sexta-feira, 27 de outubro de 2017
Variações en passant...
Passam vários pavões
com palavrões nos pês...
Passa uma palavra.
Passeia.
Passageiro,
passo pelas palavras,
pelas palavras
que passam.
Até as mais pesadas
pensadas
prensadas
palavras
passam!
Passo por elas,
piso pegadas,
faço papéis...
Papo pastéis!
Passa outra palavra.
Peça a palavra de
pessoa apalavrada.
Personifique
parola peça
e não enfie a carapuça.
...
Passa mais uma palavra,
e mais outra, a espaços.
Passam-me as palavras,
sem que as possa apanhar
pelas pontas dos dedos.
Embaraços...
Empeço nos meus medos,
tropeço nos passos
perdidos à procura
das palavras perfeitas.
Preciso de uma palavra:
uma palavra bem passada,
se faz favor!
Palavras passadas...
Já me estou a passar!...
Palavra do Senhor!
...
(também há-de passar)
(AWF, Angra do Heroísmo, 26 de Outubro de 2017)
Calor...
Estico a chama no espaço
E no extremo do meu braço
Acendo o fogareiro.
Tremo tonto de cansaço...
Tanto tempo...
Conto o frio de Janeiro...
O fogo afasta o frio morto
todo em torno do meu corpo.
Mas não me dá porto, chão ou tecto,
chama que arde contrafeita
na ausência do afecto.
Temo o medo.
Meço o muro.
Metros e metros de enredo
Histórias tantas, tantos erros
enrolando e conspurcando o mundo!
Recolho-me...
Respiro-me...
E então recordo-te o regaço
o trato terno
o tenro traço
o teu rosto
o teu abraço...
Faz-me falta o teu abraço...
(O que faço?
O que desfaço?
Lá fora fecha o nevoeiro...)
Tomo-o.
Cubro-me de ti.
Aqueço-me
finalmente
inteiro.
(AWF, Angra do Heroísmo, 16 de Outubro de 2017)
quarta-feira, 19 de julho de 2017
Dinheiro...
E pronto, é isto... está tudo dito.
Se eu disser que estou a fazer algo que me exige muito esforço, toda a gente entende se disser que vou ganhar muito dinheiro. Mas se disser que esse esforço é em prol
de um mundo melhor
daquilo que é correcto
de uma amizade
de um sonho
...
nada disso conta.
Se eu disser que vou morar para o sítio X, toda a gente entende, desde que seja para trabalhar na empresa Y e ganhar dinheiro. Mas se eu disser que escolho o lugar
porque o acho bonito
porque nele encontro paz
porque gosto dos abelharucos
porque quero estar longe da confusão
...
nada disso conta.
Tudo neste nosso mundo se pode explicar facilmente: dinheiro!
Porque é que vais almoçar aí?
Porque tem uma boa relação qualidade-preço.
Porque é que vais comprar essa casa?
É um bom investimento.
O que te faz andar vestido assim?
Pareço rico.
E esse carro?
Dinheiro.
E os amigos?
Dinheiro.
E o dinheiro?
Mais dinheiro.
E ainda dizem que esta gente não tem valores?...
Se eu disser que estou a fazer algo que me exige muito esforço, toda a gente entende se disser que vou ganhar muito dinheiro. Mas se disser que esse esforço é em prol
de um mundo melhor
daquilo que é correcto
de uma amizade
de um sonho
...
nada disso conta.
Se eu disser que vou morar para o sítio X, toda a gente entende, desde que seja para trabalhar na empresa Y e ganhar dinheiro. Mas se eu disser que escolho o lugar
porque o acho bonito
porque nele encontro paz
porque gosto dos abelharucos
porque quero estar longe da confusão
...
nada disso conta.
Tudo neste nosso mundo se pode explicar facilmente: dinheiro!
Porque é que vais almoçar aí?
Porque tem uma boa relação qualidade-preço.
Porque é que vais comprar essa casa?
É um bom investimento.
O que te faz andar vestido assim?
Pareço rico.
E esse carro?
Dinheiro.
E os amigos?
Dinheiro.
E o dinheiro?
Mais dinheiro.
E ainda dizem que esta gente não tem valores?...
sexta-feira, 12 de maio de 2017
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017
Só mais um texto...
...que acabei de descobrir, na arrumação forçada da minha secretária, das minhas coisas amontoadas, que viajaram comigo e sem mim por sei lá onde, até virem aqui parar. Não tem data, mas fica seguramente limitado entre 2010 e 2014:
Julgais que é fácil?
Que sou impassível?
Que o faço curto e certeiro,
de olhar fixo,
inacessível?
Talvez vos pareça.
E às vezes queria que fosse.
Mas não.
Custa-me sempre tanto quanto pode custar
as emoções atiram-me o coração
contra o peito
tão forte
que o sinto pulsar nas veias
de todo o corpo,
embargam-me a voz
fazem-me ziguezaguear no
discurso que não tenho,
nas ideias misturadas
na mão trémula, suada e
fria que vai de um lado ao outro
tentando fazer do todo
um qualquer sentido.
Julgais que é fácil?
Que sou impassível?
Que o faço curto e certeiro,
de olhar fixo,
inacessível?
Talvez vos pareça.
E às vezes queria que fosse.
Mas não.
Custa-me sempre tanto quanto pode custar
as emoções atiram-me o coração
contra o peito
tão forte
que o sinto pulsar nas veias
de todo o corpo,
embargam-me a voz
fazem-me ziguezaguear no
discurso que não tenho,
nas ideias misturadas
na mão trémula, suada e
fria que vai de um lado ao outro
tentando fazer do todo
um qualquer sentido.
quarta-feira, 18 de janeiro de 2017
Os museus militares na era do vazio...
Acabo de regressar a casa, depois de uma visita breve a um museu militar. Estou chocado. Fico sempre chocado quando visito museus militares, mas nem sempre pelos melhores motivos.
Neste caso concreto, tratou-se do museu militar integrado no museu de Angra do Heroísmo. Resulta da colecção particular de um personagem qualquer que aparentemente se divertia a acumular artefactos de guerra. Confesso que nunca na vida vi uma colecção particular, ou antes, um amontoado particular, com tanta variedade e quantidade de artefactos de guerra.
Qual será a diferença entre um amontoado de coisas antigas e um museu?... Num dicionário disponível na Internet pode ler-se, como definição de museu que mais aproxima aquilo que nos interessa: lugar onde se reúnem curiosidades de qualquer espécie ou exemplares científicos, artísticos, etc. Que porcaria de definição!... Entre outros aspectos, desta definição resulta que a diferença entre um museu e um amontoado pode não ser nenhuma!
Na verdade, o museu de onde vim é efectivamente parecido com um simples amontoado.
Tudo na vida depende do sentido que lhe atribuímos. O sentido canaliza a compreensão do mundo, unindo causas e efeitos. Mesmo desconhecendo as causas primordiais e os efeitos finais, e mesmo não sabendo qual é o sentido da vida, tudo na vida é mais fácil quando lhe atribuímos um sentido. A própria vida é mais fácil quando lhe atribuímos um sentido. E é bom que o façamos, antes que outro alguém o faça por nós.
Um museu deve ser um local que reúne exemplares curiosos, ou raros, ou que de alguma forma têm valor, em condições que permitam a sua exibição ao público actual e a sua preservação para o público futuro. Mas, mais importante ainda do que isso (e precisamente porque um museu pode existir, ao contrário do que possa parecer, sem requerer sequer a existência de tais exemplares), é o sentido que o museu atribui a essa colecção. Se quisermos assumir uma posição de superioridade intelectual, podemos imaginar um museu a conduzir o utente até um determinado sentido concreto que nós desejamos que ele atribua aos artigos da colecção. Hoje em dia é politicamente incorrecto admitir que possa sequer existir uma coisa chamada superioridade intelectual. Hoje em dia admite-se, mesmo perante uma horda de analfabrutos, que somos todos iguais... Se não quisermos assumir então essa posição de superioridade, o mínimo que devemos fazer, se formos nós a gerir o museu, é contextualizar as coisas.
Eu vi canhões, por exemplo. Canhões verdadeiros. É claro que não tinham o nome de "canhão". Eram antes obus, morteiro, falconete e mais sei lá o quê. Eram canhões. Mas não eram apenas canhões. Estes canhões foram feitos de aço. Esse aço resultou de um processo de extracção numa qualquer mina ou em várias. Existiu uma fábrica que produzia estes canhões. Quem trabalhava nessa fábrica, e em que circunstâncias? Terá sido a fábrica construída apenas para o "esforço" de alguma guerra específica? Ou, como tantos países mais desenvolvidos ainda hoje fazem, era uma fábrica que se destinava a abastecer qualquer comprador, em qualquer lado, para qualquer fim, pelo simples motivo de que isso rende alguns cobres? E em que guerra foram usados os canhões? E como vieram parar a Angra do Heroísmo? Foram adquiridos? Quanto é que o tal coleccionista teve de pagar por eles? E onde é que ele foi buscar esse dinheiro? E quem é que manteve os artefactos até aos nossos dias?...
Que sentido é que aqueles canhões fazem?... Que sentido alguma vez fizeram?...
