terça-feira, 25 de fevereiro de 2025

Democracia versus capitalismo...

Um dos intervenientes deste vídeo, disponível no canal do youtube do The Real News Network, faz a certa altura a seguinte intervenção, que transcrevo em tradução minha:

"E então a Inteligência Artificial (IA)? A minha reacção a isso é igual à de questões como "e então os computadores?", "e então os robots?", e então qualquer um dos grandes avanços tecnológicos? Eles foram sempre ferramentas que podiam ser utilizadas de modos diversos. Não ouçam quando alguém vos disser que a IA ou a electricidade ou os robots têm de ser de uma determinada maneira. E vou explicá-lo com um exemplo simples, porque é bom para veicular a mensagem. Suponhamos que existe uma máquina, IA, um robot, qualquer coisa, que torna os trabalhadores duas vezes mais produtivos do que costumavam ser. Então, em vez de 10 produtos por hora, eles agora conseguem produzir 20. O que acontece no capitalismo é o seguinte: o capitalista diz "óptimo!", compra a máquina, despede metade dos seus trabalhadores, porque já não precisa deles, porque a outra metade tem agora o dobro da produtividade. O que é que ele faz com o dinheiro que poupa por ter despedido metade dos trabalhadores? Fica com ele: mais lucro para si próprio! Ele fica todo contente, e é assim que ele usa este avanço tecnológico. Agora deixem-me dar-vos uma alternativa. Suponhamos que existe uma empresa que repara na IA, ou robot, ou o que quer que seja, e diz "uau! é duas vezes mais produtivo! vamos fazer o seguinte: vamos comprar esse equipamento, não vamos despedir ninguém!, vamos reduzir o dia de trabalho de 8 horas para 4 horas. Porquê? Porque agora, com o novo equipamento, 4 horas de trabalho conseguem gerar o mesmo que antigamente se conseguia gerar em 8 horas. Podemos dispensar as outras 4 horas. Em vez de despedir pessoas, diminuimos o dia de trabalho". Agora deixem-me fazer-vos uma pergunta: se vivêssemos numa democracia, onde a maioria mandasse... nós saberíamos qual destas alternativas a maioria quereria adoptar - dêem-me metade do meu dia de trabalho para lazer, porque eu posso ser mais produtivo nas horas restantes. Nós não fazemos o que é democrático. Nós fazemos o que é lucrativo para a minúscula minoria de pessoas que são donos do negócio. Portanto eles despedem metade dos trabalhadores. Por isso é que estamos com medo. Não é a IA que é o problema! É o capitalismo, que usa cada avanço tecnológico para fazer o que eles lá em cima dizem que vão fazer: maximizar lucros. Eu ensinei em escolas de negócios! Isso é o que homens e mulheres de negócios pensam que é o seu trabalho: maximizar o lucro. Mas isso ajuda as pessoas que ganham lucros, não ajuda as pessoas que vivem de salários! Mas estes são a maioria! Um local de trabalho democrático tomaria as decisões que fossem as melhores para a maioria! Nós não vivemos num sistema assim. O capitalismo é o inimigo da democracia, e sempre o foi."


Nos últimos muitos anos, creio que esta foi a forma mais directa, simples, acessível, nua e crua de explicar porque é que o capitalismo não é compatível com a democracia. A razão é muito simples: na democracia, cada pessoa tem um voto, enquanto no capitalismo, cada euro tem um voto.

E uma vez que a maioria dos euros está com uma minoria de pessoas, seria expectável que, racionalmente, as pessoas entendessem que defender o capitalismo é dar um tiro no pé.

Mas não. Como já muitos estudos demonstraram, ser-se mais letrado nem sempre nos ajuda a chegar mais próximo da verdade; muitas vezes ajuda-nos apenas a reforçar o ponto de vista que já tínhamos desde o início, e que muitas vezes corresponde ao ponto de vista do grupo social em que estamos inseridos ou com o qual nos queremos identificar.

Muitas pessoas ainda vivem no tempo do "xê menino, não fala política". Muitas pessoas vivem vidas tão agitadas que não querem pensar em nada complexo, muito menos algo que as faça pôr em causa aquilo que sempre consideraram verdadeiro. Muitas pessoas entendem que pôr em causa o capitalismo é próprio de radicais, anarquistas, comunistas, fanáticos, excêntricos, lunáticos, e que isso é tudo mais ou menos a mesma coisa. Muitas pessoas entendem que aceitar o que existe, sem barafustar, ser honesto e trabalhar muito é o que define uma vida escorreita, pelo que não devemos questionar, muito menos questionar as bases do sistema económico que a todos alimenta (mesmo que muito a poucos e muito pouco a muitos). Enfim, há sempre um motivo para nos identificarmos com pessoas que seguem uma destas ondas, e portanto há sempre um motivo para não querermos pôr em causa o capitalismo, mesmo quando se pode demonstrar, por a mais bê, conforme foi feito em cima, que esse é um sistema económico que beneficia muito poucos à conta de todos os demais que somos nós.

Formei-me em economia, numa das melhores escolas de economia do país, com uma das médias mais elevadas, em 1997. Quando entrei para aquela escola, não sabia ao que ia, nem sequer sabia o que era a economia. Quando me apercebi das ideias e das pessoas que povoavam aquele meio, de como umas geravam outras e outras geravam umas, senti asco. Pensei em desistir. Mas parecia que fazia parte de mim acabar as coisas que começava, pelo que, sentado nas últimas cadeiras das salas de aulas, fui engolindo aquele longo sapo e papagueando o expectável.

A economia, enquanto ramo do saber, não tem culpa nenhuma disso. A meu ver, e à posteriori, nem sequer aquilo era economia. Aquilo era uma produção, selecção e reprodução de teses e teorias adequadas à prossecução dos fins. Não era, de modo algum, uma tentativa de investigação isenta da realidade económica da humanidade. Era assim, e continuou a ser. Também eu cheguei a ensinar disciplinas de economia em instituições do ensino superior. Infelizmente, também eu cumpri os programas pré-definidos pelas comissões muito científicas, que deixam muito pouco espaço para o pensamento. E, nos raros momentos em que pude soltar a minha rebeldia na sala de aula, ela chocou frontalmente com as ideias pré-concebidas já inculcadas nas cabeças dos alunos. Eram alunos. Estavam a aprender aquelas matérias, formalmente, pela primeira vez. Mas já estavam formatados, fechados a novas perspectivas, agarrados à sua visão sobre a realidade. Quem fez esse trabalho? A sociedade. Todos nós. Na nossa vida, na nossa actividade económica, nos nossos grupos, com os quais nos identificamos, os tais, que não querem questionar o capitalismo.

Tenho lutado, muito mais fora das salas de aulas, e com os parcos recursos, energia ou tempos de antena que tenho tido ao longo da vida, para chamar a atenção para a ignorância generalizada sobre o saber económico. Para a ignorância escondida atrás de um véu de sabedoria feita das ideias pré-concebidas que emana da cartilha neoliberal. Como sempre, os que se formam na área são os piores, porque as nossas escolas, ao invés de abrirem a mente, fecham-na, entopem-na de certezas, das certezas que lhes são conveninentes, daquelas que definem o "mainstream" e o "status-quo". Preto no branco, as classes dominantes definem as ideologias dominantes, se quiserem fazer o favor de reparar.

