhar a nossa existência com outros, fica essa área de contornos mais difusos que se espraia pela sociologia, pela psicologia, pela biologia, e que se traduz no cuidarmos uns dos outros, e na procura de entendimento próprio e alheio.

Termino afirmando que também eu necessito de estar sozinho. Os outros são cansativos, sem dúvida. Mas tal como nos cansamos no exercício físico e não temos dúvidas de que é para o nosso bem, seria bom que os períodos em que estamos sozinhos fossem o descanso do exercício que fazemos quando estamos com os outros, na certeza de que é não apenas para o nosso bem, mas para o bem de todos.

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