Olho para esta enorme quantidade de espadas (que também não são "espadas", são florins e sabres e mais sei lá o quê) e arreios e fardas e canhões e vejo as mãos dos trabalhadores que as construíram... Em que pensariam eles enquanto construíam estas coisas?... "Ah, filhos da puta de inimigos!... Vamos matá-los a todos!"? Ou será que pensavam antes "Que frio!... Nunca mais toca o sino para poder ir embora!"? Ou antes "O que será que a Hermenegilda me pôs na lancheira para o almoço?... Talvez com o dinheiro que aqui ganho consigamos comprar uma casa..."?
O que levaria gente a trabalhar tão arduamente para fazer semelhantes coisas?... Saberiam eles o que estavam a fazer? Ou seria como hoje, em que cada um só produz um determinado tipo de parafuso, e nem sequer fazem ideia de onde é que esses parafusos acabarão por ser utilizados?...
Olho para aquelas coisas todas e penso: tanta gente aqui na ilha Terceira a matar-se para viver, e a viver a matar-se, e este caralho a gastar rios de dinheiro a amontoar objectos que serviam para os mais desgraçados de cada reino se matarem uns aos outros!...
Porque é que hoje não se produzem tantas coisas destas?... Alto! Produzem-se sim senhor! Aliás, produzem-se muito mais coisas destas!... Têm outros aspectos, claro, são muitíssimo mais sofisticadas... e não estão entre nós, estão antes guardadas em quartéis, ou debaixo da terra. Será que antes era mais comum ver espingardas e espadas à mostra por entre as pessoas que deambulam nas ruas?... Talvez... Será que antes havia mais guerras do que há hoje?... Talvez... E se assim for, porque será?... Será que para poder haver uma guerra a este nível é sempre necessário existir uma hierarquia? E será que manter uma hierarquia é difícil e exige um esforço continuado? Será por isso que alguns tinham muito poder e outros tinham menos? Porque será que os territórios controlados por um déspota sanguinário (como o nosso querido Afonso Henriques) foram crescendo e depois minguando através dos tempos? Quantas "deposições" de líderes foram necessárias até a liderança começar a ser partilhada por mais cabeças?... Quantas revoluções foram necessárias até o poder começar a ser assegurado mais pelo dinheiro e pela manha do que pela força bruta?...
Imagino-me a trabalhar num campo e a ver chegar junto a mim um conjunto de militares a cavalo. Imagino-me a mijar-me todo de medo pelas calças abaixo só de os ver a vir na minha direcção... Se eles viessem mesmo para me matar, que poderia eu fazer?... Com que armas combateria? Como me esconderia? Como fugiria?... Como seria viver assim, sem armas e sem poder, sempre sujeito ao apetite dos armados e poderosos? Viveria num medo permanente? Ou aceitaria isso como natural?... Reuniria com os meus amigos e pediria auxílio?... Formaríamos uma milícia?... Fugiríamos em busca de uma qualquer "terra prometida" que não tinha sido prometida por ninguém, que tinha sido prometida apenas por nós a nós mesmos?...
E o sermos todos homens e mulheres?... E o habitarmos todos este minúsculo planeta azul?... E o querermos bem uns aos outros, o darmos amor, o recebermos amor?... E as florestas e o sol? O calor suave?...
Penso nisto tudo...
De tudo isto se fariam muitos sentidos. Dê-se o contexto às pessoas, pelo menos, se não se as quiser guiar num qualquer caminho de descoberta de uma qualquer coisa.
E tudo isto deveria fazer as pessoas pensar. E sentir.
E sentir-se chocadas.
Como eu me senti.
E desejar muito que tudo aquilo nunca sequer tivesse chegado a existir! E desejar muito que nunca volte a existir! E sair dali com vontade de derrubar poderes idiotas, e de exigir o fim da construção de armamento, onde quer que ele ocorra!...
...
Mas o meu choque principal não foi esse. O meu choque maior, como aliás também começa a ser hábito quando vou a museus militares, foi poder experimentar a confrontação de tudo o que poderia, e talvez deveria, ser, com aquilo que é a nossa era, a era do vazio.
O que anima a malta é o divertimento.
Hummm... o que é que irei fazer hoje?... Está a dar o jogo do benfica... eu até adoro o futebol, mas como não joga a minha equipa, não quero saber... Olha, parece que o museu militar está de portas abertas! Bora lá! Pega nos miúdos que eu vou buscar o carro.
Chegados ao museu, é uma grande diversão! A mãe pega na criança mais nova ao colo e vai-lhe mostrar as lindas carroças que eram puxadas a cavalo. As carroças levavam caixas de munições, ou canhões que não eram canhões. E a mãe pergunta ao filho: gostas destas carroças, filho? Qual é a que gostas mais?... Entretanto o pai está com o filho mais velho a verificar os pormenores técnicos dos canhões: vês, quando a arma dispara ela recua, tem o recuo... antigamente as carroças recuavam todas, mas nestes canhões que não são canhões mais modernos existe um mecanismo especialmente desenhado para amparar o recuo!...
Magnífico!... O engenho humano é espantoso!... Que bom que houve tantas guerras no passado para que todas estas coisas pudessem ser desenvolvidas!... Sim, sim! Que se não houvesse guerra nós não teríamos hoje aviões tão seguros, nem as polícias poderiam combater tão eficazmente os terroristas!... Viste, que bom?...
Entretanto, noutra secção do museu, discutem-se os pigmentos dos uniformes. Pois, porque eram garridos numa altura em que se combatia mais próximo do inimigo, porque a tecnologia, essa maravilha, não permitia ainda atingir inimigos muito distantes, e além disso a pólvora era tal que produzia muito fumo e passado um bocadito já não se via nada!... Mas depois tudo isso mudou, deixou de haver tanto fumo, as armas ganharam maior alcance... os uniformes passaram a ser de tons esbatidos. E só depois surgiram os camuflados às manchas de tons muitíssimo naturais.
E eu a pensar: pois... eram quase uma saladinha de alface, tão benignos!... Sim, sim... e a tecnologia, essa nossa fiel amiga, evoluiu de tal ordem, o alcance e poder das armas aumentou tanto, que logo os uniformes de guerra puderam passar a ser fato e gravata... Até que hoje o uniforme de guerra pode bem ser uns calções floridos e uma t-shirt a dizer "we do it better!". Who cares?... We are so incredibly good at killing people!... And who is willing to kill people, anyway, when you can simply draw them effortlessly into your command?...
As pessoas interessadas nos materiais, na concepção, no fabrico, na manutenção... todas as questões tecnológicas. As pessoas interessadas na manutenção dos artefactos no museu. As pessoas maravilhadas com o peso, com o poder, com a força, com o tamanho, com o dinheiro... Uma grandessíssima diversão para toda a família!
E por entre o tipo de pigmento da farda e o tipo de rosca esquerda ou direita dos parafusos... poucos vêem através dos seus olhos as perguntas e os horrores que eu vejo através dos meus.
Muitos olhos, aliás, estavam mais focados no ecrã dos seus telemóveis...
E eu choquei-me. E fiquei feliz com isso, porque é sinal que apesar de tudo ainda em mim subsiste alguma sanidade mental...
this land is mine
segunda-feira, 2 de janeiro de 2017
terça-feira, 6 de dezembro de 2016
Progresso geométrico...
Claustrofobia ou calor humano?...
Alegremo-nos. Um dia o progresso irá permitir que cada uma destas pessoas compre o seu próprio automóvel.
sábado, 26 de novembro de 2016
Misantropia...
Num dos livros que agora estou a ler, há esta passagem:
"Viajar, para mim, é uma forma risonha de estar só. Viajar - de barco, de avião, até de monótono comboio - tem de ser uma atenção, uma concentração apenas dividida entre o meu possível tempo de vida e o percurso efectivo. Por isso temo e odeio o rosto inesperado, o «olá» de quem nada me diz, a mão estranha esticada contra o meu sonho, a palmada no ombro da minha inocência, forçosamente resignada, o ímpeto ridículo, hipócrita e expansivo desse alguém em que não pensava há tantos anos e que, como um boneco enfadonho ou uma pirraça do demónio, irrompe na viagem e me rouba o prazer de ver a espuma na esteira do barco, a nuvem sob a asa do avião, a velocidade traumatizada da árvore além da janela do comboio."
Só leio meia página por dia, e ainda nem a meio vou, mas posso desde já recomendar: "o medo" de José Martins Garcia.
Misantropia, antropofobia, essa maçada de ter de aturar a humanidade, toda junta ou aos bocadinhos...
E, no entanto, acredito que ninguém gosta verdadeiramente de estar só. Todos querem poder partilhar o que têm dentro. O misantropo talvez tenha perdido a paciência...
Todos somos diferentes. Quanto mais formos nós próprios, quanto mais originais e criativos formos, mais diferentes seremos. A vivência em sociedade é, mesmo que discutivelmente, necessária e desejável.
Como o alemão barbudo dizia, a economia é a infraestrutura na qual assentam todas as superestruturas sociais. A economia molda o homem. Mais do que o homem molda a economia, mesmo que a economia seja simplesmente um produto da humanidade.