Tenho lutado, e estou a ficar cansado. Por exemplo, tenho tentado alertar para esta contradição intrínseca e inultrapassável entre democracia e capitalismo. Tenho tentado alertar para a importância extrema disso e doutros assuntos relacionados com a economia. Custa-me, por exemplo, ver tantas pessoas tão empenhadas a discutir identidade de género, racismo, xenofobia, aquecimento global, etc., mas ao mesmo tempo a negligenciarem o problema da economia. Cansa-me tentar alertar para o facto de a economia ser um problema transversal que, em grande medida, subjaz a esses outros problemas todos.

É bom, portanto, poder encontrar outras vozes que dão mais força a estes alertas. É melhor ainda quando elas conseguem traduzir de forma simples ideias complexas. Numa sociedade complexa, com um sistema económico complexo, e com pessoas complexas e cansadas do seu quotidiano, é importante conseguir ir directo ao cerne das questões. Creio que este senhor fez isso mesmo com o exemplo que nos deu. E perdoem-me se não sei o nome dele, porque sou também um iconoclasta que não acredita em argumentos de autoridade e acredita que todos devemos julgar as afirmações pelo seu conteúdo e não pela boca que as profere.

Finalmente, recomendo a visualização do vídeo completo, e igualmente os outros vídeos deste The Real News Network. Infelizmente vivemos num tempo em que os canais públicos de difusão contribuem muito mais para a preservação do estado das coisas, via entretenimento, do que para o esclarecimento e a emancipação das pessoas. Esse papel parece ter ficado agora dependente do jornalismo independente, a cujos obreiros tenho sempre de agradecer muito, mas cuja existência é sempre precária.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

Thatcher e o Banco Central Europeu...

Este é um excerto do livro "And the weak suffer what they must?" de Yanis Varoufakis. Nem ele, nem eu, temos a Thatcher em muito boa conta. Ela fez parte de um grupo de políticos que a nível mundial instalaram, à lei da bala, o sistema económico que hoje temos onde cada vez mais só o dinheiro conta. Não me esqueço, por exemplo, da sua amizade com Pinochet, a quem ela deu guarida na sua velhice, protegendo-o inclusivamente de um mandado de prisão internacional. Mas, mesmo tendo sido a Thatcher uma política de direita que governou a favor dos oligarcas capitalistas, até ela foi capaz de identificar que um Banco Central Europeu não democrático, como o que hoje temos, seria uma péssima opção.

Ao contrário do que alguns poderão pensar, o sistema económico que temos é tudo menos natural. Ele foi construído à revelia da vontade da população (por exemplo: foi você que pediu um BCE?) para promover um determinado tipo de economia.

O que aconteceu no ano da pandemia em que a actividade económica foi tremendamente reduzida, e em que consequentemente foi lançado um "plano de recuperação e resiliência" com biliões de euros a surgirem sabe-se lá de onde, ao mesmo tempo que as dívidas públicas de quase todos os países europeus se mantinham inalteradas, pagando anualmente juros que seriam mais do que suficientes para, por exemplo, colocar os sistemas nacionais de saúde em ordem, é um exemplo flagrante de como a governação é feita em favor de quem tem o poder económico e não em favor da generalidade da população.

Apesar disso ser flagrante e de ter impactos determinantes na vida de todos nós, a ponto de eu arriscar dizer que não há nada mais importante na condução da nossa vida material, todos seguimos impávidos e serenos na nossa ignorância acerca de onde o dinheiro surge e como desaparece. Já era tempo de mudar isso!

Excerto, com descuidada tradução minha:

"Que boa ideia!" respondeu Thatcher, depois de uma grande alegria ter enchido a Casa [dos Comuns]. E seguiu dizendo, em tom de brincadeira, "não tinha pensado nisso. Mas se pensasse, não haveria um banco central europeu que não presta contas a ninguém, muito menos aos parlamentos nacionais. Porque com um banco central desse tipo não haveria democracia, [e o banco central estaria] retirando os poderes de todos os parlamentos e tendo uma só moeda e uma política monetária e uma política de taxa de juro que nos retiraria a todos poder político."

Foi possivelmente a primeira e a última vez que o primeiro ministro de uma potência europeia acertou em cheio relativamente à natureza da união monetária da Europa. A noção de que o dinheiro pode ser administrado apoliticamente, apenas por meios técnicos, é uma loucura da maior perigosidade. A fantasia do dinheiro apolítico foi o que transformou o padrão do ouro do período entre guerras num sistema primitivo, cujo inevitável colapso impulsionou o fascismo e o nazismo com os efeitos que todos conhecemos e lamentamos.

O padrão do ouro baseava-se na ideia de despolitizar o dinheiro através da associação da sua quantidade à quantidade de ouro - um metal que os políticos não podiam criar do nada, uma vez que é fornecido exogenamente pela natureza. Hoje, a mesma fantasia do dinheiro apolítico pode ser encontrada não apenas na construção de um banco central europeu que não responde perante nenhum parlamento (como Thatcher tinha avisado) mas também nas modernas moedas digitais como o Bitcoin, cuja imagem de marca é precisamente a de não ter uma autoridade política a dirigi-lo. A ideia preciosa de Margaret Thatcher foi que o controlo das taxas de juro e da oferta de moeda é uma actividade política quintessencial que, se removida do controlo de um parlamento democraticamente eleito, origina uma descida inexorável para o autoritarismo.


 

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

De que nos serve a barbárie?...

The Fourth Beast: Is Donald Trump the Antichrist? : Moelhauser, Lawrence  R.: Amazon.co.za: Books 

Até me dá vontade de agradecer a Trump por trazer à luz do dia, escancaradamente, aquilo que todos os presidentes anteriores foram fazendo às escondidas. Erguer muros contra os pobres dos outros países e dificuldades contra os pobres do próprio país, dar mais força aos mercados desregulados, legislar a favor dos grandes interesses económicos, gastar mais em armas, fazer guerras em nome do negócio... nada disso é novo. Mas finalmente os campeões da propaganda enraizada desde as escolas primárias às universidades, desde os canais televisivos às redes sociais, desde as distracções aos locais de trabalho, perceberam que não precisam de esconder nada.

Podia ser que agora, finalmente, as pessoas começassem a abrir os olhos!

Mas não. Não sejamos ingénuos. Aqueles que abrirem os olhos irão ficar ofuscados com tanta luz, e deixá-los-ão apenas entreabertos o suficiente para distinguir no Trump um crápula. Talvez que esse amor generalizado à imagem que têm dos Estados Unidos como o país da democracia, da liberdade, da igualdade, onde todos têm os mesmos direitos e podem concretizar os seus sonhos, o país que pugna por esses valores no mundo inteiro, não olhando a meios para combater os hereges autocratas e inimigos do livre arbítrio, talvez o amor generalizado a isso tudo possa ser posto em causa por algumas pessoas, à luz dos acontecimentos com que Trump faz o favor de nos brindar quase diariamente.