A diversificação das mentes humanas acompanha a diversificação das actividades económicas. No tempo em que, por necessidade ou outro motivo, todos eram pastores, agricultores, pescadores, e outros ôres, no tempo em que todos viviam na mesma casa, o entendimento seria porventura mais fácil do que no tempo em que os pais não entendem os cursos, supostamente superiores, que os filhos estão a "tirar".
A tendência será para um crescimento do potencial de desentendimento... Neste contexto, tornam-se cada vez mais importantes as estratégias de empatia...
Se todos somos cada vez mais diferentes, é cada vez mais necessário desenvolver capacidades que nos ajudem a ultrapassar essa diferença no necessário convívio com os outros humanos.
A tolerância é uma coisa horrível, como dizia o Rui Pereira. É horrível porque o conceito nasce de uma relação de ódio, ou pelo menos de desgosto, porque cheira a desigualdade, porque a sua concretização não implica qualquer tentativa de compreensão, de aproximação, de empatia.
Infelizmente, talvez se torne cada vez mais necessária. Como dizia o Zizek, não podemos fazer depender a paz no mundo da compreensão entre os povos e entre as pessoas. Há demasiadas pessoas. Há demasiados povos. As diferenças são demasiado complexas. E todos temos tempo e paciência de menos! Se assim fosse, estaríamos em guerra permanente!... O que se calhar é o caso... O que é necessário é poder garantir a paz, mesmo que não exista qualquer compreensão!
A tolerância será a estratégia mínima para conviver com a diferença. Idealmente quereríamos muito mais. Idealmente quereríamos compreensão mútua. E compreensão, bem o sabemos, não implica aceitação, não implica concordância, não implica reprodução. Apenas compreensão.
E compreensão é uma ferramenta contra a solidão.
Houvesse mais paciência e existiria menos misantropia.
O que nos tira a paciência então?...
O facto de sermos tão diferentes uns dos outros?... Talvez... Isso implica um esforço acrescido de adaptação mental ao José, à Maria, ao Belchior, ao Camelo...
A isso não é alheia a economia em que vivemos. Sempre a infraestrutura!... Ela é cada vez mais incompreensível. E a alienação é crescente. Alienação, de alienar, do latim alienus, que pertence a outro, que por sua vez deriva de alius, que não quer dizer alho, mas quer dizer outro. Alienação é transmissão ao outro. E na análise do alemão barbudo, alienação é o deixar aos outros a compreensão do mundo em que vivemos, é o entregar aos outros a condução da nossa vida, é o transmitir aos outros o sentido da própria existência.
Quando as pessoas passam oito ou mais horas de cada dia a fazer algo que não entendem bem, para fins que não consideram muito necessários, utilizando ferramentas que lhes saem completamente do controlo, para poderem receber um pouco de dinheiro que, em boa verdade, não fazem ideia de onde vem ou para onde vai, é disso mesmo que estamos a falar: de alienação.
Uma economia que fizesse mais sentido aos olhos de cada um permitir-nos-ia ganhar algum controlo sobre as nossas vidas e permitia que nos compreendêssemos melhor uns aos outros. Infelizmente, o próprio progresso tecnológico é aqui parte da equação. Porque é difícil conciliar o progresso tecnológico com uma diminuição da alienação. No entanto, creio que a solução para isso passa pelo questionamento do próprio progresso tecnológico. Talvez descubramos que a alienação nos conduziu a uma situação em que nem sequer somos capazes de explicar bem a necessidade do progresso tecnológico!
Mas o que nos tira a paciência para lidarmos com as diferenças que encontramos nos outros não resulta apenas dessas mesmas diferenças.
Resultará a falta de paciência também da nossa falta de tempo?... Talvez. E nesse caso eu volto a perguntar: quem nos obriga a gastar oito ou mais horas de cada dia a fazer algo que nem sempre percebemos bem para o que serve?
Resultará da nossa ânsia de encontrarmos a felicidade de modos rebuscadíssimos e que nos consomem imensa energia?... Talvez. E nesse caso eu pergunto: o que nos impede de sermos felizes de um modo simples?
De que mais resultará a nossa falta de paciência para aturarmos o nosso "semelhante"?...
Semelhante?...
O vídeo que partilho no início desta mensagem fala-nos, a certa altura, do dilema entre a sinceridade e a adequação ao ambiente em que nos inserimos.
Nunca encontraram alguém que, no início duma conversa com desconhecidos, começa logo por dizer "quem dera que o Benfica ganhe" e "aquele camelo do Passos Coelho"?... Isso é que é sinceridade!... E ao mesmo tempo talvez um pouco de desrespeito pela opinião alheia...
Já tive amigos a acusarem-me de falta de sinceridade. Aqui na Terceira diriam que eu era falso. E com toda a razão!
O meu problema pessoal com essa acusação não é a sua veracidade ou falta dela. O meu problema é que demonstra uma total insensibilidade face à dificílima situação em que se encontram as pessoas que são verdadeiramente diferentes.
Em muitos contextos históricos a exposição da diferença era equivalente a uma sentença imediata de morte. Hoje será talvez apenas uma sentença de ostracismo...
A minha conduta sincera seria então a de admitir perante todos que:
- o futebol profissional é uma forma de umas pessoas ganharem dinheiro à custa de outras, que envolve doses de violência verdadeiramente brutais, e que se alimenta de um tribalismo primitivo do seu público;
- o conteúdo dos canais de televisão resulta apenas doutra forma de umas pessoas ganharem dinheiro à custa de outras, mesmo o conteúdo dos noticiários (ou sobretudo), que envolve doses de violência ainda maiores, e que se alimenta do voyeurismo, do sentimentalismo bacôco, das nossas emoções mais límbicas;
- quase todas as profissões à nossa volta são apenas formas de umas pessoas ganharem dinheiro à custa de outras, e que todas as pessoas que não se revoltam contra isso estão, voluntária ou involuntariamente, a ser coniventes com essa situação;
- o modo como as pessoas estão constantemente a tentar afirmar-se através do seu currículo profissional, através do seu penteado e da sua roupa, através do seu automóvel e das férias que tiveram num lugar exótico, através da sua página de facebook e das fotos que lá colocam, são apenas demonstrações de carências afectivas, narcisismos ou arrogâncias patológicas;
- as músicas que eles ouvem são uma merda.
O que resultaria de tamanha sinceridade?...
Enfim...
Eu tenho piedade, porque às vezes a malta não tem mesmo a mínima ideia do que faz!...
segunda-feira, 7 de novembro de 2016
quinta-feira, 27 de outubro de 2016
Um lugar para se estar de pé!...
um lugar para caminhar lentamente
amplo e morno
com murmúrios de pessoas a viver
tranquilamente
onde a confiança deixa as portas abertas
e as árvores deixam algumas folhas cair ao chão
e o chão tem espaço e tempo para tudo
um lugar onde se podem abrir os braços
e cantar ao céu
onde nenhuma combinação de cores
é suficientemente exuberante
onde o medo não reina
mas sim a vida...
e as pessoas...
murmurando
um lugar onde se pode ver ao longe
e ao longe se pode ver diferente
em cada direcção
e em cada canto
há comunhão de interesses
há curiosidade, há procura
há entrega
um lugar onde se pode dizer
e se diz
eu sou assim
agora...
domingo, 25 de setembro de 2016
Progressão...
(no Ilhéu das Cabras)
"E se soubermos ver nos sonhos o processo
os passos para trás não são um retrocesso."
José Mário Branco, in A Noite
Progressão
Locomoção flutuante
ondulante
vagarosa.
Persistente
rotação repetente
articulação pendente
ou içada
alternadamente.
Vou.
Voo.
Fluo como flui o mundo
à minha volta:
ordenadamente, uma
componente cíclica
e outra única
rectilínea,
em frente.
Respiro.
Sustenho.
Insisto.
Vou e venho,
vou e venho...
Pairo
sobre um chão inundado
que lá no fundo sustenta
um oceano
profundo e pesado...
E que nem por isso
parece cansado!
Vermes do fogo vagueiam
pelos pepinos do mar.
Poliquetas esvoaçantes filtram
o que apanham no ar.
Sargos, peixes-porco, salmonetes,
alfaces, águas-vivas, rabanetes,
todos dançando abrem alas
para me deixar passar.
Insistente
rodo lentamente
o membro de trás
e retraio
o membro da frente.
Respiro.
Sustenho.
Insisto.
Vou e venho,
vou e venho...
Mas eis que estaco!
O fluxo sempre no braço
o movimento através do espaço
os fluidos
os sais
o calor
a troca
o mar
este longo abraço...
São novos os peixes
as algas, os corais,
mas lá no fundo
aquele chão
não mudou mais.
Percebo então
a onda
que se faz anunciar:
antes de levar atrai
atrasa ou faz parar.
A tal etapa que complementa
o movimento pendular.
Respiro.
Sustenho.
Insisto.
E apenas venho...
Há anos que ando nisto,
pairando este mesmo mar
sempre o mesmo fundo
o mesmo braço a rodar,
e a onda que se anuncia
e este anseio infecundo
de voltar a voar...
Deve ser gigantesca!...
E quando vier
não faço ideia
para onde me irá levar!
AWF, Angra do Heroísmo, 24 de Setembro de 2016
quarta-feira, 14 de setembro de 2016
Era uma vez um país...
Em 2013, em Almada, acompanhado da minha mãezinha, tive felicidade de poder assistir a isto:
De Miguel Calhaz,
Era uma vez um país
Lá num canto desta velha Europa
era uma vez um país
vivia à beira do mal “prantado”
mas apodrecia na raiz
Reza a história que foi saqueado
mesmo por debaixo do nariz
Triste sina, oh! Que triste fado!
Era uma vez um país
E os mandantes que por lá passavam
eram só ares de “bon vivant”
Viviam à grande e à francesa
como se não houvesse amanhã
E havia quem avisasse o povo
p'ra não dar cavaco a imbecis
Mas caíram na asneira de novo
era uma vez um país
E esta fábula do imaginário
tão próxima do que é real
Canção de maledicente escárnio
à república do bananal
Que se encontrava em tão mau estado
andava a gente tão infeliz
E o polvo já tão infiltrado
era uma vez um país
E lá se vão sucedendo os casos
grita o povo: “agarra que é ladrão!”
Mas passam belos dias à sombra do loureiro
Enquanto o Duarte lima as grades da prisão
E nunca se esgotam os personagens
neste faz de conta que é assim
Raposas com passos de coelho no mato
e até um corta relvas de madeira no jardim
Entre campeões de assalto à vara
e filósofos de pacotilha
Entram nas portas dos submarinos
azeiteiros de oliveira às costas
com o ouro da nação p'ra pôr nas ilhas
Caimão, cai pé, baixa os braços e as calças
e a cabeça e o nariz,
aqui finda esta história
que não tem final feliz
pois
era uma vez um país.
Porreiro, pá!...
De Miguel Calhaz,
Era uma vez um país
Lá num canto desta velha Europa
era uma vez um país
vivia à beira do mal “prantado”
mas apodrecia na raiz
Reza a história que foi saqueado
mesmo por debaixo do nariz
Triste sina, oh! Que triste fado!
Era uma vez um país
E os mandantes que por lá passavam
eram só ares de “bon vivant”
Viviam à grande e à francesa
como se não houvesse amanhã
E havia quem avisasse o povo
p'ra não dar cavaco a imbecis
Mas caíram na asneira de novo
era uma vez um país
E esta fábula do imaginário
tão próxima do que é real
Canção de maledicente escárnio
à república do bananal
Que se encontrava em tão mau estado
andava a gente tão infeliz
E o polvo já tão infiltrado
era uma vez um país
E lá se vão sucedendo os casos
grita o povo: “agarra que é ladrão!”
Mas passam belos dias à sombra do loureiro
Enquanto o Duarte lima as grades da prisão
E nunca se esgotam os personagens
neste faz de conta que é assim
Raposas com passos de coelho no mato
e até um corta relvas de madeira no jardim
Entre campeões de assalto à vara
e filósofos de pacotilha
Entram nas portas dos submarinos
azeiteiros de oliveira às costas
com o ouro da nação p'ra pôr nas ilhas
Caimão, cai pé, baixa os braços e as calças
e a cabeça e o nariz,
aqui finda esta história
que não tem final feliz
pois
era uma vez um país.
Porreiro, pá!...
domingo, 11 de setembro de 2016
Medo...
Obrigado Liliana.
O medo é parte integrante de nós.
Um brinde então, à outra parte de nós, que abraça e envolve o nosso sistema límbico, e nos permite reflectir, analisar e ultrapassar... e de que maneira!... o medo.
terça-feira, 12 de maio de 2015
Matéria nobre...
A propósito disto:
o poema de Eugénio de Andrade, a dizer-nos que o segredo é a paixão. A paixão daquilo que se faz apaixonadamente, acrescento eu, para que não fiquemos pelas paixões mais ou menos românticas ou carnais, que são mais ou menos passageiras. A paixão, por exemplo, com que aqui escrevo.
MATÉRIA NOBRE
Pode ouvir-se ainda o seu
bater contra o peito.
Há tantos, tantos anos exposto
à violência da luz do meio
dia. Quase amargo, quase
doce. Só a paixão o rouba
à morte, o impede de ser
panela esburacada
onde o vento assobia.
Ou pior: coisa viscosa, mole,
inerme. Coração,
matéria nobre.
o poema de Eugénio de Andrade, a dizer-nos que o segredo é a paixão. A paixão daquilo que se faz apaixonadamente, acrescento eu, para que não fiquemos pelas paixões mais ou menos românticas ou carnais, que são mais ou menos passageiras. A paixão, por exemplo, com que aqui escrevo.
MATÉRIA NOBRE
Pode ouvir-se ainda o seu
bater contra o peito.
Há tantos, tantos anos exposto
à violência da luz do meio
dia. Quase amargo, quase
doce. Só a paixão o rouba
à morte, o impede de ser
panela esburacada
onde o vento assobia.
Ou pior: coisa viscosa, mole,
inerme. Coração,
matéria nobre.
Parece mentira...
Parece mentira que não se fale do tema... Pois parece.
E eu bem que tenho tentado... A economia, que o alemão barbudo chamava de infra-estrutura, por bons motivos...
Mas parece que vinga mais o "o meu é para mim, que se foda o mundo",
e toca a privatizar mais um hospital!...
Ainda na onda da música ska-punk, uma canção do grupo "La Raíz" de Gandía, uma cidade da Comunidade Valenciana. Esta canção integra o álbum "Así en el cielo como en la selva" que está integral e gratuitamente disponível no site do grupo. Aplaudo a atitude. Aplaudo as ganas e as mensagens, mesmo que sinta que por vezes não estão muito de acordo com o estilo musical.
PARECE MENTIRA
Quién es ese que carga contra la gente,
vengo a decirle que con palabras también se entiende
la lucha por el poder, las mismas caras de siempre,
su sucia plata, su sucia ley, el pueblo sabe muy bien.
Parece mentira que la mano invisible lo vea y no sepa actuar,
Parece mentira, nos dijeron, la ley del mercado no puede fallar,
Parece mentira que no se hable del tema,
Parece mentira que no den solución al problema, solución al problema.
Si mi boca disparara las palabras necesarias,
para despertar a tantas almas errantes, bellas durmientes.
Un silencio suyo, es como un murmullo,
lo mío es para mí, y que se joda el mundo.
Parece mentira que la mano invisible lo vea y no sepa actuar,
Parece mentira nos dijeron la ley del mercado no puede fallar
Parece mentira que no se hable del tema,
Parece mentira, que no den solución al problema, solución al problema.
Hoy despidieron a 14 del almacén,
hoy bajó la esperanza y subió el pan,
hoy el jefe compró un chalet en B,
y no nos puede pagar.
Hoy derruyeron el colegio donde estudié,
hay un proyecto de un centro comercial,
mañana niños que hoy no saben leer,
tampoco podrán comprar.
Hoy no cobró su subsidio el pobre Manuel,
privatizaron ese nuevo hospital,
hoy enfermó la abuela del 5. B,
mañana... dios dirá.
sábado, 2 de maio de 2015
Quiero amor...
La gran orquesta republicana
Quiero amor
No quiero un sistema podrido y militar,
no quiero vuestras guerras ni energía nuclear
no quiero un gobierno de políticos corruptos,
en realidad no quiero no quiero gobierno.
No quiero el ejercito,
no quiero monarquía,
no quiero la república si nada va a cambiar
No quiero vuestra patria,
no quiero la bandera
que no, que no, que no me representa.
Pero si alguien pregunta: yo lo que quiero es amor.
Aquí tienes mi respuesta: yo lo que quiero es amor.
En realidad lo que quiero es amor.
En realidad lo que quiero es amor.
En realidad lo que quiero es amor.
En realidad lo que quiero es amor.
No quiero las prisiones, no quiero las fronteras
No quiero que la historia este llena de mentiras.
No quiero ver negocio en hospitales y en escuelas
No quiero que la iglesia se meta con mi vida.
No quiero los transgenicos ni plantas patentadas,
no quiero pesticidad que evenenen la comida,
maltrato de animales, politicos en venta,
que no, que no, que no me representan
Pero si alguien pregunta: yo lo que quiero es amor.
Aquí tienes mi respuesta: yo lo que quiero es amor.
En realidad lo que quiero es amor.
En realidad lo que quiero es amor.
En realidad lo que quiero es amor.
En realidad lo que quiero es amor.
O medo...
Mia Couto, num discurso proferido em 2011 nessa coisa chamada "Estoril Conferences", um encontro chique, como há muitos, para abordar "problemas globais", numa tentativa de tornar a globalização numa coisa mais linda (tenho vontade de vomitar...).
Eduardo Galeano, em três pequenos textos que seleccionei.
Tudo para pensar muito e devagar.
O medo é natural. Tal como a fome. O modo como agimos, apesar dessas sensações primitivas, é a parte que nos compete.
Mia Couto
Murar o Medo
(link)
O medo foi um dos meus primeiros mestres.
Antes de ganhar confiança em celestiais criaturas aprendi a temer monstros, fantasmas e demónios. Os anjos, quando chegaram, já era para me guardarem. Os anjos actuavam como uma espécie de agentes de segurança privada das almas.