Muitos resistirão ainda assim, ancorando o seu amor à terra dos livres na evidência histórica da ausência de alternativas. Irão explicar-nos, pela milionésima vez, que apesar de tudo não há melhor país do que aquele, que os outros – este, aquele, aqueloutro e mais algum – são horríveis, como toda a gente sabe. Irão, desse modo, agarrar-se à discussão básica que a propaganda, de todos os lados, e esta sim, papagueada desde há séculos, tratou tão bem de inculcar nas cabecinhas de todos enquanto liam (para se educarem), viam filmes (para serem mais cultos), trabalhavam (para serem úteis à sociedade) e se comportavam como deve ser (para serem respeitáveis): a discussão sobre quem ou o quê é que devemos seguir.

Devemos nós pertencer ao clube dos que gostam dos EUA, ou ao clube dos que gostam da Rússia? Ao clube dos que gostam do capitalismo ou do comunismo? Ao clube dos que gostam de Trump ou dos que gostam do... olha, já me esqueci!... do Biden? Ao clube dos que votam PS ou ao clube dos que votam PSD? Oh! Como é difícil com tantos caminhos saber qual deles seguir! Como é difícil compreender o que nos querem dizer de um lado e do outro! Por favor, ajudem-nos! Dêem-nos uma pista que seja: quem é que deveremos apoiar? Em quem deveremos depositar nós a confiança de nos guiar neste mundo tão complexo e tão cheio de poderes que nos transcendem?

Não. A discussão nunca devia ter sido essa. A discussão devia ter sido sempre sobre como nos amarmos, sobre como tocarmos o acordeão e dançarmos à volta da fogueira, apreciando os frutos que a natureza tem de sobeja para todos nós. A discussão devia sempre ter sido sobre como impedir que os outros nos roubem a alegria, nos roubem da nossa justa parte do todo que é produzido, como impedir que haja sempre uma meia dúzia de espertalhaços que ganham com o trabalho dos outros mais do que eles todos juntos. A discussão devia ser sobre como construir jardins e impedir guerras. Sobre como proibir a construção de armas e garantir essa proibição, em vez de as produzir alegando que servem para a paz. A discussão devia sempre ter sido sobre o amor e a sua protecção acima de todas as coisas más que nos afligem a todos, mais tarde ou mais cedo, num dado momento: invejas, egoísmos, raivas, megalomanias. A discussão devia sempre ter sido sobre como encontrar relações mais harmoniosas entre todos nós, e entre nós e a natureza. Sobre como viver bem minimizando o sofrimento de todos os seres vivos e mantendo as relações ecológicas delicadas que a natureza criou ao longo de milhões de anos. Sobre como crescer, cá dentro, sobre como desenvolver a nossa capacidade de ver o belo, e de o aumentar, e a nossa capacidade de discernir o feio, e de o prevenir ou isolar.

A discussão devia ter sido sobre valores morais, ou éticos, como lhes queiram chamar. Nunca devíamos ter desistido disso. Historicamente levamos com a moral dos outros em cima até ao ponto em que nos rebelámos e pudemos finalmente gritar liberdade!... Só que nesse momento mandamos a moral toda às urtigas. Depois ficámos à nora. Agarrámo-nos por fim às crenças antigas, acreditando que quanto mais antigas mais verdadeiras e logo melhores, e às crenças modernas, como a crença cega nas capacidades da ciência resolver todos os problemas do planeta. Enfim, agarrámo-nos a qualquer coisa que nos permitisse a mínima noção de chão, de substrato, de fundamento, neste oceano muito fluido de complexidade que nos ameaça de afogamento a toda a hora.

Não discutimos nada. Agarrámo-nos simplesmente a qualquer coisa que nos parecesse uma nesga de fundamento. E quando olhámos para o lado, o do lado tinha-se agarrado a outra coisa qualquer. E logo o acusámos de fundamentalismo!... Quando devíamos era ter discutido. O que é melhor aqui e agora pode não o ser ali ou noutro tempo. O que é melhor para ti pode não o ser para mim. Mas, se numa esperança infundada de vislumbre, pudéssemos ser um pouco menos individualistas, autárcicos, até narcisistas, se pudéssemos ser um pouco mais humildes para connosco mesmos, saberíamos que nem nós sabemos bem o que é melhor para nós. Estamos sempre a aprender. E temos todos muito a aprender uns com os outros. Não devíamos nunca ter deixado de falar uns com os outros, sobretudo acerca do que consideramos melhor para todos nós.

E agora chegámos a um ponto em que cada um está tão arreigado na sua estabilidadezinha, tão cioso dela, tão pronto a defendê-la dos ataques dos outros, que já não conseguimos colocar-nos em causa e impedimos qualquer tipo de diálogo profundo com quem nos seja um bocadinho diferente.

Do que se trata aqui não é de saber se devemos amar os EUA ou outro país qualquer. Trata-se, isso sim, de perceber que esse tipo de amores são propagandeados para que seja mais fácil aos pastores conduzirem o rebanho. Devíamos rejeitar as bandeiras, todas elas! E os presidentes, todos eles! Do que se trata é de sermos capazes de ter um espírito crítico e de mantermos a energia suficiente para nunca termos de o desligar. E ufff!... que depois de um longo dia a trabalhar às ordens de outros, a aturar tarefas chatas e pessoas indelicadas, para atingir objectivos que não são os nossos... é difícil manter essa energia. Pois é.

Tenho a esperança que as barbaridades do Trump terminem rapidamente (e que o Trump, desprovido dessas barbaridades, e reencontrado como ser humano, sentado na sanita, com saudades da mamã, possa seguir a sua vidinha). Tenho esperança que estas barbaridades possam beliscar os facciosismos de alguns aficionados. Mas não tenho muita esperança que os possa levar a centrar a discussão naquilo que verdadeiramente importa. Para isso o trabalho deve ser outro. Feliz ou infelizmente, antes ou depois do Trump, a questão continua a ser outra.

 

quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

Como o fascismo cá chegou...

 

“Quanto pior a realidade se torna, menos uma população sitiada quer ouvir falar dela e mais se distrai com pseudoeventos sórdidos de colapsos de celebridades, mexericos e trivialidades. Estas são as folias depravadas de uma civilização moribunda."

Este texto de Chris Hedges, que traduzi com a ajuda de ferramentas online, foi publicado no seu portal, em inglês, no dia 23 do passado Dezembro. Ele ilustra bem, e só mais uma vez, que como dizia o Almada Negreiros, todas as frases que podem salvar o mundo já estavam escritas quando eu nasci... agora só falta mesmo é salvar o mundo.

Quanto mais o mundo se afunda, perdão, quanto mais afundamos o mundo connosco lá dentro, mais queremos a evasão mental de um qualquer divertimento. Vamo-nos divertindo até à morte, conforme documentou muito bem Neil Postman, num livro com esse mesmo título, que nunca é demais recomendar.

O que é preciso fazer então para acabar com esta folia e começar a construir um mundo melhor? É simples. Basta, sem o recurso a poderosíssimas tecnologias de difusão de informação, e contra elas, alertar a maioria da população para algo que ela deseja ignorar. Tem tudo para resultar!