Nem sempre os que me protegiam sabiam da diferença entre sentimento e realidade. Isso acontecia, por exemplo, quando me ensinaram a recear os desconhecidos. Na realidade a maior parte da violência contra as crianças sempre foi praticada, não por estranhos, mas por parentes e conhecidos.
Os fantasmas que serviam na minha infância reproduziam esse velho engano de que estamos mais seguros em ambiente que reconhecemos.
Os meus anjos da guarda tinham a ingenuidade de acreditar que eu estaria mais protegido apenas por não me aventurar para além da fronteira da minha língua, da minha cultura, do meu território.
O medo foi afinal o mestre que mais me fez desaprender.
Quando deixei a minha casa natal, uma invisível mão roubava-me a coragem de viver e a audácia de ser eu mesmo. No horizonte vislumbravam-se mais muros do que estradas. Nessa altura algo me sugeria o seguinte: que há neste mundo mais medo de coisas más do que coisas más propriamente ditas.
No Moçambique colonial em que nasci e cresci, a narrativa do medo tinha um invejável casting internacional: os chineses que comiam crianças, os chamados terroristas que lutavam pela independência e um ateu barbudo com um nome alemão.
Esses fantasmas tiveram o fim de todos os fantasmas: morreram quando morreu o medo. Os chineses abriram restaurantes à nossa porta, os ditos terroristas são hoje governantes respeitáveis e Karl Marx, o ateu barbudo, é um simpático avô que não deixou descendência.
O preço dessa construção de terror foi, no entanto, trágico para o continente africano. Em nome da luta contra o comunismo cometeram-se as mais indizíveis barbaridades. Em nome da segurança mundial foram colocados e conservados no poder alguns dos ditadores mais sanguinários de toda a história. A mais grave desta longa herança de intervenção externa, é a facilidade com que as elites africanas continuam a culpar os outros pelos seus próprios fracassos.
A guerra fria esfriou, mas o maniqueísmo que a sustinha não desarmou, inventando rapidamente outras geografias do medo a oriente e a ocidente e, porque se trata de entidades demoníacas, não bastam os seculares meios de governação, precisamos de intervenção com legitimidade divina.
O que era ideologia passou a ser crença. O que era política tornou-se religião. O que era religião passou a ser estratégia de poder. Para fabricar armas é preciso fabricar inimigos. Para produzir inimigos é imperioso sustentar fantasmas.
A manutenção desse alvoroço requer um dispendioso aparato e um batalhão de especialistas que, em segredo, tomam decisões em nosso nome.
Eis o que nos dizem: para superarmos as ameaças domésticas precisamos de mais polícia, mais prisões, mais segurança privada e menos privacidade; para enfrentarmos as ameaças globais precisamos de mais exércitos, mais serviços secretos e a suspensão temporária da nossa cidadania.
Todos sabemos que o caminho verdadeiro tem que ser outro. Todos sabemos que esse outro caminho poderia começar, por exemplo, pelo desejo de conhecermos melhor esses que, de um e de outro lado, aprendemos a chamar de “eles”.
Aos adversários políticos e militares juntam-se agora o clima, a demografia e as epidemias. O sentimento que se criou é o seguinte: a realidade é perigosa, a natureza é traiçoeira e a humanidade imprevisível.
Vivemos como cidadãos e como espécie em permanente situação de emergência. Como em qualquer outro estado de sítio as liberdades individuais devem ser contidas, a privacidade pode ser invadida e a racionalidade deve ser suspensa.
Todas essas restrições servem para que não sejam feitas perguntas, como por exemplo estas:
Por que motivo a crise financeira não atingiu a indústria do armamento?
Por que motivo se gastou, apenas no ano passado, um trilião e meio de dólares em armamento militar?
Por que razão os que hoje tentam proteger os civis na Líbia são exactamente os que mais armas venderam ao regime do coronel Gaddafi?
Por que motivo se realizam mais seminários sobre segurança do que sobre justiça?
Se queremos resolver e não apenas discutir a segurança mundial, teremos que enfrentar ameaças bem reais e urgentes. Há uma arma de destruição massiva que está sendo usada todos os dias, em todo o mundo, sem que seja preciso o pretexto da guerra: essa arma chama-se fome!
Em pleno século XXI, um em cada seis seres humanos passa fome. O custo para superar a fome mundial seria uma fracção muito pequena do que se gasta em armamento. A fome será, sem dúvida, a maior causa de insegurança do nosso tempo.
Mencionarei ainda uma outra silenciada violência. Em todo o mundo uma em cada três mulheres, foi ou será, vítima de violência física ou sexual durante o seu tempo de vida. É verdade que sobre uma grande parte do nosso planeta pesa uma condenação antecipada pelo facto simples de serem mulheres.
A nossa indignação porém é bem menor que o medo!
Sem darmos conta fomos convertidos em soldados de um exército sem nome e, como militares sem farda, deixamos de questionar. Deixamos de fazer perguntas e discutir razões. As questões de ética são esquecidas, porque está provada a barbaridade dos outros. E, porque estamos em guerra, não temos que fazer prova de coerência, nem de ética nem de legalidade.
É sintomático que a única construção humana que pode ser vista do espaço seja uma muralha, a Grande Muralha, que foi erguida para proteger a China das guerras e das invasões. A Muralha não evitou conflitos nem parou os invasores. Possivelmente morreram mais chineses construindo a muralha do que vítimas das invasões que realmente aconteceram. Diz-se que alguns trabalhadores que morreram foram emparedados na sua própria construção. Esses corpos convertidos em muro e pedra, são uma metáfora do quanto o medo nos pode aprisionar.
Há muros que separam nações, há muros que dividem pobres e ricos mas não há hoje no mundo um muro que separe os que têm medo dos que não têm medo.
Sob as mesmas nuvens cinzentas vivemos todos nós, do sul e do norte, do ocidente e do oriente.
Citarei Eduardo Galiano acerca disto, que é o medo global, e dizer:
Os que trabalham têm medo de perder o trabalho; os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho; quando não têm medo da fome têm medo da comida; os civis têm medo dos militares; os militares têm medo da falta de armas e as armas têm medo da falta de guerras.
E, se calhar, acrescento eu agora, há quem tenha medo que o medo acabe.
Eduardo Galeano
El miedo
Una mañana, nos regalaron un conejo de indias.
Llegó a casa enjaulado.
Al mediodía, le abrí la puerta de la jaula.
Volví a casa al anochecer
y lo encontré como lo había dejado:
jaula adentro,
pegado a los barrotes,
temblando del susto de la libertad.
El miedo global
Los que trabajan tienen miedo de perder el trabajo.
Los que no trabajan tienen miedo de no encontrar nunca trabajo.
Quien no tiene miedo al hambre, tiene miedo a la comida.
Los automovilistas tienen miedo de caminar
y los peatones tienen miedo de ser atropellados.
La democracia tiene miedo de recordar
y el lenguaje tiene miedo de decir.
Los civiles tienen miedo a los militares,
los militares tienen miedo a la falta de guerras.
Es el tiempo del miedo.
Miedo de la mujer a la violencia del hombre
y miedo del hombre a la mujer sin miedo.
Miedo a los ladrones, miedo a la policía.
Miedo a la puerta sin cerradura,
al tiempo sin relojes,
al niño sin televisión,
miedo a la noche sin pastillas para dormir
y miedo al día sin pastillas para despertar.
Miedo a la multitud,
miedo a la soledad,
miedo a lo que fue
y a lo que puede ser,
miedo de morir,
miedo de vivir...
Ventana sobre el miedo
El hambre desayuna miedo.
El miedo al silencio aturde las calles.
El miedo amenaza:
Si usted ama, tendrá sida.
Si fuma, tendrá cáncer.
Si respira, tendrá contaminación.
Si bebe, tendrá accidentes.
Si come, tendrá colesterol.
Si habla, tendrá desempleo.
Si camina, tendrá violencia.
Si piensa, tendrá angustia.
Si duda, tendrá locura.
Si siente, tendrá soledad.
quarta-feira, 22 de abril de 2015
O problema da nudez...
A origem do mundo. Gustave Courbet, 1866.
1 - O episódio, que é o que menos interessa...
No passado domingo, na praia de Matosinhos, depois de ter jogado à bola (com o pé e com a mão, embora não ao mesmo tempo) e de, cheio de calor, ter temperado (como o aço rubro) na água fria do mar, dirigi-me para o balneário, a terceira rocha junto ao paredão do porto de Leixões a contar do mar, para me vestir e ir embora. Depois de, já em criança, ter chegado à conclusão que fazer um grande esforço para trocar de calções com uma toalha à volta é uma inutilidade, adquiri o hábito de trocar de calções sem toalha à volta. Além de ser muitíssimo mais prático, permite arejar melhor os tintins e deste modo secá-los. Porque também não é nada prático, nem cómodo, nem higiénico, vestir cuecas e calças com os tintins ainda húmidos. Finalmente, faço-o também para aproveitar uns segundos que seja sem roupa a tolher-me os movimentos.
A ponta de um dedo, enquanto fazia nudismo numa
praia perto da Zambujeira do Mar em 2009.