Pessoalmente creio que, aqui chegados, é uma questão de consciência que fica ao critério de cada um: ir na onda e contribuir alegremente para a decadência total, ou aderir a uma luta inglória onde os sacrifícios parecem dar em nada. Pessoalmente também, eu sei o que quero: conforme dizia o próprio Chris Hedges, eu combato os fascistas não porque vou ganhar, mas porque eles são fascistas.

Deixo-vos o texto. Ele foi escrito no contexto dos EUA, mas com as devidas adaptações, e infelizmente, pode servir a muitos outros países. Leitura de 10 minutos.

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Durante mais de duas décadas, eu e um punhado de outros — Sheldon Wolin, Noam Chomsky, Chalmers Johnson, Barbara Ehrenreich e Ralph Nader — alertámos para o facto de a crescente desigualdade social e a constante erosão das nossas instituições democráticas, incluindo os meios de comunicação social, o Congresso, os sindicatos, a academia e os tribunais, conduziriam inevitavelmente a um Estado autoritário ou fascista cristão. Os meus livros – “Fascistas americanos: a direita cristã e a guerra contra a América” (2007), “Império da ilusão: o fim da literacia e o triunfo do espectáculo” (2009), “A morte da classe liberal” (2010) , “Days of Destruction, Days of Revolt” (2012), escrito com Joe Sacco, “Wages of Rebellion” (2015) e “America: The Farewell Tour” (2018) foram uma sucessão de apelos apaixonados para levar a sério a decadência. Não tenho prazer em ter razão.

“A raiva dos abandonados pela economia, os medos e preocupações de uma classe média sitiada e insegura, e o isolamento entorpecedor que é originado pela perda da comunidade, seriam o combustível para um perigoso movimento de massas”, escrevi em “Fascistas americanos” em 2007. “Se estes desapossados não fossem reincorporados na sociedade dominante, se eventualmente perdessem toda a esperança de encontrar bons e estáveis empregos e oportunidades para si e para os seus filhos — em suma, a promessa de um futuro mais risonho — o espectro do fascismo assolaria a nação. Este desespero, esta perda de esperança, esta negação de um futuro, levou os desesperados para os braços daqueles que prometiam milagres e sonhos de glória apocalíptica.”

O presidente eleito Donald Trump não anuncia o advento do fascismo. Anuncia o colapso do verniz que mascarava a corrupção no seio da classe dominante e a sua ilusão de democracia. Ele é o sintoma, não a doença. A perda das normas democráticas básicas começou muito antes de Trump, abrindo o caminho ao totalitarismo americano. Desindustrialização, desregulação, austeridade, empresas predatórias não reguladas, incluindo a indústria da saúde, vigilância generalizada de todos os americanos, desigualdade social, um sistema eleitoral minado por subornos legalizados, guerras intermináveis e fúteis, a maior população prisional do mundo, mas acima de tudo os sentimentos de traição, estagnação e desespero são uma mistura tóxica que culmina num ódio incipiente à classe dominante e às instituições que ela deformou para servir exclusivamente os ricos e poderosos. Os democratas são tão culpados como os republicanos [1].

“Trump e o seu séquito de bilionários, generais, idiotas, fascistas cristãos, criminosos, racistas e indivíduos com comportamentos moralmente desviantes desempenham o papel do clã Snopes em alguns dos romances de William Faulkner”, escrevi em “America: The Farewell Tour”. “Os Snopes preencheram o vazio de poder do decadente Sul e tomaram implacavelmente o controlo das elites aristocráticas degeneradas, anteriormente esclavagistas. Flem Snopes e a sua família alargada – que inclui um assassino, um pedófilo, um bígamo, um incendiário, um homem com deficiência mental que copula com uma vaca e um parente que vende bilhetes para testemunhar a bestialidade – são representações fictícias da escumalha agora elevada ao mais alto nível do governo federal. Personificam a podridão moral desencadeada pelo capitalismo desenfreado.”

“A referência habitual à ‘amoralidade’, embora precisa, não é suficientemente distintiva e por si só não nos permite colocá-los, como deveriam ser colocados, num momento histórico”, escreveu o crítico Irving Howe sobre os Snopes. “Talvez o mais importante a dizer é que eles são o que vem depois: as criaturas que emergem da devastação, com o lodo ainda nos lábios.”

“Que um mundo entre em colapso, no Sul ou na Rússia, e apareçam figuras de ambição grosseira a abrir caminho desde o fundo da sociedade, homens para quem as reivindicações morais não são tanto absurdas como incompreensíveis, filhos de mercenários ou mujiques [2] vadiando desde lado nenhum e assumindo o poder simplesmente através da sua despudorada força monolítica”, escreveu Howe. “Tornam-se presidentes de bancos locais e de secções regionais de partidos e, mais tarde, um pouco mais elegantes, abrem caminho pela força no Congresso ou no Politburo. Necrófagos desinibidos, não precisam de acreditar no decadente código da sua sociedade; só precisam de aprender a imitar os seus sons.”

O filósofo político Sheldon Wolin chamou ao nosso sistema de governação “totalitarismo invertido”, um sistema que manteve a antiga iconografia, símbolos e linguagem, mas entregou o poder às corporações [3] e aos oligarcas. Agora, mudaremos para a forma mais reconhecível do totalitarismo, dominada por um demagogo e por uma ideologia baseada na diabolização do outro, na hipermasculinidade e no pensamento mágico.

O fascismo é sempre o filho bastardo de um liberalismo falhado.

“Vivemos num sistema jurídico de dois níveis, onde os pobres são perseguidos, presos e encarcerados por infracções absurdas, como vender cigarros avulsos – o que levou Eric Garner a ser estrangulado até à morte pela polícia da cidade de Nova Iorque em 2014 – enquanto crimes de magnitude assustadora cometidos por oligarcas e corporações, desde derrames de petróleo a fraudes bancárias de centenas de milhares de milhões de dólares, que destruíram 40 por cento da riqueza mundial, são tratados através de suaves controlos administrativos, multas simbólicas e controlo civil que na prática dão a estes ricos perpetradores imunidade contra processos criminais”, escrevi em “America: The Farewell Tour”.

A ideologia utópica do neoliberalismo e do capitalismo global é uma grande farsa. A riqueza global, em vez de ser distribuída de forma equitativa, como prometiam os defensores do neoliberalismo, foi canalizada para as mãos de uma elite oligárquica e voraz, alimentando a pior desigualdade económica desde a era dos barões-ladrões [4]. Os trabalhadores pobres, que foram espoliados dos seus sindicatos e dos seus direitos e cujos salários estagnaram ou diminuíram nos últimos 40 anos, foram lançados na pobreza crónica e no subemprego. As suas vidas, como Barbara Ehrenreich relatou em “Nickel and Dimed”, são uma longa emergência conduzida pelo stress. A classe média está a evaporar-se. Cidades que antes fabricavam produtos e ofereciam emprego em fábricas são agora terrenos abandonados e vedados. As prisões estão sobrelotadas. As corporações orquestraram a destruição de barreiras comerciais, permitindo-lhes arrecadar 1,42 biliões de dólares [5] em lucros em bancos estrangeiros para evitar o pagamento de impostos.