Gosto de me sentir nu. Gosto da sensação de não ter nada a apertar-me ou a alterar aquilo que no fundo sou. Gosto de ter a pele toda à mostra, e os pêlos todos. De passar a mão na pele da cara e de poder deslizar num contínuo até aos pés, sentindo que cabeça e pés partilham o mesmo embrulho e fazem parte do mesmo corpo, do meu corpo, muito uno. Sem sentir que a cabeça está aqui, as mãos acolá, os pés mais adiante, com botões e cintos e fivelas e colarinhos e elásticos e cordões pelo meio.
Por isso mesmo às vezes aproveito, quando estou em casa e há condições para isso, para andar nu. E porque tenho o sono leve, infelizmente, e porque rodopio na cama durante a noite e o pijama se enrola todo transformando-se em camisa de forças, durmo sempre nu.
As condições para me pôr nu em casa incluem não ter de fazer uma actividade que ponha em risco a integridade física da pele (que feliz ou infelizmente é delicada, como em quase toda a gente), não correr o risco de gelar de frio, e ter a expectativa de estar sozinho e invisível para os outros durante um bom bocado.
Desde cedo, desde criança, como atrás referi..., que aprendi as normas sociais desta questão. Aprendi que devo trocar de calções na praia com uma toalha à volta não por minha causa, mas por causa dos outros, porque eles podem não gostar. Mais tarde, aprendi com bastante surpresa... eu diria mesmo choque, que se pode ser preso por andar nu na rua. Para mim isso levantou uma série de questões de difícil resposta: e se a pessoa não tiver mesmo nada para vestir? e se, por exemplo, os amigos lá da rua me fizerem uma "barrela" (como eles chamavam à brincadeira idiota de tirar a roupa toda a uma pessoa e deixá-la nua no meio da rua... o termo existe no meu dicionário e está associado com as lavagens de roupa à moda antiga, em que inclusivamente se procedia ao branqueamento com cinzas)? e porque é que a pessoa há-de ir presa? que mal é que ela estará a fazer aos outros?...
Bom, com mais ou menos questões em aberto às quais os adultos não me sabiam responder cabalmente, eu aprendi. Mais tarde, porém, aprendi que, como alguém dizia, é importante saber as normas para poder quebrá-las. E comecei a quebrar as normas, com conhecimento delas. Percebi que a nudez interessa a praticamente toda a gente. Que quando uma pessoa se apresenta nua à sua frente, é-lhes muito difícil não analisar o seu corpo, e sobretudo os seus órgãos genitais (a mim também... e não evito... olho e analiso e já está!... qual é o problema?... mas acredito que se a nudez fosse mais normal na nossa sociedade, também o interesse em olhar e analisar seria menor). Percebi que isso pode fazer as pessoas pensar no seu próprio corpo, ou no de outros, e isso pode desencadear sentimentos de ciúme, de inveja, de desejo... Isso pode fazer as pessoas pensar em sexo. Em casos que me parecem doentios, isso pode fazer as pessoas terem repulsa, como se sentissem que é errado termos órgãos genitais agarrados ao corpo, ou como se tivessem nojo desses órgãos, no seu próprio corpo ou em corpos alheios.
Aprendi e percebi. E porque não desejo morrer novo, de cada vez que tiro os calções em público, faço por avaliar o contexto: estou na praia ou numa reunião com o chefe? quantas pessoas estão à minha volta? de que meio cultural serão e como avaliarão a nudez?...
Neste domingo, depois de uma olhadela à volta, constatando que não havia crianças por perto e que para além de uma mulher, que estava sentada a olhar o mar de costas para mim, só havia um grupo de homens já com alguma idade, pensei que não iria chocar ninguém. Estava no "balneário", num círculo formado por três amigos. Tirei os calções, e enquanto espremia o fato de banho, achava um sítio para o guardar, procurava a toalha para me secar e depois as cuecas para vestir, algo que deve demorar um loooongo minuto, aproveitei para deixar os tintins secar. Não me virei para fora do círculo, não fiz o pino e não anunciei em voz alta a chegada do novo profeta. Mas de qualquer modo, assim que eu me estava a começar a secar com a toalha, comecei a ouvir bocas que, ao fim de uns segundos, me pareceram serem a propósito da minha nudez. Ainda não tinha olhado para investigar melhor e estava a pensar "deve ser um amigo de alguém, a gozar com a situação...". Levantei a cabeça, certamente com um ar estúpido, ao mesmo tempo intrigado e pronto para entrar na brincadeira, e reparei que as bocas vinham de um homem que estava deitado numa toalha, entre amigos que estavam de pé, a uns dez metros de distância.
Na praia da Memória, Matosinhos, em 2013.
Foto de Rui Franco, que me cortou o pé.
Esta é mesmo a gozar a situação!... Então e agora! :)
(deves julgar-te muito lindo, deves!)
Para quem gosta de apreciar os genitais dos outros, um loooongo minuto é imenso tempo! Dá tempo para atentar, por entre as pernas próximas dos próprios amigos e por entre as pernas distantes dos amigos alheios, ao modo exibicionista que tem alguém que está a secar os tintins entre a mudança de vestuário molhado para vestuário seco. E o meu ar certamente idiota perante tais bocas deve ter parecido a esse homem uma verdadeira afronta, porque imediatamente a seguir ele estava a oferecer-me porrada, à boa maneira nortenha. Por entre as coisas que ele foi dizendo, que eu não fixei, lembro-me de ter referido qualquer coisa acerca de crianças e senhoras...
Assim que eu percebi que as bocas eram mesmo a sério, liguei o meu modo "evitar conflitos": desviei o olhar, coisa que qualquer etólogo compreenderá bem, ignorei e continuei a fazer o que estava a fazer que era, de qualquer modo, vestir-me. O homem continuou com as suas bocas, até que eu já estava com ar apresentável e ele finalmente acalmou-se.
Quando, passados uns cinco minutos, arranquei em direcção às ruas de Matosinhos, tentei olhar nos olhos o meu agressor, para lhe dizer simplesmente "está tudo bem... talvez para a próxima não seja necessário dedicar-me tanta violência verbal e ameaçar-me de violência física", mas ele refugiou-se no seio do seu grupo, certamente sem saber bem que atitude assumir agora que eu era, afinal, um ser igual a ele.
2 - O respeito...
O que é o respeito?... Há pouco tempo fiz um exercício para tentar definir para mim mesmo o que é o respeito, se o respeito é uma coisa boa ou má em si mesma ou em que circunstâncias pode ser considerado uma coisa boa ou má... Eu saí do exercício mais confundido do que quando entrei. No fundo, percebi que não percebo bem o que é o respeito. No meu dicionário as definições alternativas para respeito são as seguintes: acto ou efeito de respeitar (o que é quase uma tautologia digna de um bom dicionário, porque afinal os dicionários são tautologias), consideração, deferência, acatamento, veneração, homenagem, culto, apreço, submissão, temor, relação, reverência, importância, aspecto, consideração, ponto de vista. E creio que dá para perceber, logo à partida, que este não é um assunto fácil.
Para mim as palavras não têm valor em si. E se esta palavra é uma confusão, eu prefiro deitá-la fora e utilizar outra. Ou utilizar um conceito, mesmo que não possa ser sintetizado numa só palavra, que melhor exprima o que quero dizer.
O que está em causa no caso da nudez pública (porque creio que ninguém levantará sérias objecções à nudez privada) é fazermos algo que pode causar danos directos ou indirectos, imediatos ou desfasados no tempo, aos outros.
Facilmente entenderemos que este é um assunto polémico, onde as opiniões se dividem. E a conversa tenderá a seguir por aí...
Só que ao fazê-lo, ao centrar a conversa nas consequências da nudez pública, estamos a esquecer outros aspectos relativamente simples desta mesma questão. Por exemplo: se eu quiser andar nu na praia e não puder porque causo dano nos outros, isso causa-me dano a mim também. E qual é o dano maior? Quando alguém coloca a música muito alta num local público, isso pode incomodar os outros, e eu sou da opinião que o direito ao silêncio deve prevalecer. Mas tenho essa opinião porque por um lado é difícil evitar o som alto dos outros, e por outro há imensas oportunidades para ouvir som alto em público (demasiadas, segundo os meus padrões!). Quanto à nudez, basta não olhar, e o assunto ficará resolvido. E não há possibilidades alternativas para a nudez pública. Assim, não será também a reacção das pessoas uma violência sobre quem deseja andar nu?
Numa sociedade onde se apregoa aos quatro ventos o direito e o respeito (lá vamos nós!) à diferença, o que eu noto é que cada vez menos uma pessoa tem o direito de ser diferente. Há uma coisa que se define com uma clareza cada vez maior à medida que as décadas e os séculos avançam: um pensamento dominante. E esse pensamento dominante, que se imiscui no nosso pensamento sem darmos por isso desde bebés, é, como sempre foi, naturalmente avesso à diferença.
Finalmente, há a questão óbvia de resolver o assunto com porrada.
3 - O problema da nudez, finalmente...
As pessoas que se importunam com a nudez alheia sentem sempre uma necessidade de o justificar com o efeito nefasto que isso provoca em terceiros. Quando se lhes pergunta "mas qual é o teu problema?", elas sistematicamente não têm problema algum, os outros é que podem ter!
E quem são esses outros a quem a nudez pode causar dano? São sistematicamente apontados os entes mais coitadinhos da comunidade humana, os mais frágeis, os mais inocentes, os mais permeáveis às podridões do espírito, os mais puros: as crianças, sempre em primeiro lugar, e depois as mulheres. Os homens, esses nunca têm problema algum com a nudez, porque assim como assim já são podres de espírito por natureza, tarados sexuais por definição. Os velhos, esses, nunca são mencionados nestas conversas.
Numa pequena albufeira ao norte de Madrid, em 2006.
Todas as pessoas nesta foto, homens e mulheres
nos seus 20 anos, estão nus.
E que danos são esses que a nudez pode causar nessas pessoas castas? São os danos todos que associamos ao sexo e à carne: a inveja, o ciúme, o convite à facada, a pedofilia, o adultério, o incesto, a homossexualidade, e sabe Deus que outras coisas pérfidas e odiosas!... Tudo isso pode ser senão causado, pelo menos provocado pela simples visão da nudez alheia!
Isso é o que nos dizem uma vez após outra as pessoas que se insurgem quando vêm os pêlos púbicos doutro. Mas terá isso tudo alguma adesão à realidade?...
Dito de uma forma simples, para não me estender muito sobre isto, a resposta é: não. Não, a ideia de que a visão da nudez alheia pode provocar esse tipo de danos não tem qualquer fundamento. Pelo contrário, há imensas provas precisamente do contrário, isto é, que a visão ocasional ou sistemática da nudez alheia não causa nenhum desses danos (aliás, nem sequer muitos desses "danos" são efectivamente danos, e os que o são, são-no discutivelmente). E já apresentarei alguns exemplos.
Se, para já, admitirmos como verdadeiro o que acabei de afirmar, então seremos forçados a concluir que o problema que a nudez causa nas pessoas está precisamente na cabeça das pessoas. As pessoas objectam à nudez alheia porque não estão habituadas, porque têm medo, porque elas próprias têm algum desvio relativamente a uma atitude saudável perante o corpo humano e a sexualidade ou por outra razão qualquer, mas sempre por alguma coisa que está apenas e só dentro da sua cabeça.
E para quem, como eu, sabe que não tem um corpo fantástico, mas simplesmente gosta de uma vez por outra andar nu, e até prefere evitar confusões fazendo-o sozinho, ter de sentir o modo como os outros lhe colocam limitações à sua liberdade, baseados em problemas mentais sem adesão à realidade... bom... é um pouco frustrante...
Mas enfim... transige-se!
Que remédio!... Senão ainda acordamos mortos!
Vejamos então alguns fundamentos para a tese de que a visão da nudez alheia não causa danos nos outros, para lá do desconforto que pode causar olhar para algo de que não se gosta, como roupa feia, a menos que os outros tenham já à partida problemas com a sexualidade ou algo do género.
Em primeiro lugar, há que considerar que o homem é um bicho e nem sempre andou vestido. Aliás, a julgar pelo que é dito no programa da BBC que apresento em baixo, durante a maior parte da história da humanidade, a nossa espécie viveu e conviveu completamente pelada. E não consta que tenha ocorrido nada de muito grave, porque enquanto espécie, ela singrou.
Podem seguir os links para ver este programa da BBC desde o início. No programa também se avançam as teses de que a nudez pode pôr em causa a estabilidade dos casais e assim de toda a sociedade, de que é possível habituarmo-nos à nudez, de que ninguém nasce com modéstia sexual e de que podemos criar novas regras sociais, entre outras.
Em segundo lugar é necessário considerar que, conforme o programa anterior refere de passagem, as pessoas não nascem com qualquer conceito sobre a nudez dentro de si. Nem sobre roupas!... E enquanto os instintos sexuais surgem naturalmente, a seu tempo, as ideias sobre vestuário ou sobre nudez são integralmente adquiridas pelo meio social onde se vive.
Daí resulta que as pessoas que menos problemas têm com a nudez são precisamente as crianças. Era o que faltava uma criança ficar chocada por ter vindo ao mundo através da vagina da mãe, ou ficar relutante em chupar o mamilo de uma mama que se lhe apresente.
Em terceiro lugar, e em consequência do que foi dito, as nossas reacções à nudez são obrigatoriamente culturais. E a comprová-lo estão todas as culturas que ainda no momento presente consideram a nudez o estado normal das coisas. E não consta que sejam sociedades de tarados.
Em quarto lugar posso referir experiências como a da escola de Summerhill, uma escola muito diferente onde os alunos têm mais poder do que nas escolas comuns. Conheci este projecto há já muitos anos através do livro "Liberdade sem medo" que recomendo vivamente (aqui uma versão em inglês), do qual retiro o seguinte excerto:
"Nudity
Many couples, especially among the working class, never see each other’s bodies until one of them dresses the other’s corpse. A peasant woman I knew was a witness in a court case of exhibitionism. She was genuinely shocked. “Come, come, Jean:’ I chided her. “Why, you’ve had seven children.”
“Mr. Neill,” she said solemnly, “I never saw John’s...I never saw my man naked all my married life.”
Nakedness should never be discouraged. The baby should see its parents naked from the beginning. However, the child should be told when he is ready to understand that some people don’t like to see children naked and that, in the presence of such people, he should wear clothes.
There was the woman who complained because our daughter bathed in the sea au naturel. At the time, Zoe was one year old. This matter of bathing tersely sums up the whole anti-life attitude of society. We all know the irritation arising from trying to undress on the beach without exposing our so-called private parts. Parents of self-regulated, free children know the difficulty of explaining to a child of three or f
our why he must wear a bathing suit in a public place.
The very fact that the law does not permit exposure of the sex organs is bound to give children a warped attitude toward the human body. I have gone nude myself, or encouraged one of the women on the staff to do so, in order to satisfy the curiosity of a small child who had a sense of sin about nakedness. On the other hand, any attempt to force nudism on children is wrong. They live in a clothed civilization, and nudism remains something that the law does not permit.
Many years ago, when we came to Leiston, we had a duck pond. In the morning, I would take a dip. Some of the faculty and the older girls and boys used to join me. Then we got a batch of boys from private schools. When the girls took to wearing bathing suits, I asked one, a pretty Swede, why.
“It’s these new boys:’ she explained. “The old boys treated nudity as a natural thing. But these new ones leer and gape and --well, I don’t like it” Since then, the only communal nude bathing has been done during the evening trips to the sea.
One would think that being brought up free, the children in Summerhill would run about naked in summer. They don’t. Girls up to the age of nine will remain nude on a hot day, but small boys seldom do. This is puzzling when one takes into consideration the Freudian statement that boys are proud of having a penis while girls are ashamed of not having one.
Our small boys at Summerhill show no desire to exhibit themselves and the senior boys and girls hardly ever strip. During the summer, the boys and men wear only shorts without shirts. The girls wear bathing suits. There is no sense of privacy about taking baths, and only new pupils lock bathroom doors. Although some of the girls take sunbaths in the field, no boys ever think of spying on them.
I once saw our English teacher digging a ditch in the hockey field, assisted by a group of helpers of both sexes ranging in age from nine to fifteen. It was a hot day and he had stripped. Another time, one of the men on the staff played tennis in the nude. At the School Meeting he was told to put on his pants in case tradesmen and visitors should happen by. This illustrates Summerhill’s down-to-earth attitude toward nudity.
Pornography
All children are pornographic, sometimes openly, other times secretly. The least pornographic are those who have had no moral taboos about sex in their infancy and early childhood I am sure that later on our pupils from Summerhill will be less inclined toward pornography than children brought up under hush-hush method. As one boy said to me when he came back for a visit during his vacation from the university, “Summerhill spoils you in one way. You find chaps of your own age too dull. They talk about things I grew out of years ago”
“Sex stories?” I asked. “Yes, more or less. I like good sex stories myself, but the one they tell are crude and pointless. But it isn’t only sex. It’s other things, too - psychology, politics. Funny, I find myself tending to chum with fellows who are ten years older than I am.”
One new boy at Summerhill, who had not outlived the smutty phase of his prep school, tried to be pornographic. The others shut him up not because he was being pornographic but merely because he was sidetracking an interesting conversation.
Some years ago we had three girl pupils who had passed through the usual stage of talking out forbidden topics. Later, a new girl came to Summerhill and was assigned to a room with these three girls. One day, this new girl complained to me that the three other girls were dreadfully dull companions. “When I talk about sex things in the bedroom at night, they tell me to shut up. They say they are not interested.”
It was true. Naturally, they had an interest in sex but not in its hidden aspect. These girls had had their conscience about sex as a dirty subject destroyed. To a new girl, fresh from the sex talk of a girls’ school, they appeared to be highly moral. And they really were highly moral, for their morality was founded on knowledge--not on a false standard of good and bad.
Children who are freely brought up about sex matters have an open mind about so-called vulgarity. Some time back, I heard a vaudevillian in the London Palladium who sailed very near the wind in a breezy Elizabethan manner. It struck me then that he got laughs from his audience that he couldn’t have got from the Summerhill crowd. Women shrieked when he mentioned ladies’ undergarments, but Summerhill children would not consider such remarks at all funny.