O neoliberalismo, apesar da sua promessa de construir e disseminar a democracia, rapidamente destruiu regulamentos e esvaziou os sistemas democráticos, transformando-os em leviatãs [6] corporativos. Os rótulos “liberal” e “conservador” não têm qualquer significado na ordem neoliberal, conforme é evidenciado por um candidato presidencial democrata que se gabou do apoio de Dick Cheney, um criminoso de guerra que deixou o cargo com uma taxa de aprovação de 13% [7]. O atractivo de Trump é que, embora vil e fanfarrão, troça da falência da farsa política.

“A mentira permanente é a apoteose do totalitarismo”, escrevi em “America: The Farewell Tour”:

Já não importa o que é verdade. Importa apenas o que é "correcto". Os tribunais federais estão a ficar apinhados de juízes imbecis e incompetentes que servem a ideologia "correcta" do corporativismo e os rígidos costumes sociais da direita cristã. Desprezam a realidade, incluindo a ciência e o Estado de direito. Procuram banir aqueles que vivem num mundo baseado na realidade, definido pela autonomia intelectual e moral. O regime totalitário exalta sempre os brutos e os estúpidos. Estes idiotas reinantes não têm qualquer filosofia ou objectivos políticos genuínos. Utilizam clichés e slogans, muitos dos quais são absurdos e contraditórios, para justificar a sua ganância e sede de poder. Isto é tão verdade para a direita cristã como para os corporativistas que pregam o mercado livre e a globalização. A fusão dos corporativistas com a direita cristã é o casamento de Godzilla com Frankenstein.

As ilusões impingidas nos nossos ecrãs – incluindo a persona fictícia criada para Trump no filme "O Aprendiz" – substituíram a realidade. A política é burlesca, como ilustrou a campanha insípida e repleta de celebridades de Kamala Harris. É uma ilusão criada pelo exército de agentes, publicitários, departamentos de marketing, procuradores, argumentistas, produtores de televisão e cinema, técnicos de vídeo, fotógrafos, guarda-costas, consultores de imagem, personal trainers, técnicos de sondagens, locutores e personalidades do noticiário televisivo. Somos uma cultura inundada em mentiras.

“O culto do eu domina a nossa paisagem cultural”, escrevi em “Empire of Illusion”:

Este culto tem em si os traços clássicos dos psicopatas: charme superficial, grandiosidade e auto-importância; uma necessidade de estimulação constante, uma propensão para a mentira, a ilusão e a manipulação, e a incapacidade de sentir remorso ou culpa. Esta é, naturalmente, a ética promovida pelas corporações. É a ética do capitalismo desenfreado. É a crença errada de que o estilo pessoal e o desenvolvimento pessoal, confundidos com o individualismo, são a mesma coisa que a igualdade democrática. De facto, o estilo pessoal, definido pelos bens que compramos ou consumimos, tornou-se uma compensação pela nossa perda de igualdade democrática. Temos o direito, no culto do eu, de obter tudo o que desejamos. Podemos fazer qualquer coisa, até menosprezar e destruir aqueles que nos rodeiam, incluindo os nossos amigos, para ganhar dinheiro, sermos felizes e nos tornarmos famosos. Uma vez alcançada a fama e a riqueza, elas tornam-se a sua própria justificação, a sua própria moralidade. Como se chega lá é irrelevante. Quando se chega lá, essas perguntas já não são feitas.

O meu livro “Empire of Illusion” começa no Madison Square Garden numa digressão da World Wrestling Entertainment [WWE]. Eu compreendia que o wrestling profissional era o modelo para a nossa vida social e política, mas não sabia que iria produzir um presidente.

“As lutas são rituais estilizados”, escrevi, no que poderia ter sido uma descrição de um comício de Trump:

São expressões públicas de dor e de um desejo ardente de vingança. As sagas espalhafatosas e detalhadas associadas a cada combate, e não os combates em si, são o que leva o público ao delírio. Estas batalhas ritualizadas proporcionam aos que estão nas arenas um alívio temporário e inebriante da vida mundana. O fardo dos problemas reais é transformado em material para uma energética pantomima.

Não vai melhorar. As ferramentas para acabar com a dissidência foram consolidadas. A nossa democracia entrou em colapso há anos. Estamos sob o domínio daquilo a que Søren Kierkegaard chamou a “doença mortal” – o entorpecimento da alma pelo desespero que conduz à degradação moral e física. Tudo o que Trump precisa de fazer para estabelecer um estado policial escancarado é carregar num botão. E ele vai fazê-lo.

“Quanto pior a realidade se torna, menos uma população sitiada quer ouvir falar dela”, escrevi na conclusão de “Empire of Illusion”, “e mais se distrai com pseudoeventos sórdidos de colapsos de celebridades, mexericos e trivialidades. Estas são as folias depravadas de uma civilização moribunda.”

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Notas do Tradutor:

1 - O mesmo pode ser dito de muitos outros partidos em muitos outros países com sistemas essencialmente bipartidários, como é o caso de Portugal.

2 - Camponeses pobres, da língua russa.

3 - Corporações devem ser entendidas, neste contexto, como grandes empresas ou grupos empresariais privados. As palavras da mesma família devem ter a mesma interpretação, mutatis mutandis.

4 - Barão-ladrão é um termo que foi utilizado sobretudo no final do século XIX, nos EUA, para designar os ricos sem escrúpulos.

5 - 1,42 x 10^12 , um trilião, segundo a nomenclatura norte-americana, um bilião, segundo a nomenclatura portuguesa.

6 - Leviatã é um monstro referido na bíblia que vive nos oceanos.

7 - Taxa de aprovação calculada com base em sondagens à população.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

Não foi Cristo que fundou o cristianismo...

"É em vão que se tentará extrair desta desordenada mitologia uma qualquer tradição histórica. Torna-se até difícil perceber como é que qualquer história se poderia alguma vez enredar em tais ficções.

Esta observação não se aplica apenas ao vidente de Patmos. Aplica-se também ao autor anónimo da carta aos hebreus, ao apóstolo Paulo, aos nossos evangelistas. Ao que parece, nenhum deles deverá ter colhido recordações vívidas a respeito de Jesus. Alguma coisa delas teria ficado na sua obra, capaz de lhe conferir aquela sensação de real que lhe falta sempre. Não deixa de ser estranho que um homem de temperamento suficientemente vigoroso para fundar uma nova e grande religião não tivesse deixado na memória dos seus discípulos nenhuma imagem precisa capaz de nos revelar os seus traços, nenhum eco do que pode ter sido o seu sotaque, nenhum sinal claro da sua actividade, nenhum rasto da sua passagem. O carácter fictício das informações que nos são fornecidas sobre ele, pelas suas primeiras testemunhas, leva-nos a pensar que a sua personalidade não passa de um mito.

A conclusão pareceria simples e decisiva se fossem Átis ou Mitra que estivessem em questão. Como se trata de Cristo, os espíritos mais livres têm dificuldade em aceitá-la. Não só porque um fardo enorme de hábitos e de preconceitos milenares continua a pesar sobre todos nós, mas também porque não obstante os exemplos fornecidos pelas outras religiões, é difícil compreender que um mito desta natureza se tenha podido formar e ganhar consistência ao ponto de se impor durante tantos séculos a milhões de adeptos.

Os cristãos simplesmente acreditavam em Cristo na medida em que, no que se dizia sobre ele, entreviam uma resposta às suas íntimas preocupações, um remédio para os seus males. Ora, todos os evangelhos, fossem eles de Marcos, de Lucas, de Mateus ou de João, apresentavam-no sob o ângulo mais favorável. Em todos eles Jesus aparecia como um deus muito grande e muito bom, que se fez semelhante aos homens para pôr termo aos seus sofrimentos, que sabia ler os corações e que com uma só palavra podia curar as piores enfermidades. Havia sido visto a ter compaixão pela multidão e a multiplicar pães no deserto para alimentar. Aos seus discípulos pedia apenas que acreditassem nele. Em troca desta fé, garantia-lhes uma vida eterna de felicidade. Como poderia a massa de pobres, esmagada pela miséria e corroída por preocupações, não ser atraída por ele entregando-lhe a sua confiança. Portanto, o sucesso que obtiveram os missionários de Jesus, não é mais singular do que o dos representantes de outros deuses salvadores. É da mesma ordem e decorre das mesmas causas. Explica-se muito facilmente, sem necessidade do surgimento repentino de um homem sobreeminente, pelo trabalho árduo de operários anónimos que deram uma forma concreta ao ideal místico da massa crente. 

Não foi Cristo que fundou o cristianismo. Antes foi o cristianismo que progressivamente elaborou a imagem de Cristo."

in "As origens sociais do cristianismo - Estudos sobre a história dos dogmas" de Prosper Alfaric.

(imagem de Quino)


E assim fez Homem um Deus à sua imagem.

sábado, 14 de dezembro de 2024

Voyager 1 no reino de Deus...

Deus e o mal. Se Deus é omnipotente e omnisciente e bondoso, como pode o mal existir? Este problema aflige ou simplesmente espicaça a mente dos seres humanos, de alguns seres humanos, desde há milhares de anos. Se nunca pensou no assunto, tire uns segundos para o efeito e junte-se ao clube. Verá que não há resposta satisfatória para o problema.

Muito foi discutido e escrito acerca deste assunto. Personagens, livros, datas, afirmações, posições, interpretações... Bom, talvez seja tempo de eu também me juntar a estoutro clube.

Deus existe? Como é que podemos saber se ele existe ou não? Também já muita tinta correu sobre o assunto. A certa altura, um sujeito pragmático concluiu: por via das dúvidas, não vá Deus existir mesmo e ser vingativo, o melhor é mesmo acreditar que existe! Sem dúvida um argumento sólido. (ironia)

Se Deus quisesse ter a certeza que acreditávamos nele, não nos daria ele provas irrefutáveis da sua existência?... Também essa questão já foi levantada e respondida de várias formas.

Mas, será que o mal existe?... Alguns disseram: o mal é a ausência do bem. Outros disseram outras coisas. Muita gente disse muita coisa.

Pergunto eu agora: se são as pessoas a discutir e a decidir sobre a existência ou inexistência do mal, como pode isso servir de critério para aferir a existência ou inexistência de Deus?

Bem e mal... Nós, seres humanos, definimos cada um deles por oposição ao outro. Saramago fez Jesus sentar-se num barquito no meio do nevoeiro do mar, juntamente com Deus e o Diabo. Aí, estes dois delinearam o plano que iria espalhar a respectiva adoração pelo mundo. Esse plano incluía a lista de atrocidades que desde então a humanidade perpetrou. É a vidinha!... Não se espalha a noção de bondade sem a de maldade!

Quem disse, afinal, que Deus tinha de ser bom? Foi o Homem.

Quem disse, afinal, que Deus tinha de ser perfeito? Foi o Homem.

Quem disse, afinal, que ser bom implica não ser mau? Foi o Homem.

Quem disse, afinal, que ser mau é não ser bom, ou fazer coisas más, coisas que não são boas, porque são más, porque são feitas com maldade, porque a maldade é o que está nas coisas más, que não são boas? Foi o Homem.

Quem disse, afinal, que Deus existe? Foi o Homem. E que Deus não existe? Foi o Homem. E que não há forma de saber se existe ou não existe? Foi o Homem. Quem disse o Homem, quem o leu, quem o citou, quem discutiu com ele? Foi o Homem.

Quando as câmaras fotográficas da sonda Voyager 1 estavam prestes a tornar-se inúteis, isto é, quando a sonda estava já tão longe de qualquer astro do Sistema Solar que os seus planetas apareciam apenas como um pixel na imagem, e não se prevendo a aproximação de qualquer outro corpo celeste durante os próximos milhares de anos (sendo que a vida útil da sua fonte energética seria de apenas algumas décadas), a equipa responsável por ela (da qual fazia parte Carl Sagan) tomou a decisão de orientar as câmaras para o Sol e fotografar, pela última vez, todos os planetas visíveis. A fotografia da Terra tornou-se famosa. Esta mesma, tirada a 14 de Fevereiro de 1990, a mais de 6 mil milhões de quilómetros de distância (hoje a Voyager 1 continua a afastar-se de nós a cerca de 17 km por segundo, encontrando-se já a uns 24 mil milhões de quilómetros de distância):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/7/73/Pale_Blue_Dot.png

Os raios visíveis na fotografia resultam da incapacidade da sonda Voyager 1 em bloquear totalmente a luz directa do Sol. No raio mais à direita, quase a meia altura, pode ver-se um pontinho mais claro. É a Terra!

A propósito, Carl Sagan escreveu o seguinte (tradução minha):

"A esta distância, a Terra pode não parecer ter qualquer interesse especial. Mas para nós é diferente. Considere novamente aquele ponto. É aqui. É a nossa casa. Somos nós. Nele, todos os que ama, todos os que conhece, todos os de que alguma vez ouviu falar, todos os seres humanos que jamais existiram, viveram as suas vidas. Todas as nossas alegrias e sofrimentos, milhares de confissões religiosas, ideologias e doutrinas económicas, todos os caçadores e recolectores, todos os heróis e cobardes, todos os criadores e destruidores de civilização, todos os reis e camponeses, todos os casais jovens apaixonados, todas as mães e todos os pais, crianças esperançosas, inventores e exploradores, todos os professores de moral, todos os políticos corruptos, todas as superestrelas, todos os líderes supremos, todos os santos e pecadores da história da nossa espécie viveram aí - nesse grão de pó suspenso num raio de luz do Sol.

A Terra é um palco minúsculo numa vasta arena cósmica. Pense nos rios de sangue derramados por todos aqueles generais e imperadores para que, em glória e triunfo, pudessem tornar-se momentaneamente mestres de uma fracção de um ponto. Pense nas intermináveis crueldades infligidas pelos habitantes de um canto deste pixel nos quase indistinguíveis habitantes de outro canto qualquer, quão frequentes os seus desentendimentos, quão desejosos de se matarem mutuamente, quão fervorosos dos seus ódios.