Once, I wrote a play for the kindergarten children. It was quite a vulgar play about a woodcutter’s son who found a hundred-pound note and ecstatically showed it around to his family, including the cow. The dumb beast swallowed it, and all the family’s efforts to get the cow to drop the note proved futile. Then the boy conceived a brilliant idea. They would open a booth at a fair, and charge a shilling for two minutes of attendance. If the cow dropped the money during someone’s attendance, that person would win the
money.
The play would have brought down the house in a West End music hall. Our children, however, took it in their stride. Indeed, the actors (six to nine years old) saw nothing funny in it at all. One of them, a girl of eight, told me that I was silly not to use the proper word in the play; of course, she meant what other people would call an improper word.
The free child is not likely to suffer from voyeurism at Summerhill. Our pupils do not snigger or feel guilty when a film shows a toilet or mentions birth. Every now and then we have an epidemic of writing on toilet walls. To a child, the toilet is the most interesting room in any house. The toilet seems to inspire many writers and artists, which is natural when one considers that the bathroom is a place for creation.
It is a fallacy that women are more pure-minded than men. A man’s club or bar, however, is much more likely to be pornographic than a woman’s club. The vogue of the risque story is entirely due to its unmentionableness. In a society without sex repressions, the unmentionable would disappear. At Summerhill, nothing is unmentionable and no one is shockable. Being shocked implies having an obscene interest in what shocks you.
Those people who cry in horror, “What a crime to rob little children of their innocence!” are ostriches hiding their heads in the sand. Children are never innocent, though they are often ignorant. And the ostriches fly into hysterics over depriving the child of ignorance.
The most suppressed child is really not ignorant about much. His contact with other children gives him that dreadful “knowledge” that miserable little kids give to each other in dark corners. For those who have been at Summerhill since an early age, there are no dark corners. These children do have an interest in sex matters, but it is not an unhealthy interest. Such children have a really clean attitude toward life."
Many couples, especially among the working class, never see each other’s bodies until one of them dresses the other’s corpse. A peasant woman I knew was a witness in a court case of exhibitionism. She was genuinely shocked. “Come, come, Jean:’ I chided her. “Why, you’ve had seven children.”
“Mr. Neill,” she said solemnly, “I never saw John’s...I never saw my man naked all my married life.”
Nakedness should never be discouraged. The baby should see its parents naked from the beginning. However, the child should be told when he is ready to understand that some people don’t like to see children naked and that, in the presence of such people, he should wear clothes.
There was the woman who complained because our daughter bathed in the sea au naturel. At the time, Zoe was one year old. This matter of bathing tersely sums up the whole anti-life attitude of society. We all know the irritation arising from trying to undress on the beach without exposing our so-called private parts. Parents of self-regulated, free children know the difficulty of explaining to a child of three or f
our why he must wear a bathing suit in a public place.
The very fact that the law does not permit exposure of the sex organs is bound to give children a warped attitude toward the human body. I have gone nude myself, or encouraged one of the women on the staff to do so, in order to satisfy the curiosity of a small child who had a sense of sin about nakedness. On the other hand, any attempt to force nudism on children is wrong. They live in a clothed civilization, and nudism remains something that the law does not permit.
Many years ago, when we came to Leiston, we had a duck pond. In the morning, I would take a dip. Some of the faculty and the older girls and boys used to join me. Then we got a batch of boys from private schools. When the girls took to wearing bathing suits, I asked one, a pretty Swede, why.
“It’s these new boys:’ she explained. “The old boys treated nudity as a natural thing. But these new ones leer and gape and --well, I don’t like it” Since then, the only communal nude bathing has been done during the evening trips to the sea.
One would think that being brought up free, the children in Summerhill would run about naked in summer. They don’t. Girls up to the age of nine will remain nude on a hot day, but small boys seldom do. This is puzzling when one takes into consideration the Freudian statement that boys are proud of having a penis while girls are ashamed of not having one.
Our small boys at Summerhill show no desire to exhibit themselves and the senior boys and girls hardly ever strip. During the summer, the boys and men wear only shorts without shirts. The girls wear bathing suits. There is no sense of privacy about taking baths, and only new pupils lock bathroom doors. Although some of the girls take sunbaths in the field, no boys ever think of spying on them.
I once saw our English teacher digging a ditch in the hockey field, assisted by a group of helpers of both sexes ranging in age from nine to fifteen. It was a hot day and he had stripped. Another time, one of the men on the staff played tennis in the nude. At the School Meeting he was told to put on his pants in case tradesmen and visitors should happen by. This illustrates Summerhill’s down-to-earth attitude toward nudity.
Pornography
All children are pornographic, sometimes openly, other times secretly. The least pornographic are those who have had no moral taboos about sex in their infancy and early childhood I am sure that later on our pupils from Summerhill will be less inclined toward pornography than children brought up under hush-hush method. As one boy said to me when he came back for a visit during his vacation from the university, “Summerhill spoils you in one way. You find chaps of your own age too dull. They talk about things I grew out of years ago”
“Sex stories?” I asked. “Yes, more or less. I like good sex stories myself, but the one they tell are crude and pointless. But it isn’t only sex. It’s other things, too - psychology, politics. Funny, I find myself tending to chum with fellows who are ten years older than I am.”
One new boy at Summerhill, who had not outlived the smutty phase of his prep school, tried to be pornographic. The others shut him up not because he was being pornographic but merely because he was sidetracking an interesting conversation.
Some years ago we had three girl pupils who had passed through the usual stage of talking out forbidden topics. Later, a new girl came to Summerhill and was assigned to a room with these three girls. One day, this new girl complained to me that the three other girls were dreadfully dull companions. “When I talk about sex things in the bedroom at night, they tell me to shut up. They say they are not interested.”
It was true. Naturally, they had an interest in sex but not in its hidden aspect. These girls had had their conscience about sex as a dirty subject destroyed. To a new girl, fresh from the sex talk of a girls’ school, they appeared to be highly moral. And they really were highly moral, for their morality was founded on knowledge--not on a false standard of good and bad.
Children who are freely brought up about sex matters have an open mind about so-called vulgarity. Some time back, I heard a vaudevillian in the London Palladium who sailed very near the wind in a breezy Elizabethan manner. It struck me then that he got laughs from his audience that he couldn’t have got from the Summerhill crowd. Women shrieked when he mentioned ladies’ undergarments, but Summerhill children would not consider such remarks at all funny.
Once, I wrote a play for the kindergarten children. It was quite a vulgar play about a woodcutter’s son who found a hundred-pound note and ecstatically showed it around to his family, including the cow. The dumb beast swallowed it, and all the family’s efforts to get the cow to drop the note proved futile. Then the boy conceived a brilliant idea. They would open a booth at a fair, and charge a shilling for two minutes of attendance. If the cow dropped the money during someone’s attendance, that person would win the
money.
The play would have brought down the house in a West End music hall. Our children, however, took it in their stride. Indeed, the actors (six to nine years old) saw nothing funny in it at all. One of them, a girl of eight, told me that I was silly not to use the proper word in the play; of course, she meant what other people would call an improper word.
The free child is not likely to suffer from voyeurism at Summerhill. Our pupils do not snigger or feel guilty when a film shows a toilet or mentions birth. Every now and then we have an epidemic of writing on toilet walls. To a child, the toilet is the most interesting room in any house. The toilet seems to inspire many writers and artists, which is natural when one considers that the bathroom is a place for creation.
It is a fallacy that women are more pure-minded than men. A man’s club or bar, however, is much more likely to be pornographic than a woman’s club. The vogue of the risque story is entirely due to its unmentionableness. In a society without sex repressions, the unmentionable would disappear. At Summerhill, nothing is unmentionable and no one is shockable. Being shocked implies having an obscene interest in what shocks you.
Those people who cry in horror, “What a crime to rob little children of their innocence!” are ostriches hiding their heads in the sand. Children are never innocent, though they are often ignorant. And the ostriches fly into hysterics over depriving the child of ignorance.
The most suppressed child is really not ignorant about much. His contact with other children gives him that dreadful “knowledge” that miserable little kids give to each other in dark corners. For those who have been at Summerhill since an early age, there are no dark corners. These children do have an interest in sex matters, but it is not an unhealthy interest. Such children have a really clean attitude toward life."
(Texto completo aqui)
É muito interessante o aspecto salientado pelo autor acerca do modo como as crianças, e eu acrescento todas as outras pessoas, ligam menos às coisas quando estão habituadas a elas...
Mas para quem achar que isto é apenas um caso isolado, um exemplo sem paralelo, um ensaio sem fundamento, eu apresento então um estudo científico com um pouco mais de rigor. Chama-se "Early childhood exposure to parental nudity and scenes of parental sexuality ("primal scenes"): an 18-year longitudinal study of outcome." e está disponível aqui. O estudo aponta precisamente que não há efeitos significativos da exposição das crianças à nudez dos pais ou à sua sexualidade.
E enfim... para quem se interessar por isto, até o artigo da wikipedia sobre a nudez é um bom ponto de partida!... A mim dá-me vontade de dizer: escuta, Zé ninguém!...
sábado, 18 de abril de 2015
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