As nossas posturas, as nossas imaginadas auto-importâncias, a ilusão de que temos uma posição privilegiada no Universo, são postas em causa por este ponto de luz pálida. O nosso planeta é uma partícula solitária numa enorme envolvência de escuro cósmico. Na nossa obscuridade, em toda esta imensidão, não há vestígio que indique que ajuda virá de fora para nos salvar de nós mesmos.

A Terra é o único mundo conhecido até agora a albergar vida. Não há nenhum outro sítio, pelo menos no futuro próximo, para onde a nossa espécie possa migrar. Visitar, sim. Ficar, ainda não. Goste-se ou não, por agora a Terra é onde nos mantemos de pé.

Já foi dito que a astronomia é uma experiência humilde e que ajuda a construir o carácter. Possivelmente não há melhor demonstração da loucura do orgulho e preconceito humanos do que esta imagem distante do nosso minúsculo mundo. Para mim, ela enfatiza a nossa responsabilidade de lidarmos mais delicadamente uns com os outros, e de preservarmos e estimarmos o ponto azul claro, a única casa que alguma vez conhecemos."


Lá estão, nesse pontinho minúsculo, os doutos senhores discutindo a existência de Deus, a sua bondade, a bondade dos seres humanos, a bondade em si mesma, tudo e mais alguma coisa.

Cá fora, aqui ao lado da Voyager 1, silêncio e escuridão. Umas parcas partículas, umas ondas, uns fraquitos campos... Escuridão quase tudo, e cloreto de sódio?, nem vê-lo, nem na espectrofotometria. Nem bem, nem mal. Uma lata a deambular no nada. Deus?... Quem sabe?...

Afinal, disse alguém, 'Deus quer, o Homem sonha, a obra nasce'. Portanto, vamos lá de novo:

Quem disse, afinal, que Deus tinha de ser bom? Foi o Homem, porque Deus quis.

Quem disse, afinal, que Deus tinha de ser perfeito? Foi o Homem, porque Deus quis.

Quem disse, afinal, que Deus existe? E que não existe? E que não há forma de saber se existe ou não existe? Foi o Homem, porque Deus quis.

Daqui, deste ponto de vista, a milhares de milhões de quilómetros de distância, os seres humanos são animais que resolveram divertir-se com o cérebro que têm, e andam às voltas, em círculos, a correr atrás de si mesmos, das suas próprias ideias, citando-se uns aos outros sem sair do sítio, como cães desvairados a correr atrás da própria cauda.

Agora vejam eu, a correr atrás da minha própria cauda:

Deus está onde está o mistério. Deus é mistério, é magia. Deus explica tudo o que desconhecemos. Se tudo tem antecedente e consequente, Deus, este Deus que agora defino, não tem. Ele é. E isso é porreiro. Antes era Deus, depois Deus fez e disse e quis e nós sonhámos e tal, e depois nós kaput, e depois Deus. Já está. Nesta linha, Deus faz as vezes do telómero que fecha o cromossoma daquilo que podemos explicar. E, de cada vez que conseguimos explicar mais alguma coisa, Deus permanece lá, na extremidade, a explicar o resto, o inexplicado. Saber mais ou menos, explicar mais ou menos, não altera nada disto. Venha a ciência toda que pudermos inventar, e Deus estará sempre lá, antiquado vanguardista, na fronteira do conhecimento.

Ou não. Só depende de nós. Tal como o bem e o mal.

E agora voltem a olhar para o pequeno pixel que é o nosso planeta Terra..., ..., ..., e ponham-se a mexer. Não para correr atrás de novas caudas, próprias ou alheias, mas porque aquilo que aqui fazemos é da nossa responsabilidade, e há imenso por fazer!

(Vá, larga as caudas, os cus, as citações, as ondas... Não te prendas a uma onda qualquer, que a teus pés venha morrer. Ondas há muitas! Como os deuses! Pensa tu. Faz tu. É melhor não esperar pelos deuses.)


quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

Da barbárie e do amor...

Ontem mesmo, numa qualquer rede social perto de si, uma pessoa disse que os Estados Unidos da América foram o único país a utilizar bombas nucleares contra outros países. A afirmação era ainda mais contundente, na verdade, porque dizia que a lista de países que o haviam feito continha neste momento apenas uma entrada, a desse país, o que deixa em aberto a possibilidade, infelizmente cada vez mais verosímil, de outro país ser adicionado à lista.

Quando era jovem e passeava tanto quanto podia pelos vales e cumes, pelos bosques, rios e ribeiras, florestas, prados e cascalheiras, perguntava-me porque é que era sempre tão difícil encontrar mais pessoas interessadas nesses passeios, quando afinal havia tantas pessoas a gostar de florestas e rios e ribeiros. Cedo percebi que as pessoas não fazem necessariamente aquilo de que gostam, mas sim e apenas aquilo que colocam à cabeça da sua lista de prioridades.

Eu comentei a afirmação sobre as bombas nucleares expressando a minha tristeza, ainda para mais sabendo que os Estados Unidos não lançaram apenas uma bomba, mas duas, e não o fizeram num sítio ermo, mas sim no centro de cidades populosas. Outra pessoa sentiu vontade de rir ao ler o meu comentário, e logo comentou, e não ficou sozinho nesse seu comentário, que os Estados Unidos fizeram isso mas conseguiram acabar com a guerra.

Os últimos anos têm sido para mim uma revelação muito desagradável da desumanidade que vai dentro de tantos corações e tantas cabeças. As cabeças munem-se de douta argumentação e partem a realidade aos bocados. Os corações escolhem um bocado em detrimento dos demais. Cabeças e corações unem-se então na idolatria do "nós" e no achincalhamento do "outros" e constroem paulatinamente uma impenetrável blindagem de pedaços de verdades descontextualizadas, de mentiras bem fundamentadas, de todos os pedacinhos da realidade que convêm, tudo bem unido numa matriz de grande necessidade de justiça, de identificação, de construção de um mundo melhor. Para o "nós".

A barbárie constrói-se assim. O mal, essa banalidade, resulta não apenas do silêncio conivente da maioria da população, mas também desta incapacidade de colocar o amor à frente na lista das prioridades. O amor, daquele tipo de amor que supostamente deveríamos festejar daqui a uns dias, quase no final de Dezembro, e que tanto é apregoado por tantas religiões neste planeta e ao longo da história. Ama o próximo. Ama o longínquo. Ama.

Sim, os bárbaros amam. Os bárbaros, os guerreiros, não gostam da guerra, não querem a guerra, estão dispostos a tudo para acabar com a guerra, inclusive lançar bombas nucleares sobre os inimigos. Mais dificilmente estarão dispostos a ceder ou a ver nos seus inimigos seres humanos iguais a eles mesmos.

Nos últimos anos fiquei a saber que assassinar os genes palestinianos é mau, mas justifica-se se desse modo conseguirmos finalmente paz no Médio Oriente. Fiquei a saber que arrasar a Ucrânia e a sua população é mau, mas justifica-se se desse modo pudermos dar uma lição ao Putin. Fiquei a saber que arrasar cidades inteiras, matando centenas de milhares de inocentes numa fracção de segundo, justifica-se se for para ganhar uma guerra. Fiquei a saber que promover o terror à escala global, alterando regimes em países estrangeiros como se fossem sua pertença, produzindo e vendendo armas, acicatando divisões nas populações e promovendo activamente a criação de grupos armados, começando e acabando guerras de botões e sangue com telefonemas, tudo isso se justifica, e é bom, se em troca pudermos instalar no mundo uma "democracia" à nossa moda.

Os fins justificam os meios, portanto. A barbárie. Defendida a dólares, euros, balas e explosivos por todos os "democratas" que se esforçam por terminar todas as guerras, pertencentes ao "nós" ou ao "outros".

Eles gostam de florestas, rios e ribeiras. Simplesmente há outras prioridades.

Mas a floresta humana precisa de nós. A floresta que começa dentro de nós. Nós não somos bárbaros! Somos gente! Iguais a toda a gente que há e que alguma vez houve na nossa capacidade de amar, de amar familiares, amigos, vizinhos, os outros, os animais e as plantas, a música, a dança, a comida, a bebida, as roupas, as palavras, os desenhos, as pinturas, os corpos, as aventuras, o calor, a segurança e o conforto dum ninho. Essa floresta partilhada por todos nós e de que tanto precisamos constrói-se com amor.

É preciso mudar as prioridades. É preciso o amor! É preciso aprender a amar quem odiamos e quem nos odeia. Não podemos mais justificar o nosso mal com o mal dos outros. A única bomba boa que há é a que nunca existiu.

Vem-me à memória o discurso de Chaplin no "o grande ditador".

Vem-me à memória este excerto do "escuta, zé ninguém" de Wilhelm Reich.

Vem-me à memória o Zizek a dizer que não deve ser necessário entender o outro para que possamos viver em paz. O mundo é muito complexo, não temos tempo para entender tudo, temos de ser capazes de viver em paz mesmo sem entender tudo.

Vem-me à memória tanta coisa... a certeza do Almada de que já estava tudo escrito quando nasci, só faltava mesmo mudar o mundo. Até o barbudo alemão já dizia que os filósofos interpretavam tudo, só ficava a faltar mudar o mundo.

"Há tanta coisa que fazer, meu Deus! E esta gente distraída em guerras!" (Cena do ódio, Almada Negreiros)

terça-feira, 3 de dezembro de 2024

Da esquerda e da direita...

Já dizia o alemão barbudo, e muitos depois dele, inclusivamente o Fernando Rosas, cujas palavras seguintes podem ser escutadas na parte final do filme "25 anos de paciência impaciente", PSR, 1998, disponível na Internet.

Não posso deixar de considerar,
por muito antiquado que isso pareça,
que o grande separador de águas em termos teóricos e práticos
entre esquerda e direita
continua sendo a atitude que se toma face à iniquidade básica
em que repousa o sistema capitalista,
ou seja, em relação àquela relação social fundamental
mediante a qual parte do produto de quem trabalha
é expropriada por quem não o faz.
A resposta que se dá em termos teóricos e práticos a esta questão
continua a ser o que divide a direita e a esquerda,
por muito que um certo discurso ideológico
tente hoje descentrar esta questão
e mesmo negar a actualidade da dicotomia.
É bem certo que esta matriz fundamental do pensamento socialista
deu origem a duas grandes ordens de equívocos, historicamente,
o do socialismo digamos que ocidental,
que se transformou numa pura gestão do sistema capitalista,
e de um socialismo dito real,
que se transformou, ele próprio, numa reprodução
de um sistema capitalista
tão injusto e odioso como o tradicional.
O que significa que o grande desafio que se coloca à esquerda
em termos modernos, continua a ser o de se reencontrar
através da crítica das experiências históricas do socialismo
ou seja, que sistema há-de ser esse,
que organização há-de ser essa
que seja o princípio do fim do Estado,
e não a reprodução do sistema capitalista de outras formas,
que organização há-de ser essa
que permita simultaneamente o progressivo esvaziamento
das discriminações tradicionais entre sexos,
entre o trabalho manual e o intelectual,
entre a cidade e o campo,
e que permita também o maior progresso
económico, social, material, intelectual
a maior criatividade,
como compatibilizar isso,
nomeadamente com certos mecanismos de economia de mercado,
ou como superar o pluralismo limitado que hoje existe
dominado pelas oligarquias partidárias tradicionais
com um novo pluralismo mais amplo
que permita a intervenção participativa
das organizações de cidadãos
na vida da colectividade.
Tudo isto são utopias, dirão alguns,
mas eu pergunto
o que é que é intelectualmente mais sério:
se perseguir a luta por uma sociedade mais justa
ainda que assumindo o prolongado da jornada
ou se, pelo contrário,
satisfazermo-nos com essa espécie de letargia digestiva
que algumas pessoas empanturradas de bom-senso
nos aconselham
elogiando as virtudes de um sistema
que hoje elogiam com tanto zelo
como exactamente ontem atacavam.
Para mim,
que não tenho actualmente nenhuma filiação partidária,
nem estou particularmente inclinado
para esse tipo de actividade,
talvez que ser de esquerda seja, ao menos,
ter o pudor de não dar tal espectáculo.

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Ou, como questionava o José Mário Branco:

quantas vezes já tentámos nós?  914? ainda não. 606? ainda não. mas talvez quem sabe 10, 20?... qual é o preço da esperança?... acordai! acordai homens que dormis a embalar a dor dos silêncios vis!

Ser de esquerda hoje...

Ser de esquerda hoje

é não ter medo da palavra esquerda
e não a deslocar ao sabor do centro
é não ter vergonha
das coisas vividas e dos textos lidos
que nos puseram a pensar como pensamos
é não pôr entre parêntesis
os pressupostos do que fazemos.
A emancipação dos trabalhadores
será obra dos próprios trabalhadores
ou então não será.
É não perder a memória
e não permitir que a direita
se cubra dos louros das nossas vitórias
e seja opressor em nome da liberdade
é não entregar a política aos políticos
a arte aos artistas
o saber aos sábios
é não fazer do mal-estar
uma desculpa para não estar
é uma maneira de viver
onde o autoritarismo não cabe
e onde a aventura tem lugar
é sentir-se estranho
onde não há espaço para propor, decidir, imaginar
é preferir trabalhar com os outros
do que fechado num quarto
é gostar de estar onde alguma coisa mexe
e ser solidário nas pequenas novidades que despontam
é ter que tomar partido
contra as repressões e explorações diárias
uma luta contínua contra os lugares comuns
desta sociedade de consumos vários
é admitir a subversão
é assumir a diferença
é ter curiosidade pela realidade
e acreditar que a podemos transformar
é saber que nada acontece por acaso
é a crítica permanente dos poderes
é a desconfiança das máscaras todas
tecnocracias, burocracias, pragmatismos
dos apolíticos e dos neutros
é viver com uma utopia dentro da cabeça e da vontade
e duvidar do chamado realismo
é perceber que a alegria é possível
e que não vem nas embalagens de champô
é achar que vale a pena.
É isto tudo ao mesmo tempo
e é tentar não cortar a nossa vida às fatias
para pôr uma razão diferente em cada uma
e é gostar dos riscos que corremos.
 
Retirado do filme "25 anos de paciência impaciente", PSR, 1998, disponível na Internet, entre os minutos 33 e 35.